Boa tarde. Eh, queria começar por agradecer o convite e ainda mais as excelentes intervenções que me deixam com esta enorme responsabilidade de tentar acrescentar alguma coisa ao que foi dito. Eu tenho um PowerPoint para apresentar, vou então eh tentar partilhá-lo.
Agradeço que me digam se consigo ou não. A, eu não costumo apresentar-me ao mundo como especialista em literatura irlandesa. A, mas tendo em conta o tema do debate de hoje, acho que é a, a, o grande contributo que eu posso dar, uma vez que eu estudei na Irlanda e do Norte e em no início do processo de paz, portanto, foi não só num tempo de guerra como num espaço de guerra.
E as analogias têm muitos limites, mas tem uma grande vantagem. dão-nos uma perspectiva confortável em que podemos, se calhar, usá-las a nosso belo prazer para olharmos também para a a nossa realidade. Eu só queria acrescentar a nota biográfica que, entretanto mudou um bocadinho.
Eu neste momento sou professora, mas do do segundo ciclo de português e de inglês. E, portanto, o que vou fazer nesta apresentação, no fundo, é tentar fazer uma ponte entre a minha experiência e de vida e académica focada na Irlanda do Norte e a minha experiência enquanto professora e do ensino público. H, vou centrar esta apresentação em três pontos.
São três pontos que eu acho que serão, se não pacíficos, pelo menos autoexplicativos, eh, e que passo a dizer que são, por um lado, que não há paz sem conflito, não há paz sem justiça e não há paz sem participação. Eh, não é por acaso que eu escolho estes três temas. São três temas que fazem, fizeram desde sempre parte do léxico eh da construção da guerra e da paz e ela derivou na Irlanda do Norte e que penso que continuam a fazer muito sentido.
Agora vou-me permitir uma pequena provocação. Eh, eu vou passar-vos um vídeo de uma banda irlandesa atual. Eh, eu tenho consciência de que a linguagem e tanto verbal como gestual pode não ser a mais ortodoxa.
Eh, espero que não levem a mal. O objetivo não é de todo ofender ninguém, é apenas chamar a atenção para uma realidade eh presente de uma forma que ela eh possa ser percecionada por várias gerações. Não vou passar o vídeo inteiro, vou só tentar passar um bocadinho.
Eh, não correu bem. Não sei o que é que tá a acontecer. Bem, eh, fica resolvido, aparentemente.
Ah, veio, vem. Pronto, acho que já deu para terem uma ideia eh do tipo de banda que estamos a falar. Os Nickep são uma banda de rap da Irlanda do Norte, de Belfast.
São jovens de 30 anos, portanto, eh, são filhos do processo de paz, devem ter nascido mais ou menos na altura em que eu estava lá. E eu acho que há aqui uma analogia interessante, porque eu identifico-me bastante com a o o mesmo legado que eles têm em relação à história da do norte, é o legado que eu tinha ao crescer nos anos 80 e em Lisboa. H, e posso explicar porquê.
O meu dia- a dia enquanto criança era um dia- a dia saturado de esperança, da esperança que outros colocavam em mim e saturado de política e de intervenção, apesar de eu ter 8, 9 anos, porque o 25 de abril estava tão perto que era impossível eu esquecer-me de que a paz que me tinha sido dada tinha sido conquistada e eh que tivesse muita curiosidade e muita vontade de aprender como é que ela tinha sido conquistada. Os Nickep fazem no em relação à Irlanda do Norte, na medida em que eles são nitidamente uma banda do processo de paz, eh eles cantam em irlandês. Boa parte do que ouviram, eh, o que não era palavrões inglês era eh irlandês, o que por si só já é um legado do processo de paz, porque se o fizessem há 30 anos não o fariam sequer ou arriscavam-se a ser presos ou avaliados.
E neste momento eles puderam usar eh essa paz e essa conquista linguística para usarem um tipo de discurso que, embora com outro meio linguístico é em tudo semelhante ao que eu ouvia há 20 ou 30 anos, porque eles estão também constantemente eh a recordar que a paz se faz, tendo consciência de que às vezes é preciso lutar para chegar lá. E quando temos a paz eh, e não temos consciência do esforço que foi feito e do esforço que temos de fazer para manter a guerra, eh, a guerra de a paz constantemente e nos encostamos um bocadinho eh em paragonas sobre o que é a paz, como e reduzimos a paz, como disseram anteriormente, a uma maior ausência de guerra, o resultado é pior do que estagnação. É a guerra que vai surgindo.
Eh, e então vamos eh voltar à aqueles meus três pressupostos. E o primeiro que possa parecer mais eh controverso, eh eu trago trago algumas imagens da Irlanda do Norte dos anos 70 da Magnum. São fotografias muito bonitas.
Esta é de miúdos de 5 6 anos em 1981 no funeral do Bobby Sant. Portanto, são crianças que eh cresceram, serão possivelmente os pais da geração do Snakeup, cresceram com o sofrimento e a guerra tão presente no dia- a dia que aprenderam a brincar no fundo e a construírem-se no meio daquele desespero todo. E a verdade é que há uma há um dado é muito importante na do norte que aparentemente não tem correlação com a realidade portuguesa, mas na verdade tem, que é a educação não era mista.
eh havia escolas católicas e escolas protestantes onde as o próprio currículo em tudo era diferente e não havia qualquer comunicação entre as comunidades a partir da escola. Isso pode nos parecer que não acontece eh em Portugal. O que eu queria eh colocar à discussão é que na verdade acontece não com bases e religiosas ou ou de identidades históricas, mas de bases sociais.
e eh todas as bolhas criam, reiteram as exclusões. E se é fácil para todos nós percebermos de que maneira é que isto eh é nefasto para quem está no fundo, quem é vítima da desigualdade, tá na na no fundo a sofrer da parte mais com menos privilégio. Eu queria apenas dar um exemplo de como esta bolha também é nefasta para, por exemplo, os alunos do privado.
A, eu dei a elas num colégio privado e tive um num dia uma situação em que os meus alunos, classe altíssima, tinha um colega com um grau de autismo bastante acentuado e resolveram insultá-lo, fazer-lhe bullying, chamando-lhe de cigano. E aquilo que eu pensava que ia ser uma ala a explicar-lhes porque é que não se faz bullying, porque é que não se faz bullying sobre o colega que é diferente, sobre porque é que não se chama, não se fiza cigano como insulto, acabou por ser uma explicar-lhes o que era um cigano. Aquelas alminhas nunca na vida se tinham cruzado com um Não sabia o que eram, mas sabia o que era um insulto.
Ou seja, aquela bolha em que eles viviam reproduzia ignorância e a ignorância traduz sempre em violência eh em qualquer que seja o contexto. Por outro lado, eu gostei muito que o João Jaime tenha falado da questão da carta educativa a de Lisboa. A forma como organizamos a rede escolar e tem tudo a ver com esta ideia de criarmos ou não bolhas que permitam gerir os conflitos.
é que se não houver conflito, nós não vamos nunca aprender a geri-lo. E a rede escolar em locais, como se calhar as cidades mais pequenas do do país, não é um problema, mas em Lisboa, que é o exemplo que eu conheço melhor, há um problema de mercado em que em certas escolas eh o excesso de oferta faz com que possa da procura faz com que haja uma política de seletividade na inclusão. E temos um fenómeno que a mim me faz imensa espécie, que é o das escolas públicas de elite.
São escolas públicas eh em que funcionam à partida do mesmo modo que qualquer escola pública, mas é umas escolas são escolas públicas onde ninguém consegue entrar e que fazem seleção dos alunos, tal como as privadas, ou seja, vão reproduzir também elas bolhas de exclusão. E esta seleção é de tal maneira a gritante que olhando para a carta educativa que existe de Lisboa, há escolas cuja área de influência foi desenhada à regra e esquadro para indicar uma porta que entra e a porta ao lado não entra. E isto é uma política educativa deliberada.
Eu não acho que seja esquecimento. Acho que é mesmo uma política deliberativa, porque de facto favorece à elite que tem acesso a um sistema altamente exclusivista sem ter de pagar por ele. Mas também é verdade que mesmo nas escolas públicas normais e a universidade, que são, espero eu, ainda a maioria, há outras formas de eh estarmos constantemente a criar exclusões.
Todos sabemos, todos ouvimos. Eu oiço desde pequena e continuo a ouvir agora que a turma A é melhor da turma da escola, que as turmas da tarde são piores que as escolas as turmas da manhã, eh, que os filhos dos professores estão sempre colocados ou de modo geral em turmas menos problemáticas. E quando não tivermos a ideia de que o equilíbrio que a diversidade que potencia um conflito que todos podemos aprender a gerir é fundamental para todos, vamos continuar a falar de paz e de educação e de direitos, mas vamos estar a falar só no papel.
E a minha posição aqui em relação à rede escolar, não só devemos contrariar deturpações que existem nesta coisa de eu vou meter um menino na escola onde não vivo porque peço a alguém para me dar a morada. Nós devemos é fazer um esforço para que todas as redes escolares, todas as cartas educativas façam, tenham como princípio uma maior e diversidade social eh nas áreas que cobrem. Isto é muito bonito dizer, desafios a tentar implementar, porque de facto as resistências são imensas.
Mudando para o segundo eixo, eh é um eixo que também me parece bastante óbvio, faz parte do discursos sobre dos movimentos que exigem justiça e dignidade no mundo inteiro há muito tempo, é que não há paz sem justiça. E aqui podia escolher 100 exemplos de de analogias em relação ao ao que aconteceu na Irlanda do Norte e o que aconteceu em Portugal, mas vou-me focar apenas em dois aspectos concretos que têm muito a ver com a realidade atual. podia, repito, ter escolhido uma míria de outros.
A questão do racismo e da xenofobia. Eh, eu trabalho numa escola com uma variedade imensa de culturas, de nacionalidades. é um contexto complexo e sou constantemente confrontada com situações que eu identifico como de racismo sistémico e não tenho eu própria muitas vezes as ferramentas para lidar com elas da forma que gostaria, mas também sou confrontada com algo, lamento dizer, colegas, eh perdi a conta às vezes de gente que me diz, eles vieram cá para a nossa terra, têm de aprender as nossas regras e eu não tenho fazer qualquer espécie de adaptação para os alunos que têm à minha frente.
Isto tem aspectos concretos. Por exemplo, ao nível dos programas, eu sou professora de português, uma turma de quinº ano, estamos a dar, eu estava por casa com a desvar, portanto estava no fundo da sala, tinha outro vagar para reparar nestas coisas. Estamos a dar as lendas e os Mouros são os maus.
Nós somos os cristãos, eles são os maus e os mouros são uma desgraça. Perguntaram o que eram os mouros e vai-se ver, eles eram na na grande maioria naquela turma mor. Portanto, aquelas crianças eram muçulmanas.
Quando confrontadas com a fada oriana, tudo o que é loiro e bonito e branco é é paz e é maravilhoso e as fadas mais são todas morenas e negras. Não havia uma única criança loura naquela sala de a Eu não estou a fazer a apologia de que devemos retirar obras do currículo porque e elas não são representativas das nossas turmas. Para fazer a apologia sinto que temos de olhar para as nossas turmas, identificar o modo como o programa que estamos a dar se reflete na turma que temos à nossa frente e ter estratégias para lidar com ele na prática.
E isso requer muitas vezes irmos muito para lá daquilo que nos ensinaram. Outro assunto que também está bastante na hora do dia e aqui vou eh referirme, vou usar como analogia não Arlando do Norte, mas Adolsons, o filme da Netflix sobre um jovem Incel que por ódio às mulheres mata uma colega. Eh, e também queria partilhar convosco que é uma realidade bastante dura de ver nas escolas a maneira como miúdos, eu sou sou professora do segundo ciclo, são miúdos muito eh jovens, têm já em si uma agressividade e uma falta de respeito para com eh o as mulheres, as raparigas, as colegas que me que me choca.
Eh, não vou dizer que é muito pior do que no meu tempo, porque no meu tempo eu sei o que sofri, mas pensava que tínhamos evoluído um bocadinho mais. E o que me choca também é que, na verdade, o primeiro contato com muitas das nossas crianças não somos nós professores, somos auxiliares. Muitas destas situações acontecem nos recreios e as auxiliares dentro da da da ação educativa são das profissionais mais fundamentais para as escolas.
são têm uma uma carreira inexistente, recebem muito mal, têm horários inacreditáveis e não têm qualquer formação. E quando eu vejo muitas daquelas auxiliares a dizerem que que as raparigas provocaram sem qualquer noção de que estamos a falar de realidades, de de violência no namoro, de cultura massificada, de misogenia, de violência doméstica, que muitas daquelas crianças possivelmente assistem em casa, choca-me muito, mas não quer julgar. Ou seja, eu acho que é preciso fazer uma formação para toda a comunidade escolar que tenha em conta esta realidade, que é neste momento a a violência entre jovens.
A violência de género é algo que é aceito por muitos dos nossos jovens e nunca vamos educar para paz nenhuma se não conseguimos na escola lidar e resolver estas questões de da violência que já existe, seja qual for o alvo. E agora eh uma parte que eu suponho que não me vai trazer muitos amigos aqui, mas que tem a ver ainda com com o adolescence e com a questão da participação. A, já vi que os criadores do documentário queriam, querem falar no Parlamento Britânico a pedir para os telemóveis serem abolidos as escolas.
E essa discussão foi muito presente aqui e eu tenho uma posição muito radical sobre isso. Sou contra qualquer proibição. Proibição, sou serei sempre contra qualquer desistência de educar, proibindo.
Os telemóveis, a misia, a violência fazem parte das nossas vidas, fazem parte da vida dos nossos alunos. Nós temos a obrigação de não fechar os olhos. e de não podemos nunca abdicar dos e tocar.
E quando dizemos que não é na escola que que usa os telemóveis, estamos a mandá-los usar os telemóveis em casa sem acompanhamento ou com acompanhamento que mais uma vez vai reproduzir toda a desigualdade que existe na sociedade. Eh, eu sei que não é fácil. Os telemóveis são um algo que com que nós não crescemos, mas temos a obrigação de saber que os nossos alunos vivem com eles e temos de os integrar na nossa prática educativa, exatamente para que eles não sejam vítimas do mal que podem fazer.
Por outro lado, a gestão democrática. A gestão democrática tende a esquecer a maioria das pessoas que estão nas escolas, que são os alunos. eh o a participação dos alunos nos órgãos de gestão, se não estão em erro, eh é o tem dois ou três representantes do secundário no conselho geral e não só não estão presentes em qualquer espécie de órgão de gestão, como não há qualquer tentativa de os envolver em nada que lhes diga respeito de um modo geral.
E então, estamos aqui a criar um círculo vicioso eh do do pior que há, que é não apostamos às nossas crianças para poderem dizer alguma coisa sobre o seu destino, porque achamos que elas não têm maturidade para o fazer, mas como não lhes damos a hipótese de fazer, nunca lhes vamos dar as ferramentas para terem essa maturidade. E a este democrático é fundamental para que nós possamos não só gerir melhor os conflitos, criar uma educação, como dizia o João Jaime, que mais do que criar notas em exames permita educar para que os para que todos nós possamos ser construtores do nosso destino. Eh, é importante que isto se que isto seja aplicado em todos os níveis da vivência das escolas.
Claro que com as devidas adaptações e, por exemplo, faz-me imensa confusão o estatuto do aluno. O estatuto do aluno é uma compilação de deveres, raramente desafios a irem procurar os direitos que não sejam meramente abstratos. E tudo isto é algo que nós devemos refletir com os alunos, porque o principal, penso eu, que a principal estratégia para eh para educar para a guerra em para paz em termos de guerra ou em qualquer tempo, é focarm-nos nos alunos.
Nós temos muito, a, nós temos muito a ensinar o nosso papel, nós é que temos de os ensinar, mas temos muito a aprender com eles. E temos muito a aprender com eles, se calhar, com os exemplos dos do dos NICAP, que é temos de criar aquilo a que eu chamo eh espaços plenos de significado, onde onde eles sintam que a escola é o espaço onde eles vão aprender a ser cidadãos connosco, não contra nós, mas connosco. E temos que ter muito presente esta noção de comunidade na escola.
Isto requer a conhecemos as músicas que eles ouvem, identificamos as referências culturais que eles para o bem e para o mal trazem para a escola. sabemos tentar encontrar de que maneira é que partilhamos com eles as aprendizagens deles. E isto é fundamental, digo eu, para termos uma paz participada, em que sejam os próprios jovens a não admitir que eh que a guerra seja uma opção e e muitas vezes a guerra é uma opção por desespero e nós não podemos ter uma geração de desespero.
Sim. E à laia de conclusão. Esta é mais uma fotografia, uma fotografia muito bonita também de Belfast nos anos 70 e que mostra que mesmo no meio da maior miséria, da maior pobreza, as crianças vão arranjar maneira de brincar.
Mas é uma fotografia com a qual eu não quero acabar esta apresentação porque é uma fotografia datada. é uma fotografia em que se vê que dificilmente teria muito a ver com novas gerações. A que eu vos queria deixar eram então dos Nickep eh a lutarem pela paz no sua no com a sua discurso algo agressivo e reverente e sobretudo que chega às pessoas.
Eh, os Nickep neste momento conseguiram passar de uma realidade completamente obscura eh do da Belf da Irlanda do Norte, corrompida por guerras e por bombas para serem os porta-vozes da paz. muitas para muitas gerações do mundo que fala inglês, saibamos nós encontrar os nossos cap e não tenho mais nada a dizer. Obrigada.