A gente passa aqui o dia inteiro pensando e falando sobre dinheiro, né? E tem uma máxima que se fala muito que dinheiro não traz felicidade. Então acho que a grande reflexão que a gente queria trazer aqui pra mesa, pra gente te escutar e saber suas reflexões sobre isso, o que que é essa tal de felicidade?
E se o dinheiro não traz, o que traz felicidade? Pois é, pergunta complicada mesmo, não é? Ela não é simples, né?
Então eu vou até tirar a carteira do bolso para ela não me incomodar. Bom, ah, eu, opa, eu começaria sugerindo, né, que eh se você fizer assim uma pesquisa de senso comum a [Música] respeito do que é a vida boa, vamos evitar a palavra felicidade, pelo menos no começo, né? do que é uma vida boa.
É muito possível que de modos diferentes, né, através de recursos discursivos diferentes, as pessoas se refiram muito recorrentemente a dois elementos. Um primeiro elemento é de natureza econômica, financeira, patrimonial e de conforto material. E a segunda é de capital simbólico, celebridade, reconhecimento, fama, notoriedade, etc.
Em outras palavras, para você não me olhar com essa cara incrédula, eh, um cara que é rico e famoso se deu bem na vida. em última instância. É isso.
Isso tá por trás, né, do que as pessoas consideram como êxito existencial. E isso então tá por trás também das estratégias e dos esforços, dos empenhos, dos caminhos escolhidos, etc. para que esses dois elementos sejam alcançados de algum jeito.
Bom, então qual é o primeiro trabalho? É você tentar se perguntar se é isso mesmo, não é? Problematizar.
E você pode problematizar por dois caminhos. O primeiro deles é se perguntando, toda pessoa com alto capital econômico e alto capital simbólico vive uma vida boa e gosta de viver a vida que vive? Primeira pergunta.
Segunda pergunta, nenhuma pessoa que não vive eh, ou seja, que não dispõe do mesmo capital econômico e simbólico, vive bem sem eles? Então são duas perguntas a responder e as duas perguntas t resposta muito fácil. Eh, tá cheio de gente muito, muito, muito rica e muito, muito, muito famosa que não vive uma boa vida.
Como é que você sabe disso? Não através de critérios objetivos definidos pela ONU ou por Harvard, mas pelo fato da pessoa ter desistido de viver. e ninguém melhor do que ela para para fazer essa avaliação.
Quando você desiste viver, seja num golpe só, seja de maneira estendida no tempo, é muito indicativo de um desagrado. Você concordará comigo? Tristezas todos nós temos, mas para chegar ao ponto de desistir, de viver, é preciso uma certeza inequívoca de que tá muito errado.
E tá muito errado com muito dinheiro e muito aplauso, né? Então eu não tenho a deselegância de citar nomes, mas imaginemos um ator de Hollywood. Imaginemos um ator conhecido no mundo inteiro.
Imaginemos um um ator com um sucesso estrondoso do ponto de vista artístico. Imaginemos um autor, um ator galardonado com prêmios como o Oscar. Tipo, acima não tem nada.
Imaginemos um ator que ganhou o que um cara desse nível ganha. E esse autor desiste. Esse ator desiste de viver.
Pô, isso nos deve fazer pensar que no mínimo esse senso comum não é universal, ele não é universalizável. Tem gente que preencheu os dois requisitos e não gostou de ter preenchido e não gostou de maneira indiscutível. Bom, agora vamos pelo outro caminho.
Vamos procurar gente que é anônima, o que os franceses chamam de monsieur todo mundo, o senhor todo mundo, o senhor qualquer um, vai melhor tradução, o senhor qualquer um e que tem condições econômicas um pouco acima das necessárias para continuar vivo. né? Eh, temos, será exemplos para dar de gente com vida muito exuberante, muito boa, muito contente, muito alegre, muito generosa, muito coisa nessas condições, certamente teremos.
E isso já nos permite refletir sobre a indiscutibilidade desses dois critérios, o da notoriedade e o da patrimonialidade, né? eh capital simbólico e capital econômico. Bem, eh, eu acho que agora indo mais diretamente à tua pergunta, se não são universais, certamente haverá zilhões de casos de gente que avançou economicamente e simbolicamente e que ficou muito contente com isso.
Então vamos tentar investigar do lado do dinheiro, que é o que motivou a pergunta, eh, como é que a coisa acontece? E eu começaria com o tio Patinhas, né? Porque o tio Patinhas é um caso interessante.
Eh, é o caso do dinheiro como fim e não como instrumento. Ele desfruta do banho nas moedas, certo? É o dinheiro pelo dinheiro.
Eu gosto de do papel moeda. Eu gosto do da cifra na conta. Eu gosto do dinheiro.
O dinheiro já é ele mesmo o aportador de alegria para mim enquanto tal. Bom, vamos eh depois poderíamos discutir sobre eh a beleza de uma vida com essas características, aonde o papel moeda é o elemento mais alegrador. Mas vamos agora pegar um caso, digamos, menos eh extremo, que é o dinheiro como instrumento.
E aí, então, claro, a discussão é relação do dinheiro com a vida boa, relação do dinheiro com a felicidade. Sim, na medida em que o dinheiro pode, por intermédio dele, por instrumento dele, por meio dele, trazer coisas que essas sim são alegradoras, essas sim são eh satisfatórias, são eh bacanas na vida. Bom, eh, então aí naturalmente você terá um milhão de coisas que o dinheiro pode e só ele pode permitir a posse e que podem eventualmente ser alegradoras, hum, no nível patrimonial mais estendido.
Agora, claro, cabe a pergunta, e isso é o mais interessante, é o que é que não precisa de dinheiro para ter? E segunda pergunta, isso que não precisa de dinheiro para ter pode ser aportador de uma vida boa? Entendeu?
você vai filosofando por hipóteses. Então, a título de exemplo, eh, imaginemos alguém que tenha um enorme contentamento genuíno, verdadeiro, em aprender através da leitura ou aprender através de uma conferência, de uma aula, etc. E naturalmente nos dias de hoje, boa parte do que se pode ler já é alcançável gratuitamente.
Não precisa de dinheiro nenhum. No que diz respeito a pessoas que têm o que dizer, muitas delas já dizem o que tem de melhor a dizer gratuitamente, né? Então, nesse sentido, eh, se nós propuséssemos que para algumas pessoas a vida boa pressupõe a possibilidade de ir atrás, de aprender e conhecer mais e mais e mais e mais, e quem sabe com isso pensar melhor em busca da lucidez e no final de tudo em busca da sabedoria, não é?
Essa pessoa nos dias de hoje, de maneira muito concreta, pode conseguir isso sem dinheiro algum ou sem uma riqueza exagerada. O que que então a gente deduz daí? que o dinheiro tá relacionado com a felicidade muito em função daquilo que é genuinamente o motor de alegria da pessoa em questão.
Então, nesse sentido, nós poderíamos sugerir que possa haver campanhas socializatórias no sentido de vincular a felicidade, a tal da felicidade, a aqueles elementos de realidade que só o dinheiro pode aportar, né? Naturalmente, né? Sei lá, vestiário de clube de elite.
"Professor, o senhor vai a Dubai esse ano? " me perguntou o sujeito. Eu falei: "Não, ah, não, não".
Falei: "Aliás, um adendo, nem esse ano, como também nunca fui em nenhum outro ano, nunca estive, né? " Ah, não, não, não, não. E e não tô dizendo com isso que não, não possa ser interessante.
Apenas é na hora de, como a vida é uma e exclui zilhões, o Dubai ficou nos zilhões excluído e acabei optando por outras coisas. Eh, coisas que dizem respeito à minha vida, dizem respeito a mim. Portanto, não tô aqui a criticar quem possa ir a Dubai todo ano.
Estou aqui apenas a dizer que eh entre os critérios que eu uso para definir a vida boa, a minha vida boa, esse não entrou ainda, digamos. Então, o que que você conclui que possa haver uma campanha no sentido de vincular a vida boa aquilo que o dinheiro só e só o dinheiro pode aportar? E, portanto, uma deslegitimação crônica das vidas econômicas, né?
Ou seja, das vidas eh gratuitas, das vidas que não custam muito, né? Então, eh, a partir daí já tentaram para mim me vincular a vida feliz a um apartamento em Miami, né? Então, tá aí um outro lugar que eu nunca fui.
Então, essa pessoa parece que não tá acertando muito comigo, né? Mas eh de qualquer maneira, você percebe que a sociedade é um espaço que legitima certos protocolos existenciais no sentido de torná-los obviamente bem vividos, bem-sucedidos, eh felizes. E com isso, por exclusão, a sociedade também é um espaço de deslegitimação de vidas que são consequentemente entendidas por vidas empobrecidas, fracassadas, vidas acanhadas, vidas eh, enfim, de menor valor.
Ora, nesse momento que você aprende que a felicidade é um troféu cujas vias de acesso estão em disputa, entende? Se eu sou dono de uma igreja, tentarei vincular a felicidade à elevação espiritual. Se eu sou dono de uma livraria, tentarei vincular a felicidade à elevação espiritual via intelectual.
Se eu sou dono de uma academia, tentarei vincular a felicidade a os gomos abdominais ou se eu sou dono de um restaurante, tentarei vincular a felicidade à gastronomia. Se eu sou dono de uma rede de hotéis, tentarei vincular a felicidade ao turismo e se eu sou dono de uma companhia aérea, tentarei vincular a felicidade. Portanto, é claro que a felicidade é um troféu e os meios de conquista desse troféu estão em disputa.
Estão em disputa. Eu não sou diferente porque o que eu tenho para vender são essas pataquadas que eu falo. E e claro, eu tento convencer dois ou três que é do [ __ ] pensar sobre isso e alguns até caem na minha.
Entendeu? Alguns até caem na minha, mas é claro, contra mim tem, né, um um um dinossauro, né, contra mim tem zilhões de interesses econômicos com um poder de fogo, de convencimento avaçalador, que dirão filosofia, o [ __ ] Eh, isso aí é coisa de gente que não não não deu para nada. Eh, o negócio é ter é ter grana para ir de primeira classe para Dubai justamente é onde tem ducha na aeronave.
A ducha na aeronave que é do [ __ ] Aí você pega e fala: "Mas, ô, tudo bem que eu possa ser um ressentido, um professor pobre da USP que tenta legitimar a vida com a falta de dinheiro, que é a minha, mas tem uma coisa que eu tô sendo verdadeiro com você. Eu não gosto de tomar banho e não gosto de andar de avião. Portanto, banho no avião é a reunião do demônio.
Não queira me convencer que para ser feliz tem que tomar banho na aeronave. Por quê? Porque tão duas coisas reunidas que eu detesto.
Então assim, aí você montou num porco porque comigo não vai funcionar. Então você percebe que existe uma possibilidade de resistência. a sociedade impõe as suas obviedades, porque o jeito de viver é uma ideologia, aquilo que deve ser, né, uma representação da vida ideal é uma ideologia.
E a sociedade ela impõe, como toda dominação ideológica, ela funciona na base da evidência, da indiscutibilidade, do da obviedade e você tem o direito de denunciar a falácia da obviedade. De óbvio, não tem nada, malandro. de óbvio, não tem nada.
Eh, e por quê? Porque eu não tô aqui para atacar você tentando pôr uma solução universal de vida no lugar da sua. Eu eu sou muito mais modesto.
Eu só tô falando de mim. E no que me diz respeito, o seu rolocompressor não funciona. Ou seja, se para ser feliz tem que ir para Dubai, tem que ter apartamento em Miami, tem que comprar o carro que não sei quê, tem que andar de helicóptero ou eventualmente de jato ou tal, porque isso aí, claro, é é muito dinâmico, porque é um saco sem fundo.
É o na hora que você e eh espreme, você percebe que a felicidade ela é muito mais confiável na falta do que na presença, né? Ela é muito mais confiável. Assim, se você tiver o que você não tem, você será feliz.
E você não tem como dizer que não. Por quê? Porque como você não tem, a experiência falta.
Agora pro cara que tem aí é que fica mais fácil dizer: "Malandro, eu fiz tudo que você mandou. Enrijeci o abdômen, rezei, comi camarão, fui para Dubai, comprei o apartamento em Miami, ando de helicóptero, comprei um jatinho, tem uma coisa e continua uma bosta a minha vida, né? Não, aí é que tá.
E aí, qual é o E por que que esse cara eh o outro dirá, o seu caso é patológico, excepcional? Com todo mundo tá funcionando bem, o problema é só você. Então veja, para você se posicionar como problematizador, você tem que ter a coragem de um enfrentamento aonde a chance de você se dar mal é muito grande.
Quando todo mundo acha que uma coisa é obviamente verdadeira e você levanta a mão e diz, ainda mais você que é um [ __ ] pé de chinelo, etc, tal, e diz, para mim não funciona, precisa os ou tá com o parafuso solto ou ter muito culhão. Então, nesse sentido, é, nós poderíamos dizer que o dinheiro ele aportará itens de felicidade entendidos como tal pelo senso comum. O dinheiro é responsável por trazer muitas coisas que de fato podem ser alegradoras, mas a pretensão de assegurar a felicidade a qualquer um do seu portador é uma pretensão já desmentida por muitos ricos tristes.
Se você gostou desse corte, certamente vai gostar do episódio completo. Então, ó, clica aqui que você pode assistir ele na íntegra ou então você pode clicar nesse vídeo e ver mais um corte desse episódio. Até a próxima.