Era uma palestra do agronegócio e terminou a palestra, falei tudo que eu tinha para falar e aí então veio o meu anfitrião. Falou: "Eu sou fulano de tal, rapaz, eu estudei economia e pá, eu criei uma empresa de sementes e não sei que pá e eu prosperei. Hoje eu sou terceiro maior, não sei o que disso.
Eu tenho bilhões de lucro anual, eu exporto pro mundo inteiro, eu feita essa apresentação, ele disse: "O meu filho tá em idade de vestibular e quer estudar história". Aí eu disse para ele, viu? Não, né?
Eu não, eu não paguei escola cara para você depois ir estudar a história. Falei: "É mesmo? " Eu olhei assim, o que que você tem contra a história?
Não, não é isso. É que quem vai estudar a história vai ser professor de um jeito assim um pouco delicado na sua, porque né? É, eu falei: "Bom, mas então o que que você tem contra ser, professor?
" Aí ele disse: "Professor, não é uma questão de ter contra ser professor, mas a gente sabe o quanto o professor vale na nossa sociedade. " Eu falei: "É mesmo, é? Eh, vale quanto?
" V só vai ser professor quem não conseguiu nada melhor. Eu fico feliz que as pessoas digam o que elas pensam, até porque é o que eu faço também, né? E fico feliz porque pelo menos não tem aquela hipocrisia de que o professor é a coisa mais importante do mundo.
Se é verdade que a sociedade não dá dinheiro nenhum para ele, mas não importa. Ele é muito importante. É verdade que a sociedade bate nele, mas e bate nele e não é assim uma vez por ano.
É tipo 10 casos de violência física contra professor por semana, segundo a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, né? Tipo, é recorrente. Sociedade bate, agride, diminui, desprestigia, não paga, né?
Antigamente o professor era pobre, mas respeitado. Hoje ele é pobre, mas ele é avioltado e agredido. Então claro, o sujeito disse meio que é o que todo mundo pensa mesmo, né?
Então eu comecei perguntando a ele se ele tinha escolhido ser estudar agronomia. Ele falou: "Sim, eu escolhi. É porque o seu filho não tem o mesmo direito de escolha?
" Ah, porque eu comecei do zero. Mas que culpa tem o seu filho eh de ter nascido alionde nasceu? Por que que ele tem que ser continuador de uma vida que no final das contas não é a dele?
Ele não bancou. Por que que ele não pode começar do zero como você começou? A conversa foi indo, foi indo, foi indo de maneira muito cordial, hein?
E aí eu dei a estocada final porque falei: "Você já supôs a hipótese do seu filho não precisar de tantas piscinas ou quadras de tênis em casa para viver a vida boa dele". E que talvez se bobear mais uns quatro ou cinco livros, ele curtiria mais? Você já parou para pensar que aquilo que você considera relevante não tem valor universal?
Porque as pessoas simplesmente são diferentes umas das outras? Você, né? E e fui dizendo isso.
Você já parou a pensar que se bobear, se ele for professor de história de uma universidade pública, ele possa ter um salário compatível com o tipo de vida que vai deixá-lo feliz, além de ser feliz no seu ofício, ao invés de simplesmente trabalhar para ganhar dinheiro depois. E terminei dizendo, quanto à questão de prestígio social, também não é universal. Eu conheço um professor de história que é muito meu amigo, chama Leandro Carnal.
Ah, eu conheço, tal. Já o senhor, como chama mesmo? Ali ele ele sentiu que eu realmente dei-lhe um joanete, sabe assim?
Não, né? Sim. Porque eu ataquei na base de valores dele.
Não é que eu contrapus a mina na dele. O cara gosta de aprender, o cara gosta de estudar, o cara é feliz estudando, deixa ele quieto. Não.
Eu disse: "O professor de história é muito mais conhecido, reconhecido e aplaudido do que [Música] você. Eu acho que esse cara acabou deixando o filho estudar história, porque ele saiu um pouco desagradado, mas ele saiu porque não é burro. É claro que não é burro.
É claro que de burro não tem uma célula e entendeu os meus argumentos. Eu acho que esse filho desse agrônomo, empresário, eh, me deve essa. Bom, se se ele tiver assistindo, comenta aí.
Aí, fica aí porque ele me deve essa. Porque se você gosta de história, trabalhar exportando semente deve ser realmente tenebroso. Condenar alguém a isso é de uma crueldade.
Ah, o senhor é contra o agro? Nunca. Eu sou superv agro para quem é feliz com isso.
Entendeu? Como é óbvio, isso não é alegrador de todo mundo, como a filosofia não é, a história não é e nem o whisky que é, né? Tem gente que odeia, como é o meu caso, eu me sinto mal com o álcool, que aí me sinto mal, né?
Pô, senhor, uma cervejinha gelada, viu? Não gosto do gosto, né? E e nossa, uma mera cervejinha gelada.
Você recusa, você gera um malestar desag, né? Aquela coisa fala: "Porra, o cara além de tudo também não gosta de violância, né? Você é mesmo um cara chato.
Quer dizer, não há aquele fair play, aquela tolerância de dizer, pô, do mesmo jeito que eu gosto. O cara não gosta, o cara gosta de iogurte. Isso me faz lembrar de uma história maravilhosa.
Eu tenho um grande amigo na academia, Juremir Machado da Silva, um homem que comandou a pós-graduação da PUC do Rio Grande do [Música] Sul décadas, né, cara genial no que faz. E durante muito tempo ele comandou fronteiras do pensamento, uma grande iniciativa de cultura no Brasil. E nós fomos os dois participar de uma de um evento da CAPS francesa que chama CNRS, Centro Nacional de la Recherche Científica, onde nós apresentamos um trabalho e fomos lá apresentar o trabalho.
Negócio legal de fazer. Fomos eu, o Juremir e o Renato Janini, que depois foi ministro da educação e etc. Aí terminou o negócio, o Juremir falou: "Cara, posso te propor um convite daqueles que pode ser entendido por um lado como uma [ __ ] oportunidade e por outro lado, como um programa de índio espetacular.
" Vai, propõe, né? Aí eu vejo se é uma [ __ ] oportunidade ou ou não, né? falou: "É o seguinte, o Fronteiras quer trazer o Humberto Eco e eu vou até Milão só para convidar o Humberto Eco que ele tá meio relutante.
Aí eu vou sozinho, chato, tal, você não quer ir comigo para me fazer companhia? " Ele falou: "Me fazer companhia é a parte do programa ruim". e conhecer o Humberto Eco é a parte fascinante da proposta.
Não quer eu falo: "Nossa, vamos embora". Aí não sei por que não dava para ir de avião, Paris, Milão, não sei o que aconteceu. Tivemos que ir de trem, o que tornou a parte procedimental da coisa difícil e, né?
Vamos de trem longe para [ __ ] Chegamos lá em Milão, chegamos cedo na casa do cara, sujeito abre a porta e realmente é uma coisa muito impactante, né? Humberto Eco é um dos maiores nomes do século XX, cara, né? Esse cara é o cara que escreveu o nome da Rosa, [ __ ] Humberto Eco, Nobel de literatura.
Humberto Eco. E o cara abre a porta da casa dele e eu lá com dedo na campainha. Nossa, entrão aquele jeito, brasilian e tal, tentamos.
E ele começou dizendo assim: "Se vocês vieram me convidar para ir pro Brasil, né? Então eu já vou dizer desde já que não vou por dinheiro nenhum. " Ponto.
Agora, se foi só isso, nossa conversa acabou. Ora, se quiserem continuar conversando, teria muito gosto em continuar conversando com vocês, né? Aquela [ __ ] ducha de água fria.
Eu falei, desculpa a curiosidade, por que não? Aí ele contou um episódio muito, muito, muito desagradável vivido no Rio de Janeiro. A mulher ficou doente e um, ele disse na recepção do hotel que o médico ia chegar e que só o médico devia subir.
O jornalista ouviu, se fez passar pelo médico para poder um negócio escabroso. Ele ficou possesso, a mulher passou muito mal no Brasil e tal. E ele, bom, a gente entendeu e sobre o assunto não falou mais nada.
E olha que o Juremir tinha ali bala, no meu caso, para resolver três gerações, mas como ele disse que era por dinheiro nenhum, a gente respeitou, até porque quem escreveu o nome da Rosa não tá propriamente passando fome, né? Aí ele pegou e falou: "Posso servir alguma coisa? Vocês almoçam comigo?
" A gente falou: "Pô, legal". Por que não, né? Posso servir alguma coisa antes?
Eu não tinha nem jantado, nem tomado café da manhã. E na cabeça dele, claro, era um aperitivo. Eu falei: "Eh, o senhor tá me oferecendo alguma coisa?
Eu posso? " Claro, peço o que quiser. Falei: "Ah, eu queria um iogurte batido com leite".
Aí ele olhou, ele levou um certo tempo e depois ele começou a rir. E eu me atrevo a dizer porque ele morreu menos de um ano depois. Foi a melhor gargalhada do fim da vida.
Mas ele ria com gosto. Ele chamou as pessoas, ele me pediu iogurte. Iogurte, ele quer.
Ah, ele disse batido com leite, quer fruta. Ah, se tiver uma banana ou duas. Ele quer iogurte batido com leite e banana.
E ele ria, ria, ria. E aí? E ele ria e dizia: "Olha, não leve a mão.
É que você, a sua proposta me surpreendeu tanto que eu só posso me encantar com ela e por isso que eu tô rindo aqui e tal. Muito bacana e tal. " arrumou o iogurte para mim.
Eu tava com uma fome do [ __ ] Imagina se sem jantar e sem tomar café da manhã, se eu meto um vinho do Porto, eu desmaio, não bebo nunca. Aí tomei aquele iogurte, nossa, aquilo espetacular, né? E ele dizia: "Quer mais iogurte?
" Eu falei: "Ó, não ofereça que eu depois nem almoço". Não, mas vai acompanha o almoço com iogurte também. Eu falei: "Não, não, não ofereça duas vezes e tal".
Eu sei que a gente ficou ali das 10 da manhã a umas 4 da tarde e aí ele falou: "Eu não quero mandá-los embora, mas eu tenho a inauguração de uma pequena livraria de um amigo meu e para deixar claro que eu realmente não quero mandá-los embora, gostaria que viessem comigo. É tão perto que nós vamos a pé". E aí então foi incrível por Milão, ele na frente, o indivíduo corpulento, andando rápido e eu e o Juremir atrás, indo atrás da Aí tinha, era uma pequena livraria mesmo e tava abarrotada de gente porque Humberto Eco ia falar.
Humberto Eco toma a palavra e diz: "Eu vim acompanhado de dois amigos brasileiros do Amite Brasilian. Aí ele falou: "E um deles é muito especial". Aí todo mundo olhou Humberto Eco dizendo, imagine você foi chegando na hora do almoço e eu ofereci se queria um bebê, alguma coisa.
E o que foi que ele me pediu? O que foi? Ele parou iogurte batido com leite.
Aí qu aquilo quase veio abaixo da pô. Ele, eu percebi o encantamento dele com aquilo e a fala dele foi sobre a possibilidade da resistência às convenções sociais, um pouco do que eu falei até aqui, né? De repente vem alguém do nada, tipo, né, do Brasil fazer um convite fracassado por antecipação, um cara que, né, num nunca vi mais magro, nem mais gordo, sei lá quem é esse [ __ ] junto de um outro e o cara me dá uma chave de braço dessa que é me surpreender naquilo que Porque eu percebi que o que ele curtiu foi a riqueza da diversidade, a riqueza da surpresa, a riqueza do inusitado, a riqueza de alguém que não se incomodou em momento algum em sugerir uma coisa que é uma heresia assim, a mais radical no lugar de um aperitivo, um iogurte batido com leite, na cabeça dele era assim o que há de mais esdrúchulo possível.
E ele então celebrou aquilo e e fez daquilo o objeto da sua fala que durou lá uns 15, 20 minutos. Aí de lá nós nos despedimos. Infelizmente, logo depois ele veio a falecer e eu guardo na minha memória vívida esse encontro inesquecível com esse gigante da história, da literatura, esse monstro do pensamento que foi Humberto Eco.
Que maravilhoso. Se você gostou desse corte, certamente vai gostar do episódio completo. Então, ó, clica aqui que você pode assistir ele na íntegra.
Ou então você pode clicar nesse vídeo e ver mais um corte desse episódio. Até a próxima.