A música litúrgica no Brasil tem enfrentado uma crise profunda que muita gente nem sequer percebeu. Meu irmão, minha irmã, seja muito bem-vindo, seja muito bem-vinda a esse vídeo. Eu sou o Ângelo La Serra e hoje a gente vai conversar um pouquinho sobre os principais problemas que estão adoecendo a música litúrgica no nosso país.
E olha que eu não tô falando de desafinação, de música repetida, de falta de ensaio. Tudo isso é consequência de uma crise que é muito mais profunda. Na verdade, a raiz de todo o problema tá numa outra camada, uma confusão generalizada sobre o que é afinal a liturgia e, por consequência, o que deveria ser a música dentro dela.
Por isso, eu convido você a ficar comigo até o final desse vídeo. Talvez ele incomode um pouquinho, mas o que vai ser dito aqui é absolutamente necessário e você não vai se arrepender. Mas antes da gente começar, quero te convidar a curtir esse vídeo e a se inscrever no canal para que eu consiga fazer mais conteúdos como esse.
E também é importante que você clique no sininho que aparece aqui embaixo, assim o YouTube te avisa quando tiver novidade por aqui. Vamos lá. Bom, eu quero começar dizendo que esse vídeo aqui não é uma denúncia nem um desabafo, é um convite à lucidez, porque não dá mais pra gente continuar tratando a liturgia como se ela fosse qualquer coisa, como se fosse algo pouco importante ou como se ela fosse maleável aos achismos de um grupo ou de uma comunidade.
E a música litúrgica, pelo amor de Deus, menos ainda. Você já deve ter participado ou assistido ou visto algum vídeo na internet de alguma missa em que a música parecia uma trilha sonora de algum evento ou sei lá, de uma confraternização entre amigos? Canções com uma estrutura de música pop comercial, letras subjetivas, palmas, aplausos, erros grotescos por parte de quem tava cantando, improvisos.
O mais curioso é que tudo isso em muitos lugares é incentivado e o argumento é sempre o mesmo. É porque o povo gosta. E é aqui que a gente precisa fazer a primeira observação desse vídeo.
O povo gosta, minha gente, não é critério litúrgico. A igreja não regula a liturgia com base numa pesquisa de satisfação. Ela regula a liturgia com base na revelação divina, na tradição da igreja, aquela com t maiúsculo, e na finalidade da própria celebração da missa, que é primeiro glorificar a Deus e segundo santificar o povo de Deus.
Então aqui já vai uma consequência lógica a partir dessas duas finalidades da missa. Primeiro, se a missa é para glorificar a Deus, então o que fazemos dentro dela deve ser aquilo que Deus quer e não aquilo que a gente quer. Segundo, se é para santificar o povo, o que se faz dentro dela não pode ser o que o povo quer, mas o que o povo precisa para se salvar.
Conseguiu entender isso? A música na liturgia tem uma função específica. Ela não tá lá para emocionar.
A música tá lá para fazer a assembleia rezar com mais profundidade. De que forma? Ajudando todo mundo a entrar com a alma no mistério que está sendo celebrado.
E que mistério é esse? O sacrifício redentor de nosso Senhor Jesus Cristo. O mistério pascal de Jesus.
O problema é que essa lógica que devia ser óbvia para todos, muitas vezes não é ensinada. às vezes nem nos seminários, nem nos cursos de formação pastoral, nem nos encontros entre músicos, com exceções raríssimas, obviamente. E é aqui que a gente se depara com o primeiro grande obstáculo para a música litúrgica, a falta de formação entre os próprios sacerdotes.
Pois é, infelizmente, muitos padres hoje são ordenados sem uma base sólida litúrgica. Eles aprendem um rito como se fosse um protocolo técnico. Sabem onde fica cada parte da missa, sabe quando entra cada oração, sabem qual é a postura correta que devem adotar, mas não compreendem profundamente o sentido por trás de toda essa estrutura.
E aí o que que acontece? Acabam não obedecendo. Porque segundo uma mentalidade muito presente aqui no Brasil, o que vale a essência da celebração.
Todo o resto é opcional. E aí você vai ver padre que muda rito, padre que muda a palavra do rito, padre que inventa coisa dentro da missa. E tudo isso é muito triste.
E se o padre não compreende isso, ele também não orienta. E se ele não orienta, quem é que assume o protagonismo? O músico, é claro, metade da missa é música.
E aí a liturgia vira uma terra de ninguém. E é nesse vácuo que começam a surgir os humodismos, os improvisos, as famosas músicas que o povo gosta. E não se engane, isso nem sempre é culpa do músico.
Em muitos casos, o padre até exige que eles cometam certos abusos na música. Quero uma música animada, põe aquela música mais alegre na entrada, faz aquele fundo musical na humilia e o grupo que com medo de desagradar, mas querendo fazer o que é certo, obedece mesmo sabendo que tá errado. Agora vamos ser honestos, esse tipo de pressão não deveria acontecer nunca.
A obediência ao sacerdote não deveria se sobrepor à obediência à igreja. E a igreja já falou, já escreveu, já repetiu tudo que deve ser feito. Os papas já repetiram isso incansavelmente.
O Papa Francisco foi um dos que mais falaram sobre essa questão, inclusive sobre a desobediência dos sacerdotes. Não sou eu que tô inventando, tá tudo escrito para você ler. O problema é que poucos escutam a voz de Jesus que fala através de sua igreja.
Daqueles que escutam, pouquíssimos aplicam. Outro problema que é muito recorrente e aqui talvez a ferida doa um pouquinho mais é a falta de formação litúrgica entre nós músicos. Porque veja bem, mesmo quando nós temos a graça de trabalhar com o sacerdote que conhece a liturgia, que tenta celebrá-la com fidelidade, muitas vezes quem atrapalha é o próprio grupo de canto.
E não é raro. Sabe por quê? Porque músico litúrgico no Brasil normalmente se forma no empirismo.
Sabe o que que é empirismo? Aprende na prática com quem veio antes, vai testando, né? E quem veio antes aprendeu com outro grupo que veio antes ainda.
E assim a gente vai repetindo erros que ninguém nunca corrigiu. E quando alguém tenta corrigir, ensinar o que é certo, ou simplesmente propor um caminho mais coerente com os documentos da igreja, escuta coisas do tipo: "Ah, mas aqui sempre foi assim. Ah, mas ninguém nunca reclamou.
Não, mas o importante é cantar com o coração. Não, não, eu sou humilde, eu não sei fazer essas coisas a tal da falsa humildade, né? Não, pera lá.
Deus conhece a intenção do nosso coração. Sim, ele conhece. Mas a intenção boa não justifica a deformação do rito litúrgico.
Porque o rito litúrgico é vontade de Deus. E vontade de Deus a gente obedece. A gente precisa parar de tratar a liturgia como um campo neutro, onde tudo é válido, desde que seja feito com boa vontade, porque isso é uma mentira.
A missa tem uma estrutura, tem normas, tem uma teologia própria. E a música dentro dessa estrutura precisa se submeter a lógica daquilo que é celebrado, não ao gosto do grupo. E sabe o que que é pior?
Quando alguém tenta fazer o que é certo, quase sempre é mal interpretado. Se você já passou por isso, sabe bem do que que eu tô falando. Inclusive, coloca aqui nos comentários se você já ouviu algo do tipo.
Você chega com uma sugestão bem fundamentada, de uma forma respeitosa, caridosa, talvez até com o documento do Papa escrito e escuta: "Lá vem o fariseu. " Esse aí quer saber mais do que o papa, tá querendo aparecer. Ou seja, a pessoa que se forma, que estuda, que busca aplicar aquilo que a igreja ensina, que é a vontade de Deus, é chamada de fariseu.
É vista como arrogante. E quem segue fazendo tudo de forma improvisada, mal feita e fora das normas, é chamado de simples, de humilde, de servo, uma inversão total de valores. Porque essas pessoas que não se abrem ao novo de Deus, ou seja, aquilo que Deus espera de nós através dos rituais litúrgicos, é que são os verdadeiros fariseus.
não conseguem enxergar além da norma, além do rito, exatamente como os fariseus faziam. Faz sentido? Bom, mas tem outro sintoma dessa doença litúrgica que talvez seja aquilo que tem se tornado mais visível nos últimos anos.
Sabe o que é? A influência das missas que passam na televisão. Esse assunto é um pouquinho delicado, mas ele precisa ser tratado com clareza.
Existem comunidades, projetos de evangelização muito conhecidos, com enorme alcance na internet, na TV, que fazem um trabalho formidável no campo da evangelização, da espiritualidade, da pregação. Até aí tudo certo. Mas quando o assunto é liturgia, especialmente quando nós falamos de música litúrgica, o exemplo que eles têm dado é em 99% dos casos muito problemático.
Isso vai sendo normalizado, porque se a comunidade X faz, se o padre Y da TV canta, se naquele vídeo que tem milhões de visualizações fizeram assim, então é porque deve estar certo. Se não tivesse certo, não fariam. A questão é que não está certo.
E os documentos da igreja não deixam margem paraa dúvida. A igreja diz claramente que as missas transmitidas, aquelas que passam pela TV principalmente, devem ser exemplo de fidelidade, de sobriedade, de reverência à liturgia. Porque direta ou indiretamente, essas missas formam o povo de Deus.
Elas ensinam através daquilo que mostram. E se o que mostra é uma caricatura da celebração da missa, é isso que o povo vai reproduzir lá na paróquia. Essas transmissões moldam a mentalidade do povo.
E não adianta dizer que cada comunidade deve discernir o que funciona melhor, porque liturgia não é sobre o que funciona. Liturgia é sobre o que é verdade. E o que é verdade na liturgia não depende do gosto de ninguém.
depende do que a igreja na sua sabedoria nos transmite há séculos e séculos. No fundo, tudo isso aponta para um problema ainda mais profundo, a crise de compreensão sobre o que é a missa. Porque se as pessoas realmente entendessem o que acontece ali, certas coisas simplesmente não aconteceriam nunca.
A missa não é um encontro paraa oração, não é um momento de espiritualidade comunitária, não é um evento para celebrar a vida, para nos sentirmos bem ou para cantarmos aquilo que toca o nosso coração. Ela até pode ser tudo isso, desde que a gente compreenda que a missa é na sua centralidade o sacrifício de Cristo tornado presente. A missa é a atualização do Calvário, é a entrega do cordeiro, o derramamento do seu sangue, a oferta do filho ao pai por nós, por amor.
Isso que eu tô falando aqui não é uma metáfora, não é um pensamentozinho, é doutrina da igreja. E quando a gente entende isso, tudo muda. Se a missa é o calvário, ela exige reverência, exige silêncio, exige sobriedade, exige que a música esteja à altura do mistério celebrado.
E o que que isso quer dizer na prática? Quer dizer que a música não pode ser a protagonista. Não pode distrair, não pode agitar de forma alguma, não pode transformar a liturgia numa performance.
A música, quando usada corretamente na missa, é serviço. Sustenta a oração da igreja, não a oração pessoal. Une as vozes da assembleia num único couro, como acontece lá no paraíso.
A boa música litúrgica interpreta o rito para nós no seu tempo, no seu andamento, na sua forma, no seu texto. Nem toda música que fala de Deus serve paraa liturgia. Nem todo canto que fala de oferta ou de pão e de vinho é apropriado para cantar no ofertório.
Nem todo canto que fala de corpo e de sangue é adequado para cantar na comunhão. A música litúrgica precisa ser feita para a liturgia, precisa seguir critérios muito objetivos. O texto dessas músicas tem que ser fiel às escrituras e aos livros litúrgicos.
A melodia precisa favorecer a oração, ou seja, precisa te fazer silenciar, porque oração implica silêncio. Sem silêncio, como é que eu vou ouvir a voz de Deus? E acima de tudo, ela precisa desaparecer para que o mistério de Cristo apareça.
Quem canta na liturgia não é um artista que tem um palco ali para mostrar sua arte. Ele é um ministro que está ali para ministrar, ou seja, passar adiante aquilo que vem de Deus. Por isso, ele não pode aparecer mais do que o próprio Deus.
Enfim, todo esse entendimento sobre a música litúrgica só vai acontecer quando todos tiverem clareza do que é a missa. Enquanto a missa for vista como um espaço onde vale aquilo que emociona, aquilo que toca o coração, a música vai ser uma ferramenta de manipulação emocional e não um instrumento de glorificação de Deus e salvação do povo. Agora, talvez você até se pergunte, tá?
Mas se tudo é tão claro assim, por que que as coisas continuam erradas? Porque o erro, meu irmão, minha irmã, dá menos trabalho. Porque o jeitinho brasileiro é mais fácil de se fazer.
Porque muitas vezes quem tenta fazer o que é certo não encontra apoio, nem do padre, nem do grupo, nem da assembleia. Muita gente que começa com zelo, com desejo de aprender, acaba se retraindo depois de tantas portas fechadas, tantos olhares atravessados, tanta pressão para não mexer no que tá funcionando, funcionando entre aspas, né? E eu até me pergunto que tipo de cristão é esse, de católico que é esse?
que diante de uma pessoa que tenta fazer aquilo que é certo, barra impede a pessoa de trabalhar. Mas aqui vai um recado direto para essas pessoas que tentam fazer o que é certo. Apesar da infidelidade dos outros, permaneça fiel a Cristo e a sua igreja.
Continue amando a liturgia, porque isso é o que Jesus espera de cada um de nós católicos. Continue se dedicando para fazer o seu melhor, para fazer aquilo que você pode do jeito que você pode. Não precisa ser agressivo, não precisa ser autoritário, não precisa ser amargo, mas você também não precisa ceder a tudo.
Estude, sirva com humildade. Tenha uma vida coerente com aquilo que se espera de um cristão. Aplique aquilo que você aprendeu, mesmo que leve tempo, mesmo que ninguém perceba, mesmo que pareça inútil no primeiro momento.
Sabe por quê? Porque a verdade sempre frutifica mesmo no escondimento. A liturgia bem celebrada educa o coração e a música, quando colocada no lugar certo transforma.
Transforma a oração da assembleia, transforma o modo como a palavra é acolhida por todos, transforma até o silêncio e principal transforma você. Quando nós nos esforçamos para fazer a vontade da igreja, que é a vontade de Deus, tudo dá certo. Ainda que os frutos pareçam não ser produzidos, eles serão.
Por isso, eu quero até aproveitar esse momento para te lembrar que aqui na descrição desse vídeo tem um link para você adquirir o meu livro digital, A verdadeira Música da Missa. Nesse livro eu ensino todos os fundamentos que o músico litúrgico precisa conhecer para servir dignamente a liturgia. Léo eu falo sobre a espiritualidade do músico, sobre o que é a missa, sobre a função de cada música dentro da celebração, sobre como deve ser um repertório adequado.
Então, se você deseja aprofundar o seu serviço na música litúrgica, com certeza esse material vai ser um grande aliado na sua caminhada. Bom, se esse vídeo te ajudou a entender melhor sobre a música litúrgica e sobre esses desafios que ela encontra nos dias de hoje, eu te convido a me acompanhar também lá no Instagram @angângelo. Sererra.
Lá eu compartilho muita coisa sobre o serviço litúrgico através da música para te ajudar a servir cada vez melhor. E se você não curtiu esse vídeo até agora, curte agora e compartilha com aqueles seus irmãos de caminhada, aquelas pessoas que servem com você na liturgia. Muito obrigado por ter ficado até aqui comigo e lembre-se, a missa não precisa ser mais bonita do que aquilo que ela já é.
Basta fazer o que a igreja te pede, que é a vontade de Deus. Deus te abençoe.