Eu era professor de faculdade e dominava bem 30, 40 alunos. Até que um dia o hospital sírio libanês ligou dizendo que patrocinava o HSM Expo Management e que precisavam de um palestrante porque eles mandavam sempre médico para dar uma palestra que eles tinham direito e o médico ia lá e ninguém assistia porque era um saco, ninguém entendia nada e tava muito ruim que precisava ser alguém que pudesse trazer alguma coisa interessante que eu tinha sido indicado por um aluno meu. Eu falei: "Mas eu não sou palestrante, não, mas é a mesma coisa.
Não, não é não. O professor faz uma cagada aqui, ele tem um ano para consertar. O palestrante só tem um tiro para dar.
Não é a mesma coisa. Não sou tonto. Eu falei: "Esse aluno me indicou para quem?
" Pro pai dele. Fale para fal assim: "E quem é o pai dele? " Tipo, é Deus aqui no hospital.
Falei: "Ah, então eu fui indicado pelo filho de Deus". Isso. Bom, então vamos continuar a nossa conversa, né?
Eu não posso aceitar porque eh eu nunca fiz esse trabalho e e talvez seja um evento importante demais para fazer pela primeira vez. Mas o sujeito olhou para mim e disse: "É, olhou não, porque era telefone e era telefone, telefone". Disse: "É".
Ele falou: "Professor, deixa eu explicar uma coisa pro senhor. Eu tinha que ter visto um palestrante faz tempo, eu esqueci. Ninguém vai topar de hoje para amanhã".
Aí eu disse, deixa eu ver se eu entendi. Se eu não for, você tá [ __ ] É, é mais ou menos isso. Ora, eu diria que ele arriscou muito, porque 99% das pessoas que eu conheço diria: "Malandro, em, né?
Cada um com seus problemas". Mas ele realmente deu sorte. Eu falei: "Cara, eu vou, mas eu vou por sua causa, viu?
Quanto tempo dura essa [ __ ] dessa palestra? Ah, meia hora. Sobre o que que eu tenho que falar?
Sobre o que o senhor quiser. Aí, tá bom. Aí ele falou: "O senhor, não quer saber quanto nós vamos pagar?
" Veja, eu peguei e falei: "Ah, mas vocês ainda vão pagar? " Eu falei: "Por que que não começou a conversa por aí, né? " Aí ele deu o valor que era mais ou menos 6 meses de salário da da USP, né?
Aí eu falei, "Onde fica esse negócio? que eu já vou hoje para lá para não correr o risco de perder a hora. Quando eu cheguei tava o cof e o cof eu eu aprendi lá na hora.
Coffee é o momento em que tá todo mundo do lado de fora do auditório comendo e as cadeiras estão vazias. Eu olhei e vi cadeira para burro. Era uma época que eu enxergava direito ainda.
Vi cadeira. Falei: "Nossa, para que tanta cadeira? " Aí o cara falou: "É que são 8.
000. pessoa. Falei: "Não, não é possível".
Ele falou que era que nem uma aula. É, mas é que nem uma aula, só que é para 8. 000.
Eu olhei e falei: "Caralho, aí o sujeito viu que eu acusei o golpe, o senhor não quer esperar na no camarim? " Eu entendi que o camarim era como eles chamavam a sala dos professores, né? Aí eu entrei e tinha um vovô sentado que devia ter a aparência que eu tenho hoje, um vovô sentado e ele falou: "Hai, eu falei: "Puta, é gringo ainda.
Tinha que conversar com o gringo em inglês. " Aí ele perguntou para mim: "Wo are you? Fiquei feliz.
Essa primeira pergunta eu entendi. Cultura inglesa básico com um. Who are you?
Eu falei: "I am Cloves. " [risadas] O cara olhou para mim, procurou no programa, "What are you gonna talk about? " Aí eu falei: "Ethic, uau, achei até uma ponta de ironia".
Falei: "Por que uau? " Ele falou assim: "8. 000 1 pessoas vieram você ouvir falar sobre ética, que é um assunto que mais ou menos todo mundo sabe do que se trata, é porque você deve ter revelações incríveis, bombásticas para fazer.
Aí aí que eu me dei conta que o que eu tinha para dizer era de uma obviedade absoluta, tipo 10 mandamentos, não furte, não sei, aquela coisa óbvia, né? Aí eu falei: "Não, deixa eu explicar. Eu não sou nem o palestrante.
Eh, eu tô aqui quebrando o galho pro cara lá do hospital, queridos. Não tem nada a ver com isso. Aí ele falou: "Eu conheço gente como você.
Você deve ser you must be an outstanding speaker. Você deve ser um palestrante extraordinário. " Eu falei: "Não, nem palestrante eu sou nem speaker, muito menos outstanding.
" Tô tentando te explicar. Tô aqui quebrando o galho pro cara. Ele falou: "Eu sei, gente, como você como é.
Aí eu me aborreci, me sentei, mas a minha mãe me deu educação. Ele tinha perguntado, eu tinha que perguntar também. Perguntei: "E você?
" Ele falou: "Ah, eu vim falar de matemática". Falei: "Ô, bacana. Ah, mas a minha matemática é aplicada às pessoas".
Falei: "Ah, bacana". Ele falou: "É, eu vim apresentar minha teoria". Aí foi a minha vez de dar uma risadinha.
Ah, você tem até uma teoria. Aí ele olhou para mim e disse: "É, depois que eu ganhei o prêmio Nobel, ela ficou muito conhecida. Eu eu sabia, eu tinha certeza que o Faustão ia entrar, sabe?
Porque era uma grande armação, né? Aí eu peguei e falei: "Nobel Prize". Ele: "É, mas qual é a sua teoria?
" Teoria dos jogos. A teoria dos jogos não é daquele matemático biruta do do filme uma mente brilhante, John Nash. Aí ele abaixou o zíper e tirou o crachá.
Nash. Aí eu ol >> mentira. >> Aí eu olhei, ele pegou e falou: "Aquele era um ator".
Eu falei: "Eu eu supo, mas ele encena muito bem. Eu sou tão doido quanto ele mesmo. Falei aí ele falou: "Eu quero muito assistir a sua palestra".
Eu falei: "Não, you stay here, man. Aqui tem coxinha, croquete, se diverte aí". Aí me chamaram, ele falou: "Faz uma, faz um H lá que eu vou dar a volta".
Aí eu assumi o púlpito. 8. 000 pessoas.
Eu não enxergava nada, mas vi um uma figura correndo passos miudinhos e se sentando na minha frente. Ele botou o auricular de tradução e fez assim para mim. Aí eu pensei, o prêmio Nobel saiu correndo para me ouvir.
Tem 8. 000 pessoas aí. Eu só tenho duas saídas possíveis.
Ou eu saio daqui correndo agora todo cagado, que era o mais normal, ou eu morro atirando. Eu lembrei do meu pai, né, que invariavelmente se referia a mim como seu bosta. Aí eu eu pensei, meu pai já tinha morrido na época, mas eu lembrei dele, eu lembrava dele sempre.
Eu falei: "Eu não tenho outra, eu tenho que morrer atirando". Eu dei uma palestra enlouquecida, você não tem noção. Eu ia, voltava, deitava, gritava, dava, contei um ano de piada em meia hora, conceito, exemplo.
E e aí acabou o meu tempo e eu falei: "Eles querem que eu pare de falar". Aí todo mundo continua, continua. E aí eu, fuck you, man.
I'm gonna continue. Pau, pau, pau. Quando terminou, os 8000 levantaram.
Aí eu olhei para ele, ele jogou o auricular no chão e não é que ele aplaudia como os outros, ele faz fazia assim, ó, assim, ó, >> caramba, >> como se o time dele tivesse ganho. Aí ele deu a palestra dele, eu fiquei esperando ele terminar. Quando chegou no final, ele tava ali se arrumando para ir embora.
Eu bati no na falei, queria fazer uma pergunta para você. Pô, você tá aqui no camarim, chega um Zé Ruela. assim, anônimo, desconhecido.
Você tinha todo o direito, pelo menos, de me ignorar, mas eu mesmo já fui tripudiado por gente que não vale uma canela sua. E, no entanto, você fez de tudo para me pôr para cima. Foi até assistir a minha palestra.
Qual é a sua? Por que você fez isso? Ele pegou e falou: "Olha, eu passei muito tempo da minha vida buscando o meu próprio reconhecimento e como você deve perceber, eu obtive todo o reconhecimento.
Não tem para onde ir mais. " Só que não preencheu a minha alma. Eu comecei a perceber que preenchia muito mais a minha alma quando eu servia de trampolim pros outros, quando eu ajudava, quando eu estendia a mão, quando eu aí quando você entrou, eu vi que você tava desfigurado, com a alma esvaziada.
Eu não conhecia você não, mas eu resolvi apostar. E como você pode perceber, eu sempre tenho razão. You are a fucking outstanding speaker.
Só tava faltando mesmo um empurrão. Eu eu chorava, sabe? Lembrei da minha mãe, entendi que aquilo ali equivalia, né?
equivalia ao pedala [ __ ] do meu pai, que sempre foi a pessoa mais importante em toda a minha vida. Então, se eu tivesse que que te dizer uma coisa para concluir essa nossa fala, eu te diria que esse binômio, esse binômio autoconfiança e autoestima é um binômio de avaliação de si mesmo, que depende muito de você. Você é o melhor avaliador de você.
E se você não aceitar menos do que a sua nota 10, eu te garanto, a sua vida será muito melhor do que chafurdado numa mediocridade, aonde meio que tanto faz como fez, onde você fica esperando o tempo passar. E a sua única meta é ter dois ou três piores que você para quando vier a degola serem eles os degolados e não você. É uma pena porque você vale muito mais do que isso.
É uma excelente maneira de jogar a vida no lixo, pelo menos em parte. Se você der o melhor de si, independentemente do aplauso do outro, vai ser muito bom para você. Você é o melhor avaliador.
Eu insisto nisso. Às vezes eu saio contente da palestra e alguém me diz: "Não sei se gostaram tanto assim". E eu respondo: "Foda-se, [ __ ] cara".
Porque quem entende de palestra sou eu. Quem sabe das minhas possibilidades sou eu. Aqui quem sabe explicar sou eu.
Aqui quem sabe já sou eu. Eu é que tenho que avaliar. Eu é que tenho que avaliar.
E eu me dei uma nota alta. M.