O que dá sentido à sua vida? Deus, amor, dinheiro, trabalho, esporte, justiça, filosofia? Você já pode ter sua própria visão sobre o propósito da vida ou talvez esteja esperando que este vídeo o ajude a encontrar um significado.
Também pode acreditar que nasceu com essência única como ser humano, com um propósito definido por Deus. Qualquer que seja o caso, ninguém lhe culparia por querer que sua vida tenha sentido. Um propósito é algo que todos desejamos, talvez até precisemos.
Para muitos, a busca por propósito é central à existência. Talvez você encontre propósito na religião, em causas sociais, na arte ou em conexões humanas. Mas segundo os existencialistas, nenhuma dessas fontes garante sentido por si só, a menos que você mesmo cree.
O significado, portanto, não está nessas coisas em si, mas na interpretação que cada pessoa dá a elas. Essa é a ideia chave do existencialismo, corrente filosófica que ganhou destaque no século XX, especialmente por meio do pensador francês Jean Paul Sartre, que nasceu em 1905 e viveu até 1980, cuja vida deobra exploraram a angústia e a liberdade envolvidas em atribuir significado à própria existência. Na Grécia antiga, Platão e Aristóteles defendiam que tudo possuía uma essência, um conjunto de propriedades fundamentais que define o que algo é.
Por exemplo, uma faca pode ter qualquer tipo de cabo, mas sem uma lâmina deixa de ser faca. A lâmina é sua essência e será aplicada inclusive aos seres humanos. Acreditava-se que nascemos com essência pré-definida, um propósito essencial atribuído por Deus ou pela própria natureza.
Segundo essa concepção, nossa essência existe antes mesmo do nascimento e determina quem somos. Assim, viver em conformidade com essa essência seria a chave para sermos considerados bons humanos. Essa visão, conhecida como essencialismo, predominou por milênios.
Porém, no final do século XIX, pensadores como Frieder Niet desafiaram essa visão propondo que a vida não tem sentido inerente, ou seja, não tem sentido algum. Esse pensamento radical ficou conhecido como niilismo. É nesse contexto que surge Jean Paul Sartre com a frase revolucionária: "A existência precede a essência".
Para Sartre, nascemos sem essência ou propósito pré-determinado. Primeiro existimos, depois decidimos quem somos. Somos obrigados a inventar nossa própria essência por meio de nossas ações e escolhas.
Esses pensamentos formam a base do existencialismo e podem parecer chocantes porque por milênios acreditava-se que Deus dava esse propósito. Agora o fardo é nosso. Apesar de Jean Paul Sartre, seu principal expoente do existencialismo, suas raízes remontam ao século XIX, com pensadores como Soren Kirkegard e Frederit Niet, que são considerados seus precursores.
No entanto, o existencialismo enquanto movimento filosófico ganhou força, especialmente durante e após a Segunda Guerra Mundial, quando os horrores do conflito e do holocausto abalaram profundamente a fé em um mundo ordenado e racional. Diante da crise provocada pelo totalitarismo e pela guerra, Sartre respondeu com a filosofia que encarava de frente a ausência de sentido pré-estabelecido, explorando um dos aspectos mais angustiantes do existencialismo, a liberdade radical e a responsabilidade individual por dar sentida à própria existência. Essa condição de existir em universo sem sentido dado nos confronta com o que os existencialistas chamam de o absurdo, a busca por respostas em um mundo que não as oferece.
Vivemos em um cosmos que não tem propósito pré-definido, sem justiça cósmica ou ordem natural. Ainda assim, ansiamos por sentido. Somos criaturas que gritam por significado no vazio e o silêncio como resposta define o absurdo.
Mas em vez de desespero, Sartre vê isso como uma oportunidade. Somos livres para criar o sentido. Entretanto, essa liberdade não é leve, é uma liberdade radical.
Estamos condenados a ser livres. Para Sartre, a ausência de diretrizes externas torna cada um responsável por seus próprios valores e decisões. Nenhuma autoridade, nem pais, igreja, governo, pode nos dizer como viver de forma autêntica, porque todas essas instituições são compostas por pessoas tão livres e perdidas quanto nós.
Embora muitos existencialistas fossem ateus, alguns eram teístas, como Soren Kirkegard. O ponto comum entre eles é a negação da teleologia, a ideia de que Deus criou o mundo com um propósito específico. Assim, mesmo com Deus, a vida não tem sentido inerente.
Cabe a nós criá-lo. Diante da liberdade radical e da necessidade de lidar com absurdo, Sartre propõe a ideia de autenticidade. Viver de acordo com os valores que cada indivíduo escolhe para si.
Viver de forma autêntica é aceitar o peso da liberdade, reconhecer que o sentido da vida vem de você e recusar seguir caminhos impostos sem reflexão. O oposto disso é viver em má fé, fingir que não temos escolha, que tem que ser assim. Ma fé é a recusa em aceitar o absurdo e a liberdade que ele impõe.
Isso acontece, por exemplo, quando nos escondemos atrás de papéis sociais, como um garçom que acredita ser apenas um garçom e não um ser livre, que poderia ser qualquer outra coisa. Esse garçom age como se sua identidade fosse fixa, negando sua liberdade de ser diferente. Sartre acreditava que muitas vezes negamos nossa liberdade ao nos agarrarmos a justificativas externas, por exemplo, questões financeiras.
Quantas vezes dizemos: "Eu faria isso, mas não posso por causa do dinheiro". Para ele, isso é uma forma de má fé, o autoengano que usamos para evitar encarar nossa liberdade e responsabilidade. Em sua crítica ao capitalismo, Sartre argumentava que esse sistema fabrica necessidades ilusórias e nos faz acreditar que não temos escolha, contribuindo para essa negação da liberdade.
Por isso, ele se interessou pelo marxismo, vendo nele uma possibilidade de compreender e transformar as condições materiais que limitam a realização plena da liberdade humana. Sartre ilustra sua filosofia com a história de um aluno que enfrentava uma decisão difícil: ir à guerra por uma causa justa e deixar sua mãe idosa sozinha ou ficar com a mãe e não lutar pela justiça. Ele tinha senso de dever com ambos, mas só podia escolher um.
Na guerra seria uma pequena parte de algo grande. Em casa faria enorme diferença na vida de uma única pessoa. Qual a escolha certa que o aluno deveria fazer nesse caso?
Sartre responde: Ninguém pode dizer. Não existe uma resposta correta. Nenhuma teoria moral poderia ajudá-lo ou decidir por ele.
A única escolha válida será aquela feita de maneira autêntica, com base em seus próprios valores. Sartre também se dedicou a mostrar como o mundo cotidiano pode parecer estranho quando observamos com atenção. No romance A náuseia, o protagonista Rocket, ao tocarem um banco no bonde, sente um arrepio.
O objeto comum se revela absurdamente estranho. A palavra banco se desfaz e o objeto brilha em sua estranheza bruta. É a percepção direta da absurdidade do mundo.
O momento em que vemos a realidade sem os filtros do hábito e da linguagem. Essa consciência nos convida a questionar tudo. Um simples jantar, por exemplo, pode ser descrito como dois mamíferos mastigando cadáveres de plantas e animais enquanto escondem as pernas sob pedaços de árvore cortada.
O comum torna-se radicalmente esquisito. Apesar de muitos verem o existencialismo como sombrio, ele pode ser profundamente libertador. Como disse Albert Cami, o sentido da vida é qualquer coisa que te impeça de se matar.
A vida não tem sentido pré-definido, mas isso não significa que ela não possa ter sentido algum. Ela pode ter o significado que você decidir atribuir a ela. Você pode escolher um propósito e ninguém pode dizer que sua vida é sem sentido por não seguir os padrões esperados.
Isso vale para indivíduos e para a sociedade. Se quisermos justiça, ordem e compaixão no mundo, teremos que criá-los nós mesmos. Caso contrário, essas coisas simplesmente não existirão.