Olá, meu nome é Vilson Leffa e meu objetivo neste vídeo é explicar o que é identidade, o que vou fazer em dois momentos. No primeiro, mostro como as identidades são construídas por meio da relação com o outro. Depois, no segundo momento, explico como as identidades se transformam com o tempo.
Vamos lá. A identidade é algo que se constrói na relação com o outro. Para que eu me identifique como alguém que existe no mundo é necessário que haja outras pessoas no mundo, com as quais eu possa fazer um contraponto e me constituir como identidade.
Eu preciso da existência do outro para adquirir uma identidade. Teoricamente, a identidade pode surgir também na igualdade quando coisas ou pessoas são idênticas. Ah, professor.
Não há a mínima possibilidade de duas coisas serem idênticas. A identidade é uma coisa única. Cada um tem a sua.
Não existe outro Frederico idêntico a mim. Eu sou único. Te acalma, Frederico.
É exatamente o que eu ia dizer. O Frederico é o Frederico, o Sócrates é o Sócrates, o Leffa é o Leffa. Cada um de nós tem um conjunto de atributos que nos identifica.
São características, traços, qualidades que nos distinguem, nos diferenciam, nos tornam diferentes um do outro, cada um com uma identidade diferente. Não estamos falando aqui de identidade como igualdade, mas de identidade como diferença. Eu só posso ser brasileiro, se existirem argentinos, paraguaios, peruanos.
Ainda que o brasileiro típico seja um Frankenstein, sem identidade porque é feito de pedaços dos outros, segundo Cony, eu acho que é justamente aí que está a identidade do brasileiro. Uma mistura de cores diferentes. A necessidade de um contraponto para constituir a identidade acontece em várias dimensões: entre nacionalidades, etnias, religiões, torcidas de futebol, profissões etc.
Eu só posso ser gaúcho, por exemplo, se existirem baianos, capixabas, cariocas. Em resumo, minha identidade só existe se existir uma outra identidade que se contrapõe à minha. Ah professor.
Pelo que o senhor está dizendo, eu não posso ser terráqueo, porque não existem habitantes em outros planetas para se contraporem a mim. Mas eu sou terráqueo. Te acalma, Frederico.
O contraponto necessário para constituir minha identidade pode ser também um ser imaginado ou hipotético, como um habitante de outro planeta. Você é terráqueo porque alguém imaginou que possam existir outras identidades que se oponham a nós habitantes da terra, como marcianos, venusianos, jupterianos ou mesmo. .
. lunáticos. Vejamos algumas tiradas de humor que mostram a necessidade de se criar uma identidade oposta à nossa como terráqueos: A política é algo de outro mundo.
É por isso que eu não entendo os políticos! Eu sou terráqueo, eles são lunáticos. Ele é nacionalista e eu sou terráqueo!
Eu não sou brasileiro! Eu sou terráqueo. Todos esses exemplos jogam com o conceito de identidade em relação ao outro, criando até um outro inesperado, para poder se justificar como terráqueo.
Então! Podemos discutir a identidade como contraponto ao outro, numa perspectiva espacial, horizontal, pela qual a identidade se CONSTRÓI. Mas podemos também discutir a identidade numa perspectiva temporal, pela qual vemos a identidade EVOLUIR dentro de uma dimensão histórica.
Nessa dimensão histórica, a identidade é como a água, que se apresenta na natureza em três estados: sólido, líquido e gasoso. Por ser uma perspectiva histórica, há uma evolução. A identidade começa em estado sólido, passa pelo estado líquido e chega, em nossos dias, ao estado de vapor.
O período inicial da solidez é o mais longo de todos. Estende-se desde o começo da história até a revolução industrial no século 18. A identidade do ser humano permanece inalterável por mais de 7 milênios, em cada indivíduo, comunidade, classe social ou civilização.
Quem nascia plebeu, morria plebeu; quem nascia nobre, morria nobre. Mais ainda: acreditava-se que quem nascia plebeu ou nobre passava sua condição, plebeia ou nobre, para todas as gerações futuras, incluindo filhos, netos, bisnetos e, assim, indefinidamente, até o final dos tempos. A grande mudança veio com a revolução industrial, quando as máquinas começaram a fazer o trabalho que era feito por mãos humanas, alterando as relações com o outro.
De repente nos tornamos burgueses e proletários, não mais trabalhando como nossos pais trabalhavam. Tivemos que aprender a nos adaptar a um novo mundo, criando uma identidade mais flexível, que Bauman, mais tarde, chamaria de Identidade Líquida, vista por ele como algo negativo. Para Bauman, essa nova identidade se caracteriza pelo imediatismo nas relações, sem vínculos duradouros, voltando-se apenas para o momento presente.
Depois das fases sólida e líquida, da identidade, chegamos finalmente ao que vou chamar de identidade em estado de vapor. O sujeito não se constitui apenas em função de um outro, mas de vários outros, fragmentando-se em inúmeras identidades, com a possibilidade de chegar ao nível da pulverização. Nenhum recipiente o contém mais; evapora-se no ar e expande-se para ocupar todo o espaço disponível.
Se lá no Antigo Egito o sujeito estava preso a sua aldeia, hoje ele vaga pelo espaço, constituindo-se em nicknames e avatares nas inúmeras redes sociais que recobrem o planeta. As identidades reais unem-se às virtuais. Vou concluir com uma citação de Stuart Hall, que contribui para dar uma ideia clara de como a identidade, historicamente sólida no seu início, agora evolui para um estado de vapor, que flutua e se desmancha no ar.
Diz ele: Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem ‘flutuar livremente’. Gente, por hoje é isso. Se gostou, dê seu like e compartilhe nas suas redes.
Muito obrigado pela atenção.