Olá pessoal Espero que todos e todas estejam bem eu me chamo Sindel Augusto e estou ministrando ao lado de arine nascimento e Marcos Neira o curso de extensão chamado relações de gênero no currículo cultural da Educação Física no âmbito do grupo de pesquisas em educação física escolar os objetivos dessa videoaula que é a videoaula dois deste curso é conhecer o contexto de emergência do termo ideologia de gênero e refletir sobre as disputas para o debate sobre o gênero na escola a partir do texto ideologia de gênero notas para a genealogia de um Pânico moral contemporâneo
de Richard miscou e Maximiliano Campana Richard miscou é professor associado do departamento e do programa de pós-graduação em sociologia da UFSCAR e pesquisador do CNPQ e Maximiliano Campana é membro da clínica de interesse público Associação civil e dos direitos sexuais e reprodutivos da faculdade de direito da Universidade Nacional de Córdoba e Doutor em direito e Ciências Sociais pela mesma universidade os autores iniciam falando que a o termo ideologia de gênero tem ganhado cada vez mais terreno no debate público principalmente através de temas como saúde reprodutiva de mulheres educação sexual nas escolas e reconhecimento das identidades
de gênero e sexualidade dissidentes existe um medo de uma suposta ditadura comunista que surgiria num contexto de partidos de esquerda num cenário de esquerda no no no poder e isso ameaçaria então os valores cristãos a moralidade e a família esses sujeitos que denunciam essa suposta ideologia de gênero eles não são um grupo coeso necessariamente no discurso por mais que eles estejam inscritos no mesmo Campo discursivo de ação por mais que se partire de algumas preocupações políticas e culturais não necessariamente esses sujeitos defendem as mesmas pautas da mesma maneira mas se tem como tema central essa
ideia da ideologia de gênero que colocaria em cheque a essência da mulher a essência do homem a essência dos papéis sociais de gênero dentro desse Campo do binário masculino e feminino e que iria então por conta disso eh colocar abaixo a moralidade Cristã a família e os seus valores pensando no contexto de surgimento dessa ideia de ideologia de gênero a gente tem por exemplo nos Estados Unidos e na Europa na década de 60 já um período de conquista dos direitos sexuais e reprodutivos enquanto no Brasil a gente tinha o contexto ditatorial como a retirada de
direitos e extrema violência de maneira que essas pautas elas não podiam estar eh ocupando a cena pública já no período de redemocratização do país existia uma disputa discursiva inclusive por parte desses grupos minoritários politicamente em torno do que era fundamental naquele momento e aí se pensou Então né Qual que é o lugar das pautas de gênero sexualidade raça por exemplo Nesse contexto em que o país estava passando por um cenário bastante complexo de redemocratização essas seram pautas que deveriam ocupar a cena naquele momento ou elas deveriam ser deixadas para depois tendo em vista que a
democracia num contexto mais amplo ainda estava muito sensível né então existi uma disputa de quais são as pautas que deveriam estar em cena ou não mas esses sujeitos já começaram a ocupar novamente a cena pública com mais segurança tendo em vista que eles já ocupavam no momento de ditadura como uma inclusive um grupo de resistência que aquele período Isso vai ser abordado de maneira mais aprofundada na videoaula três eh pensando num contexto mais amplo a gente tem uma influência da igreja católica né nesse contexto de surgimento do que seria essa ideia da ideologia de gênero
a partir de textos do então Cardeal Joseph que depois né virou o Papa Bento XV em que ele falava sobre essa essência da mulher a essência do homem que esses preceitos deveriam ser seguidos porque isso era vocação desses sujeitos algo no sentido de uma natureza mesmo que era eh inegociável ele ainda não falava em termos de ideologia de gênero Mas você já percebia aí uma defesa bastante incisiva desse lugar natural que esses sujeitos deveriam seguir na quarta conferência mundial sobre a mulher que foi organizada pela on em 1995 Você tem uma diferenciação em relação às
outras três conferências que vieram anteriormente nessas três primeiras o termo mulher era o que aparecia em termos das reivindicações das pautas que eram propostas naquele documento e na quarta conferência você tem a mudança do termo mulher pro termo gênero entendendo a partir daí essa estrutura eh de poder maior que organiza essas relações de gênero não só ligadas à ideia da mulher principalmente pensando a partir dos questionamentos que mulher é essa quem são essas mulheres dá para existir um contexto de uma mulher Universal em que se tenha eh essas similaridades em todas para todas as mulheres
em todos os espaços do mundo então dentro desse contexto começou-se então a debater as questões de gênero e por conta disso gerou-se né uma grande eh um grande movimento A partir dessa desse surgimento do termo na pauta pública e o Papa então né o então Papa João Paulo I escreveu uma carta às mulheres aberta que vocês podem eh procurar na internet que ela funcionou como uma contraofensiva católica para colocar eh esse lugar da mulher que não era esse lugar que tava sendo reivindicado então Eh num contexto de gênero mais amplo e eu separei alguns trechos
dessa carta pra gente ler aqui então o primeiro trecho diz o obrigado ao senhor pelo seu desígnio sobre a vocação e a missão da mulher no mundo torna-se também um concreto e direto Obrigado às mulheres a cada mulher por aquilo que ela representa na vida da humanidade Então você já vê aí no início da carta essa ideia de que existe uma missão Divina das mulheres alo que deve ser seguido tendo em vista que tá nesse âmbito da missão segundo trecho obrigado a ti mulher esposa que unes irrevogavelmente o teu destino ao de um homem numa
relação de recíproco Dom ao serviço da comunhão e da vida então eh ele vai colocando vários obrigados a mulher mãe a mulher esposa a mulher irmã e nesse sentido da mulher esposa ele coloca que ela ela une irrevogavelmente o desino dela é um homem então a heterossexualidade compulsória já aparece aí como se não tivesse a possibilidade de nenhuma outra sexualidade né Eh Um Destino que ele é irrevogável não existe uma condição diferente da que as mulheres se unam a um homem né numa relação que vai ser de como a serviço da comunhão e da vida
então como se fosse um serviço que a mulher precisa prestar eh para que a vida continue né terceiro trecho por outro lado de ante de Tais perversões quanto louvor merecem as mulheres que com amor heroico pela sua criatura carregam uma gravidez devida a injustiça de relações sexuais impostas pela força Então nesse trecho que ele tá falando sobre situações de estupro ele diz que as mulheres devem ser louvadas por com amor heróico né por essa por essa criança que vai estar sendo gestada continuarem essa gravidez então eles colocam no sentido de louvar esse sujeito que não
consegue ter direito ao próprio corpo e is escolher continuar ou não com essa gravidez mesmo numa situação de extrema violência né por isso que a gente vê hoje tantas ofensivas eh no sentido de países que estão lutando e reivindicando a legalização do aborto como uma questão de segurança pública né e de saúde pública eh portanto na criação da mulher está inscrito desde o início o princípio do auxílio e auxílio note-se não unilateral mas recíproco a mulher é o complemento do homem como o homem é o complemento da mulher a feminilidade realiza o tanto como masculinidade
mas como uma modulação distinta e complementar Então nesse trecho aqui a gente percebe por exemplo que existe uma um conceito uma ideia de mulher que ela é inegociável desde o princípio dos tempos né então é algo como se fosse uma essência com a qual já se nasce que por isso não pode ser mudada alterada né E essa mulher sempre aparecendo como um complemento do homem como algo que vem para estar no auxílio de né e a gente consegue ver ao encontro dessa dessa última frase que coloca que de fato é no doar-se aos outros na
vida de cada dia que essa mulher encontra a profunda vocação da própria vida e ela que talvez mais que o próprio homem vê o homem porque o Vê com o coração vê independentemente dos vários sistemas ideológicos e políticos na sua grandeza e nos seus limites procurando ir ao seu encontro e ser-lhe de auxílio então uma vocação da vida da mulher Estar ao auxílio estar ser vindo a esse homem e coloca aqui também já esse lado como se as mulheres fossem muito mais emoção e que por isso a gente pode relevar as coisas a gente tem
que passar por esses essas situações de provação para mostrar que a gente tá alcançando o lugar Divino eh que é colocado paraa mulher como seu destino desde o princípio dos tempos então a gente vê esse documento que é um documento da Igreja Católica né escrito por esse Papa colocando aí um cenário de gênero possível para as pessoas porque a partir desses documentos dessa produção discursiva a gente vê aau o o tema de gênero né Eh tomando a pauta pública a partir de certos princípios e de certas ideias então esses documentos necessariamente influenciam na construção de
uma ideia do que é gênero né Eh já na quinta conferência geral do episcopado latino-americano e do Caribe que é o celan de 2007 já se tem uma ideia mais incisiva do que a ideologia de gênero como uma ameaça a condição natural da sexualidade humana já tendo aí também uma confusão do que é gênero e do que é sexualidade né na página 120 195 desse documento que é um documento bem extenso se tem ali eh um trecho que diz que é necessário estimular e promover a educação integral dos membros da família especialmente daqueles membros da
família que estão em situações difíceis incluindo a dimensão do amor e da sexualidade então de maneira eh indireta se coloca que as pessoas que não estão dentro do da do cenário da heterossexualidade compulsória vale dizer né Essas pessoas precisam estar sendo educadas de maneira integral pelos membros da família né Eh então existe uma eh um um cuidado porque essa pessoa não estaria conseguindo cuidar de si mesma e aí na página 208 diz que se eh Se diz que a família é insubstituível para a serenidade pessoal e para a educação dos filhos as mães que querem
dedicar-se plenamente à educação dos seus filhos e ao serviço da família Devem ter as condições necessárias para poder fazê-lo E para isso tem direito de contar com o apoio do Estado de fato o papel da mãe é fundamental para o futuro da sociedade o pai por sua parte tem o dever de ser verdadeiramente pai que exerce sua indispensável responsabilidade e colaboração na educação dos filhos ou seja né esse cenário que a gente vê hoje em que os pais eles colaboram com a formação dos filhos mas o papel de fazê-lo é da mãe né como esse
ato que ele já surge desde o princípio na sua essência de mulher né de Cuidar dessa criança então é o dever dela para com a família e com o estado eh a gente vê também a ideia da ideologia de gênero tomando a partir de então o debate público porque quando esses documentos vão sendo eh organizados você também tem uma propagação desse discurso nos vários âmbitos da sociedade e aí você tem algumas ações que Começam a surgir Então por parte desses grupos conservadores que querem combater essa suposta ideologia de gênero primeiro algumas ações políticas colocadas aí
né nessa categoria pelos autores como por exemplo Lobby legislativo ou denúncias a pessoas que são funcionárias públicas você tem ações jurídicas né como apresentação de ações judiciais em que usam-se argumentos legais e supostamente científicos sobre os perigos da ideologia de gênero paraa sociedade e supostamente científicos né porque a gente vê aí muitas pesquisas que elas partem de um viés já conservador e já de uma premissa de gênero a partir de uma ideia biológica que já está ultrapassada né Eh para tentar justificar os argumentos que elas defendem ações midiáticas através de manifestações públicas programas de rádio
televisão congressos acadêmicos né e eh etc congressos acadêmicos entre aspas porque não necessariamente eles partem de pesquisas que são confiáveis né O que que são esses congressos que estão sendo organizados de maneira não institucional por aí né Eh e também da criação de grupos como por exemplo escola sem partido que surgiu em 2004 que Visa né na na letra do do que se diz no documento combater a doutrinação política e ideológica na sala de aula e a usurpação do direito das pessoas familiares sobre educação moral e religiosa dos seus filhos e filhas ou seja como
se a escola estivesse tentando doutrinar essas crianças adolescentes jovens e pessoas adultas quando na verdade a gente sabe que existe eh um cunho ideológico inclusive já na no discurso desses grupos conservadores né então o que a gente tenta fazer é gerar um espaço de produção de de reflexões críticas para que as pessoas tenham condição de refletir sobre esses temas de maneira mais autônoma e também mais democrática solidária e com sensibilidade para entender as diferenças como condição de existência eh e aí a gente tem que pensar Então como que surgiu né Essa O que que tem
pode ter de similaridade como que surgiu esses debates Nas questões sobre as questões de gênero de maneira mais Ampla a gente tem três pontos que os autores eh destacam o primeiro deles que todas ocorreram a partir da Virada do milênio o segundo que emergiram em países que passaram a ter governos de esquerda então a importância de se ter governos com um olhar mais sensível a esses grupos e também que elas se deflagraram em torno de reformas educacionais Ilegais Ou seja quando você tem eh direitos sendo conquistados quando você tem essas pautas tomando o espaço público
e espaço e Arena política Você tem uma reação necess ente a esses direitos que estão sendo conquistados né então historicamente Não é a primeira vez que isso acontece e a gente sabe que isso é um movimento que se repete Então você tem essa conquista de direitos e você tem uma reação de certos grupos que não concordam com isso nessas mudanças do cenário político social econômico e cultural a gente vê que surge um Pânico moral e o ST lecoin disse que esse Pânico moral é algo que passa a ser definido como um perigo para valores e
interesses ários sua natureza é apresentada de uma forma estilizada e estereotipada pela mídia de massa as barricadas Morais São preenchidas por editores bispos políticos e outras pessoas de direita especialistas socialmente aceitos pronunciam seus diagnósticos e soluções e recorre-se então a formma de enfrentamento ou procura se desenvolvê-las ou seja se tem um tema que as pessoas passam a olhá-lo a partir desse Pânico moral ou seja estão eh acabando com a família estão acabando com os nossos costumes com nossos valores eh a parte desses discursos que vão se inflando e tomando o cenário público né que são
discursos de ódio que são eh discursos que são baseados no senso comum em muitas vezes em fake News eh em bastante violência eles vão sendo divulgados a partir das várias eh mídias a partir dos vários documentos oficiais por diversas figuras políticas figuras públicas importantes eh E você tem então esses grupos que vão né se configurando não como grupos coesos mas como grupos que t esse tema em comum para tentar combatê-lo né Por exemplo alguns temas que fazem com que esses grupos surjam casamento de pessoas do mesmo sexo legalização do aborto em alguns países uso do
nome social em documentos oficiais a inserção dos debates de gênero de sexualidade nas escolas dentre outros então a gente vê que conforme no Brasil esses essas pautas foram aparecendo e a gente foi ganhando leis ou então Eh projetos para colocar esse sujeitos num outro cenário num cenário de garantia de que eles sejam entendidos como cidadãos né Eh que tenham seu direitos garantidos você vê uma contraofensiva de grupos que não concordam com esses direitos sendo garantidos é isso agradeço imensamente a vocês pela assistência da aula ela não substitui a leitura do texto Então convido todo mundo
a fazer a leitura e nessa aula nós teremos a participação de um convidado especial Alexandre Bortolini para falar um pouquinho mais para vocês a partir das pesquisas dele sobre as questões do escola sem partido ideologia de gênero dentre outros temas Encontro vocês lá obrigada