Será que tá faltando um componente de propósito de vida? A gente se deixa prender pelas tantas futilidades que vão aparecendo ou cair numa zona de conforto? Isso é bem intrigante, né?
>> Dizem que é um momento onde o ser humano esgota a mera sobrevivência como sentido de vida. ele começa a se interessar por algo mais sutil, mais profundo, a razão de estarmos aqui, o nosso propósito, o que é um ser humano, como realmente construir a cada um de nós como ser humano, mas essa é uma necessidade que cada um internamente chega a ela num determinado momento. Conta-se que uma ocasião perguntaram a Sócrates se ele, com toda a habilidade que ele tinha como filósofo, seria capaz de transformar uma pessoa que era um não filósofo num filósofo.
Perguntam para eles: "Se se amarrarmos os 30 tiranos aqui e você falar para eles, quando a gente soltar eles serão filósofos? " Ele responde de uma maneira muito curiosa. Ele diz: "A minha mãe Fenaretes era parteira e era uma excelente parteira, mas tem uma coisa que ela jamais seria capaz de fazer, que é dar a luz a uma mulher que não estivesse grávida.
" >> Uhum. >> Entende? Ou seja, existe essa gravidez da filosofia que num determinado momento desperta no ser humano e às vezes ele toma como um sintoma negativo.
Nossa, sem inquietude que eu não tinha, agora eu me sinto incomodado, eu não me sentia. Então, na verdade é um ponto importantíssimo no nosso processo de ampliação de consciência, onde a gente simplesmente não faz mais mecanicamente aquilo que o meio comanda, mas a gente começa a ter necessidades humanas de entender o porquê, de estarmos aqui, de termos propósitos. de termos um objetivo mais, digamos assim, humanista, baseado em valores.
Ou seja, você entra num terreno um pouco mais metafísico em relação à vida. Cada um tem o seu momento. O que nós podemos fazer é gerar todo um conjunto de provocações que possa puxar essa pessoa para esse momento, mas não obrigá-la.
Então, não é que a filosofia um dia chegou e deu aquela picada. A filosofia estava falando o tempo todo. Um dia você se preparou para ouvir.
>> É como se você imaginasse que as musas gregas estivessem soprando o tempo todo a nona sinfonia. Um dia um ouvido se preparou para recebê-la, que foi o de Betoven, n? Então, cada ser humano tem o seu ponto filosófico que começa a se sentir inquieto, começa a ter, perdão, >> começa a se sentir inquieto, começa a ter a necessidade de justificar a sua presença no mundo.
>> Tem um algum caminho ou que o que a gente algo que a gente possa fazer para deixar a nossa vida mais significativa? Porque se isso talvez tenha a ver também com a maturidade, né? Em algum momento da vida já passei, passamos por experiências e essa inquietude surge, pode ser mais cedo, pode ser mais tarde, às vezes nunca vem.
Tem gente que às vezes tem crianças que eu olho e falo assim: "Minha, nossa, né? Parecem já muito sábias, apesar de pouco conhecimento, né? Né?
De tanta informação. Uma coisa é receber informação, outra coisa é usá-la, né? Praticá-la.
Tem algum caminho pra gente talvez ter uma vida mais significativa, né? Nossa vida é curta, né? >> Sim.
A questão do propósito para mim parece bastante interessante. Uma ocasião eu dava aula para um grupo de pessoas que faziam cuidados paliativos, eram pessoas que tinham pouco tempo de sobrevida. E eu achei muito interessante naquele grupo como todo mundo estava interessado em deixar claro um propósito.
O que que eu vim fazer no mundo? O que que eu vou acrescentar nesse tempo que eu ainda tenho? Eu quero acrescentar mais coisas às pessoas, quero deixar algo que beneficie as pessoas, porque ali elas vem um limite claro.
A vida só vai até ali e, portanto, é necessário pensar o que eu quero fazer com ela. É necessário fazer com que ela some, com que ela faça alguma diferença. Na verdade, nenhum de nós sabe se tem pouco ou muito tempo pela frente.
Seria muito interessante que a gente tivesse essa preocupação de deixar o mundo um pouquinho melhor do que aquele que você encontrou. você sair daqui um pouquinho maior do que você era quando chegou e quando olhar para trás ver que você fez diferença na vida das pessoas que interagiram com você. Saíram um pouco maiores porque interagiram com você.
Ou seja, ser fator de soma, não viver em vão. Essa preocupação quando a gente coloca, não é para você ficar obsecado pensando no futuro, mas para que você tenha uma tônica para o seu presente. Cada decisão que eu tomo, eu penso em beneficiar não apenas a minha pele, mas o máximo de pessoas que eu posso atingir com essa decisão.
começo a ter uma visão mais ampla, mais orgânica, onde eu começo a considerar outros seres à minha volta, uma vez que eu tenho um propósito universalista, um propósito de beneficiar, de deixar o mundo um pouco melhor do que aquele que eu encontrei. Então, sempre falo sobre a questão do propósito, de pensarmos aonde queríamos chegar com tudo isso. Sabe aquela atitude corajosa de imaginar, se eu fosse morrer hoje, que tipo de ser humano eu gostaria de ser nesse momento final?
que que eu gostaria de ter construído como ser humano? Como eu gostaria de ser? Qual o produto final da minha vida?
E o que eu gostaria de ter também feito pelo mundo, pelos outros à minha volta? Ou seja, qual é a minha obra prima, meu produto final? Porque é lógico que a gente só alcança esse produto final quando sabe qual é ele em um momento bem precoce, não é isso?
Senão não chega a lugar nenhum. como um arquiteto que desenha uma planta de uma casa e ali o canteiro de obras se constrói e o mestre de obras o tempo todo olha para essa planta. Objetivo final, onde se vai chegar para saber o que fazer hoje.
>> Uhum. >> O tempo todo o objetivo final está à vista como referência de direção, não como objeto de desejos e de ansiedade, mas como uma referência de direção. Eu acho que em geral a nossa vida carece de propósitos básicos.
Estamos aqui para quê? Para fazer o quê? Porque o que que nós podemos agregar de valor a nós mesmos, ao mundo?
O quê? >> É, se a gente pensar que eh não são todos que despertam ao longo da vida, isso é fato, é impossível todos despertarem ao longo da vida. Eh, e tem >> é e tem um fator que eu acho que é ainda mais complexo, né?
Porque a gente não pode também sociedade ensinar as pessoas, não sei, né? É uma reflexão, mas parei mulher que não está grávida. >> Não, mas e esperar, esperar dizer pra sociedade que tudo bem, tudo chega ao seu momento.
Então não existe um sistema formal de ensino, não existe um sistema formal de trabalho, seria uma utopia ver assim. Então a gente coloca eh em um sistema que já é meio que independente de ser socialista ou capitalista, ele é uma esteira de produção, né, que as a formação das pessoas e chega em algum momento a gente coloca ali uma eh OK, você tem que decidir agora seu propósito de trabalho, que é um talvez antes de >> Isso. Esquece em relação à vida, tem que sobreviver.
>> Você tem que sobreviver >> e isso é um trabalho que você vai fazer. Tem alguns que eh encontram no trabalho um sistema de gamificação, quase é um é um jogo que ele tem tantos estímulos para seguir uma trajetória gigantesca ao longo da daquele período que ele eventualmente nunca vai se questionar. Ao mesmo tempo, a gente fala desse mundo capitalista, vamos dizer assim, e as pessoas que estão nessas posições se justificam pelos sacrifícios.
Cara, eu sacrifiquei minha vida inteira morando em 10 países por essa companhia. Então, eu mereço ganhar mais que os outros. Eu mereço algumas coisas.
>> Uhum. >> Eh, então são vários estímulos em relação ao trabalho. Como que você vê, eh, independente da pessoa tá desperta ou não, a filosofia humana, eh, a filosofia do trabalho, como que ela, eh, como que ela seduz a a que as pessoas continuem cegas e caminhando em frente?
É, na verdade não é a filosofia do trabalho, é uma visão materialista que nós vivemos que coloca um conforto material como único propósito de vida, né? Eu acho curioso se a gente parar para observar e hoje eu vejo inclusive algumas eh organizações pensando já a esse respeito, é que você fala muito que o funcionário perfeito é aquele ambicioso que quer expandir, que que quer ir adiante. Isso nem sempre é verdadeiro.
O egoísmo dentro de uma estrutura de uma empresa, muitas vezes é fatal pra própria estrutura, porque ela é colocada em segundo lugar em função do êxito pessoal desse profissional. >> Uhum. Fala-se que existe uma polaridade entre o materialismo, um trabalho prático e o ideal quando na verdade qualquer corporação que ele mais gostaria de ter é um funcionário idealista, que é aquele que ele busca o ideal em tudo que faz.
E não simplesmente porque vai ganhar mais dinheiro com isso, vai se projetar, mas porque ao buscar o ideal em tudo que ele faz, ele também está buscando o ideal em si próprio. Ele tá tentando encontrar um limite de possibilidades, onde qualquer coisa que passe pela sua mão, ele se entrega inteiro, porque essa é sua filosofia de vida, é assim que ele sabe viver. >> Então a gente faz a a apologia de um determinado profissional que tá longe de seu ideal.
Ah, >> então hoje já existem algumas corporações pelo mundo a fora que começam a perceber isso. Bom, um idealista, um cara que trabalha por ideais, qualquer coisa que você coloque na mão dele, ele vai buscar fazer o ideal. É uma questão, ele se realiza nisso, né?
E é [risadas] perfeito para qualquer corporação, >> né? Então hoje se começa a falar dentro do mundo corporativo de compliance, de questões de ética, cada vez mais tem falado muito de ética dentro das instituições, ou seja, começa-se a colocar valores >> hum >> dentro de um sistema corporativo, começa-se a perceber que isso é muito sadiio para tornar qualquer coisa sólida, quer uma relação pessoal, quer uma relação de trabalho. Quem está indo nessa direção está inovando e tá realmente tendo bastante sucesso.
Ou seja, nós não estamos aqui simplesmente para conquistar fortuna ou projeção social. Nós estamos aqui para buscar a máximo de qualidade em tudo aquilo que a gente faz. Por quê?
Porque queremos o máximo de qualidade na construção de nós mesmos, que é a nossa obra principal. >> Uhum. >> Nosso principal trabalho é a construção de nós mesmos.
Então isso é uma filosofia de vida do idealista. E esse é o cidadão ideal e não ambicioso ou acomodado. Esses eles pensam neles e não na corporação.
Uma primeira oportunidade, isso acontece demais, né? Aquele alpinista que sai saltando de uma instituição para outra, na primeira oportunidade ele pensa apenas em si. >> Uhum.
>> Ou seja, começar a trazer esses valores para dentro do ambiente corporativo, eu acho uma grande sacada que a gente começa a observar em determinados âmbitos. Eu tenho visto isso. >> Isso é legal, né?
Eu eu mudei bastante de empresa, mas nunca foi por um alpinismo assim de acabou que por uma coincidência. Óbvio, se você muda, tenta mudar para uma coisa melhor, mas sempre tem um pouco de egoísmo, né? Você fala: "Pô, tem que me proteger".
Mas sempre foram em situações que eu tentei transformar alguma coisa e aí o mecanismo, o formato, a empresa, a burocracias, o compliance, a falta de propósito, tudo mais, já não me motivava, eu não me sentia motivado com aquilo e e tentava buscar às vezes a solução entre os lugares. Às vezes a solução podia est dentro de mim também. Aí vem o ponto de autoconhecimento, né?
Eh, será que a gente vive uma fase onde ou talvez a humanidade sempre existiu sem se conhecer muito bem? Essa busca pelo autoconhecimento é importante, talvez, não >> é? E é uma busca que no nosso momento histórico se faz mais difícil, acredito, do que em qualquer outra época histórica, porque existem muitas ofertas que vendem para você um pacote pronto de identidade.
As ofertas são muitas. É como se você nascesse. Imagine você o mostrador de um relógio.
Você está aqui no meio-dia, o momento em que você ainda está na barriga da sua mãe, está para nascer. O primeiro presente que você ganha é a máscara. A máscara de da postura social, a máscara a máscara da produção, da postura profissional, perdão, dos diversos ambientes onde você vai viver o que você deve fazer.
Isso é chamado de sociedade relógio. Imagina-se que uma pessoa está aqui nesse ponto em que ele está nascendo. Se você conhece a condição social, financeira dos pais, você pode ter uma noção muito clara de como ele vai estar pensando, se vestindo, fazendo aos 15 anos.
>> Hum. >> Às vezes aos 35, 40, às vezes aos 55, 60. Ou seja, o tipo de amigo que procura os hábitos que terá, como pensará a vida, como encarará o passado, como encarará o futuro.
Isso são máscaras engessadas que a sociedade tem. Isso é sociedade relógica. Você nem nasceu e você já está todo vivido.
>> É verdade. >> Todos os papéis já estão definidos. Então, essa rigidez de de pressão para que o homem assuma determinados papéis já estabelecidos é enorme hoje em dia.
Inteligência, a palavra inteligência vem de interelégere, escolher dentre, escolher dentre todas as coisas que te oferecem que você possa ser aquilo que você realmente é. E isso se torna cada vez mais difícil. exige um nível de identidade, um nível de vida interior, um nível de reflexão, onde você não aceite passivamente todas as coisas que são oferecidas.
Então, a oferta é muito grande, a oferta de máscaras, a oferta de papéis no nosso momento histórico é muito grande. Fica muito difícil recusar tudo isso e trabalhar dentro de si, construindo a sua própria identidade. Conta-se, por exemplo, na história de Gand, que quando ele estava no movimento lá no final, já pela independência da Índia, ele cada vez que alguma instituição ou seus próprios amigos vinham com uma ideia, uma sugestão do que poderia ser feito, ele nunca dizia nem sim, nem não.
Ele se recolhia com aquilo, ia paraa sua casa e ia pensar. Aí ele matutava, passava a noite ali mastigando aquela ideia. Às vezes, no dia seguinte, as pessoas esperavam que ele viesse com uma resposta sim ou não.
Ele vinha com uma ideia absolutamente diferente. >> Uhum. >> Ou seja, ele levava tudo aquilo para dentro de si, submetia os seus valores, a sua experiência de vida e saía com a resposta dele.
E era sempre uma resposta surpreendente que não tinha nada a ver com que ninguém esperava. Isso é um ser humano que tá vivendo, tá pensando, não tá sendo pensado. Hoje é mais ou menos previsível o que que as pessoas vão fazer.
As alternativas são muito limitadas. por exemplo, dentro de uma sociedade, politicamente vão chegar para você e dizer: "Você é A ou B? " >> E se você não disser: "Não sou nenhum dos dois", você tá escondendo, você tá mentindo.
Eh, falar se é do terceiro excluído. Se você não é A nem B, você não é mais nada. Não existe uma terceira, nem uma quarta, nem uma quinta opção.
Ou seja, as máscaras estão cada vez mais rígidas. É mais difícil do que nunca o homem assumir uma identidade própria no momento em que a gente vive. M.