[Música] Bom, boa noite a todos. Sejam bem-vindos. A ideia hoje então é dar seguimento ao clube de leitura do profeta de Cali Gibran, falando a respeito desse tema que é tão insólito. As pessoas quando ouvem falar alguns temas de Gibran, as pessoas não entendem o que que um poeta, um filósofo vai falar sobre habitações. Que coisa mais técnica, né? Parece mais um tratado de engenharia do que poesia, mas ele fala de uma maneira bastante objetiva. As pessoas me perguntam, ele tá falando de maneira figurada? A habitação que ele está falando é alguma coisa muito metafísica?
Não, é casa mesmo. Casa mesmo. Essa é de quatro paredes onde a gente mora. Mas é tão interessante porque de branco vocês vão ver, ele tem uma visão de que tudo que cerca o homem é simbólico e pode influenciar a sua vida. Na verdade, é como se a sua casa fosse uma segunda vestimenta que você tem. A maneira como você se veste, a maneira como você se comporta, gesticula, como olha nos olhos das pessoas. Vocês acham que isso não é um reforço psicológico das suas convicções, dos valores que você tem? Com certeza todos os dias
você reforça aquilo em que acredita na maneira como vive. Agora, você acha que a sua casa também não é um reforço, um apelo visual que puxa você para aquilo que você acredita, desde a maneira como dispõe as coisas, desde as coisas que tem. Vocês sabem que hoje é engraçado isso porque nós somos tão avançados em certos elementos e em outros tão atrasados. Hoje já se sabe perfeitamente que a cor que você coloca, por exemplo, num quarto de dormir pode atrapalhar o teu sono. Não recomendo que você pinte o seu quarto de dormir de laranja vivo,
porque você vai ter problemas com o sono, porque é uma cor muito estimulante, puxa vitalidade e não é adequada para esse ambiente. Eu acho engraçado porque o fengchui oriental fala disso desde quantos séculos e pra gente isso é uma grande novidade que começa a ser redescoberta. Agora, se vocês forem ver, já falei muitas vezes para vocês sobre isso, quando se fala da cidade de Roma, a cidade antiga que era Roma, se fala de como esses pater famílias pensavam até na disposição da casa em relação aos pontos cardiais, em relação ao nascer e ao pôr do
sol, o tanto da floresta que teria que ser devastada, como se fazia isso de tal maneira que a casa interagisse com a natureza, não a agredisse, tudo, tudo, tudo era muito bem pensado para que uma casa fosse um convite a elevação da consciência do homem, que você não viva num lugar que puxe sua consciência para baixo. Você mesmo construiu, você tá trabalhando a seu favor ou contra você mesmo? Percebe que não tem sentido. Sua casa tem que ser um local que convide a sua consciência a se elevar. Então, tudo era muito bem pensado, né? Hoje
nós não temos mais noção. Eu acho curioso de se eu perguntar para vocês, vocês têm noção do que se deve fazer antes de dormir e ao acordar? A gente não tem noção, acha que simplesmente colocar o corpo na horizontal e puff, não é isso? o último pensamento que se tem, a maneira como você relaxa na cama, todas essas coisas vão determinar como você vai entrar na consciência onírica, a disposição das coisas que você vê dentro do seu corpo. As primeiras coisas que se preocupam em pensar no dia vão determinar como vai ser a tônica do
seu dia. O início e o fim são pontos muito marcantes em qualquer trajetória. Percebem que aí existe toda uma técnica que nós já não conhecemos mais. Então, o que Gibran vai falar não é diferente de todos os capítulos que ele trata. É uma abordagem bastante curta. Esse é um capítulo pequeno, uma abordagem a respeito de como o homem deveria viver, sobretudo a preocupação que o homem deveria ter da sua interação com a natureza, como o modo de se purificar o que ele deveria ter dentro de casa, ou seja, casa concreta mesmo. Ele chega a esse
nível de requinte, que não pensem que você, não pensem vocês que é superficial ou que é muito detalhismo da parte dele, é imprescindível, né? Considerem, bom, nós ficaríamos aqui a noite inteira só falando sobre isso. Vocês vão ver que uma escola de filosofia tradicional antiga, e nós sonhamos em fazer isso também, tentamos fazer na medida das nossas possibilidades. Você cruzava um umbral da porta, você tinha convites para elevar a sua consciência. Na música que tocava, os flautistas que tocavam lá dentro, as pinturas que tinha, os murais que tinha, as esculturas que havia ali, era um
convite paraa elevação da consciência. De tal maneira que onde você batia os olhos aleatoriamente você ia encontrar uma mensagem. Vocês pensam que a gente esqueceu isso? Não esquecemos. Quando você sai na rua, onde você bate os olhos, você tem um convite pro consumo. Percebem isso? Um convite pros instintos de sobrevivência ou de de perpetuação da espécie. é o tempo todo trabalhando com medo e desejo, estimulando isso, o outdoor, o material de propaganda, o periódico, tudo que você encontra, a música do cidadão que para do seu lado, é um apelo. Até mesmo as peças que nós
vemos sendo exibidas em cinema, os filmes normalmente quando tem sucesso trabalham com esse com essa esses dois polos, medo e desejo em excessos, não é? o nível de violência desenfreada, um nível de instinto desenfreada. Ou seja, esse tipo de coisa, vocês acham que mesmo que não estejamos conscientes, não somos influenciados? Vai determinando um padrão de imaginação que ela fica presa nesse nível instintivo. O que aconteceu de vocês ficarem mentalmente cantarolando uma música que ouviram aleatoriamente quando pararam no sinal o carro? Não, às vezes a gente não pega conscientemente, mas aquilo entra e nós ficamos mentalmente
cantarolando de repente você para de onde veio essa música que eu detesto e tô aqui há duas horas cantarolando ela mentalmente. Fica até chateado, muitas vezes nos incomoda e nos fere por cargas de água. Eu tô pensando nessa música. Ela vem e entra. Música é terrível para isso. Ela entra, ocupa um espaço na tua mente, você não vê. Quando vê, já tá duas horas influenciando, porque é um nível vibratório e como o nível vibratório vai influenciar a vibração das tuas emoções e dos teus pensamentos, daqui a pouco você tá irritado e não sabe nem porquê,
né? Ou seja, o que Gibran fala é muito coerente, como sempre com aquilo que Platão falava, com aquilo que se praticava na Roma antiga, que era responsabilidade em relação à vida humana, saber o que nos influencia, que são muito mais coisas do que a gente pode imaginar, tá? Então, começando, como sempre com um resumo muito sumário da vida do Gibran, né? Vocês sabem que ele é um poeta e pintor libanês, vivia dessas duas artes, chega nos Estados Unidos em 1000, perdão, nasce em 1883, chega com 17 anos nos Estados Unidos e vai morrer em 1931,
ainda bastante jovem, né, na cidade de Nova York. Seu corpo é levado de volta para o Líbano, que foi um dos seus últimos desejos, e hoje é considerado um herói nacional no Líbano e um dos maiores poetas da humanidade. O que ele faz é prosa poética. Ele não usa métrica, não usa um esquema regular de poesia, mas ele consegue expressar verdades filosóficas com uma beleza que é difícil você encontrar paralelo. Eu ouso dizer que é difícil encontrar um poeta do nível de Gibran e que é muito difícil você considerar um poeta ser muito bom. Se
ele não tiver um conteúdo filosófico, se ele tiver sua forma, Gibran tem as duas coisas, ele tem um conteúdo filosófico e ele tem uma forma adequada. Falávamos a respeito da sua principal obra que eu tenho tentado persuadir vocês a lerem, terem como livro de cabeceira, que é o profeta, que é um livro onde ele se propõe. Vocês sabem que ele ainda adolescente, pré-adolescente, um garoto, ele já sonhava em fazer esse livro? Ele sonhava simplesmente com uma coisa, que ele tivesse um livro com pequeno, onde cada capítulo tratasse de uma das coisas que ele considerava fundamental,
que o homem tinha que saber para viver. Então ele pegou todos os fatores fundamentais da vida humana. O que ele fez foi um tratado de como viver e era o que ele se propunha. E quando ele chega nos Estados Unidos, não sabia nem falar o inglês e vai ali esboçando, rascunhando, discutindo com Mary Hkel, que foi sempre a que mais o apoiou. Várias partes, ela corrige, ela sugere, vão construindo juntos esse livro, mas era o sonho da sua vida. Ele praticamente considera sua missão em grande parte cumprida quando ele conclui o profeta em 1923. É
um livro que até onde eu tinha pesquisado, porque se muda de um ano pro outro, ele já tinha mais de 40 traduções pelo mundo aa ou seja, é um livro de sucesso, mas considerem que somos 7 bilhões de seres humanos. A enorme maioria não deve saber nem que Gibran existe. Então é muito interessante para nós divulgarmos uma obra tão bela que realmente dá uma instrução forte sobre como viver. Agora, não é fácil de entender, porque ele escreve com muito poucas linhas, coisas muito profundas numa superfície muito pequena. Então, há que ter uma certa base filosófica
pra gente interpretar cada palavra, porque se você distrai com três ou quatro palavras num capítulo que tem uma página e meia, você já perdeu muita coisa. E é o que a gente tá se propondo a fazer aqui, não é? E falo para vocês também, concluindo essa introdução, que o profeta é um mito. Trata da história de Al Mustafá. A Mustafá significa o eleito, escolhido, é um sábio que vai para uma cidade chamada Orfalese, se dispõe a ensinar alguma coisa para essas pessoas. 12 anos ele passa lá e ninguém quer aprender nada. Quando ele vê o
barco da sua terra vindo no horizonte, ele diz: "Agora vou voltar para casa". As pessoas percebem que ele ia embora, ou seja, que iam perdê-lo. E no contraste vem a consciência. Lembra? O contraste entre dois planos nasce a consciência. Você percebe o valor daquilo que tem normalmente quando tá para perder. Eu falo para vocês que até mesmo o contraste entre duas cores se percebe porque uma termina aqui e aqui termina a outra, começa a outra. Se o universo inteiro fosse vermelho, não perceberíamos o vermelho. Contraste entre o som e o silêncio gera consciência de ambos.
Ou seja, no contraste da perda. E o pior de tudo é percebermos o valor da vida só diante da morte. É o pior dos contrastes, né? Então, as pessoas percebem o valor que tinha ao Mustafá quando iam perdê-lo. Aí o cercam e começam a fazer perguntas para ele que ele vai respondendo. Cada uma dessas perguntas, cada uma é um capítulo do livro. Por que eu digo que isso é um mito? Porque simbolicamente tudo isso tá acontecendo dentro do homem. 12 é um número clássico que representa o círculo zodiacal, né? Representa um círculo de vida do
homem. É como se o homem estivesse reunido em torno de toda a sabedoria que ele que ele acumulou na sua vida, fazendo uma ponderação de tudo que ele aprendeu. É um homem discutindo consigo mesmo. É uma reunião à volta do centro, a volta da sabedoria. Platão falava muito sobre isso. Já comentamos em todas as outras palestras que o círculo é a forma mais perfeita. Por quê? Porque todos os pontos estão equidistantes do centro. Esse centro representa a luz, representa a sabedoria. Aqui todos os habitantes estão equidistantes de Al Mustafá, ou seja, do sábio. É um
símbolo do nível que ele adquiriu dentro de si. E por último, sempre quem pergunta tem a ver com aquilo que é perguntado. É óbvio, né? No nosso caso, nós vamos ver que em relação a essas habitações, quem vai fazer a pergunta é uma pessoa que passou toda a sua vida se dedicando a fazer habitações, ou seja, um pedreiro, né? Ele quer fazer um balanço. O que foi que eu fiz? Vocês percebem que todo ser humano num determinado momento, ou pelo menos deveria, nem sempre acontece, dependendo do grau do materialismo, mas cisão de convir que todo
ser humano tem a tendência, ou pelo menos o potencial de, num determinado momento querer saber se a sua vida foi útil, se ela somou, se ela fez diferença, querer fazer um balanço de consciência e saber, bom, eu vivi em vão ou eu somei alguma coisa. Percebam que isso é um elemento muito característico do ser humano, né? querer saber se a sua vida somou paraa humanidade, se a sua vida foi produtiva, se fez alguma diferença. E esse pedreiro então quer saber a respeito daquilo que ele dedicou à sua vida, construir habitações, se ele foi correto ou
se não foi. Então o pedreiro se aproximou e disse: "Fala-nos das habitações". E ele respondeu, dizendo: "Construís com vossos sonhos um abrigo no deserto antes de construir uma moradia no recinto da cidade? Ele começa com a sua tônica, a necessidade que a natureza humana tem de afastar um pouco, não ficarem tão grudados uns com os outros. tem um momento de vida interior, de solidão, de se entremear com a natureza externa para que os homens deem folha uns aos outros para respirarem, para desenvolverem algum nível de reflexão de vida interior. Uma das coisas que classicamente sempre
se fala a respeito da convivência é que nós poderíamos nos inspirar para a convivência perfeita no que o Sol faz com os planetas. O sol se relaciona com todos os planetas, da luz, da calor, porém cada um deles na sua distância e no seu ritmo, não é isso? Se o Sol amasse profundamente os planetas, que de fato, do ponto de vista clássico, se considerava que o Sol é um ser que realmente ama os planetas e, por isso, dá toda a sua luz para eles, vocês vão perceber que havia essa ideia de que todos os seres
no universo são seres vivos e que, portanto, não é um movimento mecânico, né? Mas imaginem vocês, se o sol, por uma atitude de amor, quisesse grudar todos os planetas nele, torraria todos, não é isso? A convivência é uma questão de distância e de ritmos. Então, chega um determinado momento que o homem tem que mergulhar dentro de si, tem que ter uma certa distância. Aquilo que a gente odeia hoje em dia, que é a sinistra solidão, considera-se como algo altamente sadio. Chega uma hora que você tem que ter um pouco de distanciamento, porque o homem é
um ser que deixa as coisas tão impregnadas, tão pesadas, que ele não dá espaço para que o outro respire. Nós deixamos o nosso nossas emoções impregnadas, as nossas pensamentos impregnados. É preciso que vocês desenvolvam uma experiência de ter consciência disso. Percebam que quando você entra num ambiente, garanto que isso já deve ter acontecido com vocês, quando entra num ambiente, antes que veja a primeira pessoa que está ali dentro, às vezes você já sente o astral do ambiente, como se fala popularmente, né? Poxa, aqui tá pesado. Antes de ter visto a primeira pessoa para te contar
o que aconteceu, você já sente que o ambiente não tá muito bom. As nossas emoções exalam, os nossos pensamentos exalam e exalam às vezes demais. Então, imaginem vocês o que é um prédio de apartamentos. Quando eu desço em São Paulo, naquele aeroporto que fica bem no centro da cidade, eu fico imaginando, você olha para baixo e é um infinito de caixotinhos de seres humanos grudados com seres humanos. Aí você tem uma pessoa brigando com o marido do lado, uma pessoa repreendendo o filho embaixo, uma pessoa, gente, é muita invasão. Bom que nesse momento é meio
difícil da gente mudar uma situação construída dessa forma, mas é importante a gente saber, porque quando temos consciência temos alguma chance de nos proteger, porque essas coisas são invasivas. Não pensa em você, que você não contamina os demais e os demais não te contaminam. Tanto para bem quanto para mal, nós nos influenciamos mutualmente o tempo todo, né? Então ele disse, seria melhor que você colocasse uma casa em cada tantos metros no meio do deserto? Sei que não é culpa sua, mas a maneira como nós vivemos não é adequada para os seres humanos. Então ele continua
dizendo: "Pois da mesma forma porque voltais para a casa no crepúsculo, assim faz o viajante que vive em vós, o sempre distante e solitário." Ou seja, tem certas coisas que nascemos sozinhos, morremos sozinhos e crescemos também sozinhos. Vocês podem dizer: "Não, precisamos uns dos outros. Concordo plenamente em gênero, número e grau". Mas você tem um determinado momento que você ingere o conhecimento, eu tenho um outro momento que você o digere, o assimila. Isso é um processo dentro de você. Você não recebe simplesmente conhecimento, você tem que digeri-lo. O professor Jorge Angelo Livraga, ele costumava dizer,
o fundador de Nova Acrópole, que o homem não vive daquilo que ele come, mas daquilo que ele assimila. Entendem? Ingerimos muita coisa, mas só aquilo que assimilamos realmente nos nos alimenta, nos nos dá vida. Então, é o momento de assimilar, de de de digerir tudo aquilo que foi absorvido. E se você não tem esse momento, você não vai absorver. Um momento de ter vida interior. Vida interior é algo indispensável. Nem só de vida exterior vive o homem. Então, da mesma maneira que temos dias e noites, temos eh primavera, verão, outono, inverno, a natureza expande e
recolhe. Ser humano precisa de um momento de recolhimento para estar com outro tipo de natureza que não a humana. Um pouco de contato com a natureza, um pouco de solidão. Isso é sadio. Era o que Platão chamava de divinos ossos. Eu ia contar para vocês uma experiência que eu li há algum tempo atrás. deve ter isso guardado em algum lugar, essas experiências às vezes um pouco criativas que o pessoal inventa, onde eles pegaram uma gaiolinha e foram colocando cobaias e fazendo um experimento onde eles iam medindo a longevidade desse dessa desse ratinho, as condições de
vida dele. Aí botavam dois, aí botavam três. Perceberam que tinha uma margem onde começava a decair a qualidade de vida daqueles animais. ficavam com imunidade mais baixa, longevidade mais baixa. Quando passavam de um limiar de saturação, que eu não me recordo mais, acho que eram 10 ratos dentro da gaiolinha, chegava a cair em 50% a longevidade deles. Gente, vocês imaginam isso? Eles ficavam estressados pelo excesso de de companhia, digamos assim, até os ratos, até as cobaias, ficavam estressados pela superpopulação na jaldinha. baixava a imunidade, baixava resistência, desenvolvesse terrível, mas o ser humano é muito mais
invasivo do que um ratinho, que aí entra mais plano mental, um plano emocional denso, é muito mais invasivo. E ele vai falar bastante sobre isso, esse esse diálogo interno, tem alguém, algo dentro de você, a tua própria essência, tua própria consciência que aguarda por você para um diálogo. Eu contava para vocês uma ocasião, não sei se vocês lembram disso, que tem uma passagem da tradição taísta, que diz que quando você olha dentro dos olhos de um sábio, você vai ver que os olhos de um sábio são profundos, de tal maneira que é como se fosse
um corredor, onde lá no fundo existe um diálogo muito particular. Dentro dos olhos de um sábio existe um diálogo entre um homem e um Deus. aquilo que de mais sagrado, profundo e elevado ele tem, a sua consciência tem que ir lá de vez em quando dialogar com aquilo, trocar ideias, amadurecer o que foi conquistado na vida. Imaginem isso. Isso é um homem que tem conteúdo, que tem profundidade, que sabe onde tá pisando, que sabe quem é. Essa maneira como nós vivemos voltados só para fora, faz com que seamos, estejamos sempre à flor da pele, muito
superficiais, muito manipuláveis e muito vulneráveis. Bom, e ele continua: "Vossa casa é vosso corpo mais amplo, cresce ao sol e dorme no silêncio da noite, e também ela tem sonhos. Vossa casa não sonha e sonhando escapa do ou colina". Pode parecer uma viagem para vocês isso que ele tá falando, mas todas as coisas têm um ideal. O que é uma casa? A maioria dos animais não necessita de uma casa da maneira como a gente necessita. Uma casa era um ambiente que teria sido criado para dar um certo isolamento e privacidade ao ser humano para que
ele pudesse reciclar a sua consciência. Então, existe o ideal de uma casa humana que não consiste em luxo ou em grandes padrões de conforto, mas consiste num ambiente onde ele pudesse fazer isso, ter como se fosse uma câmara de purificação, um lugar de conforto no sentido de conforto espiritual, de tranquilidade, de serenidade, de acertar contas com a sua consciência. E quando essa casa não atinge esse plano, é como se ela ansiasse por cumprir o seu papel. Na verdade, a expectativa que nós temos desses seres, eles se tornam meio incompletos, meio frustrantes, porque não atendem a
nossa expectativa. E como nós não sabemos o que esperar de uma casa, vamos construindo casas que atendem cada vez menos, cada vez menos, cada vez mais alienadas e distantes daquilo pro qual uma casa humana serviria. Percebam uma coisa, não vou entrar em polêmicas sobre esse assunto, mas apenas reflitam com bom senso. Se você pega uma pessoa que pinta um quadro num nível de grande agressividade, num momento de muita, por exemplo, no caso de um Vanangog chegou a pintar um quadro onde ele já estava com orelha cortada pela pelo nível de de doença mental que ele
estava naquele momento. Vocês acham que a emoção que ele vivia nesse momento não tá impregnada nesse quadro? Não estou aqui para discutir quem gosta ou quem não gosta de Vog, mas você acha que se isso é a primeira imagem que você vê quando levanta da sua cama pela manhã, não pode induzir em você esse estado emocional que tá impregnado nesse quadro? Isso não seria bastante lógico? Pelas vossas obras vos conhecerei. E nós sabemos o que colocar dentro de um quarto, o que é indicado, o estado de espírito, por existe esse ambiente na minha casa, o
que que ele vem me proporcionar? Então, o que que é condizente com esse ambiente? Qual o estado de espírito que eu quero provocar na sala, no quarto, na minha sala de de alimentação, se ela existe, o que eu quero gerar, que estado de espírito, não pensar que existe nada impune, né? Tudo é vibração e tudo gera, quanto mais inconscientes somos, mais rapidamente essas vibrações produzem em nós sintonia. Então, haveria um ideal de uma casa que nós nem sabemos o que seria. Imaginem, tentem imaginar um local onde vocês mergulham dentro de vocês e vão a um
local onde vocês vão dialogar consigo próprios e vão encontrar paz. Tentem imaginar como seria esse local e depois comparem com o lugar onde vocês vivem. É um bom exercício de imaginação, porque quase que intuitivamente sabemos muitas coisas. Sabemos que seguimos modismos que não tm nada a ver com a nossa necessidade e que vivemos às vezes de uma maneira luxuosa, mas não adequada, não humana. Uhum. Ah, se pudessem fechar vossas casas na minha mão e como um semeador espalhá-las nas florestas e campinas, fossem os vales vossas ruas e os atalhos verdejantes vossas veredas, para que pudésses
procurar-vos uns aos outros através dos vinhos. e voltar com fragrância de terra nas vossas roupas. Imagine se eu pego todo mundo que vive em apartamentos muito confortáveis, construo casinhas dignas, mas mais modestas do ponto de vista do conforto material, espalhadas no meio de uma campina. Primeira coisa que as pessoas fariam era cimentar o caminho para não sujar os pés entre uma casa e outra. E uma das melhores coisas é pisar a terra, que tá falando aí, juntar e distribuir como fazer um feix. Isso. Uma das coisas mais recomendáveis é exatamente pisar a terra, sentir o
cheiro da terra. A primeira coisa que a gente faria é um piso para nos isolar da terra, não é isso? Primeira coisa que pensaríamos em fazer, vou sujar os meus sapatos. Ou seja, ele diz, você precisa chegar com cheiro de terra em casa, precisa respirar um pouco, apreciar a natureza. É uma coisa curiosa que eu acho que quantos de vocês sabem me dizer que tipo de pássaro canta perto da sua casa pela manhã? Já viram se tem um bem vi, se tem um sabiá. Acho curioso isso porque já comentei às vezes com um vizinho, que
sabiar maravilhoso esse que canta aqui perto. Ele que sabiará eu quase estourava de cantado na frente do nosso prédio. Que sabiar? Como assim? Que sabiará? Era um negócio de trondoso. Era um fôlego fora do comum. Era o pavarote dos sabiás. Que sabiar? Uhum. Ou seja, que nós pudéssemos nos mesclar com a natureza e nós pudéssemos, ao mesmo tempo que respeitá-la, usufruir um pouco dessa dessa saudável companhia da natureza. Hoje nós começamos a a perceber um pouco mais isso de tal maneira que as pessoas que corriam pro centro estão correndo pra periferia, mas continuam reproduzindo seus
padrões na periferia. Eu não vejo que essas pessoas, porque moram numa casa, sintam o cheiro do ar molhado ou ouçam um pássaro que canta pela manhã ou caminhe descalços na terra. Muito pelo contrário, cimentam tudo, né? Vamos nos livrar de toda e qualquer coisa que possa me incomodar e gerar algum desconforto. Que tipo de desconforto? Contudo, o tempo dessas coisas ainda não chegou. No seu temor, vossos pais juntaram-vos demasiado pertos uns dos outros, amontoados, na verdade, né? E esse medo sobreviverá algum tempo ainda. E durante esse tempo, as muralhas de vossas cidades separarão vossos campos
de vossos lares. Veja que coisa curiosa, porque os nossos pais, os nossos antepassados, como ele diz, nos amontoaram por medo, por questão de segurança e, na verdade, nos colocaram lado a lado com aquilo que mais de ameaça, porque quem ameaça o ser humano? o ser humano. E chegou a um nível tal que o egoísmo tornou esse tipo de procedimento de segurança totalmente inválido. Já aconteceu comigo, infelizmente, é um caso não muito agradável de contar, mas já aconteceu de ser assaltada, não roubada, assaltada no meio de uma avenida, Avenida Atlântica no Rio de Janeiro, é meioia
e meia, no meio de uma multidão, você sendo assaltada e as pessoas passando como se você aquilo fosse invisível. As pessoas, por egoísmo, por medo, não se protegem por estarem juntas hoje em dia. Muito pelo contrário, às vezes formam uma muralha que oculta o crime, não se protegem. E às vezes você não sabe quem tá ao seu lado também. Pode ser que o risco esteja bem ali. O ser humano é o maior risco pro próprio ser humano. Acaba que esse tipo de procedimento isolou da natureza e não o protegeu em nada. Porque como dizia Janj
Russol, o homem, o lobo do homem, acaba que de uma certa maneira, nesse caso, ele tá tendo razão, o homem se torna o maior risco para o próprio homem. E como você amontou a humanidade, você não aproveja, você a expõe ao máximo, né? Desgasta e expõe. E dizei-me, povo de orfalese, o que possuís nessas habitações? Você tá com tanto medo que roubem o quê? É o que ele tá querendo dizer. E que objetos guardais atrás dessas portas trancadas? Para estarem tão bem trancadas, você deve ter coisas que são preciosas. O que são elas? Acaso possuís
a paz, esse impulso tranquilo que revela a vossa potência? Que que é que você tá guardando por trás desse cadeado que tem tanto medo de perder? Porque é muito sagrado especial? Você tem a paz? um estado de serenidade, de equilíbrio, de sentir que pode ventar violentamente, que você tá tão bem enraizado nos teus princípios, que nada vai te abalar. Você tem isso para proteger? Bom, se não tem menos uma coisa preciosa que você tem em casa, que mais você pode ter? Possuís as recordações, essas abóbas cintilantes que se estendem sobre os cúmes do espírito? Veja
bem, as recordações não são qualquer memória, qualquer lembrança, porque aí uma pessoa pode chegar e me dizer: "Não, eu tenho muitas recordações, tô cheio de álbuns de fotografia, eu e meus amigos na frente da Estátua da Liberdade, na frente da Torrefel". Isso não é bem a recordação de que ele tá falando. Ele tá falando de uma coisa chamada cofre de ouro. Aqueles momentos mais belos da tua vida que mais te ensinaram. Aqueles momentos onde você sentiu verdadeiramente humano, onde você teve certeza, quem vira esse rastro vai saber que foi um ser humano que passou por
aqui. Algo que te ensinou, algo que te iluminou, ainda que naquele momento doloroso. Você tem isso num cofre de ouro. Eu costumo chamar isso de caixa de primeiros socorros espiritual. Você tem uma? Se você não tem, que tipo de recordação tem? Lembrem que eu comentava com vocês, que foi um fato que me marcou muito. Pode ser que não seja nada daquilo que eu tava pensando, mas de qualquer maneira a impressão que me deu foi essa. Uma ocasião que fui na lixeira, naqueles contêiners que havia nos blocos de apartamento, encontrei vários, vários. Devia ter mais de
10 álbuns daqueles amarelinhos da CODC lotados de fotografias. Eu imaginei, nessa minha imaginação fértil que não para de funcionar, o que seria aquilo? Bom, às vezes o cidadão tirou fotografias na Estátua da Liberdade na Torre Fel, depois que ele se foi, isso não vale nada pros descendentes. Que que interessa isso? Que que interessa? Não tem, não tem valor transcendente, não ensina nada. Ah, duas gerações no máximo põe no lixo. E para ele aquilo era de uma importância fenomenal. O que de fato foi aprendido? o que de fato fez com que ele se tornasse um ser
humano melhor, que fosse de interesse para posteridade. Isso são as recordações que ele fala: "Você tem, você tem um cofre de ouro?" Não. Então, menos uma coisa para você ter tanto medo de se perder, né? Possuís a beleza que conduz o coração dos objetos confeccionados com madeira e pedra para a montanha sagrada. Sabe o que significa isso? a madeira, a pedra, o metal, seja lá o que for que esteja dentro da tua casa, algum deles tem uma função simbólica que te remeta algo que seja sagrado para você. De tal maneira que você olha para um
objeto que pode não ser de nenhum metal precioso, mas é o Moisés de Michelângelo. E você olha para aquilo e sente o poder do ser humano. Você olha para um quadro, é maravilhoso, ainda que seja só uma réplica. E você sente a harmonia que existe adormecida dentro do ser humano. Existem eh materiais dentro da tua casa que remetem para algo que é mais do que o material? Porque isso é o símbolo. O símbolo relaciona uma coisa que tá no plano material com uma coisa que está no plano espiritual. O físico com o metafísico é diferente
do anagrama, do ideograma. Vocês entendem isso? Se eu tenho aqui um mzinho amarelo e do lado um sanduíche, o símbolo do McDonald's e o sanduíche do McDonald's são dois do mesmo plano. São coisas materiais. Isso não é um símbolo, a gente usa mal a palavra. O verdadeiro símbolo é sempre vertical. Ele te remete do plano físico pro metafísico. Para um momento você olha para aquilo e diz: "Como o homem pode ser grandioso? Como pode alcançar esse nível de harmonia? Aquilo te lembra algo belo? Quantas dessas coisas você tem dentro de casa? Ainda que não tenha
um valor material, mas um valor para você de remeter a tua consciência para um outro plano. Você tem? Você cultiva a beleza à tua volta para te ajudar a ser um elevador da tua consciência? Não. Menos uma coisa. Eu tenho o objeto da moda. Eu não tenho algo que eu considere belo, mas eu tenho uma coisa que tá na última moda. Os críticos de arte dizem que vale não sei quanto. Eu mesmo não acho graça nenhuma, mas tá na moda. Menos uma coisa. Percebem o que ele tá colocando? O que que você tá com tanto
medo de perder, meu caro? Quais são suas preciosidades? Me mostre os seus tesouros para estarem tão bem trancados. Dizei-me: possuís tudo isso em vossas casas? ou tem de somente o conforto e a cobiça do conforto, esse desejo furtivo que entra em casa como visita e depois torna-se hóspede e mais tarde dono. Uma das coisas mais complicadas que tem no nosso momento histórico é considerar que felicidade é lei do menor esforço. Quanto menos você precisar ter trabalho, mais feliz será. Vocês considerarem que a vida se expande. A vida é uma potência. Um dia ainda vou trazer
para vocês aqui um livro bem antigo, do início, mais ou menos aí pelo meados da Idade Média, século XI, que se chama o filósofo autodidata, que mostra um homem que vivia sozinho numa íria. Como ele chega a essa conclusão sozinho, que a vida se manifesta numa pedra num limite. A vida se manifesta numa planta com mais expansão, ela já tem sensibilidade ao calor, ela sintetiza o próprio alimento. O animal mais ainda, ele já tem instintos, já sobrevive, já procria. No homem, ele teria que ter estética, ética, uma série de outras coisas que são requinte da
vida. Se você considera felicidade como ficar paradinho e ter o menor esforço, você tá sonhando com a felicidade da pedra. Lei do menor esforço, inércia é ideal de pedra, né? Ou seja, retroceder um bocado, considerando que temos tanto potencial. Entendem isso? Ou seja, na nossa sociedade nos colocaram como felicidade a lei do menor esforço. Quanto menos atuamos, mais felizes somos. Felizes para quê? Se a nossa felicidade consiste exatamente naquela, nas obras que deixamos pelo caminho, inclusive a nós mesmos que somos a nossa maior obra. E a coisa mais viciosa que tem é a tal do
vício no conforto, padrão de vida que busca conforto como felicidade. É altamente vicioso, difícil de se libertar. Sim. E torna-se também domador. Ele fala do conforto e conforcado e açoite reduz a títeres vossos desejos mais vastos. Se você desejava justiça, fraternidade, agora você só quer um colchão mais macio. Se você desejava que as pessoas fossem mais felizes, agora você só deseja uma TV de não sei quantas polegadas. Vai reduzindo cada vez mais, encolhendo o homem, vai tornando o homem cada vez mais medíocre, mergulhado na inércia. Me digam um defeito. Lembrem da história dos talentos bíblicos
do cidadão que enterrou os talentos e não fez nada. Aquele que investiu e perdeu e aquele que investiu e multiplicou. O único que foi criticado foi o que enterrou e não fez nada. Não é isso? Porque não registrou experiência nem para bem, nem para mal, nem do que dá certo, nem do que dá errado. Me diga um defeito que faça isso com o homem, porque se o homem é, sei lá, egoísta, se ele é vaidoso, a vida vai bater e ele vai aprender com a dor. Agora, se ele é preguiçoso, ele não faz nada, nem
para bem, nem para mal. Não aprende para nenhum dos dois lados, nem no que dá certo, nem no que dá errado. Ele simplesmente não dá. É um homem que não se realiza, que não experimenta. Se você tem muito para caminhar, é melhor que a sua cadeira seja dura ou seja muito macia? É melhor que ela seja mais durinha, porque senão você não sai da cadeira. Isso. Embora as suas mãos sejam de seda, seu coração é de ferro. O conforto, não é? Ele vos embala até dormirdes, só para rondar vosso leito e zombar da dignidade do
vosso corpo. Vocês sabem que a postura do corpo humano é simbólica. Imaginem uma pessoa preguiçosa. Nós temos que trabalhar com a nossa imaginação. Ela é interessante porque ela nos dá muitas informações valiosas. Qual é a postura corporal de uma pessoa que você percebe na hora que olha para ela que é preguiçosa? É belo? Como é? amolece assim, empende para um lado, né, e estufa o vento paraa frente. É uma coisa assim meio caída. É horrível. Você olha e você vê que é uma coisa indigna de um ser humano, mas nós não percebemos quando estamos contaminados
por isso. Se diz que quando o ser humano percebe que quem está comandando dentro dele é a preguiça, deveria reagir imediatamente. Preguiça deveria ser como um inseto que pousa na sua pele. Você não deixa uma barata pelo pousada no seu braço, daqui a pouco eu tiro não. Imediatamente. Não é isso? Imediatamente tenho que levar tal coisa pro trabalho. Daqui a pouco eu pego, não leva, esquece um dia, dias, 10 dias, 20 dias. Como daqui a pouco percebe que a voz do daqui a pouco é a voz da preguiça, reage imediatamente. Não admitir conviver com a
preguiça. Ou isso ou ela vai te enrolar eternamente. Quanto mais você dialoga com ela, mais ela ganha tempo e mais ela vai consumindo a tua vida. Hum. Ou seja, zomba da dignidade do corpo humano, da vida humana, que se propõe a tantas coisas e tem tanto potencial e não faz nada para dormir um pouco mais. Zomba também de vossos sentidos normais, deita-os na penemcia como um vaso frágil. Quanto menos eu souber, quanto menos eu vê, quanto menos nem me contem que ninguém tá com problema. Não quero saber se vai me aborrecer, quero tranquilidade, não percebem?
Quero ver nada, não quero saber de nada. Na verdade, vossa paixão pelo conforto assassina as paixões mais nobres de vossa alma e depois zombeteira acompanha seu enterro. Me recordo de uma ocasião muitos anos atrás que fazíamos uma palestra sobre consciência lá na sede que hoje fica no Lago Norte. naquela época nem no Lago Norte não era. E uma pessoa de um determinado momento disse o seguinte: "Ter consciência é ruim, porque quando você tem consciência, você fica sabendo de um monte de coisas que te obrigam a mudar. Eu prefiro não saber, vai dar um trabalho terrível".
Eu fiquei imaginando, meu Deus do céu, como pode preferir estar cheio de defeitos, estar com a barata grudada no braço e não saberia, porque vai dar trabalho fazer isso, tirar a barata. Então não me conta que tem uma barata no meu braço. Prefiro não saber. Não quero a consciência. Não foram meias palavras, não foi exatamente assim. Eu não quero a consciência. Vai dar trabalho, vou ter que mudar. Então deixa barata aí. Eu não sei. Vai me poupar um esforço. Entendem a que ponto nós chegamos com o vício do comodismo? Não parece insensato, mas é um
padrão de pensamento bem comum nos nossos dias vocês de convite, né? Ah, eu quero. Vocês percebem uma coisa interessante? A gente vê às vezes pela TV, vocês têm visto o pessoal que tá indo, equipes do mundo inteiro indo pro Nepal para ajudar equipes de de população civil, pessoas que estão indo lá para cavar, para tirar eh vítimas que às vezes ainda encontram com vida, a gente olha e diz: "Nossa, heróis, hein? Que coisa maravilhosa". Se alguém chegasse para você nessa hora, dissesse: "Vamos, eu tô indo, vamos lá. Se você der uma cavadinha, já ajuda. Vamos."
Não, não dá. Para mim não dá de jeito nenhum. Não, eu não tenho mais idade para não. E se fosse 20 anos antes iria? Não, agora eu tô estudando. Agora que eu tô no momento da minha vida que eu comecei a trabalhar, nunca daria. E você sempre ia ter uma desculpa nobre. Sabe por quê? Porque não quer encarar conscientemente o fato de que isso obrigaria quebrar uma inércia fenomenal. Imaginem vocês como é que estão vivendo essas pessoas que estão fazendo esse tipo de trabalho lá. Tá, mas no final das contas, quem é que tá fazendo
algo digno e nobre que vale a pena, né? E em que consiste a vida? No final das contas, seremos obrigados a mensurar o quanto o comodismo roubou de nós de vida. Eu já tive pessoas que me disseram que não faziam curso de filosofia porque não tinham de forma alguma vez por semana para estudar filosofia 2 horas não tinham tempo. No fundo não passa de um medo de mudar, né? Não passa da voz do comodismo. Mas vós, filhos do espaço, vós os inquietos no repouso, vós não caireis nas armadilhas, nem sereis domesticados. Vossa casa não será
uma âncora, mas um mastro. Entende? Vós, filhos do espaço, inquietos no repouso. Essa inquietude que existe dentro do ser humano de querer ir além dos seus limites atuais, querer ver um pouco do mistério da condição humana, não querer morrer no mesmo ponto em que nasceu. Diz que quando nasce essa inquietude nasce a filosofia. Aqueles que conhecem o mito da caverna sabem que a filosofia nasce exatamente no momento em que aquele prisioneiro da caverna começa a ficar inquieto, se sentir desconfortável naquele conforto das sombras da caverna. No momento em que começa a ansiar por algo mais.
Vós não caireis em armadiras, nem sereis domesticados. Vossa casa não será uma âncora, mas um mastro. Ou seja, vossa casa será um incentivo. Se você chega em casa pensando em se acomodar, você vai ver uma imagem ou um texto ou um livro que lembro quão heróico o homem pode chegar a ser. E dando de frente com aquele texto, com aquela imagem, com aquele objeto, com aquele ambiente, você vai se sentir envergonhado de ter chegado com pensamentos tão medíocres. Ela vai te soprar paraa frente, ela vai te empurrar paraa frente, ela não vai te freiar, ela
não vai te oferecer o sono e o esquecimento. Ela vai te oferecer a recordação, a identidade, vai ser um ponto de encontro consigo mesmo. Já imaginaram uma casa assim? Essa é a ideia. E essa inquietude é considerado o nascimento da filosofia, o nascimento da inquietude do homem que não se contenta apenas em sobreviver como sentido de vida. Não será uma fita reluzente que recobre um ferimento, mas uma pálpebra que protege o olho. Ou seja, a sua casa não vai esconder uma ferida que você tem de inércia. Ela vai simplesmente te permitir um breve descanso para
retomar as energias e partir novamente pra briga. Ela não vai esconder as tuas debilidades, ela vai curá-las para que você possa voltar pro alto mar e continue procurando o seu porto. Ela não vai te proteger para que você não faça nada. Ela vai te empurrar para que você continue caminhando. Imaginem construir uma casa assim, uma câmara de purificação e de reabastecimento para continuarmos vivendo dia seguinte como seres humanos, para relembrarmos quem somos e aonde queremos chegar com tudo isso. Isso seria uma casa digna de um homem. Não dobrareis asas para poder atravessar as portas, nem
curvareis a cabeça para não bater nos tetos, nem retereis vossa respiração para não sacudir e abalar as paredes. Ou seja, você não vai se encolher para entrar dentro de casa. A casa vai te expandir, vai te dar asas, não vai obrigar você a rastejar e se encolher para caber dentro dela, né? Imagine aquilo que vocês já leram de mais belo, aquilo que vocês já viram de mais nobre. Se isso tivesse espalhado pela sua casa de tal maneira que você não desse dois passos sem cruzar com isso. Aquele livro, aquele texto, aquele quadro, aquela música, se
eu estivesse espalhado pela tua casa de tal maneira que você esbarrassem nisso para todos os cantos, aquilo que te puxa para cima, imaginam que tipo de casa seria essa? Não morareis em tumbas feitas pelos mortos para os vivos, aqueles amortecidos pelo desejo de conforto, que vivem em tumbas e constróem tumbas. Aí você compra aquelas revistas de casas perfeitas, né? A casa dos artistas de caras. Aí você olha, são tumbas. A pessoa entra ali para amortecer, esquecer de tudo e não para lembrar de nada. Então, tumbas feitas pelos mortos para os mortos. Ahamã. Não vivereis nessas
tumbas. E apesar de sua magnificência e esplendor pode ter lençóis de seda, vossa casa não conterá vosso segredo, nem abrigará a vossa nostalgia. Ela não será para reter os teus sonhos, nem para fazer você esquecer daquilo que você quer encontrar novamente, que é a tua casa espiritual. Ela não pode sufocar aquilo que você tem de mais belo, muito pelo contrário, ela tem que ser um espaço de reencontro, senão não é uma casa digna de um homem. Pois aquilo que é ilimitado em vós mora no castelo do firmamento, cuja porta é a bruma da aurora e
cujas janelas são os cânticos e os silêncios da noite. Muito bonito, né? Vocês lembram quando falamos sobre a beleza que Gibran faz uma citação que lembra muito Platão, que Platão diz que quando você olha um objeto realmente belo, uma obra de arte realmente bela, ela não te dá desejo de posse. Você não vê a coisa, você vê através da coisa. E o sentimento que provoca é nostalgia. É como se você lembrasse de um mundo onde você já esteve, onde tudo era belo, harmonioso, perfeito. E esse objeto te lembra, te remete a essa recordação. Você vê
através dele. Uma coisa realmente bela não dá desejo de você arrancar do museu e levar para dentro de casa. Muito pelo contrário, desejar, né? Você vê através dele e encontra reminiscências, encontra nostalgia. Ele diz: "O verdadeiro sentimento é saudade de casa". Existe uma casa celestial onde tudo é perfeito e isso me remete até lá. H minha casa tem que me proporcionar isso, lembrar da minha verdadeira casa, que é o castelo do firmamento, porque eu sou de lá e um dia para lá voltarei. Portanto, eu tenho que selecionar as coisas que eu guardo na vida para
que sejam lembretes e me afastar daquelas que são esquecimento. Por muito que estejam dentro de padrões do inconsciente coletivo, de moda, de aceitação social, por uma questão pedagógica, eu devo educar a mim mesmo para conviver com as coisas que me remetem para cima e nunca o contrário. Não é impune. Nada é impune. É como se nós tivéssemos 1000 olhos, 1000 ouvidos e captássemos o tempo todo tudo aquilo que está à nossa volta, porque de fato tudo nos influencia, né? e a ingenuidade achar que não. Qualquer coisa tem dentro de si uma ideia, um padrão de
pensamento, uma forma de encarar a vida. E se você absorve isso dentro da tua intimidade da tua casa, isso vai te influenciar. É como se você pusesse isso dentro do seu coração, simbolicamente, é como se a sua casa fosse uma extensão do teu coração. Se você admite isso, isso vai te influenciar. E você tomou isso conscientemente como possibilidade. Em geral, não é consciente. Em geral, somos bastante inconsequente sobre a maneira como vivemos e aonde isso nos leva. Por isso essa chamada do Gibran, um assunto que parece tão prosaico, né, mas tão importante. Bom, isso, como
eu falei para vocês, é um dos menores capítulos do profeta. É pequeno apenas um pequeno apanhado que nos mostra como a gente tem que prestar atenção às coisas da nossa vida. trabalhar com muito cuidado para construirmos a nós próprios. Uhum. E eu espero que tenha sido um bom objeto de reflexão, que tenha sido interessante para vocês. Hoje algumas pessoas começam a querer retomar um pouco dessa arte oriental de como construir a sua casa, o que colocar lá dentro, mas até isso às vezes é contaminado por modismos ocidentais e pela distorção do tempo em que vivemos,
né? O bom senso é melhor do que qualquer outra coisa. Saiba quem é você, onde quer chegar e veja o que se afiniza com isso. Entendem? E aliás, é um das uma das virtudes mais raras do nosso momento histórico. Bom senso, nos protegeria de muita coisa. [Música] เ เ