A Bruxa se passa no séc. XVII, período mesmo que posterior, ainda marcado pela reforma religiosa, cujo fanatismo religioso era a marca da época e segregava as pessoas em fiéis e hereges, e pela contrarreforma, que no séc. XVI resgatou a Inquisição e a "caça às bruxas", motivada pela percepção da mulher como uma constante ameaça à moralidade - por isso, estava quase sempre à margem da sociedade, além de ser encarada como o resquício da Eva que levou Adão à perdição e a tentação através do fruto proibido.
A Igreja Católica, a partir de certo momento, passou a associar a ideia de pecado original à maçã; o objeto causador da discórdia - embora não seja confirmado que ela seja o tal fruto proibido. Em contrapartida, para as bruxas, as maçãs sempre tiveram significados bem claros. Como uma fruta doce e bonita, é desejada por todos, portanto, é a isca perfeita para os seus planos, o que podemos ver, principalmente, nas fábulas infantis.
Contudo, diferente das versões caricatas e até carismáticas dessas mulheres manipuladoras de Magia Negra, em A Bruxa, é perceptível um contexto satânico inerente, que traz à tona a materialização de um mal genuíno e puro. O filme nos apresenta, logo de início, uma família sendo expulsa de uma colônia, aparentemente, devido ao comportamento excessivamente religioso do pai, que age como se fosse o responsável por carregar e defender a suposta verdade que só ele conhece sobre Deus. Em seguida, através de uma câmera subjetiva, vemos as portas se fechando.
Thomasin, a primogênita, expressa um profundo pesar em seu rosto, conforme observa seu antigo lar ficando para trás. Sua família, porém, não compartilha da mesma frustração. Nesse momento, percebemos que Thomasin é diferente; diverge completamente de seus parentes.
Ao chegarem no local que farão a sua nova moradia, um ar melancólico percorre o ambiente. Mesmo que seja um campo aberto, é criada uma atmosfera claustrofóbica. A própria natureza, que num primeiro momento, serve de abrigo, mais tarde, aparenta expulsá-los dali.
Os aflige, primeiro, com a seca e a fome e, por fim, com a morte. Inclusive, a figura do corvo é um presságio disso. O pássaro está ligado à mudança, assim como possui um toque de óbito e vazio.
Por isso que em uma cena, o corvo aparece se alimentando da mãe, oprimida por si mesma e pelos costumes que a tornaram vazia. Já a mudança é justamente a morte, o único ato capaz de acabar com a opressão e levar liberdade total àquela que precisava. Enquanto brincava com seu recém-nascido irmão mais novo, Thomasin o perde de vista.
Embora exista a especulação de que um lobo tenha pegado o garoto, é nítido que algo sobrenatural toma conta da floresta. O que é confirmado quando acompanhamos uma bruxa utilizando o corpo do bebê para completar seu macabro ritual. Vale citar que, na época, acreditava-se que para uma bruxa conseguir exercer sua magia, deveria se encharcar de gordura e sangue de crianças não batizadas, ou seja, não pertencentes à Deus.
Numa forma de criticar a crença cega, A Bruxa apresenta a religiosidade dos personagens não como algo fundado na demonstração de benevolência, mas, involuntariamente, fruto da consciência pesada e do pecado, expresso como a faceta oculta do fanatismo religioso. Ao tornar os fiéis limitados devido às várias regras de conduta, comportamento e moral, esse fanatismo tem como consequência, a impotência perante a onipotência maligna, além de expressar com eficácia como a percepção do pecado surge a partir da autodepreciação dos instintos naturais do ser humano. A fé da família era testada em vários momentos e sempre corrompida, pois não era algo verdadeiro; não era de coração.
Era algo forçado, obrigatório e irreal, além de hipócrita. A religião os controlava de tal maneira, que os reprimia, imobilizando os adultos e mergulhando as crianças no isolamento, os deixando à mercê das tentações do desconhecido. Por isso Caleb sentia desejo pela própria irmã.
Ele não sabia o que estava sentindo exatamente; não sabia lidar com o prazer e a culpa, só sabia que era errado. Caleb estava amadurecendo, se tornando um adolescente e, com os hormônios a flor da pele, sentia-se curioso e tentado, mas como não existia vizinhança ou outras pessoas com quem pudesse interagir, ficava restrito ao círculo familiar, e como praticamente não tinha diálogo com seus pais, muito menos a respeito de sexo, esses sentimentos conflituosos continuavam a aumentar. Antes de morrer, Caleb tenta com veemência se entregar a Deus mas ao vomitar a maça (símbolo do pecado) ele, aparentemente, teve um orgasmo, ou seja, se entregou ao prazer, sexo e luxúria.
Ao contrário da sua contraparte bíblica, o único do povo de Israel (castigado por Deus) a entrar na terra prometida, o Caleb do filme não poderia entrar no reino do céu uma vez que sucumbiu aos prazeres da carne, já que pro cristianismo a sexualidade é um problema. Em contraposição, a bruxaria representa o oposto disso: prega a aceitação da natureza humana, e, portanto, aceitação da sexualidade. Por isso que Thomasin, embora também tenha ido contra aos princípios da bíblia, não tem o mesmo fim que o irmão, pois ao se entregar nua à natureza e à liberdade, aceita a bruxa que existe dentro dela e floresce, sentindo-se mais viva do que nunca.
Caleb desejava Thomasin, não só como o irmão que cobiça a irmã, mas simbolicamente, como Adão tentado por Eva, a comer o fruto proibido. Não é preciso reparar pra perceber que Thomasin levava a CULPA por tudo o que estava acontecendo. Ela era a responsável pelo desaparecimento do Sam - e posteriormente, pelo de Caleb -, pelo sumiço da taça de prata; era a culpada pelo feitiço e pela morte do irmão (Caleb), além de também levar a culpa por, supostamente, ter se insinuado para ele, e pela morte do pai.
Mas em todas essas situações, Thomasin era inocente, porém, o tempo todo acusada, porque é a mulher que carrega a culpa pelo pecado original. O nome Thomasin nos remete a Thomas, o que pode indicar que o casal desejava um filho homem, explicando a raiva que a mãe sentia pela primogênita, mas também pode ser uma alusão a Tomé, o apóstolo conhecido por ter duvidado da ressurreição de Jesus, já que a garota passa por um processo de abandono da fé, até se vender ao diabo para viver deliciosamente. Existem interpretações bíblicas que sugerem que o pecado original foi o sexo, e o filme flerta com essa possibilidade ao apresentar o coelho - símbolo da fertilidade, que, não só escapa da morte certa, como faz seu caçador se ferir.
Isso acontece pois o animal era ligado à imoralidade sexual, algo fortemente atribuído às bruxas (mulheres vulgares e sensuais). Percebam que o coelho poderia muito bem fugir, mas não, ele afronta seu predador. O ato de permanecer, mesmo diante do perigo iminente, é uma resposta a sociedade patriarcal e opressora.
A presa não só perde seu medo, como o vence. Ao analisarmos o contexto histórico da Idade Média, vemos que as bruxas eram as parteiras, enfermeiras e assistentes das comunidades em que viviam. Geralmente, conheciam e entendiam sobre o emprego de plantas medicinais para curar doenças.
Essas mulheres eram praticamente médicas sem títulos, visto que, muitas vezes, eram a única possibilidade de atendimento médico para mulheres e pessoas pobres. Aprendiam o ofício umas com as outras e passavam esse conhecimento para suas filhas, vizinhas e amigas. Poucas dessas mulheres realmente praticavam bruxaria, porém, devido a histeria generalizada da população, muitas foram acusadas de mexerem com magia negra e algumas, inclusive, passavam a acreditar que realmente eram bruxas e que possuíam um “pacto com o demônio”.
Tudo o que a mulher tentava realizar nessa época, desde tentar ser livre, simplesmente conversar com outras mulheres, não se enxergar como inferior, até ter pleno conhecimento e aceitação da sua sexualidade, qualquer coisa feita por conta própria, era visto como uma imoralidade e motivava a "caça às bruxas". Assim, podemos considerar a figura da bruxa como o maior arquétipo feminista da história. Thomasin nunca atribuía nada à vontade de Deus como toda a sua família; já demonstrava sua relutância com os ensinamentos religiosos apesar de seguí-los devido a opressão e para não ser repreendida, e foi a última a seguir o pai após o julgamento, ou seja, desde o começo, ela estava questionando o comportamento da sua família, tentando encontrar uma justificativa para reproduzi-lo.
Portanto, Thomasin sempre foi uma bruxa. Sempre foi, A Bruxa. A conveniência de estar envolvida ou presente em todos os grandes acontecimentos, como na aparição da outra bruxa junto aos bodes, bebendo sangue dos animais, era fundamental para que Thomasin fosse capaz de se libertar das "garras do cristianismo", uma vez que, a insatisfação e indignação por sempre levar a culpa por tudo, a motivaria a procurar acolhimento e libertação na figura do bode.
É nesse momento que ela pode viver sem amarras religiosas e sociais que a prendiam em uma realidade a qual não se encaixava. Desde o começo do filme, existe menção a um livro no qual você coloca o seu nome e, a partir daí, passa a ser servo do diabo. Então, no fim, Black Philip, transformado em uma figura humana, guia as mãos de Thomasin para assinar o livro.
Dessa forma, a personagem torna-se, oficialmente, uma Bruxa. Na cena final, vemos o que chamavam de Sabbath das bruxas, onde essas mulheres se reuniam e - segundo a crença da época, dançavam para o demônio depois de sacrificar pessoas. Esse pensamento é reforçado quando os gêmeos desaparecem da cela onde passaram a noite, e no lugar, estão duas ovelhas mortas, representando simbolicamente seus sacrifícios.
Se outrora, as bruxas eram queimadas vivas como castigo e repreensão, nesse caso, a jovem renascida Thomasin encontra um grupo de bruxas dançando à beira de uma imensa fogueira para serem alçadas aos céus como símbolo máximo de libertação.