Quando nós estamos na escola, aprendemos que células são feitas de matéria orgânica. O DNA guarda informações genéticas, as proteínas servem de estrutura celular, os lipídios formam as membranas das células, e por aí vai. Mas o que você pode não ter aprendido na escola é que algumas de suas células também são feitas de um material nada convencional: elas são feitas de plástico.
Eu sei, é difícil imaginar como plástico pode entrar nas suas células, então… como isso é possível? Imagine que você vai ao supermercado comprar uma garrafa do seu refrigerante favorito. É muita sede pra ir no mercado só pra isso, mas ok.
HIDRATAÇÃO! Essa garrafa é feita de plástico. Depois de saciar a sua sede e colocar aquela dose gostosa de água pra dentro do seu corpo, você vai descartar essa garrafa de plástico, que não é biodegradável.
Mas você pensa que tudo bem, porque afinal de contas, você pode separar esse material pra reciclagem. Só que vamos supor que sua cidade não tem um programa eficaz de reciclagem, então esse material reciclável vai acabar sendo coletado junto com os outros e… vai acabar parando no mar. Como você deve saber, plástico é um material extremamente durável, e justamente por isso ele é tão utilizado hoje em dia.
Ele não se desfaz, mas apenas vai se quebrando aos poucos em pedaços cada vez menores. Então imagine que, boiando ali no mar, a sua garrafa plástica acaba sofrendo bastante ação do sol. O que vai acontecer com ela?
Certamente ela não vai ganhar um bronzeado! Na realidade, sua garrafa plástica vai se quebrando em pedaços muito pequenos, milhares de vezes menor do que um milímetro, que chamamos de microplásticos. Só que, com o tempo, esses fragmentos podem se quebrar em pedaços ainda menores, milhões de vezes menor do que um milímetro, chamados nanoplásticos.
Como pequenos pedaços de plástico da garrafa de refrigerante estão lá jogados no mar, os peixes e crustáceos acabam consumindo esse material. E, um belo dia, quando você decide ir à praia num feriadão emendado e consumir aquele famoso peixe frito, você vai acabar comendo também um tempero especial de micro e nanoplásticos… DELÍCIA. Não existe exatamente um consenso sobre qual seria o tamanho do nanoplástico.
Quando se usa esse termo, geralmente estão se referindo a plásticos que têm até mil nanômetros de comprimento. Mas a Iniciativa Nacional de Nanotecnologia dos Estados Unidos define um nanomaterial como tendo entre um e cem nanômetros, então vamos usar essa medida como referência. O que realmente importa é que a diferença entre o nanoplástico e o microplástico não está apenas no tamanho por si só, mas também no que um pedaço de plástico é capaz de fazer quando você vai diminuindo cada vez mais suas dimensões.
Quanto menor a partícula de plástico, menores são as chances dela passar direto pelo seu intestino, e maiores são as chances dessas partículas serem absorvidas por ele. É assim que o plástico pode conseguir entrar e ser assimilado pelo seu organismo. Mas pra isso o plástico precisa ser pequeno o suficiente.
Ele precisa ser um nanoplástico. E não é só nos seus intestinos que nanoplásticos conseguem ser absorvidos. Nanoplásticos são pequenos o suficiente pra passar por um processo chamado de endocitose.
Através desse processo, as células do seu corpo conseguem absorver substâncias, mantendo esse material em pequenas “bolhas” nas membranas celulares. Então, desse jeito, o plástico consegue circular pelo seu corpo e fazer literalmente parte das suas células, chegando a outros órgãos como fígados e rins. O nanoplástico consegue se depositar até mesmo no seu cérebro, porque ele consegue ultrapassar a barreira hematoencefálica, que é uma estrutura que protege nosso Sistema Nervoso Central de substâncias potencialmente tóxicas para o organismo.
E pior, o poder de disseminação do plástico dentro do corpo é tão grande que ele consegue contaminar até quem ainda nem nasceu, já que foi possível observar que amostras de nanoplástico depositadas em placentas. Ou seja, nesse exato momento, nanoplásticos estão por toda parte, inclusive dentro de algumas células do seu corpo. E isso pode ser um problema.
Pra entender como nanoplásticos nas nossas células podem nos prejudicar, é preciso saber que proteínas são fundamentais pro funcionamento do seu corpo. Elas fazem parte da estrutura e das reações de suas células. O problema é que os nanoplásticos têm a capacidade de interagir e modificar a estrutura das proteínas.
Isso acaba alterando a sua função e eficiência no metabolismo, gerando um processo de desnaturação daquela molécula e levando à morte celular ou até do próprio organismo. E essa não é a única maneira que o nanoplástico pode danificar suas células. Ele pode trazer substâncias tóxicas consigo, e assim contaminar as células do seu corpo.
Na hora de produzir aquela mesma garrafa de plástico do começo dessa história, pode ser que o fabricante tenha colocado algumas substâncias para tornar seu produto mais durável ou menos inflamável, por exemplo. Só que essas mesmas substâncias, dentro do seu organismo, podem causar danos à sua saúde. É como se o nanoplástico funcionasse como um Cavalo de Troia pro seu organismo.
Ele se acopla a substâncias tóxicas e consegue “contrabandeá-las” na surdina pra dentro de suas células quando ele é absorvido. Isso pode levar a um quadro de estresse oxidativo, citotoxicidade, imunotoxicidade, distúrbios dos hormônios da tireoide, obesidade e outros problemas de saúde. Em comparação com os microplásticos, os nanoplásticos podem liberar mais substâncias tóxicas, em uma velocidade bem maior.
Isso porque quanto menor um objeto, maior a sua área de superfície em relação ao seu volume. E por consequência, maior a sua capacidade de reagir. Com essa quantidade absurda de plástico espalhado pelo nosso mundo, é cada vez mais provável que problemas decorrentes da contaminação com nanoplástico se tornem mais comuns, afetando todas as espécies de seres vivos do planeta.
Pequenas decisões que nós tomamos durante o seu dia, como comprar um refrigerante em uma garrafa de plástico e depois descartar esse material, podem impactar a sua própria saúde e a de tantas outras pessoas ao seu redor. Parece que o plástico encontra uma maneira de acabar voltando para nós, de uma forma que parece quase imperceptível, mas que vai nos contaminando por dentro, através de minúsculos pedaços que se infiltram nas nossas células e quebram as suas estruturas. Claro, não é que seja tudo culpa sua ou minha por comprar uma garrafa de refrigerante, mas nós precisamos urgentemente de uma mudança sistemática sobre a forma que lidamos com o plástico.
Se queremos um mundo mais saudável no nosso futuro, precisamos agir hoje para reduzir ou acabar com a produção desenfreada de plástico ou, pelo menos, encontrar uma maneira de decompor todo esse plástico que produzimos, antes que seja tarde demais. E antes que seja tarde demais eu sugiro que você pare imediatamente de comer cartões de crédito. Como é o que eu explico bem aqui!
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