Olhe ao redor para o que hoje chamam de arte. Olhe para o que se exalta como belo é de fato belo. Uma cacofonia de manifestos, uma feira de vaidade, onde o chocante, o bizarro, o ininteligível muitas vezes recebe mais aplausos do que aquilo que verdadeiramente eleva o espírito e enobrece a alma.
Ah, mas a beleza está nos olhos de quem vê. Gosto não se discute. Muitos afirmam essas palavras como se elas fossem a mais absoluta sabedoria.
Mas será que foi sempre assim? Será que os nossos antepassados, aqueles que ergueram catedrais, que tocam os céus, que esculpiram mármores, que parecem respirar, que pintaram a frescos que nos falam da glória divina, será que todos eles estavam enganados? Será que a beleza com B maiúsculo, aquela que nos arrebata, nos aponta para algo além de nós mesmos, é apenas uma ilusão, uma construção social, um capricho individual?
Eu acredito que não. Houve um tempo e um tempo bem longo até, em que a beleza era entendida como algo real, objetivo, uma centelha do divino faziscando no mundo. Uma beleza que se podia buscar, aprender, cultivar e que estava intrinsecamente ligada à verdade e ao bem.
Mas algo aconteceu no meio do caminho. Uma série de ideias, aparentemente libertadoras começou a minar essa concepção. E é sobre isso que vamos conversar hoje.
Vamos visitar os alicces da estética clássica. Entender a sua solidez a apontar onde é que, a meu ver a modernidade errou o passo, onde é que trocamos a busca pela beleza transcendente por um labirinto de subjetividades. Olá, amigos, espero que estejam bem, que nosso Senhor nos abençoe.
Eu sou Rodrigo Leão, sou professor e aqui nesse canal nós falamos de qualquer coisa, desde que tenhamos um bom livro. No conto da roupa nova do rei, uma dupla de malandros vendem ao nobre uma roupa magnífica. A mais bela de todas.
O único problema é que trata-se de um tecido que só os inteligentes vem e de fato a roupa sequer existe. É só um golpe. Porém, quem é que vai admitir que não está vendo?
Quem ousará correr o risco de passar-se por burro? Em um vídeo anterior aqui do canal, eu topei esse desafio e gritei para todo lado: "O rei tá nu! " Claro que os inteligentinhos logo apareceram para acusar-me de estar preso no século XVI, de ter uma concepção europeia de arte, de estar desatualizado, de ser burro mesmo.
Daí que eu senti a necessidade de fazer essa sequência, um vídeo com muito mais cuidado, onde eu quero elencar umas fontes, apontar pensadores muito mais inteligentes que eu, pessoas que lançaram as bases do pensamento sobre a arte para entender como é que nós chegamos até essa situação. final, essa relativização nefasta é muito mais recente do que fazem você acreditar. E digo mais, nem tudo o que é novo é necessariamente algo positivo.
Nem toda novidade é progresso. Há uma mania, em muita gente por aí, de supervalorizar o conhecimento acadêmico vigente em detrimento do antigo. No caso da filosofia, isso é um problema ainda pior do que acontece em outras áreas.
Se a gente retomar o meu vídeo anterior, por exemplo, lá eu usei a Pietá de Michelângelo, vou colocar ela aqui. Qualquer um bate o olho e percebe. Isso é arte.
Agora veja, por exemplo, o Balum, Balum Dog, do artista Jeff Kuns. Eles querem te fazer acreditar que esta segunda obra tem o mesmo peso da primeira. Eles querem desacreditar a percepção nata, aquela que faz até o seu Zé da Pipoca perceber a infinita grandeza da Pietá diante dessa completa bobagem.
Eles vão dizer que reafirmar o valor do clássico da Pietá é elitismo. Agora eu pergunto, o que é que é mais elitista? Reconheceu o gosto inato do seu Zé ou implicitamente afirmar a ignorância dele por não entrar no julgo, o insistia em dizer que o rei está nu?
Apesar do que dizem por aí, a academia não é um mar de rosas e não existe esse ideal romântico da validação dos pares. Entenda, é sempre importante a gente ressaltar as coisas, porque aqui as pessoas são precipitadas, sai? xingando você sem que você termine o seu raciocínio.
Então, é preciso explicar isso, dizer o óbvio. Eu não estou aqui sendo um negacionista, eu não tô afirmando de forma alguma a insignificância total de qualquer conhecimento científico, mas essa pos academicista de colocar o que as universidades produzem como valor supremo é algo que, como é que eu posso achar uma palavra sutil para dizer isso? É algo idiota mesmo, ainda mais no campo da filosofia da investigação da beleza.
Afirmo isso claro, a fim de explicar a postura de muitos que vão subir nos ombros da dita validação acadêmica para tentar castrar qualquer tentativa de afirmação dos valores clássicos sob a desculpa de que é um pensamento ultrapassado. Veja bem, quase 90% da história do pensamento sobre arte vinculou explicitamente a arte, o objeto artístico, a beleza e a verdade. Somente no século XVI é que houve uma mudança nesse paradigma.
E agora todo mundo abraça isso como se fosse a verdade absoluta, como se figuras da do tipo de Platão, de São Tomás de Aquino, como se eles fossem apenas velhos gagás, incapazes de perceber o óbvio. E é claro que aqui no canal nós sempre recomendamos um livro. Eu recomendo fortemente que vocês vejam, leiam a iniciação a estética de Ariano Suasuna.
Para quem não sabe ou quem não está associando o nome à pessoa, ariano, é o autor do autar compadecida, prolífico, tem uma obra muito vasta, falaremos dele melhor mais adiante no vídeo, mas este livrinho aqui é a reunião do seu curso de iniciação estética, da sua disciplina, melhor dizendo, na Universidade Federal de Pernambuco, porque além de um ótimo escritor, ele era também um professor de estética na Faculdade Federal de Pernambuco. É um livro excelente, serve para iniciados e também para leigos. única, a única reclamação que as pessoas podem fazer é porque justamente ele puxa a sardinha para esse lado mais clássico, tradicional da concepção da arte, mas ele faz todo um panorama sobre a filosofia do belo e a estética.
E já que eu falei sobre ele puxar a sardinha, é muito importante também deixar bem claro que aqui nesse vídeo nós temos sim uma posição clara, definida. A minha intenção nunca foi ser neutro. Eu não quero ser neutro.
Eu tenho um posicionamento muito evidente. Este vídeo, portanto, tem um engajamento claro definido aqui. A ideia é justamente valorizar o que é belo, denunciar o relativismo, aquilo que eu acho que é a raiz da nossa decadência.
Mas claro que isso não significa necessariamente que eu vou ficar falando bobagens baseadas apenas em dogmas, sem raciocinar sobre eles. Muito pelo contrário. E já que o negócio é a defesa do clássico, nós temos que ter em mente que quando falamos clássico, não estamos falando de algo velho, de algo empoeirado.
Estamos falando daquilo que resiste ao tempo, que continua a nos interpelar com sua força, sua sabedoria. E na estética, os fundamentos clássicos são de uma riqueza, de uma profundidade, que, infelizmente, foram esquecidas ou até mesmo deliberadamente postas de lado. E vamos entender tudo voltando até Platão.
Para ele, o mundo que vemos com os nossos sentidos é apenas uma sombra, é uma cópia imperfeita de um mundo superior, o mundo das formas ou das ideias. É lá nesse mundo inteligível que reside a forma da beleza em si, perfeita, eterna e mutável. As coisas que nós achamos bela aqui na Terra, uma paisagem, uma canção, uma alma virtuosa, elas são belas na medida em que participam, que refletem essa beleza ideal.
A experiência do belo para Platão não era um mero deleite dos sentidos, era um chamado, um ponto de partida, uma assese, ou seja, uma subida da alma em direção ao conhecimento da verdade, da prática do bem. No diálogo O banquete, ele descreve esta escada do amor que nos leva do amor pelos belos corpos, ao amor pelas belas instituições, pelos belos conhecimentos, até a contemplação da beleza em si, que por sua natureza é inseparável do bem. Vejam só a profundidade desse pensamento.
A beleza não é um fim em si mesma, ela é um caminho paraa perfeição moral, intelectual. É claro que Platão tinha ressalvas quanto aos poetas e artistas que apenas copiavam as aparências que nos afastavam da verdade. Mas o cerne da sua mensagem é que existe uma beleza objetiva, transcendente, que é a meta da alma humana.
Ele nos ensina a desconfiar das seduções fáceis do mundo sensível, a buscar uma beleza que alimente o espírito. É uma visão exigente, é verdade, que nos conclama a olhar pro alto, a melhorar, nos tornarmos seres melhores. O grande discípulo de Platão, Aristóteles, embora discordasse profundamente de seu mestre em muitos pontos, também via a beleza como algo objetivo, incontrável nas próprias coisas.
Para ele, a beleza reside na ordem, na simetria, na proporção entre as partes e o todo, numa grandeza definida. Uma obra de arte ou um ser natural é belo quando as suas partes se conjungam harmoniosamente, formando um todo coeso, inteligível. Aristóteles nos deu o conceito de mímesis.
Muitas vezes, esse conceito acaba sendo mal traduzido como uma simples imitação, mas a mímes aristotélica é muito mais do que isso. Ela é uma representação criativa da realidade, especialmente das ações humanas que nos permitem compreender o universal no particular. A arte, ao imitar a natureza, a vida, não apenas reproduz o que existe, mas os revela verdade sobre a condição humana.
A tragédia, por exemplo, é através da mímes de ações que despertam terror e piedade que produzimos a catarse, uma purificação dessas emoções e um aprendizado moral. Note como tanto para Platão quanto para Aristóteles, a beleza e a arte estão ligadas a uma busca por conhecimento, por aperfeiçoamento. Não é um mero passatempo.
Há uma seriedade, um propósito na experiência estética. A critérios objetivos, a ordem, a proporção, a harmonia, a capacidade de representar verdades universais. O artista não é uma mera voz, ele é um artífice que domina a sua técnica para dar forma a uma visão que transcende a sua própria individualidade.
A tradição clássica é enriquecida por Plotino. Depois disso, que era um grande neoplatônico, ele retoma a ideia de uma fonte transcendente da beleza, o Uno, do qual toda beleza do mundo emana como a luz do sol. Para Plotino, a beleza de uma coisa reside na sua unidade, na sua forma, na forma como ela reflete a luz primordial.
A experiência do belo é por isso um reconhecimento dessa origem divina, um despertado da alma para sua verdadeira pátria espiritual. Plotino reforça essa visão de que a beleza sensível é um degrau para uma beleza superior, inteligível e, em última instância, inefável. É Plotino também um dos primeiros a inserir o papel do receptor na contemplação estética.
Porque para ele a apreciação de uma obra de arte na verdade é uma é um confronto entre almas. Muitos de nós aprendemos na escola que a Idade Média ignorou os ensinamentos dos gregos, mas a chegada do cristianismo, na verdade não representou uma ruptura com essa herança clássica. Pelo contrário, os grandes pensadores cristãos, como é o caso de Santo Agostino, São Tomás de Aquino, eles souberam assimilar o que havia de melhor na filosofia greco-romana e integrar tudo isso à luz da revelação.
Santo Agostinho era profundamente influenciado por Platão, por Plotino. Ele via Deus como essa beleza suprema e imutável, como a fonte de toda a beleza criada. O mundo é belo para ele porque é obra de Deus, porque reflete a ordem, a unidade, a medida, o número que reside na mente divina.
Para Agostinho, a beleza das coisas criadas deve nos remeter ao criador. Apreciá-la sem reconhecer a sua origem divina é uma forma de desordem, é um apego ao que é passageiro. A beleza para ele tem um sentido profundamente teológico.
É um vestígio de Deus no mundo, um convite à sua contemplação. As suas confissões são testemunho pungente dessa busca pela beleza tão antiga e tão nova. Já São Tomás de Aquino, o doutor angélico, harmonizou Aristóteles com a fé cristã.
Também nos legou uma profunda reflexão sobre o belo. A sua famosa definição de belas são as coisas que vistas agradam, não deve de forma alguma ser entendida como mero subjetivismo. Agradar para a São Tomás não é um capricho qualquer.
Ele tá ligado à apreensão de certas qualidades objetivas na coisa percebida. Mas para entender isso, precisamos entender quais são então essas qualidades da coisa. Ele aponta três ao todo.
Primeiro, a integridade ou perfeição. A coisa deve ser completa, não deve lhe faltar nada essencial à sua natureza. Depois deve haver uma harmonia, uma proporção correta entre as partes do objeto e entre as partes e o todo.
Aqui a gente percebe muito o pensamento de Aristóteles. E no terceiro ponto, a beleza implica um certo resplendor da forma sobre a matéria, uma inteligibilidade que se manifesta aos sentidos, à mente, à luz, às cores vivas, a pureza da forma. Tudo isso contribui para essa claridade.
Veja como esses critérios eles são objetivos. Eles não dependem do meu humor, da minha digestão. Eles se referem a qualidades intrínsecas ao objeto belo.
Qualidades que, em última análise, refletem a perfeição e a sabedoria do criador. Para São Tomás, o prazer estético é um prazer cognitivo. É um deleite da alma ao apreender a ordem, a forma, a inteligidade presente no mundo.
A arte medieval foi profundamente inspirada por essa visão. Ela buscava expressar as verdades de fé, elevar a alma até Deus. As catedrais góticas, com a sua verticalidade que apontam para o céu e seus vitrais que filtram uma luz colorida, transcendente, são testemunho eloquente dessa estética, onde o belo, o verdadeiro, o sagrado caminham sempre de mãos dadas.
Pense comigo na solenidade do canto gregoriano, na riqueza simbólica dos ícones. Era uma arte com propósito, uma arte que se via algo maior do que ela mesma. Isso, meus amigos, é a espinha dorsal da concepção clássica de estética.
é uma beleza objetiva, enraizada na própria estrutura do ser, na ordem divina. Uma beleza que tem o poder de nos instruir, de nos purificar, de nos elevar. Uma beleza que não é apenas para os sentidos, mas paraa alma, para a inteligência.
Durante séculos, essa visão de uma beleza objetiva ligada à verdade, ao bem, prevaleceu no Ocidente. Mas como tudo que é humano, ela também passou por transformações, por questionamentos. O renascimento com a sua rede desescoberta da clássica e sua valorização do gênio individual já acrescentou novas matizes, embora ainda em grande medida operasse dentro dos parâmetros de harmonia, de proporção.
Foi no século XVI, com o Iluminismo, que aconteceu um vento de racionalismo e uma reorganização do saber. Foi nesse contexto que o filósofo alemão Alexander Bolgou o termo estética para designar a ciência do conhecimento sensível. A intenção de Balgarten era nobre.
dá um estatuto filosófico à esfera da percepção, da imaginação, do gosto. Ele queria entender a perfeição do conhecimento que obtemos através dos sentidos e essa perfeição seria a beleza. No entanto, ao focar na sensação, no conhecimento sensível como o domínio do próprio campo da estética, Balgarten, talvez sem perceber completamente, começou a deslocar o eixo da beleza do objeto pra experiência do sujeito.
ainda não era uma ruptura radical, mas a semente de uma futura subjetivização já estava plantada. A ênfase então começou a migrar da natureza do belo paraa nossa percepção do belo. Parou de importar o objeto em si, passou a importar o que acontece na nossa mente.
E quem levou essa tendência às suas últimas consequências, promovendo uma verdadeira revolução ou até mesmo uma subversão, que eu acho um termo mais apropriado, foi Kant. Com a sua crítica da faculdade do juízo, Kant realiza o que ele mesmo chamou de giro copérnicano. Assim como o Copérnico mostrou que não é o Sol que gira em torno da Terra, mas a Terra que gira em torno do Sol, Kant propôs que a beleza não reside no objeto, mas no juízo que o sujeito faz sobre ele.
Quando dizemos isto é belo segundo Kant, nós não estamos atribuindo uma propriedade real à coisa. Nós estamos somente expressando um sentimento de prazer que a contemplação dessa coisa desperta em nós. A beleza é fundamentalmente uma questão de sentimento subjetivo.
E aqui, meus amigos, eu acho que vocês já perceberam onde a coisa começou a desandar. É claro que Kant era um filósofo de imensa envergadura. a sua análise é bastante complexa.
Ele tenta salvar a universalidade do juiz de Gusto, dizendo que, embora subjetivo, ele é desinteressado, não depende de nossos apetites, de nossos conceitos. E por isso podemos esperar que outros concordem conosco. Ele fala de uma finalidade sem fim do objeto belo que parece feito para agradar as nossas faculdades cognitivas, uma imaginação, o entendimento em um jogo livre, aberto, mas vamos olhar para isso com um olhar mais crítico.
Vamos trazer a luz do conhecimento clássico para iluminar um pouco essa tradição que ele tentava romper. Vamos aqui confrontar principalmente quatro conceitos cantianos, tentar mostrar como eles são problemáticos na sua essência. Primeiro vamos falar do problema do desinteresse.
Essa ideia de um prazer desinteressado parece nobre. Ela busca livrar a arte da mera utilidade ou até mesmo do hedonismo vulgar. No entanto, ao desvincular radicalmente o belo de qualquer interesse, seja ele cognitivo, moral, prático que seja, não estaria Kant esvaziando a arte de seu propósito mais profundo?
Arte clássica cristã, ela era profundamente interessada em transmitir a verdade, em inspirar a virtude, em celebrar o divino. Se a beleza se torna um mero jogo formal, que nos causa um prazer desinteressado, ela não corre o risco de se tornar estéril, um deleite autossuficiente, mas completamente vazio de significado e transcendência. Em segundo lugar, há o problema da universalidade subjetiva.
Kant afirma que por ser desinteressado, o nosso juízo de gosto pode pretender validade universal. Nós esperamos que todos sintam o mesmo, mas se a base é o meu sentimento particular, por mais puro que ele seja, como é que eu posso legitimamente exigir o assentimento universal? Essa universalidade subjetiva, não só como uma tentativa engenhosa, mas em última instância falha de reconciliar e irreconciliável.
Se a beleza não tá ancorada em qualidades objetivas da coisa ou em uma ordem transcendente, mas apenas na estrutura da minha mente ou da mente humana em geral, como dizia Kant, o relativismo não estaria irremediavelmente aberto? Se é o meu sentimento que fundo o belo, o que é que o sentimento do outro, diferente do meu, não é ou não seria igualmente válido? E finalmente, a finalidade sem fim.
A ideia de que o objeto belo agrada por uma finalidade sem fim, ou seja, ele parece ter um propósito, mas não podemos dizer qual, pode ser interpretada como uma perda do propósito objetivo que a arte sempre teve. Arte clássica tem fins claros. Glorificar Deus, educar o cidadão, revelar a ordem do cosmos, imitar a natureza para dela extrair verdades.
Se agora a arte não tem fim, além do prazer que suscita no livre jogo de nossas faculdades, ela não se torna um luxo, um ornamento, em vez de algo essencial à vida humana em busca por sentido. E aí muitos podem afirmar que de fato a arte é um luxo mesmo. Devemos reconhecer isso.
Porém, estamos ignorando o fato de que até na mais absoluta miséria o ser humano é capaz de produzir arte. Ela é um luxo? Ou será que não?
O fim há o conceito de gênio para Kant. Kant define o gênio artístico como um talento inato que dá a regra à arte e não o contrário, não recebe dela. É o artista que impõe o que seria o procedimento.
Ele é original, não pode ser ensinado. Embora haja uma verdade profunda na ideia de talento e originalidade, a ênfase cantiana no gênio como fonte autônoma e superior das regras pode ser vista como embrião do individualismo exacerbado do romantismo, onde o artista se torna um semideus, um legislador de si mesmo, muitas vezes em rebelião contra a tradição, as regras objetivas da arte e até mesmo a razão. A gente vai dar uma olhada nisso daqui a pouco.
a inspiração subjetiva do gênio começa a ter mais peso do que a paciente aplicação de princípios universais. E mais uma vez é necessário que eu explique o óbvio. Eu não tô aqui de forma alguma tentando diminuir a importância de Kant como filósofo.
No entanto, eu preciso reconhecer que ao deslocar o fundamento da beleza para o sujeito, ele abriu uma caixa de Pandora terrível. A beleza, que antes era uma estrela guia que nos orientava para o transcendente, começou a se fragmentar em uma miríade de sentimentos individuais. As consequências dessa revolução subjetivista serão sentidas e, a meu ver, de forma muitas vezes negativa em toda a estética subsequente.
Uma vez que a âncora da objetividade foi levantada, o navio da estética começou a navegar por mares cada vez mais tempestuosos e incertos. O legado de Kant, ao subjetivar o Belo, mesmo com todas as ressalvas e complexidades, pavimentou um caminho seguro para o desenvolvimento daquilo que afastou cada vez mais a arte da concepção clássica e cristã. O romantismo que surge logo após Kant levou até as últimas consequências à valorização do sentimento e da individualidade.
Se para Cant era um sentimento desinteressado com pretensão de universalidade, para muitos românticos o que importa mesmo é a intensidade da emoção particular, a expressão visceral da subjetividade do artista, o culto ao eu. O artista romântico se vê como ser excepcional, um gênio incompreendido, cuja alma atormentada é a fonte de toda a criação, a originalidade a qualquer custo, a quebra de todas as regras, a expressão desenfreada das paixões. Tudo isso se torna marca de autenticidade.
O eu do artista se infla tornando-se o centro e a medida de todas as coisas. A inserção do mal e do feio como preferência estética. Se a tradição clássica buscava a harmonia, a ordem, a beleza que eleva, o romantismo muitas vezes se compraz desforme, no grotesco, no sombrio, no macabro.
O sublime cantiano, que já continha um elemento de terror diante do informe, é frequentemente distorcido numa fascinação pelo lado noturno da existência, por vezes desprovido de qualquer redenção, de qualquer sentido superior. Não se trata mais de compreender o mal ou o feio dentro de uma ordem maior. Agora passa-se a cultivá-los.
Eles são fontes de emoção estética, são símbolos de rebeldia. O herói baironiano, aquele ser amaldiçoado em conflito com o mundo, ele se torna o ideal. A frase arte não é apenas técnica, pode ser muito perigosa se mal interpretada.
No romantismo, a ênfase na inspiração, na genialidade inata, muitas vezes levou a um desprezo pela paciente aprendizagem do ofício, pelo estudo dos mestres, pela disciplina que a verdadeira regra exige. A tradição passa a ser vista não mais como um tesouro a ser assimilado e e enriquecido, mas passa a ser um fardo a ser rejeitado em nome de uma suposta liberdade criativa. Mas a gente deve sempre lembrar que a liberdade sem forma, sem propósito, é apenas libertinagem.
É claro que o romantismo teve os seus grandes artistas, produziu as suas grandiosas obras, obras de negável força, tamanho e valor, mas a exaltação desmedida da subjetividade, da emoção, a sua rebelião completa contra a ordem, contra a razão, contribuíram para o enfraquecimento dos critérios objetivos de julgamento estético. No século XX assistiu a uma proliferação de ismos, cubismo, futurismo, dadaísmo, surrealismo, abstracionismo, tantos outros. Esses movimentos de vanguarda levaram adiante, de forma cada vez mais radical a ruptura com as concepções tradicionais de arte.
O cubismo decompõe o objeto em múltiplas perspectivas. O expressionismo, por sua vez, distorce a forma para expressar angústias interiores. A busca pela representação fiel da realidade, ou mesmo pela beleza harmoniosa, foi abandonada em favor da experimentação formal ou simplesmente da expressão subjetiva.
O ideal de autonomia da arte foi levado ao extremo, resultando em obras que se fecham em si mesmo, que falam apenas para um círculo restrito de conhecedores, alienando o público mais amplo. A arte corre o risco de se tornar um jogo formal para especialistas. perdendo a sua capacidade de comunicar verdades universais ou de tocar o coração humano de forma mais profunda.
Movimentos como dadaísmo e o surrealismo elevam o non sense, o sonho, o acaso, o choque, a categoria de princípios artísticos. Se a arte clássica buscava a ordem, a inteligibilidade, aqui muitas vezes se busca o oposto, se busca a desordem, a provocação, a negação do sentido. Em desenvolvimentos mais recentes, a própria ideia da obra de arte como objeto material dotado de qualidades estéticas intrínsecas é completamente questionada.
A ideia por trás da obra passa a ser mais importante do que a sua própria realização formal. É um mictório numa galeria, uma tela em branco, uma performance efêmera. Tudo pode ser arte, desde que um curador, um crítico, assim o decrete.
Mas onde é que fica então o critério de valor? Se tudo é arte, podemos concluir então que nada é arte? É evidente que não se trata aqui de negar o valor de toda a arte moderna ou até mesmo contemporânea.
Claro que existiram grandes artistas, obras magníficas, significativas nesse período. Negar a magnitude de um guernica de Picasso, por exemplo, seria a mais profunda idiotice. Mas é preciso questionar a narrativa de um progresso linear inevitável.
Será que a perda de um ideal de beleza objetiva, a fragmentação da forma, o abandono do ofício, a celebração de um subjetivismo radical representa realmente um avanço? Ou será que em muitos casos o que nós vemos é somente um empobrecimento, uma perda de rumo? Uma arte que reflete mais a confusão e unilismo de uma época do que uma busca genuína pela beleza, pela verdade, pelo bem?
Pense na civilização do espetáculo que Vargas Louça descreve. Eu comentei esse livro aqui em um outro vídeo, vou deixar o link na descrição. Uma cultura onde o entretenimento fácil, a sensação imediata, o escândalo, o valor de mercado muitas vezes se sobrepõe a qualquer critério de qualidade intrínseca ou de relevância espiritual.
Nesse contexto, a arte não corre o risco de se tornar apenas mais uma mercadoria, mais um produto de consumo rápido e descartável. Diante desse panorama que pode parecer desolador para quem preza pelos valores clássicos, o que é que podemos fazer? resignar-se ao relativismo, ao vale tudo estético.
Eu creio que não. É preciso, mais do que nunca, reafirmar a possibilidade e a necessidade de uma estética que recupere o sentido da ordem, do propósito, da transcendência. A gente volta então para Ariano Soaçuna, uma luz brasileira, na busca dessa beleza autêntica.
Aqui, meus amigos, temos uma tradição cultural, um exemplo luminoso de resistência e de afirmação de valores perenes. A sua obra, tanto a literária quanto a ensaística no caso de iniciação estética, é uma defesa apaixonada de uma arte brasileira que seja ao mesmo tempo profundamente enraizada em nossa cultura popular e universal em sua busca pela beleza, pela verdade. Tuaçuna com seu movimento harmorial tentou buscar uma arte erudita que bebesse nas fontes do romanceiro popular nordestino, da literatura de cordel, da música de viola, dos autos medievais.
Ele não tinha medo da tradição. Muito pelo contrário, ele via nela uma seiva que poderia alimentar uma arte brasileira autêntica, livre do termo usado por ele, né? A macaqueação de modismos estrangeiros e do nilismo de certas vanguardas.
O seu livro Iniciação estética é uma obra monumental, onde ele dialoga com toda a história do pensamento estético, mas sempre com um olhar crítico e com os pés fincados na sua fé católica, em seu amor pelo Brasil. Paraa Suauna, a beleza não é um jogo fútil. Ela tá ligada intimamente à iluminação, à esperança, à busca por um sentido que transcenda a meraidade.
É como ele mesmo dizia, ele era um defensor de um realismo esperançoso. No Alto da Compadecida, uma obra que eu também tenho vídeo aqui no canal, nós vemos essa estética em ação, a linguagem popular, o humor, a crítica social, tudo isso tá a serviço de uma profunda reflexão sobre a condição humana, sobre a justiça, a misericórdia, a fé. João Grilo, com a sua astúcia, a sua razão reflexiva, é um herói popular que encarna a sabedoria e a resiliência do nosso povo.
E a intervenção da compadecida aponta para essa dimensão transcendente, para essa esperança que, segundo Suauna, não pode faltar a verdadeira arte. A Ariana nos mostra que é possível ser moderno sem ser iconoclasta, que é possível ser brasileiro sem ser proviciano e que é possível buscar a beleza sem abrir mão da verdade e do bem. A lição que nós podemos tirar de mestres como Platão, Aristóteles, São Tomás e até mesmo de Arian Suassun é que a beleza não é um mero capricho subjetivo.
Embora a percepção da beleza envolva sim nossa sensibilidade e nossa inteligência, existem qualidades objetivas nas coisas. Existe ordem, proporção, harmonia, integridade, claridade, adequação. Tudo isso torna o objeto artístico realmente belo.
E essas qualidades, elas não são arbitrárias, elas ressoam profundamente com a nossa natureza humana. Porque em última análise refletem uma ordem maior, uma inteligência e uma bondade que estão na raiz de todo ser. A arte quando busca essa beleza objetiva, ela não tá se limitando a agradar os sentidos ou a expressar apenas sentimentos fugazes.
Ela tem um propósito muito mais elevado, revelar a verdade. A arte pode nos dar um insight sobre a natureza das coisas, sobre a condição humana, sobre as verdades eternas. Ela pretende formar o caráter, nos apresentar exemplos de virtude, as consequências do vício, nos fazer contemplar a ordem, a harmonia.
A arte pode contribuir paraa nossa formação moral. A beleza tem um poder pedagógico. A verdadeira beleza nos arranca da banalidade do cotidiano e nos aponta para o transcendente, para o sagrado.
Ela alimenta a nossa sede quase insaciável do infinito. Isso não significa, mais uma vez explicando, dizer ou defender um retorno nostálgico à formas artísticas do passado ou até mesmo impor um conjunto rígido de regras. A tradição não é um museu de coisas mortas, ela é um rio vivo que se enriquece com novas contribuições, desde que estas não traiam os seus princípios fundamentais.
O que nós precisamos é de discernimento, a capacidade de distinguir entre a beleza autêntica que enobrece e a mera novidade ou a provocação vazia, entre a liberdade criativa, que serve a um propósito maior, e a licenciosidade que se comprais na desordem. Muitos hoje em dia temem a palavra tradição associando a algo opressor que limita a liberdade, mas a verdadeira tradição na arte, como em qualquer outra esfera da vida, é um tesouro da sabedoria acumulada. Ela é um conjunto de obras e princípios que resistiram ao teste do tempo porque contém algo de universalmente válido e humanamente significativo.
Ignorar a tradição não é ser livre, é ser órfão. É condenar-se a reinventar a roda a cada geração e muitas vezes numa reinvenção desastrosa. O verdadeiro artista não é aquele que destrói tudo que veio antes, mas aquele que conhecendo profundamente a tradição, dialoga com ela, a reinterpreta, a enriquece com a sua própria visão e com as sensibilidades de seu tempo, mas sem jamais perder de vista os fins últimos da arte, a busca pela beleza, pela verdade, pelo bem.
Essa jornada pela estética, com esse olhar mais conservador e valorizando a tradição, nos mostra que a concepção da beleza e da arte tem consequências profundas paraa cultura e paraa alma humana. O giro subjetivista iniciado por Kant, embora nascido de um esforço intelectual notável, abriu portas para um relativismo e um individualismo que empobreceram em muitos aspectos nossa experiência do Belo. Nós perdemos em grande medida o senso de que a beleza é algo objetivo que nos chama a uma resposta de admiração e reverência.
Perdemos a noção de que a arte tem um propósito que transcende o mero entretenimento ou a autoexpressão do artista. Com isso, corremos o risco de nos contentarmos com o pouco, com o superficial, com o feio disfaçado de pura ousadia. Mas a herança clássica está aí, viva e pulsante, nos oferecendo esse antídoto.
Ela nos convida a redescobrir uma beleza que se fundamenta na ordem, na harmonia, na verdade, na bondade. Ela nos chama a cultivar o discernimento, a valorizar o ofício, a buscar uma arte que alimenta não apenas os nossos sentidos, mas também a nossa inteligência, o nosso espírito. E esse vídeo de hoje sirva de estímulo para que cada um busque essa beleza que não passa, essa arte que verdadeiramente humaniza, aproxima do eterno.
Não se deixe levar pelo canto da sereia do relativismo. Tenha coragem de afirmar que nem tudo que reluz é ouro, de afirmar que o rei está nu e que a verdadeira beleza tem um valor imperecível. É isso, meus amigos.
Espero que tenham gostado de mais um vídeo. Que nosso Senhor nos abençoe e até a próxima.