Eu [música] sou Rafael, psicólogo, e não é o mundo que fica mais calmo, é você que aprende a não reagir a tudo. Hoje a reflexão é sobre Torfim. Tem spoiler do anime de Viland Saga.
Vamos lá. Uma das maiores transformações ocorridas no universo dos animes. Torfin inicialmente era um personagem impulsivo, dominado pela raiva, pela necessidade de vingança.
Sua identidade girava em torno da violência e da reação imediata ao sofrimento que ele vivia. com o passar do tempo, porém essa postura começa a ruir. Torfin passa a confrontar esse vazio deixado pelo seu propósito anterior que tinha meio que acabado.
A raiva cede espaço à reflexão, ao silêncio e à busca por sentido. Ele se torna mais equilibrado, estável e consciente de si. E para muitos espectadores de Vila Saga, essa transição causou decepção pela redução da ação.
O anime claramente fica mais monótono, com menos lutas com menos conflito. Então, quem acompanhava o anime apenas pela ação pode ter perdido o interesse quase que total na segunda temporada. No entanto, ela marca o amadurecimento psicológico do personagem, um personagem que antes tinha um propósito que estava voltado totalmente no futuro, em uma ação futura.
E quando ele concluísse essa ação, ele se sentiria bem para um personagem que foca quase que totalmente no momento presente. Dorfim tem um compromisso radical em permanecer atento àquilo que estava de fato diante dele. Não ao que poderia acontecer, não ao que já havia acontecido, mas o que exigia a presença dele naquele momento.
É justamente essa postura que permite que ele trabalhe tranquilamente na segunda temporada, executando tarefas simples, com calma, sem ser dominado pela ansiedade ou pela urgência constante que antes o consumia. E aí muitos vão dizer que o Torfin se tornou apático. Esse foco no momento presente faz com que ele se torne disponível para o que a realidade pede.
O foco no momento presente mudou completamente o torfim. A ciência oferece um paralelo impressionante para essa transformação. Pesquisadores que estudaram os pensamentos e comportamentos das pessoas ao longo do dia concluíram que os indivíduos pensam sobre o que não está acontecendo quase tão frequentemente quanto pensam sobre o que está acontecendo.
E aqui está o ponto crucial. As pessoas eram significativamente mais infelizes quando estavam pensando sobre o que não estava acontecendo no momento, sobre o passado ou sobre o futuro. Já aquelas que ruminavam menos, focavam no agora, no momento presente, relatavam níveis mais altos de bem-estar.
As que estavam genuinamente engajadas no momento presente, como em uma conversa cara a cara, ao executar uma atividade manual ou ao perceber conscientemente as sensações do corpo durante o movimento, se sentiam claramente com menor estresse. Ou seja, a presença, aquilo que o Torfin pratica depois da primeira temporada era um fator mais decisivo para o bem-estar que a experiência em si. Torfin aparente está mais fraco, menos ágil do que antes, porém está muito mais sereno do que sua versão anterior, que praticamente não tinha paz.
Tendemos a conceber o tempo como algo linear, fluindo ordenadamente do passado para o presente e depois para o futuro. Einstein desafiava essa intuição. Ele sugeria que aquilo que percebemos como agora é uma construção relativa, dependente do observador e diversas condições físicas.
O tempo, portanto, é menos absoluto do que a nossa experiência cotidiana nos faz acreditar. Como o próprio Einstein ironizou, a única razão para o tempo existir é para que tudo não aconteça de uma só vez. Então, o tempo funciona como organizador da experiência humana, uma forma de dar ordem ao causos acontecimentos.
Mesmo aquilo que vivenciamos como presente é neurologicamente processado com um pequeno atraso. O agora já se tornou passado no instante em que o cérebro interpreta. Essa constatação pode ser sua desconfortável de início, mas há uma forma sutil de liberdade escondida nela.
Tecnicamente, não podemos viver o presente de maneira literal, mas podemos viver de forma intencional. É exatamente isso que vemos no Torfim. Ele deix de lutar contra o passado, que não pode mudar e contra um futuro que ainda não existe e passa a agir com consciência do único ponto onde a ação é possível, suas escolhas de agora.
E o Torfin tenta fazer isso de maneira deliberada, porque ele sofre. Ele sofre com pensamentos relacionados ao que ele fez no passado. E o nosso cérebro tende a nos puxar incessantemente para memórias, arrependimentos, projeções e medos futuros.
É um exercício contínuo de ancoragem. Torfim tem muitos sonhos. Tecnicamente, o Torfin já é puxado para o passado de forma espontânea.
O cérebro usa sonhos como um simulador de possibilidades, não para prever o futuro, mas sim para ensaiar respostas, ajustar expectativas e preparar o organismo para desafios sociais e emocionais. Torfin poderia sonhar com esses eventos, porque aquilo afeta ele. Ele sente culpa, remorço e outros sentimentos, porque tudo que ele fez, ele considera muito errado.
Alguém que não considerasse algo que fez errado não sofreria com aquilo. Isso mostra o trabalho dele em se manter no presente, visto que o seu passado ainda está lá consumindo a energia dele. Torfin já não é tão letal quanto antes.
Isso se torna visivelmente perceptível, tanto em sua postura corporal quanto em suas ações. Sua força física e suas habilidades de combate diminuíram, o que faz completo sentido, já que ele abandona o treinamento e uma vida totalmente orientada para a luta, para os combates. Então, antes moldado pela violência constante, Torfin passa a ocupar um espaço mais passivo no mundo.
Em vez de recorrer automaticamente ao combate corpo a corpo, ele começa a buscar outras formas de resolver conflitos. Em compreensão, ele tem muito mais paz e está muito mais satisfeito do que o torfim do passado. Ele passa a refletir mais, a responder em vez de reagir e a agir com mais clareza.
Ele vivia obsecado pela ideia de derrotar Askelad. Essa obsessão o mantinha aprisionado a raiva, atenção constante e a uma vigilância exaustiva. É por isso que tudo parecia irritá-lo, desestabilizá-lo.
Com isso, o cérebro do Torfim nunca descansava. Torfin tenta encontrar uma espécie de equilíbrio. Seria muito bom se tivéssemos uma vida equilibrada.
Talvez devêsemos buscar esse equilíbrio, embora não em tudo, pois tentar equilibrar absolutamente todas as coisas talvez seja paradoxalmente outra forma de desequilíbrio. Aristóteles explorou essa questão de forma profunda em Ética e niomaco, uma obra fundamentada na experiência e na observação da vida humana concreta, não em conjecturas abstratas. Aristóteles não buscavam a felicidade idealizada, mas aquela que realmente era possível para os humanos dentro de limitações.
Então, Torfin tenta encontrar esse caminho do meio termo, citando novamente vagabond. E com isso ele não abandona sua força por incapacidade, mas por discernimento. Ele compreende que continuar sendo letal não tornaria virtuoso, apenas perpetuaria o ciclo de violência que o destruiu por dentro.
Assim, a paz que o Torfin começa a experimentar não nasce necessariamente da ausência de conflitos, mas da capacidade de responder a eles de forma mais consciente e proporcional. Isso ajuda Torfim também a conseguir controlar sua ansiedade, uma das coisas que mais assombra a humanidade ultimamente. Porque a nossa ansiedade pode tomar uma forma desproporcional quando sentimos que não vamos lidar bem com o futuro que imaginamos.
Essa lacuna entre o desafio em si e a nossa capacidade de lidar com ele é que acaba gerando o nosso stress. Sof acredita que será capaz de lidar com os problemas que sugerem no futuro e essa confiança silenciosa o ajuda a se sentir mais estável e seguro ao longo da história. É como se ele tivesse uma confiança profunda, não na ausência de dificuldades, mas na própria capacidade de enfrentá-las e somente quando elas realmente aparecerem.
Estudos mostram que a previsão e confiança em lidar com algo ameaçador e principalmente o sentimento de que vai conseguir lidar com isso, causa uma diminuição progressiva da ansiedade, mesmo quando o evento é difícil. E isso faz com que Torfin comece a ver as pessoas de uma outra maneira. O Torfim antigo vi sempre o lado pior das pessoas, o pior cenário possível.
Agora é diferente. Ele de fato sente que pode guiar as pessoas para um mundo melhor. E acredito que muitos vão concordar e ajudá-lo.
E paradoxalmente no nosso cérebro isso acaba ajudando. Como a pesquisadora Barbara Friedson cita, expectativas mais positivas perante alguém podem fazer você receber mais respostas positivas de outras pessoas. Quando alguém esperar algo mais positivo do outro, tende a se comportar de um modo que possa receber respostas positivas dos outros também.
E grande parte das evidências científicas mostra que os humanos têm uma tendência natural à gentileza. E é uma razão simples para isso. Nossos impulsos mais básicos estão ligados à sobrevivência, também ao bem-estar e à busca da felicidade.
Ser hostil, cruel ou injusto, vai diretamente contra esses objetivos, tanto para quem recebe, tanto para quem pratica. Pesquisas mostram que os seres humanos demonstram a preferência automática pela chamada beleza moral. Somos naturalmente atraídos por comportamentos como empatia, cooperação e justiça.
Ou seja, ser gentil em termos evolutivos e psicológicos costuma ser mais adaptativo do que sermos agressivos. Se você for uma pessoa extremamente agressiva e principalmente na nossa era onde as leis meio que dominam, a chance de você ter menos pessoas perto de você é maior. Do fim com sua nova forma de ver o mundo, fez com que o sistema nervoso dele também ficasse mais regulado, porque ele passou a sofrer menos dentro da própria cabeça.
Quando permanecemos estressados por um longo período, começamos a aprender a ficar estressados. Neurologicamente, o estresse crônico está relacionado à morte de neurônios no hipocampo, uma estrutura cerebral crucial para a saúde da memória e tem sido associado ao encurtamento dos telômeros, as extremidades do nossos cromossomos que protegem o nosso DNA. E essa erosão dos telômeros nos torna vulneráveis a setas doenças.
Assim também como estresse prejudica os nossos relacionamentos. Quando estamos perpetuamente estressados, somos muito mais propensos a agir com raiva e menos capazes de responder aos nossos entes queridos com mais paciência. Outro motivo do Torfim ter mais amigos e mais pessoas próximas depois da mudança que ele fez.
Antes ele era praticamente sozinho, ninguém gostava dele. Em um livro As zebras não tm úlceras, é mostrado como o sistema dos animais é projetado para evitar o estresse ou usar o estresse da melhor maneira possível. As zebras não têm úlceras não porque são mais calmas que nós, sábias ou melhores, digerir o estresse, mas sim porque a sua resposta ao estresse faz exatamente o que evoluiu para fazer.
Ativa-se perante uma ameaça real e desativa-se quando o perigo passa. Já nós, humanos, assim como o Torfin antigamente, reagia a ameaças reais, imaginárias, um futuro hipotético fazia ele ficar constantemente estressado. O foco no futuro é algo extremamente importante.
As melhores coisas da vida, aquelas mais importantes, podem surgir apenas por meio do esforço de longo prazo. Então, não necessariamente podemos viver baseado apenas no agora de que o futuro nunca vai chegar, porque ele vai chegar. Mas uma vida voltada apenas ao que pode acontecer faz você perceber o momento presente como sendo algo falho, como se sempre estivesse faltando algo.
Para Torfim, apesar das dificuldades em alguns momentos até aumentar, em nenhum momento vemos ele desesperançoso perante a vida e tenta manter sua palavra de não matar mais ninguém, mesmo com situações extremas, confiando que cada dia será único e que cada dia ele vai ter forças para lidar com as questões e os desafios inerentes desse dia. É isso que mostra teu fim. fim e sua história mostra como a obsessão por um único objetivo pode transformar sua vida inteira em espera.
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