No Resposta Católica de hoje, nós gostaríamos de de responder à pergunta do Linimar, ele quer saber se realmente aconteceram os milagres de Jesus, porque ele anda ouvindo ouvindo alguns teólogos modernos que, segundo ele, são mais modernos do que teólogos, que dizem que os milagres de Jesus não aconteceram e ele cita aqui uma frase que teria ouvido: "Jesus não iria ressuscitar um homem que já estava fedendo", ou seja, os milagres não aconteceram para esses senhores e seriam somente realidades simbólicas. Bom, Linimar, o que acontece é o seguinte, vamos fazer um pouco uma retrospectiva de onde é que veio esta mentalidade, como é que isso entrou dentro da Igreja Católica, primeiro, isso entrou através de um protestante chamado Rudolf Bultmann. Bultmann foi um teólogo protestante da primeira metade do século XX, na verdade, morreu na década de 70, mas foi mais influente no período da pós Segunda Guerra Mundial.
Bultmann, além de ser teólogo protestante, tinha influência de um filósofo chamado Martin Heidegger. Heidegger, filósofo existencialista, evidente, não acreditava em milagres, por isso, Bultmann, quando entrou nesta mentalidade da filosofia existencialista, viu o seguinte: qual é o pressuposto da filosofia existencialista? É uma espécie de empirismo, deixa eu explicar essas palavras difíceis, quer dizer o seguinte: só é real aquilo que pode ser comprovado por uma experiência sensível, aquilo que não é experiência sensível é metafísica, ou seja, invenção da cabeça dos homens, ou então, é mitologia, mito, uma mentalidade de uma época.
Então, o que é que nosso amigo Bultmann fez? Ele foi ler os evangelhos e notou o seguinte: que os evangelhos estavam todos permeados pela mentalidade da época, ou seja, quando as pessoas se puseram a escrever os evangelhos, tinham a mentalidade de sua época e a mentalidade época era uma mentalidade mitológica, uma mentalidade que acreditava em milagres, que acreditava em seres invisíveis. Ora, o que é que os primeiros cristãos fizeram?
Pegaram o Jesus histórico e O interpretaram, a palavra interpretação aqui é importante, para Bultmann é a hermenêutica, então, eles pegaram aquele Jesus histórico e o interpretaram a partir da sua visão de mundo e que visão de mundo era essa? Uma visão de mundo que acreditava em demônios, em milagres, vamos ironizar a coisa? Acreditavam em contos de fada, ora, aqui é uma frase do próprio Bultmann: "Nós não podemos, em pleno século XX, - século no qual Bulltmann viveu - usar a lâmpada elétrica e o rádio e continuar acreditando nos milagres do Novo Testamento", vamos atualizar a frase de Bultmann?
Nós não podemos, em pleno século XXI, usar celular, internet, Twitter, satélite, microondas, tudo isso, e continuar, esses milagres da ciência, ou seja, da experiência, esses milagres do laboratório, do empírico e continuar acreditando em contos de fada, continuar acreditando nos milagres do Novo Testamento, por isso, assim como aqueles primeiros cristãos pegaram Jesus histórico e o interpretaram a partir da sua hermenêutica, da sua visão de mundo, Bultmann diz "nós também temos que interpretar este Jesus histórico a partir da nossa hermenêutica. A hermenêutica de Bultmann é a hermenêutica existencialista, então, para Bultmann, quando ele fala de Jesus, fala de um Jesus que é um grande herói existencialista, que seria o existencialista? É aquele homem que sabe que ele caminha para a morte e caminha heroicamente, embora sua vida seja um absurdo sem sentido, ele mesmo assim abraça a morte.
Este é o Jesus de Bultmann, claro, estou fazendo isso em brevíssimas pinceladas. Acontece que Bultmann morreu e essa visão existencialista dele saiu de moda e veio, logo em seguida, uma visão de mundo marxista e revolucionária, é o que nós temos hoje no Brasil, na América Latina e, infelizmente, em boa parte da Europa, ou seja, já que os primeiros cristãos tinham o Jesus histórico e o interpretaram a partir da sua visão mágica, Bultmann tinha o Jesus histórico e o interpretou a partir da sua visão existencialista, nós, da América Latina temos Jesus histórico e vamos interpretá-Lo a partir da nossa cartilha marxista e a cartilha marxista não pode aceitar de jeito nenhum os milagres do Novo Testamento por quê? Assim como Bultmann não podia aceitar os milagres do Novo Testamento porque não eram de acordo com o seu empirismo, a sua "visão" de ciência, assim também a visão marxista não pode aceitar os milagres, porque se o povo de Deus for esperar milagres, eles não vão lutar.
Bom, até aqui eu só descrevi os problemas, eu não dei solução nenhuma, não é verdade? Então, vamos tentar agora colocar os pingos nos is e tentar resolver essa realidade? Como é que nós podemos resolver o problema dos milagres em Jesus?
Primeira coisa, gente, a primeira coisa que nós temos que entender é que Jesus não é uma ficção, uma realidade que cada um interpreta como quiser, como se Jesus fosse um nariz de cera que você molda ao seu bel-prazer, uma hora Ele é existencialista, outra hora é marxista, outra hora é um taumaturgo, curandeiro, um pajé. Não. Jesus é Deus que se fez Homem e aqui está o centro do evangelho.
Ora, Deus Todo Poderoso se fez Homem, de forma milagrosa e extraordinária, Ele veio no ventre de uma virgem, sem interferência de nenhum homem, aqui o poder de Deus aconteceu, aqui aconteceu o milagre dos milagres, ora, se você não acredita em milagres, então simplesmente você já não é mais cristão. Não se trata aqui de uma pequena heresia, trata-se de uma verdadeira apostasia, na verdade, Bultmann não era um herege porque o herege é aquele que nega uma verdade de fé, mas deixa as outras verdades de fé de pé. O apóstata é aquele que perdeu a fé, ou seja, ele não está negando uma verdade, ele perdeu a fé inteira, Bultmann apostatou, Bultmann não pode ser considerado verdadeiramente cristão porque ele não crê verdadeiramente que Jesus seja Deus que se fez homem realmente, no sentido de realidade, o que é a realidade?
A realidade é uma coisa que existe independente do meu pensamento, realidade é uma coisa que se opõe à minha vontade, realidade é quando eu quebro o pé, quero andar e não consigo, realidade é algo que eu não controlo. Realidade não é um símbolo, realidade não é negócio aqui na minha cabeça que eu faço, monto e desmonto, ao meu bel-prazer, a realidade muitas vezes nos atropela, nos desconcerta, a realidade nos traz a verdade, a Verdade liberta sim, mas ela nem sempre é agradável, nem sempre ela é aquilo que nós gostaríamos de ouvir, então, Deus veio, veio em Jesus Cristo e veio de forma extraordinariamente misteriosa, nós não podemos dizer que Deus não intervém de jeito nenhum na História, existe essa mania hoje em dia de querer reduzir a ação de Deus. Você veja, por exemplo, existe um outro teólogo moderno, o Padre Torres Queiruga, um padre espanhol, ele diz que Deus quando criou o mundo, criou as leis do mundo e Ele não pode quebrar as leis que Ele criou porque seria uma incoerência que Deus fizesse leis e depois as quebrasse e, portanto, não há milagre porque Deus não quebra as leis que Ele criou, mas, pensa bem, meu irmão, pensa bem, pensa, pensa, pensa, olha o seguinte, se Deus não pode fazer algo que está fora das leis da natureza, então Ele não se encarnou, então Ele não ressuscitou e então vã é a nossa fé, diz São Paulo.
E não é a toa que o Padre Torres Queiruga diz no seu livro "Repensar a Ressurreição", que ele "não perderia a fé se ele encontrasse o cadáver de Jesus", que ele continua acreditando, ou seja, você está entendendo o que é a ressurreição para o Padre Torres Queiruga? A ressurreição, para ele, é uma quimera, é uma fantasia, é um conto de fada, é um símbolo, é uma ideiazinha legal, mas não é uma realidade, uma realidade neste mundo, o túmulo vazio é uma realidade neste mundo, aconteceu, e os discípulos creram quando viram aquele túmulo vazio. Deus age no mundo, o que fazer desse argumento que diz que Deus não pode ir contra as leis da natureza que Ele mesmo criou?
Bom, esse argumento é ridículo porque você imagine o diretor de uma escola que diz para as crianças do jardim da infância: "Vocês não podem usar tesoura de ponta" e coloca a norma para todas as professoras do jardim da infância que devem comprar aquelas tesoura inócuas que se vendem para a escola primária, a tesoura nem afiada direito é, não tem ponta, é uma arte conseguir cortar alguma coisa com aquela tesoura. Muito bem, imagine que alguém entre no escritório do diretor da escola e encontra em cima da mesa do diretor da escola uma tesoura de ponta e diga: "Puxa vida, diretor, olha que incoerência, o senhor proibiu tesoura de ponta e agora o senhor está aqui com tesoura de ponta", sim, meu irmão, só que ele proibiu isso para as crianças, ele não está incluído nesta lei, ele não está sujeito à lei que ele criou porque esta lei foi para as crianças. A mesma coisa Deus, entende, existe uma lei para os seres humanos, que quando os seres humanos nascem, eles precisam nascer da união de um homem e de uma mulher, ou seja, se não houver a união de um espermatozóide e um óvulo, os seres humanos não nascem, essa é uma lei da natureza, é isso que foi feito por Deus, agora, essa lei vale para nós, não vale para Deus, não vale para Deus que quando quiser nascer, quando Deus quiser se fazer homem será sempre por si mesmo um milagre, porque, por mais que Deus nascesse de um espermatozóide e de um óvulo seria sempre um milagre extraordinário que Deus se fizesse homem, seria sempre algo impensável, algo que está acima e fora de qualquer lei da natureza, porque Deus está acima e fora de qualquer lei da natureza.
Então, é evidente, que Deus não está preso nas leis que Ele mesmo criou, existe uma onipotência e uma soberania divina, então, o que dizer dos milagres de Jesus no Novo Testamento? Devemos considerar o seguinte: fundamentalmente, os milagres que estão narrados no Novo Testamento têm algo de histórico, pode ser que, para tentar transmitir um fato junto com o significado, pode ser que os evangelistas tenham feito adaptações na narrativa desses milagres para que, aquele fato, não fosse somente um fato, mas fosse um verdadeiro sinal no sentido de que levasse as pessoas à fé, então, pode ser que, ao narrar os milagres do Novo Testamento, os evangelistas tenham feito pequenas adaptações para tornar claro para os seus leitores que aquela intervenção divina que, de fato, aconteceu historicamente, tinha um significado que iria muito além daquele pequeno gesto, por milagroso que fosse, por extraordinário que fosse. São João, por exemplo, é modelo nessa arte, São João quando narra os sete sinais que estão na primeira parte do seu evangelho, no Livro dos Sinais, quando ele narra os Sete Sinais de Jesus, ele sempre narra esses sinais com um profundo significado teológico, isso não quer dizer que esses sinais não tenham acontecido historicamente, mas quer dizer que eles trazem um significado que é válido para todas as épocas históricas e para todos nós.
Por isso, não é que exista um Jesus histórico que João deformou na sua hermenêutica, mas existe a realidade histórica de Jesus que São João transmitiu na fé apostólica e que nós precisamos conservar essa fé ao longo dos séculos. Por isso, os milagres de Jesus realmente aconteceram e eles são muito mais do que simples milagres, eles são sinais que apontam para uma verdade de Deus que transcende aquele momento histórico e que atinge todas as gerações e todos os séculos, seja qual for a mentalidade, seja a mentalidade dos primeiros cristãos, seja a mentalidade do século XXI, trata-se de uma mensagem sempre válida que nós devemos acolher com fé.