[Música] O mundo está permeado pela escrita, seja para orientar, informar, divulgar, identificar. Os textos estão presentes em todos os lugares e o desafio de incluir a todos nas culturas do escrito é permanente. Segundo o IBGE, em 2023, 5,4% da população brasileira com 15 anos ou mais de idade não sabia ler ou escrever.
Eram 9,3 milhões de pessoas, o equivalente a todos os habitantes dos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal. somados. Esses dados mostram que estar cercado pela escrita não garante sua compreensão.
Na escola, a mediação de professoras e professores é fundamental para o ensino da leitura e da escrita. São eles que propiciam situações desafiadoras e oferecem materiais escritos diversos para que as crianças consultem nas salas de aula. É muito importante que a gente entenda o que é um ambiente alfabetizador.
Muitas vezes os professores compreendem que um ambiente alfabetizador é um ambiente onde a sala tá repleta de escritas. Isso é um começo. Mas para se constituir de fato num ambiente alfabetizador, esses escritos precisam ter sentido paraas crianças e precisam ser usados pelas crianças a partir da do professor quando ele remete ao uso.
Não basta tá lá. É preciso que o professor entenda para que serve essa referência. É importante também que esses materiais eh se se aproximem dos usos sociais da leitura e da escrita, né?
A gente enfatiza muito esses materiais nos momentos de produção escrita, mas os momentos de leitura eles também podem ser úteis, né, pras crianças pesquisarem, encontrarem nomes, ler para escrever, né? Então é muito importante organizar esse ambiente para que ele tenha sentido para as crianças. Não são só as paredes, né?
É importante ter uma pequena biblioteca de sala com materiais muito simples. É colocar esses materiais, organizar empréstimos de livro em que as crianças tenham que escrever nas fichas o livro que tá levando. Dá sentido tanto pra produção escrita como pra leitura.
[Música] [Aplausos] O ambiente da sala ele é organizado de forma estratégica, de acordo com o objetivo da proposta que eu tenho para aquele dia. Posso organizar para que seja utilizado de forma coletiva, em duplas, em trios ou até mesmo de forma individual. Os materiais eles costumam ficar disponíveis para as crianças, livros, textos, computadores, dependendo do que eu proponho para aquele dia.
Como também eles têm acesso a listas que estão na sala para que eles possam fazer uso, né, como fonte de informação. Qual que é a primeira parte do nome da jararaca? Já.
Já. Já. Vocês vão usar o G e o A ou vocês vão usar o J e o A?
O J e o A. E agora ela disse o G e o A. Você disse o J e o A.
Como que a gente escolhe? Qual será a melhor forma? Será que tem algã por quê?
J. Hã? Tem algum nome ali na em uma das listas que ajuda a gente fazer esse já?
Vai lá, Eduard. Então, leia jabuti. Qual parte do nome do jabuti ajuda a fazer o Já?
Ah, então nós vamos escolher o J. Então, a Lana tinha razão, né? Esse ambiente alfabetizador, ele é construído por meio da lista de nomes, calendário, a lista de aniversariantes, parlendas conhecidas.
Também tem as histórias que foram lidas durante a semana e tudo isso vai servir de fonte de informação para novas escritas. Esse procedimento ele é ensinado pelo professor e é um conteúdo importantíssimo na prática docente para que eles possam fazer uso de forma autônoma. Essas listas elas servem tanto para as atividades de leitura como as de escrita.
Pra gente construir esse ambiente alfabetizador, eu parto do princípio de levantar com eles as brincadeiras preferidas, vejo com eles as cores que eles mais gostam, eh a comida, o cardápio, né? A comida preferida que serve na escola. [Música] É importante deixar alguma das produções das crianças disponíveis nesse ambiente alfabetizador para que elas compreendam a importância da sua autoria dentro desse processo.
É a valorização da sua autoria. A ideia de um ambiente alfabetizador não se restringe às séries iniciais do ensino fundamental. Importante que o professor pense como esses materiais vão sendo ressignificados ao longo dos anos, tanto no ensino fundamental como na educação infantil.
Esses recursos que o professor vai levando para sala de aula, muito simples, um calendário, a lista de nomes da das crianças, ele vai se modificando. Mas a permanência desses materiais é muito importante, porque elas são, na verdade, uma memória do trabalho realizado naquele ano, naquela sala. Obviamente, ao longo dos anos, os interesses das crianças se modificam, os conteúdos escolares também se modificam e esse espaço precisa representar essas mudanças.
Então, organizar o espaço, sempre lembrando que as crianças podem contribuir na organização desses espaços, trazendo ideias do que deixar, do que tirar, a certos momentos que é preciso renovar esses materiais. Lembrando sempre que eles precisam ter uma apresentação muito simples, mas [Música] cuidadosa. Bom, a gente tem aqui na sala dois cartazes.
Eles serviram para uma atividade específica, né? Atividade de de escrita pela professora. Esse tipo de cartaz não dura muito tempo aqui, porque ele tem uma finalidade específica, né?
Então, depois de um tempo a gente vai trocar por outros, né? para outras atividades que a gente for realizar. Nós temos também a lista com os nomes, né, dos estudantes.
É um material que eu acho que eles se sentem mais seguro para consultar, porque eles sabem não somente onde tá escrito o nome deles, mas o nome dos colegas. É um material que tem um valor afetivo assim para eles, né? E também é um cartaz que apoia na hora de resolver problemas, né, que eles estão tendo no na hora de escrever algumas palavras.
Então aqui eles vão consultar, né, para poder apoiá-los a escrever palavras. No ambiente alfabetizador acho importante ter a rotina no na lousa todos os dias, porque além de ser o momento que que eu vou escrevendo com eles, eu vou tomando algumas questões do sistema de escrita, também serve para baixar ansiedade, porque eles sabem o que que vai acontecer no dia, né? A ordem do que vai acontecer.
Tem outros cartazes além desses. A gente tem parlendas aqui, temos lista das leituras da semana que foram realizados. Tem o bichionário que a gente construiu aí no decorrer de vários meses, né, que a gente foi colocando bicho por bicho.
Tem na sala de aula uma lista de palavras seguras é muito importante como uma referência paraa busca de informação. É importante que a gente diferencie a lista de palavras seguras de outras listas. Por exemplo, a lista de nomes, a gente não deve colocar a imagem do nome da criança associada à escrita do nome.
Por quê? Porque se tiver lá a escrita e tiver a foto, as crianças vão olhar a foto e não a escrita. No caso da das listas de palavras seguras, a ideia é que haja uma figura inequívoca, que as crianças identifiquem.
Pode ser uma lista de personagens de histórias dos contos tradicionais. por exemplo. Então vai tá lá rei, rainha, bobo da corte e as crianças reconheçam a imagem e ao lado da imagem esteja escrita convencional.
Este não é um cartaz para leitura, é um cartaz organizado para consultar no momento de escrever. Essa é uma diferença muito importante que o professor precisa ficar atento a isto. Então aqui também no ambiente alfabetizador a gente tem uma caixa com gibis, né, que eles podem consultar sempre que eles quiserem.
Às vezes eles pegam para levar emprestado para casa. E a gente tem livros diversos, não só livros aqui nesse cestinho, a gente tem produções deles. Então aqui tem o Diário da Mascote da turma que eles levaram para casa e eles foram registrando.
Tá bem, eh, molhado, mas tem o registro que eles fizeram, né, com as famílias a partir do momento que eles levavam um dinossauro de pelúcia que tinha aqui na turma. Então, é uma produção para eles tem muito valor, né? E a gente tem livros diversos.
Tem panfletos, tudo que era do interesse deles, a gente vai colocando aqui. Tem mais HQs. Então aqui é tudo muito bem variado.
Os livros são de diversos gêneros para para que eles tenham acesso à leitura. E aqui a gente tem as produções deles. São escritas, muitas delas não são alfabéticas, né?
Mas eh foram foram de atividades que a gente fez aqui na turma. serviu assim no momento pra gente escrever e também ainda hoje serve porque eles ainda consultam muitas coisas aqui na na produção deles e é uma coisa feita por eles, né, construída por eles. Então tem muito valor isso aqui para eles.
O ambiente alfabetizador eu digo que ele é essencial, né? Ele não só apoia e enriquece, né? Ele é um uma coisa que não pode faltar, né?
Porque a cultura do escrito, a gente sabe que tem em todos os lugares, mas quando eles já sabem, por exemplo, o que que tá escrito em cada coisa, eles se sentem mais seguros, né? Então, para eles é essencial. A simples presença de materiais escritos na sala de aula não garante a potência de um ambiente alfabetizador.
É preciso ensinar as crianças a usarem esses materiais. Quando eu comecei a ensinar, eu dizia paraas crianças, elas perguntavam: "Como que eu escrevo tal palavra? " Eu dizia paraas crianças: "Pensa, o que eu não me dava conta é que as crianças para me perguntarem já tinham pensado.
E eu precisava dizer a elas: "Olha, que tal você olhar na lista de nomes? Veja se Márcia não te ajuda a escrever macaco. Esse uso com as crianças, ele é fundamental e as crianças precisam muito desse espaço, muito.
As produções das crianças precisam estar presentes na sala. Elas eh não só são referências importantes para as crianças, como legitimam o trabalho das crianças. Quando a gente expõe um trabalho, a gente dá para ele um contexto de uso.
Então, as crianças não só se reconhecem, mas as crianças entendem que aquilo que elas produziram é para ser lido, é para ser visto. Isso é muito importante. No espaço da escola, esses materiais devem circular mantendo as características da produção das crianças.
Afinal, o trabalho de produzir precisa ser reconhecido. É importante que os professores se lembrem que esses erros que as crianças cometem são hipóteses do aprendiz e as crianças não fixam o erro porque senão fica fixariam o acerto. E é muito importante que se respeite a produção das crianças no sentido de valorizá-las.
Isso é um material muito rico para compor esse ambiente ao longo do [Música] ano. Um ambiente alfabetizador, eu digo que ele é um espaço vivo, tem que ter textos, tem que ter elementos para que o aluno se aproprie da cultura escrita. Eu queria resgatar aqui uma ideia importante sobre o ambiente alfabetizador.
Muitas vezes a gente entende um ambiente alfabetizador unicamente a partir dos materiais expostos, mas a leitura diária pelo professor também se constitui num ambiente alfabetizador. Essa é uma atividade inegociável. Todo professor precisa se organizar para ler diariamente para as crianças.
Quando você ouve um outro leitor, você tem a possibilidade de pensar sobre o que você compreendeu daquele texto e colocar em jogo essas duas ou mais interpretações muito diversas. E essa ideia de que é possível conversar sobre a leitura, talvez seja tão importante quanto os materiais que estão apresentados na sala. Então, esse desejo que a gente tem de ver alunos se interessando pela leitura, envolvidos com as práticas de leitura, ela tem uma relação direta com o que o professor oferece cotidianamente.
Então, se ele lê bons textos de diferentes gêneros, se ele abre espaço para essa conversa, esse ambiente vai ficando cada vez mais povoado pelas ideias dos grandes escritores, pelas ideias dos cientistas e por tantas ideias que a leituria escrita podem trazer pro cotidiano de uma sala de aula. Quando a criança entra ali no primeiro ano, geralmente eu pergunto: "Qual é o seu desejo aqui na escola? " A maioria das crianças vão dizer que quer aprender a ler e escrever.
E da maneira que a gente apresentar isso pra criança, ela vai ter uma frustração ou ela vai se apaixonar e querer realmente escrever. Aí geralmente a criança chega ali, ela não tem ainda não não se apropri ainda da escrita, mas quando você dá um papel para ela, ela escreve, né? E a gente autoriza essa criança a escrever.
Então, desde o primeiro momento, elas fazem os desenhos, os rabiscos, a gente vai colocando na parede e ela leu, ela interpreta o que tá ali, né? Para ela aquilo é um texto e é realmente um texto porque ela consegue dizer o que tem ali pra gente. É uma coisa que elas olham para ali e vê que foi elas que produziram.
Então isso é essencial. A escola precisa se constituir num espaço de usos da língua. Quanto mais a escola representar como é que a linguagem aparece fora dela, mais os alunos aprendem sobre os usos da língua.
Quando a gente tá pensando em alfabetização, a gente não tá pensando simplesmente no domínio do sistema de escrita alfabético. A gente tá pensando muito além disso. A gente tá pensando na formação de usuários competentes da língua.
Então, a escola pode ser um espaço em que a leitura tem um valor muito importante, não só entre as crianças, mas entre os educadores, né? A professora Adélia Lerne nos lembra que um verdadeiro leitor e escritor não tem nenhuma dificuldade em formar outros leitores escritores. Então o espaço da escola precisa ser um convite à leitura e a escrita, não só das crianças, mas dos educadores.
Certamente um ambiente alfabetizador não envolve só literatura, envolve textos que circulam socialmente, desde um um folheto de venda de apartamento, de supermercado. Esses materiais também circulam fora e podem circular dentro da escola se eles tiverem sentido pras crianças, dentro dos projetos que a escola realiza. Mas essa deve ser uma preocupação não só do professor, mas da gestão da escola.
Como é que a gente organiza o espaço para que de fato o espaço se constitua num ambiente que convide a formação de leitores e [Música] escritores. O espaço escolar ele é já organizado e pensado para que essas disposições aconteçam, né? E para quê?
Para que ela saia da sala de aula. E aí quando ela vem aqui para fora, não só as crianças que estão apropriadas disso, mas que os outros também se apropriem desse espaço. Então quando uma criança pensa um trabalho lá fora e ela divulga, ela compartilha aquilo que ela faz, é um pouco do nosso trabalho de educador, né?
Porque é tudo que a gente faz é compartilhado com os outros. Então quando as crianças colocam para fora também e expõe o que elas estão fazendo, o pedagógico flui, ele ele cria asas, né? principalmente na fase da alfabetização.
É aí que eles começam a mostrar e a gostar do que fazem. Compartilhar os saberes nessa fase é fundamental para que eles também gostem de aprender, [Música] né? Aqui a nossa sala de leitura.
A gente tem uma professora que fica nesse espaço, é a professora que que organiza, são duas professoras, na verdade. Ela apresenta tudo isso aqui para eles e cria possibilidades, né? Então os estudantes vêm aqui, eles escolhem os livros, fazem empréstimos, discutem, conversam sobre o que leram, fazem teatros, né, contam histórias, ela conta para eles e eles contam para ela.
Então aqui é um espaço da leitura por excelência, né? Acho que toda sala de aula precisa ser um espaço de leitura por excelência, mas aqui eu acho que até o visual já como ela organizada, né? Os meninos, ex-meninas chegam aqui e se encantam com tudo isso.
Se vocês perceberem a organização, para cima são livros das dos alunos, dos estudantes maiores, né? E para baixo você vai ver a referência dos dos menores para que eles tenham acesso a tudo isso. Então, tudo que tá aqui é deles.
E essa sala ela é mobilizada mesmo da maneira que os estudantes, os professores querem. Então, tiram as carteiras, sentam no chão, fazem peças de teatro, pode ter puffs ou cadeiras, pode ter tatami, o importante é que o aluno esteja aqui e aproveitando tudo isso, né? Aproveitando toda essa leitura, gostando desse espaço, se encantando pelo livro, que esse acho que essa é a nossa função, que ele saia daqui no espaço da casa dele, ele tem esse livro como referência, troca e pega outro, porque tudo que tá aqui é deles, né?
A sala de leitura e a biblioteca se constitui num ambiente muito favorável a essa ideia que a gente tem dos materiais que circulam na escola. Muitas vezes os professores pensam: "Não, mas vai estragar se as crianças manusearem". Não tem sentido existirem materiais que não podem ser manuseados.
É importante ensinar paraas crianças como usá-los, mas é fundamental que as crianças possam eh usar, levar para casa, emprestar. Muitas vezes os professores dizem: "Esses materiais se perdem". De fato, uma parte desses materiais acabam se perdendo, mas isso também requer um trabalho que pode começar na sala de de leitura ou na biblioteca e se estender pra sala de aula e pras famílias.
As famílias precisam saber sobre isso para poder ajudar as crianças a se organizarem. Isso não é uma tarefa fácil, mas não é impossível quando toda a escola se envolve em tornar aquele espaço um ambiente que respeite os direitos da infância, os direitos, as culturas do escrito.