Com apenas 16 anos, a Dr. Nice da Silveira entrou para a faculdade de medicina da Bahia. Em 1927, já formada, ela veio para o Rio de Janeiro.
Em 33 foi trabalhar no Centro Psiquiátrico Pedro II. A Dr. Nise não gosta de ser chamada de pioneira, mas certamente ela propôs ideias profundamente novas para o tratamento do doente mental.
Até então, e como é utilizado até hoje, a terapia ocupacional serve apenas para distrair o doente. O que a Dr. propõe é a terapia ocupacional com bases científicas, visando o conhecimento do mundo interno.
Esse trabalho cinou com a criação do Museu de Imagens do Inconsciente, de importância reconhecida no mundo inteiro. Doutora Lisa, a senhora que trabalhou tantos anos com a loucura. Como é que a senhora vê a loucura?
É apenas uma questão médica ou é muito mais do que isso? Creio que é muito mais que isso. Se há muitos casos que se enquadram no modelo médico, outros em grande número extrapolam do modelo médico.
Tantas são as diferenças que existem entre aqueles rotulados de loucos. Doutora, a senhora não gosta de ser chamada de pioneira, mas acontece que, vamos pensar bem, a senhora com 16 anos entra na faculdade de medicina. 16 anos e mulher, porque era raro na época, uma mulher na faculdade, naquele tempo, 16 anos, a pessoa já era quase velha, n?
Você tinha filhos e tudo. A senhora faz faculdade de medicina, depois a senhora propõe ideias completamente revolucionárias pro tratamento do doente mental. Isso não foi de um pioneirismo enorme, doutora?
Não sei. Depois uma estudiosa, uma revolucionária e também uma estudiosa, uma estudiosa do marxismo que inclusive por causa disso, foi presa pela ditadura de Getúlio Vargas. Inclusive a senhora se tornou personagem do livro do Graciliano Memórias do C.
Uma personagem. Como é que foi essa experiência, doutora? Experiência naturalmente a prisão é uma experiência dura, não é?
Mas eu nem sei mesmo como eu atravessei esse pedo. Viva. Doutora.
O seu trabalho à frente do Museu de Imagens do Inconsciente, ele foi bem compreendido, bem aceito e reconhecido aqui no Brasil? Não. Por quê?
Não sei porquê, mas não foi reconhecido. As bases científicas do seu trabalho nunca foram reconhecidas. Não foram reconhecidas.
Como é que o Museu de imagens do inconsciente foi encarado pela comunidade científica e é encarado até aqui? Acho que nem é encarado. É considerado como o lugar onde as pessoas gostam de arte e se divertem.
E o que é que a senhora procurou fazer no museu de imagens? que eu procurei fazer no Museu de Imagens do Inconsciente foi naturalmente o estudo sobre vários aspectos do chamado louco, mas o que caracteriza principalmente o nosso trabalho é a tentativa de penetração no mundo interno, neste que é ainda citando Artur contigo com a realidade é como se as condições adversas externas empurrassem o indivíduo e ele não tivesse outra porta de escape senão a loucura. Nós então tentamos acompanhá-lo um pouco nesse mundo interno para onde ele foi atirado.
Claro que o objetivo será trazê-lo de volta à nossa realidade, o que não é fácil, porque a nossa realidade é muito dura para eles. F.