Hoje nós vivemos numa era completamente diferente daquela que era realidade do século XX. Muitos autores falam na questão de nós vivermos numa era digital, vivermos num mundo digital, vivermos até numa era pós-digital. Mais do que falar numa era digital ou numa era pós-digital, eu acho que é muito importante nós falarmos numa era analógica ou digital porque claramente nós vivemos numa era híbrida, numa era de transição, numa era de mudança que recupera aquilo que possa ser uma realidade mais passada com uma realidade presente perspectivando aquilo que vai acontecer no futuro.
E nesse sentido, tendo a sociedade esta configuração, e vendo autores inclusive que defendem esta questão do hibridismo, daquilo que possa ser a ligação entre diferentes espaços, entre diferentes realidades, entre aquilo que são os humanos, os não-humanos que interagem digamos assim nesta nova realidade social. A própria educação não pode ficar afastada desta. .
. desta realidade, e, portanto, hoje em dia parece-me que nós deveríamos falar também numa educação híbrida, no entanto uma educação híbrida, mas no sentido que não se restrinja apenas a falar de um hibridismo de modalidade educativa. Não apenas dizer que a educação híbrida, o ensino híbrido é a combinação de uma modalidade presencial com uma modalidade a distância.
Até porque hoje em dia estes conceitos têm que ser repensados, falando e tentando decodificar exatamente o que é educação a distância, que é naturalmente diferente daquela que existia há 20 anos e há 10 anos atrás, como a educação presencial é diferente! Portanto, do ponto de vista conceitual, se calhar também temos que pensar que se tem mais sentido falar, por exemplo, a educação digital e uma educação ou uma educação analógica ou digital que se manifesta nestes diferentes espaços, e, portanto, que claramente ultrapassa apenas dualidade entre a educação presencial e educação a distância, mas uma educação híbrida que se manifesta também através de metodologias diferenciadas, onde as metodologias ativas vão assumindo um papel cada vez mais importante. Mas as metodologias digamos assim que já tem alguma tradição e que são seculares não devem ser eliminadas, mas devem ser coordenadas com essas metodologias ativas onde as próprias ferramentas digitais dialoguem com ferramentas mais analógicas e, portanto, que não se restrinja aquilo que seja, por exemplo, a leitura digital, aos tablets, aos dispositivos móveis, mas que se perceba também que os cadernos mais clássicos, os livros mais físicos, poderão ser importantes para interagir.
Perceber efetivamente também que não há apenas uma pedagogia e, portanto, quando nós estamos a falar em educação híbrida podemos combinar pedagogias de caráter mais transmissível com pedagogias de caráter mais dialogante, de caráter mais colaborativo, mais explicativo, de comparação, de colaboração e, portanto, falarmos, faz mais sentido, quando nós falamos em educação híbrida, falar no plural do que propriamente no singular. E obviamente que isto abre o campo da educação para uma área que, muitas vezes, acaba por ser difícil de delimitar fronteiras porque as fronteiras não existem, as fronteiras são muito indefinidas. Não existem paredes que fechem atualmente aquilo que nós podemos considerar como uma sala de aula, porque se tivermos efetivamente a falar de uma realidade física, existem fronteiras físicas, mas quando nós falamos de uma educação híbrida naturalmente estamos a falar em espaços, onde os espaços educativos não são apenas a sala de aula formal, mas a própria cidade.
O espaço envolvido pode ser um espaço educativo, obviamente que aí nós estamos a falar de fronteiras fluídas líquidas, que nós não sabemos exatamente onde elas começam e onde elas terminam. E isto que é admirável também por saber que a educação não termina num ponto definido nem acaba em outro, mas é uma educação que vai decorrendo em todos estes espaços, e em todo o tempo porque não existe uma hora definida para começar a aprender e uma hora para acabar, porque obviamente aquilo que é também o poder da rede digital e do sinal digital, faz com que, desde que haja uma ligação online, há uma aprendizagem que ocorre em todo tempo. Portanto, nós hoje temos que repensar efetivamente o que nós entendemos por educação híbrida, por ensino híbrido, percebendo que a visão redutora de dizer que a combinação entre uma modalidade presencial e uma modalidade online é educação híbrida, não deixa de ser verdade, mas é uma verdade limitada àquilo que nós entendemos hoje que pode ser uma maior amplitude da educação híbrida e que tem que ser estudada, e que tem que ser investigada e que abra as fronteiras de fato para os não limites daquilo que é uma educação formal.
Nós vivemos atualmente tempos onde parece que a velocidade dos tempos acontece a uma rapidez cada vez mais, mais elevada, parece que tudo acontece ao mesmo tempo. E para jovens estudantes que neste momento frequentam as salas de aula e que estão habituados a essa constante velocidade, vários estímulos ao mesmo tempo, parece às vezes difícil e complicado criar ambientes educativos onde esses jovens se sintam também confortáveis e sintam vontade de aprender. Então, quase que nós temos que pensar como é que nós encontramos alguma estratégia mais disruptiva, para criarmos metodologias, para criarmos estratégias, para criar os ambientes de aprendizagem onde estes estudantes se sintam efetivamente confortáveis, onde, na verdade, se sintam engajados.
Há um autor que diz que a aprendizagem ela é efetivamente engajada quando, quando se tem vontade de fazer mesmo quando não é necessário faze-lo, mesmo quando não estamos a pensar em fazer. Então nos sentimos confortáveis e sentimos vontade, estímulo para aprender cada vez mais. E, na verdade, se nós estamos permanentemente conectados e que para ligar esta ideia de disrupção, conectividade, engajamento, se nós estamos permanentemente conectados, por que não aproveitar precisamente todas as capacidades, todas as modalidades diferentes de aprendizagem que nós podemos desenvolver através de coisas tão simples quanto um celular, que hoje em dia um é um equipamento, é um computador mais potente do que alguns dos computadores que nós próprios também podemos ter.
Por que não aproveita-lo para manter os nossos estudantes efetivamente engajados em aprendizagens ativas que se sentem efetivamente parte daquilo que estão a aprender e construir a sua própria educação em conjunto com seus colegas e com seus professores. Nesse sentido que nós criamos, criamos aprendizagens mais úteis, onde efetivamente desenvolvemos cada vez mais competências quando pomos na mão dos nossos estudantes a forma de eles próprios controlarem a sua educação. Isso pode às vezes parecer um pouco disruptivo demais.
Parece que o professor deixa de ter o controle sobre a aprendizagem e deixa nas mãos dos seus estudantes aquilo que eles vão ou não aprender ou como vão aprender. Mas não é tanto essa sensação de perda do controle, mas sim ganhar mais controle criando novas estratégias, criando novos ambientes onde há essa interação contínua em um fluxo e uma conectividade permanente, numa rede que se vai alargando cada vez mais e que no fundo cria aqui algumas simbioses até entre aquilo que é a aprendizagem dos estudantes e aquilo que são os conhecimentos do professor e de outros estudantes também. Portanto, nós conseguimos criar aqui ambientes que podem a partida parecer diferentes ou que pode-se, a partir daí, pensar que podem não ser tão científicos.
Nós criamos estratégias que assentam em dispositivos móveis, mas nós podemos colocar os estudantes a pesquisar precisamente os artigos científicos que nós precisamos que ele leia, através do seu celular dentro da nossa própria sala de aula para, a seguir, dar início a discussões onde construímos, todos em conjunto, conhecimento a partir desses mesmos artigos científicos que eles podem ler. Nós podemos criar com diversos aplicativos que existem nos celulares e que os estudantes trazem todos os dias. Muitos deles também os seus próprios tablets, e que vamos criando e construindo conhecimento importantíssimo e válido através de estratégias que podem ser consideradas diferentes daquilo que estaríamos habituados a ter, por exemplo, no século passado, mas na verdade nós não estamos a inventar nada de novo, estamos apenas a tentar e a pensar as situações de aprendizagem onde usamos aquilo que são os dispositivos que estão ao nosso dispor, exatamente da mesma forma como se olhar há 50 ou há 100 anos atrás, a escola usava aquilo que tinha ao seu dispor.
A escola começou a usar o livro porque foi uma tecnologia que apareceu ao seu dispor naquela altura, que se tornou mais fácil de ser usada mais barata, mais realizável. Há 100 anos, há 50 anos, as tecnologias são outras, mas nós vamos sempre reinventando a educação e reinventando a forma como podemos aprender. Portanto, aquilo que o que podia ser disruptivo há 50 anos atrás, hoje por ser considerado, até se calhar a norma, e aquilo que hoje é considerado disruptivo vai ser considerado algo absolutamente natural, se calhar, daqui também a 50 anos.
Então vamos reinventando a educação, vamos aprendendo e construindo novas formas de aprender e de ensinar com aquilo que temos à nossa volta, ao nosso dispor. Como é que nós podemos fazer com que os dispositivos móveis se insiram no meio escolar? Acaba por ser procurando metodologias que sejam ativas e que façam uso daquilo que são equipamentos que virtualmente os nossos estudantes transportam consigo, fazem parte da sua realidade cotidiana, estão habituadíssimos a lidar com esse tipo de dispositivos e podem fazer o uso deles no meio escolar para além do uso habitual que estão habituados precisamente a fazer.
Os dispositivos móveis, em geral, hoje transportam-nos para mundos muito variados, permitem-nos as mais variadas atividades, as mais variadas interações e permitem criar em meio escolar, seja em sala de sala de aula física, seja até mesmo fora dela. Permitem-nos criar atividades bastante diversificadas e, sobretudo, atividades ativas efetivamente onde há uma participação ativa dos nossos estudantes, e esses são um dos objetivos primordiais que nós temos para podermos desenvolver as mais variadas competências nesses mesmos estudantes e falamos no uso desses mesmos dispositivos das mais jovens faixas etárias até o ensino superior. Existe toda uma panóplia de atividades que podemos fazer e interações entre docentes e os estudantes, e entre os próprios estudantes que fomentam aprendizagens colaborativas, mais ou menos individuais, onde é possível ao estudante aprender quando ele quer, como ele quer, exatamente num local onde ele quer estar.
Na realidade, hoje em dia basta-nos praticamente uma ligação à internet e conseguimos estar ligados ao mundo com qualquer um dos nossos pequenos dispositivos móveis. E, portanto, isso permite-nos aumentar o espaço de aprendizagem, deixar que ele não fique restrito aos muros de uma sala de aula, mas que passe para o cotidiano até em geral dos nossos estudantes e que permita então esta interação constante e uma interação e aprendizagem constantes nesse mundo tão vasto que é o mundo digital. Portanto, criando estratégias ativas através destes dispositivos conseguimos criar aprendizagens cada vez mais importantes, cada vez mais alargadas e que interligam não só as competências específicas disciplinares, mas efetivamente todo um conjunto de outras competências que nós necessitamos efetivamente de aprender para viver da melhor forma possível neste século em que nos encontramos.
Atualmente, quando nós estamos a falar em formação híbrida, nós estamos a falar de uma formação que pode ser desenvolvida quer em ambientes presenciais, quer em ambientes digitais, e estes dois ambientes permitem, de certa forma também, desenvolver competências que são nucleares para aquilo que são e para aquilo que é o cidadão do século 21. É importante nós quando falamos atualmente de competências, falamos de competências transversais, competências que estão relacionadas com a aquisição de conhecimentos que pressupõem o desenvolvimento das habilidades e aquilo também que alguns autores denominam como as atitudes e aquilo que são as qualidades de caráter. A educação híbrida acaba por ser muito importante nesse aspecto porque permite aos professores perceberem efetivamente como é que utilizando também as próprias tecnologias digitais podem promover este tipo de competências, sejam elas ligadas diretamente àquilo que são as letracias fundacionais, ligadas ao conhecimento da área disciplinar e científica, como a matemática, a história, as ciências da natureza e ao mesmo tempo articular com aquilo que são as competências nucleares e que são referenciadas por muitos organismos internacionais, como as competências que são transversais e que permitem de certa forma também ao estudante integrar-se no mundo do trabalho, permitem, por outro lado, também desenvolver competências relacionadas com a cidadania e permitem aprender.
Portanto, hoje em dia não tem sentido falar em competências transversais sem falar em comunicação, em colaboração, espírito crítico, naquilo que é criatividade do aluno, mas também muito importante para o desenvolvimento daquilo que é uma cidadania democrática, uma cidadania ativa, são as qualidades de caráter fundamentais para que quando nós pensamos numa educação integral, numa educação que perpassa os diferentes níveis de ensino, seja fundamental construir essas mesmas competências desde o ensino fundamental até o ensino superior e, portanto, é responsabilidade de todos os professores dos diferentes tipos de ensino pensar e repensar um pouco quais são as estratégias, que tipos de modalidade de de formação podem ser desenvolvidas em ambientes, quer sejam eles presenciais, quer sejam eles digitais, quer sejam eles virtuais e tridimensionais, mas independentemente disso, independentemente dos ambientes, o que me parece mais importante é perceber como é que nós desenvolvemos metodologias, estratégias para conseguir desenvolver essas competências que atualmente acabam por estar articuladas em três pilares fundamentais, como me referi inicialmente. Um pilar relacionado com os conhecimentos, ou com as letracias fundacionais, um pilar relacionado com aquilo que são esta questão das habilidades e das competências fundamentais para o século 21 e aquilo que são as qualidades de caráter. Não há uma receita universal, não há uma estratégia que seja única.
Nós temos que pensar efetivamente estes ambientes sendo ambientes mais completos, porque dialogam com diferentes espaços de aprendizagem, permitem que efetivamente haja a possibilidade dos estudantes, que atualmente são diferentes daqueles estudantes que eram há dez anos atrás e há 20 anos atrás, consigam desenvolver essas competências na sua plenitude, porque ambientes muito redutores e ambientes que, de certa forma, não consigam responder àquilo que é particularidade do aluno e aquilo não seja um ambiente personalizado, eu posso fazer com que essas competências não consigam ser todas desenvolvidas. Portanto, hoje temos que pensar nestas competências não direcionadas apenas para uma área disciplinar, para que possam ser competências direcionadas para uma área específica, mas pensar nelas como competências transversais e multidimensionais.