fim de ano, aquela época mágica de listas de metas pro ano seguinte, de promessas de que o ano que vem é o ano, a gente vai entrar pra academia, vai meter o shape, vai aprender inglês direito e vai, claro, finalmente tocar guitarra como um deus ano que vem. Mas tem aí dois problemas muito recorrentes. Eu quero comentar e vamos ao primeiro que é o pior, que é o problema de ficar perdido, porque a gente nunca marcou um ponto no mapa.
A gente passa uma vida inteira sem decidir, sem pensar sobre que tipo de guitarrista a gente quer ser, sobre, afinal, o que é que a gente quer fazer com a guitarra. Pensa comigo, quando a gente começa, a resposta parece muito simples, parece óbvia. Eu quero ser um guitarrista.
Ótimo. Só que ótimo é um conceito muito vago. Pode ser um virtuose, pode ser um sideman, pode ser um compositor, pode ser um criador de música ambiente, pode ser uma pessoa que quer tocar o catálogo inteiro do Metallica no quarto e se divertir com isso.
Pode ser um mestre dos rifs que toca em estádios, pode ser muita coisa. E aí a gente fica nesse limbo décadas, a gente nunca se declara. a gente fica nessa de a curto de tudo.
O que sou é muito eclético mesmo, mas na prática é mais como não curtir nada de verdade. É uma identidade musical esquisita, meio Zé do brechó das habilidades. A gente pega um pouco de cada estante, mas não monta um look que faz sentido.
E o resultado é esse sentimento que aparece às vezes de tá perdido, porque como é que a gente vai saber se tá indo na direção certa, se nem tem ideia da onde quer ir, como é que a gente vai saber em que focar nos estudos, se nem sabe que músico a gente tá tentando se tornar, é tipo entrar numa autoescola sem saber se quer dirigir um caminhão, uma moto ou um trator. A gente aprende tudo meia boca e no final não dirige nada direito. A gente vai pulando de tutorial em tutorial, de curso em curso, acumulando conhecimento solto, como se fosse moeda de um jogo cujas regras a gente nem conhece.
Daí aprende um leak metal, depois uma levada de bossa nova, depois teoria de jazz e no final toca uma coisa sem personalidade nenhuma na frente da TV, porque faltou um norte, faltou uma resposta honesta para que música eu quero ser quando eu crescer, mesmo que já se tenha 45 anos. É um desastre em câmera lenta. De tempos em tempos eu esqueço disso aí tudo, daí a vida vai pesando, vai ficando ruim, vou ficando de mau humor e eu tenho que parar, pensar e descobrir qual o problema.
E aí é que eu lembro dessas coisas todas e vem junto um alívio muito bom, porque de repente metade do universo imenso da guitarra [risadas] deixa de ser importante, não é para mim, eu posso arriscar do cardápio, não dá para ser bom em tudo e eu tenho raiva de quem é. E é assim que dá para escapar do programa número dois, a tentativa de abraçar o mundo com as pernas e cair feio. É o que eu disse antes o sujeito que na segunda-feira acorda decidido a dominar a paletada sepm.
Daí na terça [música] vê um vídeo sobre finger style acústico e acha que isso é alma pura. Daí na quarta se inscreve num curso de teoria musical avançada porque precisa ter base. Na quinta compra um pedal de reverb que custa um mês de aluguel porque o timbre é tudo.
Na sexta tá tentando decorar os leic do CV Ray. No sábado desiste de tudo [música] e fica só trocando as cordas. É o ciclo da derrota em alta definição.
A gente vira uma espécie de projeto de TCC eterno sem orientador. Tem capítulos soltos sobre os mais diversos assuntos, mas nenhuma linha de raciocínio que una tudo. Tem anotações sobre modos gregos, tabulaturas de funk, diagramas de acorde de jazz.
Mas quando alguém pede, toca alguma coisa que você compôs, a gente não tem para tocar. Então toca alguma coisa daquela banda que você gosta e a gente só tem a intro porque não treinou o resto, já que tá tudo desorganizado, nada tem continuidade e o pior é que a gente acha que tá sendo dedicado. Isso tem nome, é falta de foco.
Poderia se chamar síndrome do pombo no xadrez, o bicho que mexe em todas as peças, mas não joga. O resultado prático disso é que a gente fica eternamente no estágio intermediário, meia boca em tudo, sabe um pouco de técnica, mas não o suficiente para impressionar ou para tocar o repertório que quer. Domina umas teorias, mas não bastante para compor com liberdade.
Tem equipamentos legais, mas não tira um som deles que seja realmente próprio. É o guitarrista genérico, aquele que toca, mas não marca, que executa, mas não expressa. E a culpa não é da falta de talento ou dedicação, é na verdade da falta de escolha.
Porque foco no fundo é saber dizer uma série de nã com convicção, é saber o que deixar de fora. E pelo menos para mim a melhor solução para organizar essa bagunça mental toda é sentar e escrever. Pode ser a mão no computador, no guardanapo, pode ser no celular, pode ser uma lista de ano novo, como eu falei no começo do vídeo, mas escrever porque o texto ajuda a organizar melhor o pensamento.
E é por isso que eu tô aqui escrevendo esse roteiro. Eu filmei para vocês perceberem que é de fato real e não só uma alegação. E provado esse ponto, esse aqui sou eu dando uma pausa no roteiro para pesquisar esses kits de presente da Insider.
Afinal, o Natal tá chegando. Tem esse kit com cinco tech t-shirts, que eu gostei muito. Tem outros também, mas eu gostei desse porque fica uma camiseta para cada parente e fica todo mundo feliz porque elas são ótimas, mega confortáveis e combinam com tudo.
Eu falo com propriedade. É um presente fácil de acertar. Esse é um Super Plus.
Dá para comprar com até 30% off, somando meu cupom a outros descontos do site. Tem cashback de 20% em qualquer compra para usar depois. Sucesso.
E comprar online é muito melhor, muito mais fácil do que enfrentar shopping lotado no fim do ano. O cupom de desconto e o link pra loja estão fixados no topo da sessão de comentários e na descrição do vídeo. Agora a gente volta ao assunto original e eu tava falando sobre como escrever me ajuda a organizar os pensamentos, porque definir as coisas é o primeiro passo para eu parar de correr em círculos de novo.
E é assim que eu vou esculpindo o meu conceito pessoal de tocar guitarra, o que tem tudo a ver com criar dentro de uma linguagem rock. Não é sobre tocar 200 notas por segundo. 120 bastam, às vezes 100.
Não é sobre versatilidade para tocar em qualquer evento, situação e condição. Não é fazer cover de uma banda de metal em estilo forró ou vice-versa para postar na internet. É muito mais sobre a parte de inventar coisas para tocar nessa linguagem, disfarçando inclusive de review de pedal [música] para postar na internet.
A medida em que eu fui percebendo que tipo de guitarra me interessa nessa linguagem do rock, metade das preocupações simplesmente evaporaram. Eu não preciso me preocupar em dominar os solos do John Petruti ou entender as nuances de Jazz Fusion dos anos 70, entender sobre os últimos pedais de boutique de sons ambiente. Eu inclusive digo isso como um mantra e é libertador.
Foco é sobre selecionar. Selecionar é reduzir. Reduzir é sobre menos.
e menos aqui não é escassez, é um super poder. Tentar fazer tudo ao mesmo tempo e ainda esperar gostar da vida é pedir demais. É na verdade receita para ser bem superficial em tudo.
E a gente precisa aprender a ser incompleto com orgulho e parar de tentar abraçar o mundo com as pernas, porque no final a única coisa que a gente acaba abraçando é o próprio fracasso. Melhor ter orgulho de uma coisa só do que vergonha de 10. Talvez um bom jeito de achar esse foco seja olhar para tudo aquilo que existe para se aprender no mundo da guitarra.
Em vez de se perguntar por onde eu começo e quanto tempo vai levar, você se pergunta o que que eu posso ignorar para ser o guitarrista que eu quero ser. Pode ser muita coisa, pode ser pouca, depende, tá tudo bem sem completo, todo mundo é. Todos os guitarristas que a gente admira são e cada um deles escolheu sem incompleto do seu próprio jeito.
Tem sua própria versão de incompletude e essa é a graça. Se essa sessão de terapia guitarrística barata fez sentido para você, ótimo. E se com isso você descobriu que você quer tocar, saber navegar bem o braço da guitarra é importante, mas te falta tempo no dia, eu criei um programa de estudos progressivo, cíclico e bem inxuto.
São sessões de estudo de 30 minutos, quatro a cinco vezes por semana, pensadas para guitarristas em nível intermediário, com rotinas corridas e agendas apertadas. O link tá na descrição do vídeo e fixado no topo da sessão de comentários. Por hoje é isso.
Esse vídeo com a pegada natalina, aliás.