É uma coisa do colegial, também, que não era só chato; não existia só combate. Era extracurricular. Dentro do festival, existia também, como atividade curricular, de alguma forma.
É quando a gente criava certas apresentações dentro da própria sala de aula. Consigo me lembrar de dois momentos com mais clareza, que são os momentos em que eu e o grupo que formamos para fazer aquela atividade transformamos o espaço da sala de aula, propriamente dito, em um espaço cênico para fazer uma apresentação teatral. A primeira lembrança que eu tenho claramente foi no 1º ano do ensino médio.
Era uma atividade da aula de educação artística. A gente estava estudando estéticas diferentes, como realismo, surrealismo e abstracionismo. Enfim, tinha esse texto, essa crônica, que contava a mesma história de várias formas diferentes, brincando com estilo.
Peguei essa crônica, e a gente fez, dentro do grupo, uma encenação em que os atores contavam essa mesma história de diferentes maneiras. Para isso, a gente causou toda uma revolução dentro da sala de aula. Pegamos as carteiras, empilhamos, para criar uma espécie de labirinto.
Não sei onde a gente arranjou o tecido preto, mas formamos as carteiras com esse tecido, quase criando uma caixa-preta cênica dentro da sala de aula para fazer essa apresentação. E tinha até recursos de iluminação! A gente apagou a luz da sala, usou abajures; as pessoas levaram luminárias que tinham em casa e tudo mais.
Me lembro claramente que um dos estilos da crônica abordava, na brincadeira que ela fazia, contar essa história como se estivesse sendo narrada por Nelson Rodrigues. Isso fez com que eu começasse a me interessar por essa figura, pelo Nelson Rodrigues, que acabou desembocando, no ano seguinte, na peça que fizemos no festival, "Vestido de Noiva". A gente fez também uma apresentação em uma outra sala de aula, no segundo ano, lá embaixo, onde era o laboratório, que foi sobre o simbolismo na aula de literatura.
A gente escureceu a sala de aula, também, e mexeu com a iluminação. Me lembro que fiz uma coleta de todos os candelabros e castiçais da família inteira, de todo mundo que tinha, e não era o suficiente, porque eu queria que cada aluno entrasse com um candelabro ou um castiçal. Comecei a desmontar os abajures da minha mãe; ela ficou louca da vida!
Nunca mais aconteci os abajures do jeito que eram, pra gente colocar as velas e pra todo mundo entrar com velas. E tudo mais. Tinha maquiagem, era uma espécie de figurino, tudo muito sombrio, enfim, tudo muito ligado àquela atmosfera simbolista do "Cruzeiro do Sul" e Alphonsus de Guimarães.
Acho que um dos objetivos maiores do professor de literatura é fazer com que o aluno entenda que a palavra tem corpo, que a palavra salta do papel. E quando o aluno começa a entender que a palavra salta do papel, ele vai ser um apaixonado pela literatura pro resto da vida, né? Enquanto ele achar que aquilo existe só no papel, talvez ele não tenha tanto interesse assim pela literatura.
Mas, quando a palavra tem corpo, e quando você faz o exercício de dar um corpo pra ela — que é aquele que você acha que ela tem naquele momento da sua vida, com seu amadurecimento artístico e intelectual como leitor —, aquilo tem corpo pra você. Pra nós, aquilo tinha corpo; tinha espaço, tinha corpo físico, tinha cheiro, tinha cheiro de vela, tinha cheiro de pavio. Pra nós, ali não tinha luz; tinha fumaça.
Pra nós, aquilo tinha som, porque a gente usou música na apresentação. Então, é um exercício extraordinário de você dar corpo à palavra, literalmente falando. Mas o rescaldo e o resíduo disso é perceber que ao abrir um livro e começar a ler, aquelas palavras já têm corpo, mesmo que você não precise fazer isso dessa forma, literalmente falando, metodologicamente.
Acho que é fundamental, é brilhante, né? Pra ativar essa percepção no aluno. Da mesma maneira que uma professora de arte pede que você faça um rap, praticamente, pra você entender que os estilos e as escolas são diferentes.
Que o surrealismo é diferente do abstracionismo, que o abstracionismo é diferente do realismo e do dadaísmo, e tudo mais. Você vai imprimir na pele aquelas definições que, de outra forma, você estudaria ou, na pior das hipóteses, decoraria no papel. Mas aí cheguei nesse momento, nessa encruzilhada, depois de fazer "Vestido de Noiva" no festival e, no ano seguinte, fazê-lo esperando a Gordô, um festival em que eu tinha que decidir, por conta do vestibular e tudo mais.
Curiosamente, jamais passou pela minha cabeça fazer uma faculdade de artes cênicas. Eu acho que, de alguma forma, eu entendi num nível pouquíssimo consciente que eu não tinha amadurecimento pessoal suficiente para fazer uma faculdade de artes cênicas. Amadurecimento pessoal, amadurecimento íntimo.
Eu cresci numa família onde. . .
uma família tradicional. Existe essa palavra? Não sei nem se existe essa palavra, mas uma família ortodoxa, no sentido de que tinha um pai, tinha uma mãe, tinha uma avó, tios e primos.
A gente se dava bem. O que eu quero dizer é o seguinte: eu acho que estava protegido demais para poder fazer a faculdade que. .
. Se eu tivesse feito, que seria a de Artes Cênicas, é ela não ia acessar alguma coisa que, para eu ser um ator, depois de sair dessa faculdade, eu teria que ter acessado. Estava muito cru, estava muito menino ainda, né?
Levando em consideração que eu tinha 17 anos e que, depois, eu acabei entrando na faculdade, sim, com 17 anos, numa outra faculdade. Eu estava muito menino, eu não racionalizava nada disso, é uma coisa que eu comecei a entender depois, né? Eu entrei em uma faculdade de Arquitetura também, bem menino, né?
Imaturo para fazer a faculdade, mas foi uma faculdade que, como ela lidava com o artístico, a obra artística, no caso o projeto arquitetônico, como ela lidava como obra artística fora de mim, eu acho que foi uma faculdade mais fácil de ser concluída à medida em que fui me conhecendo, né? Eu acho que se eu tivesse feito Artes Cênicas, eu me conhecia um pouco com 17 anos, que acho que eu não teria, onde teria quebrado tudo e teria desistido, ou teria me blindado e não teria aproveitado nada de uma faculdade de teatro. O teatro continuou existindo em tempo integral durante a faculdade de Arquitetura por duas razões: primeiro, porque eu me mudei para São Paulo, mas eu não me desliguei de Sorocaba, né?
Os meus colegas daqui da faculdade até reclamavam e falavam: "Por que você volta todo final de semana para Sorocaba? Porque senão fica que nem a gente, a gente vai ver coisa, que vai sair, a gente vai. " E eu voltava para Sorocaba todo final de semana.
Estava muito, muito, muito conectado com a cidade ainda. Porque, depois do festival do Getúlio Vargas, a AAEE continuei fazendo teatro com oriundos daquele próprio grupo que se formou no festival de teatro, mas também com novas pessoas que conheci no cenário do teatro amador ali da cidade. Por exemplo, a Ademi Feliziani, que era um ator que já fazia teatro há bastante tempo na cidade; o Armando Oliveira Lima, que era uma figura do meio cultural nessa época.
Eu me lembro de ter feito um workshop no Teatro do Sesi com o Carlos Roberto Mantovani. Neste workshop, também conheci várias outras pessoas. E aí, logo depois de sair do âmbito do Getúlio Vargas, a gente formou um pequeno grupo e a gente fez uma adaptação de uma peça do Tchecov, chamada "A Gaivota".
Eu me lembro que estava nessa época já no primeiro ano da faculdade e ficava dividido entre a faculdade e os preparativos dessa peça. O teatro dentro da escola é mais tutelado, né? A gente trabalha num ambiente razoavelmente protegido e, geralmente, o teatro dentro da escola tem muito apoio familiar.
É raro não ter apoio familiar; os familiares ficam felizes de ver que está sendo feito alguma coisa dentro da escola e assistem, ficam satisfeitos com isso. Mas a partir do momento que você já não está mais na escola e quer insistir na atividade teatral, aí já, via de regra, não tem tanto apoio familiar assim. Está bem mais difícil esse salto e, talvez, seja um salto muito difícil de se fazer.
Aconteceu com vários outros colegas. Tanto é que eu me lembro de todos aqueles colegas que fizeram "Vestido de Noiva" esperando Gordô. Quando a gente resolveu que queria continuar fazendo alguma coisa em âmbito amador, não mais escolar, sobraram poucas pessoas.
Sobrou especialmente uma pessoa que era muito amiga minha na época, que foi uma grande parceira, assim, intelectualmente falando. A gente tinha muitas ideias juntas, que era a Mônica Silva. Com ela, acabou indo fazer faculdade em outra cidade e tudo mais.
Também aconteceu com ela essa questão, não é? Da família talvez já começar a achar que era excessivo o envolvimento com o teatro e que agora era hora de focar na faculdade. A outra coisa, além do fato de eu ter ainda conectado com Sorocaba durante a faculdade, é que, no segundo ano da faculdade, eu passei para ser aluno do JC Serroni, José Carlos Serroni, que é o cenógrafo que ficou conhecido por fazer toda a cenografia das peças de Antunes Filho dentro do CPT.
Então, no segundo ano da faculdade, eu fui aceito como aluno dele. O curso dele durava um ano, um curso de cenografia e figurinos. E aí, depois desse primeiro ano como aluno dele, eu fiz um pouco de assistência de cenografia, né?
Principalmente em duas peças: uma peça chamada "Nova Velha História" e uma outra peça chamada "Trono de Sangue", as duas dirigidas pelo Antunes. Então, eu me lembro que eu fazia faculdade de manhã e, eventualmente, uma ou outra matéria da faculdade à tarde, e à noite a gente ia para o curso de cenografia, que era atravessando a rua do outro lado da Rua da Consolação. Foi muito importante porque o Serroni era um homem, é um homem ainda, que respira teatro.
Eu me lembro muito da gente, da sala de cenografia e figurinos, que era onde a gente trabalhava. Às vezes, a gente ficava fazendo ali um trabalho muito meticuloso, mesmo algum trabalho de horas, de montar uma maquete de um cenário, ou então de fazer miniaturas para essa maquete, ou de atingir manualmente florzinhas de tecido, uma por uma, para colocar no chapeuzinho da personagem e tudo mais. Eu me lembro que, nessas horas a fio que a gente passava dentro dessa sala, na sala ao lado Antunes estava ensaiando com os atores.
Então, me lembro muito de estar lá, fazendo alguma atividade, muito silencioso e muito focado e concentrado em ouvir o ensaio que Antunes estava acontecendo ali dentro. Então, esses anos da faculdade. .
. Cinco anos da faculdade, eles quase que foram 11. Uma mistura dessas duas atividades, e à medida em que eu fui ficando mais maduro, fui entendendo que você faz a faculdade que você cursa; você escolhe fazer um curso, mas minha classe tinha 80 alunos.
Cada aluno fez uma faculdade de arquitetura diferente do outro. A gente fez o mesmo curso, mas cada um fez uma faculdade diferente. É difícil para o aluno entender isso, né?
Quando ele é tão jovem, quando ele tem 17, 18 anos. À medida que fui entendendo isso, eu falei: "Pra mim, todas as matérias da minha faculdade, eu posso mudar a perspectiva delas e o prisma. " O professor está lá, dando a mesma matéria, mas eu posso mudar a perspectiva e o prisma, e posso aplicar para a cenografia.
À medida que fui entendendo isso, pra mim, eu estava fazendo uma faculdade de teatro, né? Uma faculdade de arquitetura cênica, uma faculdade de cenografia, uma faculdade de história da arte. E no quinto ano da faculdade, no último ano, eu já tinha absoluta certeza de que não ia ser arquiteto.
Total certeza.