Eu sei que faz mal, mas eu continuo fazendo mesmo assim. Doutor, pergunta franca. Quantas vezes você não ouviu essa frase no consultório se você já atende há um tempo?
Ou talvez até mesmo você não já disse, né? Se você segue meu canal, você sabe que aqui eu não trabalho com fórmulas prontas de autoajuda. A gente trabalha aqui nesse canal com ciência.
O que que a ciência realmente mostra sobre que o ser humano se comporta do jeito que ele se comporta? E poucos fenômenos são tão universais quanto esse. Continuar fazendo algo que a gente já sabe racionalmente que nos prejudica.
O cigarro que a pessoa fuma, mesmo sabendo que aumenta o risco dela ter câncer de pulmão. A relação tóxica e conturbada em que uma mulher se encontra, mesmo sabendo que isso drena a sua saúde mental. O celular que muitas vezes eu e você pegamos assim que a gente acorda, mesmo já tendo visto diversos profissionais de saúde mental explicando que isso piora a nossa ansiedade ao longo do dia.
A procrastinação, né, a clássica procrastinação que sabota o nosso objetivo dia após dia. clínica, como eu já expliquei, esses talvez sejam provavelmente o padrão mais comum que eu escuto. E o erro mais frequente tanto de quem sofre com isso, quanto de quem tenta [música] tratar pessoas que sofrem com isso, é achar que o problema é falta de informação ou falta de força de vontade.
Se a pessoa ainda continua fazendo isso que faz mal para ela, é porque ela não sabe. Se ela soubesse o quanto que isso faz mal, certamente ela pararia. ou é só você ter um pouco mais de disciplina que você consegue desistir de fazer isso.
>> Como terapeuta cognitivo comportamental e atualmente pesquisador na área de neurociências, eu preciso ser muito sincero contigo, tá? Isso tudo é uma explicação muito preguiçosa. E pior, é uma explicação que não ajuda efetivamente ninguém a mudar, porque infelizmente ataca o alvo errado.
O que mantém comportamentos ruins pra gente não é, na maioria das vezes, ignorância e nem fraqueza de caráter. é a combinação de dois mecanismos psicológicos muito bem documentados pela psicologia que eu vou explicar para você nesse vídeo. Um se chama dissonância cognitiva e o outro se chama o ciclo da manutenção comportamental, que envolve tanto princípios da análise do comportamento quanto achados da neurociência sobre a maneira como o cérebro forma hábitos.
Após explicar esses dois conceitos, eu vou também falar para vocês como que a TCC realmente faz para quebrar esse ciclo de comportamentos autodestrutivos. E eu espero que você fique até o final do vídeo, porque não é o que a maioria das pessoas pensa que a TCC faz. E antes de continuar, vale reforçar.
As informações desse vídeo não valem a apenas para aqueles comportamentos altamente destrutivos, como vícios ou sei lá, comportamentos muito graves. Vale também para quem sabe que devia dormir mais cedo e mesmo assim fica enrolando no feed do Instagram até de madrugada. Para quem sabe que aquele comentário ácido no relacionamento não vai ajudar a resolver um conflito e mesmo assim o solta no momento de discussão para quem sabe exatamente o que precisa estudar para um concurso ou para uma prova.
e ainda assim fica adiando. Padrão psicológico por trás de todos esses comportamentos é exatamente o mesmo. O que muda é somente a roupagem e o contexto.
Antes de continuar falando sobre o tema do vídeo, eu preciso dizer que esse vídeo é patrocinado pelo psicomanager. Atender, pessoal, exige uma atenção total ao que o paciente está nos contando. Mas quantas ferramentas diferentes a gente às vezes tenta usar para chegar até a sessão?
Com a integração do Psicomanager com o Google Meet, isso muda totalmente, porque você cria e acessa a reunião direto pela plataforma, sem alternar em várias ferramentas. E se assim como eu, você atende pelo Meet, ainda conta com a transcrição automática das sessões via, o que reduz o tempo com anotações e fortalece sua documentação clínica. E se você ainda não assina, nossa, você tá perdendo tempo, tá?
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Então vamos lá. Vamos começar pelo conceito de dissonância cognitiva que foi formulado inicialmente pelo psicólogo social Leon Festinger em 1957 em um dos estudos mais influentes da história da psicologia. A ideia central é bastante simples.
Quando existe uma incoerência entre o que a pessoa acredita e aquilo que ela faz, isso gera um desconforto psicológico real, a dissonância. E esse desconforto vai funcionar quase como uma tensão fisiológica, porque o cérebro é motivado a reduzi-lo o mais rápido possível. Só que aqui está o ponto que a maioria das pessoas ignora.
Reduzir a dissonância significa necessariamente mudar o comportamento. Existem pelo menos três caminhos possíveis e mudar a ação é só um deles, geralmente o mais custoso psicologicamente. O primeiro caminho e também o caminho mais fácil é ajustar a crença.
Por exemplo, a pessoa que é fumante e sabe que precisa parar, fica muitas vezes pensando: "Ah, fumar um cigarro por dia não é tão grave assim. Eu já fumei uma carteira antes, então só tô fumando um agora". Ou todo mundo mexe no celular, isso é normal hoje em dia eu sou só mais um.
Ou eu preciso disso para relaxar. Não é exatamente um vício, é só um escape. O segundo caminho é adicionar uma nova cognição que compense a antiga.
Eu me alimento mal, mas eu treino. Então não é tão ruim assim. vai, compensa.
Eu brigo com o meu parceiro, mas no fundo a gente se ama muito, então tá tudo bem, isso faz parte de qualquer relacionamento. O terceiro caminho, que é o mais raro e também o mais difícil é mudar de fato o comportamento, como eu já expliquei. Ou seja, na maioria das vezes, o caminho de menor resistência não é parar de fazer aquilo que te faz mal, é ajustar a história que você conta para você mesmo sobre esse comportamento que te faz mal, para que essa disson desapareça sem que nada precise mudar na prática.
Isso explica um fenômeno clínico bastante comum, porque dar mais informação para alguém raramente muda o comportamento sozinho. Bombardear um paciente tabagista com estatísticas de câncer de pulmão não resolve, porque o problema nunca foi falta de dado. O paciente tabagista sempre entendeu que aquilo fazia mal para ele.
O cérebro dele já tem um sistema eficiente de neutralizar esse dado através da racionalização que eu já demonstrei. você está tentando consertar um um problema que não é falta de conhecimento, o problema, na verdade é de regulação de desconforto. Ele utiliza aquele comportamento destrutivo para ele para se regular emocionalmente.
É por isso que na prática clínica eu quase nunca vou gastar muito tempo, pelo menos não no início, tentando convencer o meu paciente com mais fatos de que aquele comportamento que ele faz é ruim. ele já sabe, o trabalho terapêutico real vai começar em outro lugar, entender o que está sendo evitado ou obtido através desse comportamento, ou seja, qual é a função desse comportamento que ele faz. E é isso que nos leva ao segundo mecanismo.
Eu vou dar um exemplo composto baseado em padrões que aparecem com frequência no consultório, né, especialmente com mulheres que estão em relacionamentos abusivos. A pessoa sabe racionalmente que precisa sair desse relacionamento que a machuca. Mas cada vez que essa dissonância aparece, ou seja, o desconforto emocional, em vez de agir, a mulher vai ajustar a crença.
Ele não faz por mal. Ah, ninguém é perfeito. Se eu terminar com ele, vou achar outro que vai me maltratar do mesmo jeito.
A gente só está numa fase ruim, tudo isso vai passar. Isso tudo não é ingenuidade da pessoa, é o cérebro reduzindo o desconforto pelo caminho mais barato disponível naquele momento. Agora, a dissonância cognitiva, embora explique muita coisa, não vai explicar tudo.
Se a dissonância ela consegue explicar porque que a gente não muda de ideias sobre o comportamento, o segundo mecanismo explica porque o comportamento em si se mantém tão resistente ao longo do tempo. Aqui a gente une dois campos. análise do comportamento, que é uma abordagem da psicologia comportamental, e a neurociência dos hábitos.
Na terapia cognitivo comportamental, a gente usa um modelo funcional simples para mapear qualquer comportamento problemático. Antecedente, comportamento, consequência. O antecedente é o gatilho, um pensamento, uma emoção, uma situação.
O comportamento via de regra, é a resposta e a consequência é o que mantém o ciclo girando. Aqui está o ponto central, pessoal. Na maioria esmagadora dos casos, a consequência, ela, infelizmente, acaba sendo a reforçadora, a consequência imediata, mesmo quando a consequência a longo prazo vai ser prejudicial.
Por isso que muitas vezes a pessoa opta por fazer coisas que vão dar alívio para ela no curto prazo, mesmo que isso prejudique muito a vida dela no longo prazo. Na terminologia de BF Skinner, um dos pais do beviurismo norte-americano, isso é reforço negativo. O comportamento acaba sendo fortalecido porque remove ou alivia algo desagradável no curto prazo, não necessariamente porque produz prazer.
Por exemplo, muitas pessoas acham que mexer no celular é uma busca por prazer. Não, não necessariamente. A pessoa ansiosa que mexe no celular, ela não necessariamente vai buscar prazer.
Ela vai buscar alívio e de algum desconforto ou de alguma ansiedade no curtíssimo prazo. Quem procrastina não está simplesmente sendo preguiçoso, está removendo o desconforto de encarar algo que gera medo de fracasso, como, por exemplo, começar a produzir o trabalho de conclusão de curso. O problema é, na maioria das vezes, a questão da temporalidade.
O alívio realmente é imediato, isso aí não há dúvidas, mas o custo é distante e o cérebro tem um viés muito forte de priorizar recompensas imediatas sobre consequências futuras. Isso é muito bem documentado na literatura sobre desconto temporal. E aqui entra a neurociência.
pesquisa sobre formações de apos, como os trabalhos de engrabel sobre os núcleos da base mostram que quando o ciclo gatilho, comportamento, alívio se repete, o controle nigra progressivamente do córtex pré-frontal, que é a estrutura responsável pela decisão deliberada baseada em valores e metas de racionalização para circuitos mais automáticos ligados ao núcleo estriábico. Na prática, o que que isso significa? Quanto mais um comportamento se repete, menos ele depende de decisão consciente, mais automático ele fica.
É como se esse processo fosse disparado diretamente pelo antecedente, sem passar pela análise racional de custo benefício da ação. É por isso que o eu sei que faz mal pode ser verdadeiro e ao mesmo tempo irrelevante paraa execução do comportamento. O conhecimento mora aqui no Córtex pré-afrontal, uma estrutura a qual eu já expliquei várias vezes em vários vídeos aqui do canal e você pode procurar depois.
Porém, o comportamento automatizado já não está sob o controle e o comando dele. Do ponto de vista da neuropsicologia, isso tem um nome ainda mais preciso, controle inibitório. A função executiva responsável por suprimir uma resposta automática em favor de uma resposta alinhada ao objetivo de longo prazo.
E o controle inibitório não é um traço fixo. que varia com sono, estresse, carga emocional, glicose disponível e também maturidade do corpo humano. A mesma pessoa que resiste ao gatilho numa segunda-feira descansada e do domingo, do final de semana, pode não conseguir realizar uma tarefa difícil na sexta à noite, porque já tá exausta da semana.
Isso não é uma incoerência de caráter, é variação real no recurso cognitivo que sustentaria a escolha racional, que seria o controle inibitório. [música] Isso nos leva a um erro conceitual muito comum, inclusive entre profissionais, tratar o comportamento problemático como se fosse essencialmente um problema de conhecimento ou de racionalidade. A literatura de dupla processualidade, que ficou popular a partir do trabalho do psicólogo Daniel Caneman, autor do livro Rápido Devagar, duas formas de pensar, mas que tem raízes muito anteriores na psicologia cognitiva, descreve dois sistemas de pensamento que operam de forma simultânea e muitas vezes competitivas.
Um sistema rápido, automático e fortemente influenciado pelo nosso estado emocional do momento e um sistema mais lento, deliberado, ligado ao raciocínio e à análise de consequências. O que a pesquisa mostra de forma muito consistente é que em situações de auto emoção, fadiga, estresse ou impulso, exatamente à situações em que os comportamentos problemáticos costumam ocorrer, o sistema rápido tende a dominar as nossas respostas comportamentais, não porque a pessoa seja fraca ou irracional, mas porque essa é literalmente a arquitetura funcional do cérebro humano sob pressão. E aqui fechamos o ciclo com o conceito de dissonância cognitiva novamente.
Depois que o comportamento acontece, a mente processa a inconsistência entre eu sei que isso faz mal e eu fiz de novo isso gera desconforto. E como a gente viu anteriormente, o caminho mais rápido para resolver esse desconforto é a racionalização pós comportamento. Foi só dessa vez.
Eu mereço, amanhã eu paro. Gente, isso é tão claro e evidente no comportamento humano que mesmo na teologia, mesmo na literatura cristã, a gente vê esse tipo de coisa. O apóstolo Paulo, que é visto pelos cristãos como um dos homens mais espirituais que já pisaram na terra depois de Jesus Cristo, já falou: "O bem que eu quero eu não faço.
O mal que eu não quero, esse sim eu faço". Nós temos uma tendência a muitas vezes ir contra aquilo que nós queremos fazer e aquilo que nós sabemos que é o melhor para nós. É por isso que é muito importante tentar enxergar os processos de racionalização e tentar não fazê-los.
Mas aqui uma coisa importante, a racionalização não é mera hipocrisia, como eu já expliquei nesse vídeo, é o nosso cérebro fazendo exatamente aquilo que ele é programado para fazer, reduzir a dissonância cognitiva pelo caminho de menor custo psicológico. E essa racionalização, por sua vez, reduz a barreira para a repetição do comportamento. O ciclo se fecha.
gatilho, comportamento automático, alívio imediato, dissonância, racionalização e assim o comportamento vai se repetindo inúmeras vezes. Entender isso muda completamente a forma como a gente enxerga esse padrão de comportamento, tanto como terapeutas como quanto pacientes. Não é uma falha moral, repito, é um sistema funcionando exatamente como foi desenhado pela evolução para funcionar, priorizando alívio imediato e coerência interna no curto prazo, às vezes a custa do bem-estar de longo prazo.
[música] Tá, Pedro, você já falou várias vezes, eu já entendi que não é meramente uma falha de moral, mas se não é só por força de vontade, nem só por falta de informação, como é que eu paro esse ciclo? o que que funciona afinal de contas. Beleza?
Se você ficou até aqui, agora eu vou te explicar como é que a terapia cognitivo comportamental pode ajudar. Na TCC a intervenção, como eu já expliquei, não começa tentando convencer a pessoa no calor do momento a escolher melhor usando o sistema deliberado, porque como a gente já viu, é justamente esse sistema que perde força nas situações de gatilho. A intervenção vai começar com três frentes e você pode estar anotando agora para aplicar na sua vida depois.
A primeira frente é tornar o ciclo explícito através da análise funcional do comportamento. Vou traduzir para você. Mapei com precisão qual é o antecedente real.
O que é que o comportamento está evitando ou está obtendo quando você faz aquilo e qual é o custo a longo prazo. Não faça essa análise em abstrato, mas nos termos específicos da sua vida. Segunda frente é intervir no antecedente e não só na sua força de vontade no momento de impulso, porque no momento de impulso você não vai ter força de vontade nenhuma.
você vai querer ceder ao comportamento problemático. Se a gente sabe que o comportamento automático domina a gente sobem emoção, a estratégia mais eficaz é reduzir a exposição a esse gatilho ou alterar o seu ambiente antes que o sistema automático seja ativado. Não confie em decidir diferente no meio da tempestade emocional.
Você nem tem antecedentes para isso. Se você sempre cedeu a um vício como drogas ou pornografia, evite ao máximo as situações gatilhos que te fazem querer recorrer a esse vício. E não ache que quando você estiver tentado, você vai conseguir dizer não.
A terceira frente é construir de uma forma deliberada e repetida uma via de resposta alternativa ao mesmo gatilho. Porque como a gente viu com o autor Grabell, hábitos se constróem por repetição. Isso significa que a mudança sustentável vai exigir prática comportamental real sobre as mesmas condições que o padrão antigo costumava aparecer, não apenas insit sobre o problema.
Por isso que muitas pessoas relatam melhora quando elas investem um pouco mais na sua espiritualidade. Às vezes as pessoas começavam um dia fumando ou usando algum tipo de droga ou encerravam um dia fazendo isso e aí elas inserem nos momentos do início e do final do dia uma oração ou uma meditação, por exemplo. Então você tem que substituir aqueles momentos mais vulneráveis com comportamentos mais saudáveis, porque a gente não tira um hábito e deixa um vazio no lugar, a gente tira um hábito e coloca outro.
Ou seja, você precisa tirar o hábito negativo e colocar o hábito saudável no lugar. E vale dizer uma última coisa pra gente ir encerrando esse vídeo, porque ela muda o tom de tudo isso que eu falei até aqui. Nada disso é sobre culpa.
Entender que existe um mecanismo de reforço negativo e um sistema automático dominando a resposta sobre pressão não é desculpa para não mudar, é justamente o que torna a mudança possível. Inclusive, autocrítica excessiva tende a aumentar a dissonância cognitiva e a alimentar o próprio ciclo que estamos tentando quebrar. O caminho realista não é nunca mais eu vou fazer isso.
É reduzir a frequência, a intensidade, o tempo de reação, sessão após sessão, prática após prática. Se você chegou até aqui se reconhecendo em algum padrão que eu citei no vídeo, o primeiro passo não é se cobrar para ter mais disciplina, é mapear com honestidade, sinceridade e muita sensatez qual é o alívio real que aquele comportamento destrutivo te dá. Porque só depois de nomear isso é que dá para construir de fato uma alternativa que funcione.
Se esse vídeo te ajudou a entender melhor esse ciclo destrutivo que talvez esteja prejudicando muito a sua vida, deixa aqui nos comentários qual padrão você reconheceu em si mesmo. E aproveita também para se inscrever aqui no canal para continuar essa conversa sobre o que a ciência realmente mostra sobre o que funciona na mente humana. Como sempre, as fontes que eu utilizei para montar o roteiro do vídeo estarão na descrição.
Um grande abraço e até o próximo vídeo. Ciaau! Ciao.