Meu nome é Eliane Potiguara, eu tenho 70 anos, estou no movimento indígena, nessa luta indígena, há mais de 40 anos. A área potiguara fica no Nordeste do Brasil, no estado da Paraíba, e nos últimos, nas últimas décadas, os potiguaras migraram para outras regiões como. .
. como o Ceará, o Piauí, o Rio Grande do Norte, a Bahia, até chegar ao Rio Grande do Sul e passar por Rio de Janeiro e São Paulo, Espírito Santo. Então, nosso povo é um dos povos mais guerreiros porque sempre viveu no litoral brasileiro.
Você sabe que ali na Paraíba, em Pernambuco, a colonização foi. . .
foi dos holandeses, dos portugueses também e dos franceses, e o povo Potiguara resistiu esses 500 anos, 520 anos, resistiu a uma colonização. Então, isso prova que a identidade indígena é algo muito importante para esse povo, que as culturas, as tradições, as línguas, as memórias que esse povo traz, o significado do povo no planeta Terra, sua essência cosmológica, sua visão com relação à sua espiritualidade, a sua relação com a pajelança, com o território. Território no sentido de abarcar toda a questão da ancestralidade, cultura e a preservação da cultura, isso significa que é um povo de muita luta, é um povo que resistiu bastante, e um povo que não esqueceu suas tradições.
Eu tive tuberculose, tive anemia profunda e tive um tumor no olho e no peito. E a minha avó me curou com um visgo de jaca, teia de aranha e aranha. .
. Teia de aranha. .
. E minhoca amassada. Então, ela fazia aquela composição, amassava, bem direitinho, e colocava no meu olho e colocava no meu peito, amarrava uma fita vermelha em todos os meus braços e nas pernas, usava colares vermelhos.
E eu fui curada pela minha avó, que era uma grande conhecedora das ervas medicinais, a mamãe também, grande conhecedora das ervas. Quando a minha avó compõe três elementos: minhoca, teia de aranha e visgo de jaca, ela compôs através de quê? Conhecimentos tradicionais.
Isso é uma propriedade intelectual do povo potiguara. E nós chamamos de “mezinha”. As mezinhas, elas existem no Nordeste, mesmo fora da questão indígena.
Então, ela fazia essas mezinhas para curar as pessoas. E essa propriedade intelectual, ela foi usurpada pela, pela indústria farmacêutica e criou-se um remédio realmente. Tudo que nós temos nas nossas terras indígenas, eu não vou dizer para vocês, ter essa audácia de dizer que pertence aos povos indígenas.
Não. Porque nós vivemos numa sociedade plural, numa sociedade diversificada e que precisa compartir, os povos indígenas precisam compartir os conhecimentos. Mas esse compartilhamento, ele precisa ser reconhecido intelectualmente como sendo de origem indígena, origem africana, origem asiática.
Qual é a situação? A situação é essa. É de opressão, como nos ensina Paulo Freire, como nos ensina Frantz Fanon no seu livro que fala dos resultados da opressão aos povos africanos, aos povos oprimidos, aos povos asiáticos, todos os povos indígenas, todos os povos que foram colonizados, esse povo sofreu um processo psiquiátrico e psicológico de uma autoestima muito baixa, de uma desvalorização da sua própria cultura, de uma tristeza infinita, de uma saudade pela sua terra, de uma saudade pelas suas origens, pela sua família.
Por que eu cheguei nas Nações Unidas? Porque eu participava do programa de combate ao racismo, o mesmo programa do Nelson Mandela, de Genebra, na Suíça. Esse programa, ele trabalhava a questão racial no mundo inteiro, a discriminação social, a questão da violência às mulheres, eu participei desse programa e tinha sido convidada para falar para 3 mil indígenas do Novo México.
Um grande congresso anual, e me levaram para um grande hotel, os navarros ali, os navarros ali próximos ao aeroporto e eu perguntava: “E aí, já vamos chegar, já vamos chegar? ”. Ele disse: “Nós já chegamos às terras indígenas dos navarros”.
E eu fiquei muito surpresa porque aqui no Brasil é ao contrário. As terras indígenas estão sempre muito distantes, estão sempre na pobreza, estão sempre na invisibilidade, está sempre na carência social e econômica, e eu fui chegando num povo indígena norte-americano navarro com uma tecnologia avançada, com uma cidade avançada, com Ministério da Educação, com Ministério da Saúde. Identidade não era sinônimo de pobreza.
Identidade era uma herança, é uma herança deixada pelos nossos avós, bisavós, nossos ancestrais. Então, eu fui a primeira pessoa indígena, hoje com 70 anos, que conseguiu entender que identidade não era. .
. Que identidade indígena não era ser pobre, ser carente, ser desdentado, não ter um equipamento, não ter uma internet, não ter, não poder falar o inglês, não poder falar o francês, não poder se formar deputada, não poder se formar advogado, não poder se tornar um escritor, uma escritora. É necessário um grande diálogo, uma grande convenção entre os governantes e os povos oprimidos, sabe?
Eu não quero levar para uma terminologia mais científica, uma terminologia política, eu não quero. Eu sou uma pessoa que observo quem sofre e quem faz sofrer. Então, nós temos dois lados.
Nós precisamos trabalhar isso. Então, o movimento indígena hoje, ele através da literatura, através da da internet, que nos deu espaço para que a gente possa falar e que nós possamos entrar nas universidades como eu também entrei, uma das primeiras pessoas a ter uma formação universitária. E outras pessoas, milhares de pessoas, quando vieram as cotas também e muitas pessoas entraram, muitos jovens entraram.
Nós vimos uma grande necessidade de produzir materiais didáticos, materiais literários, poemas, poema-pôster. Eu mesma produzi vários poemas-pôster chamados “Oração pela libertação dos povos indígenas”, “Identidade indígena”, “Ato de amor entre povos”. Poema-pôster, para distribuir, panfletar em todos os lugares onde eu ia.
E produzimos jornais, por exemplo, como o jornal do GRUMIN. Isso aqui tem importância histórica e política. Nós produzimos esse trabalho, esse jornal com oito páginas, distribuímos no Pará, no Brasil inteiro, nesse processo de consciência, de conscientização e dizíamos: “Mulheres indígenas, criem suas organizações mesmo olhando suas casas!
” Isso eu já dizia há 500 séculos atrás. Então, nós precisávamos contar essas histórias, responder as perguntas de muitas crianças, jovens, adolescentes. Explicar onde nasceu o racismo, onde nascia a intolerância religiosa, onde nascia a intolerância de gênero, onde nascia a intolerância de raça, de costume, de tradições, de etnias.
Intolerância, né? Por que essa intolerância, xenofobia, por que os lugares que a gente saía para chegar em outro; o outro, outras pessoas discriminavam se nós éramos ciganos ou se éramos homossexuais ou se éramos. .
. E assim continua hoje! Então são coisas que a minha memória de uma senhora de 70 anos que participou muito tempo dessa luta indígena e que vem acompanhando a evolução do movimento indígena aqui, como começou, através do Juruna, através do Ailton Krenak, que é uma grande liderança, que pintou o rosto na Constituição.
Eu estava lá também, sentindo o cheiro do café que os deputados tomavam. E que se eles ficavam impressionados com as nossas pinturas corporais, com a cultura dos caiapós, aquelas músicas, as maracas tocando, os indígenas do Nordeste com seu, com sua roupa de palha, com as suas pinturas, com as músicas, com os cânticos, com a forma de ser, com a ética, com os princípios indígenas, que nunca foram considerados nesse. .
. nesse povo brasileiro. Porque, se vocês escutarem as nossas histórias, as nossas filosofias, os nossos pensamentos, vocês perceberão que existe uma ética diferente desse processo colonizador.
Por que que nós queremos continuar com nossos princípios básicos da filosofia indígena e por que que nós queremos continuar com a nossa identidade e por que nós queremos pregar. . .
“Pregar”, palavra missionária, mas “pregar” não. Como eu vou dizer? Vamos.
. . Oferecer!
Oferecer essa. . .
essa voz. Ninguém nos dá voz. Não venham com essas teses acadêmicas.
“Vamos dar vozes aos povos indígenas. ” Ninguém dá voz para nós. Nós é que temos as nossas vozes sufocadas e que precisamos abrir essa voz, abrir esse grande microfone, abrir essa grande.
. . esse grande pensamento.
Uma nova forma de reflexão sobre os povos indígenas brasileiros. Então, ninguém nos dá voz. Por que que nós precisamos fazer essas obras?
Primeiro para apresentar para as escolas. Apresentar para as sociedades. Mas, por quê?
Porque nós estamos em luta! Em luta. Mas em luta de resistência, em luta literária, não em luta física.
Nós estamos em luta de resistência contra esse sistema que não dá espaço para que nós possamos falar. Nós estamos em luta contra o machismo, contra os preconceitos. Contra os preconceitos de gênero, de raça, de etnia.
Contra essa intolerância que eu já expliquei muito bem explicado aí atrás. Então isso tudo traz o que nessas obras? Uma cosmovisão diferente, uma noção de ancestralidade, o que que nós temos como ancestralidade.
Como espiritualidade, não como religião, mas o que é, quais são os nossos traços com o cósmico, qual é a nossa relação com a Mãe Terra, com o nosso chão, com a nossa territorialidade, com as terras que nós lutamos pela demarcação delas. Por que que nós escrevemos isso tudo? Porque nós queremos chegar a esses quatro pontos importantes: a cosmovisão, a ancestralidade, a espiritualidade e a noção de território, entenderam?
Para que a gente possa defender a nossa identidade e os nossos conhecimentos tradicionais, a nossa propriedade intelectual. Porque nós temos as preocupações éticas que nos são caras, como eu coloquei no início. São princípios que nos são caros.
O conhecimento da identidade indígena.