Olá, meus amigos! Tudo bem? Professor Fábio Blanco por aqui, e hoje eu quero falar um pouquinho sobre uma linha de pensamento, uma linha filosófica chamada de racionalismo.
Vamos lá! Onde surge o racionalismo? Com esse "n", se nós nos remetermos ao início da era moderna, nós vamos ver que ali aparece um claro conflito de ideias: de um lado, os chamados empiristas, que entendiam que todo o nosso conhecimento vem pelos sentidos.
Tudo o que sabemos tem de passar pelos sentidos primeiro. Nós temos as sensações; os nossos sentidos nos informam aquilo que o mundo é, aquilo que o mundo tem, e a partir disso nós formamos o nosso conhecimento. Esses são os empiristas.
Do outro lado, havia os racionalistas. O que os racionalistas entendiam? Que o verdadeiro conhecimento é um processo interno, é um processo do espírito, um processo da razão.
Se você quiser ter conhecimento verdadeiro, você tem que acessar o seu espírito, a sua razão, o seu interior. Então, essa é a grande diferença entre os dois, e eu quero focar aqui nos racionalistas, pois os racionalistas começavam pensando da mesma maneira que os céticos. Lembra que eu falei aqui dos céticos?
O que os céticos pensavam? O que eles entendiam? Bom, os nossos sentidos são falhos; os nossos sentidos nos transmitem informações enganosas.
Então, por causa disso, nós não podemos confiar nos sentidos. Os racionalistas iam na mesma linha; eles falavam a mesma coisa dos sentidos e, da mesma maneira, desautorizavam os sentidos como uma fonte de conhecimento verdadeiro. Se você pegar um autor, como por exemplo, uma.
. . ó, eu vou puxar aqui para vocês verem esse autor aqui, ó, por exemplo, que é um racionalista típico, ele dizia o seguinte: todos os conhecimentos que o espírito recebe pelo corpo são falsos e confusos.
Conhecimentos que o espírito recebe pelo corpo? Ele está dizendo dos nossos sentidos. Ele diz: “Todo o conhecimento assim é falso e é confuso.
” Então, esses racionalistas desautorizam os sentidos da mesma maneira que os céticos. Qual é a diferença entre os racionalistas e os céticos? Os céticos concluem que, por causa dessa falibilidade dos sentidos, a realidade não pode ser conhecida.
Nós não temos como saber o que é verdadeiro ou não. Já os racionalistas pensavam um pouco diferente ou concluíam bem diferente, na verdade. Eles diziam o seguinte: realmente, os sentidos são falhos, mas nós podemos saber a verdade por aquilo que temos dentro de nós, pelo nosso interior, pela nossa razão.
Citando o mesmo Malebranche, ele dizia: “Somente a razão deve presidir o julgamento de todas as opiniões. ” Então, você vê que o racionalismo é bem radical nesse ponto: esqueçam os sentidos! Eles nos enganam; temos que acessar o nosso interior, e Deus nos revela a verdade através do nosso espírito.
Assim, lembrando daquilo que eu falei do ceticismo, o realismo vai cometer o mesmo erro do ceticismo ao esquecer uma coisa: que a razão, para trabalhar, vai precisar de ideias e de imagens. Estou usando aqui a expressão "ideias" no sentido de John Locke: ideias são tudo aquilo que nós absorvemos em forma, em nós. Algum tipo de imagem, conceito, sensação, lembrança, memória, tudo isso são ideias.
Então, a razão, para trabalhar, ainda que queira trabalhar por si mesma, vai trabalhar sobre o quê? Sobre ideias, sobre imagens. E essas ideias e imagens só podem vir através dos sentidos.
É aquilo que eu sempre digo: a revelação. Vamos falar assim: Deus revelou através da Bíblia. Para você entender o que está escrito na Bíblia, você tem que saber o que as coisas são.
Adão comeu o fruto da árvore. Você tem que saber o que é fruto, o que é árvore. E para você saber o que é fruto e o que é árvore, você precisa ter a experiência do fruto e da árvore, a experiência que você recebeu por meio dos sentidos.
Então, não tem jeito; essa é a falha do racionalismo, que é a mesma falha do ceticismo: esquecer que os sentidos estão ali e que, de alguma coisa, eles estão nos informando. Se nós formos pensar bem, vamos ver que praticamente todo o nosso conhecimento tem início nas experiências sensoriais que nós temos. Isso praticamente não dá para discutir; tudo que nós vemos, tudo que nós sentimos, tudo que nós ouvimos, tudo que nós tocamos, tudo que nós cheiramos, tudo isso se transforma em dados, dados que vão ficar armazenados em nossa memória.
Claro que são dados brutos. Na forma como nós recebemos, isso fica guardado na nossa memória. Esse é o nosso inventário de ideias e imagens que nós vamos trabalhar.
É sobre esse inventário que a nossa inteligência, a nossa razão, vai trabalhar. O que ela vai fazer? Ela vai pegar tudo isso e vai processar isso das mais diversas formas, vai unir os elementos, vai comparar os elementos, vai misturar, vai fundir os elementos, vai abstrair, vai abstrair os elementos.
Em um outro vídeo, eu falarei sobre abstração. Ela vai criar também, a partir desses elementos brutos, outros novos elementos, e assim vai. Então, fica muito claro que essa nossa inteligência está atuando acima dos sentidos, vamos dizer, para além.
Depois dos sentidos, ela recebe os dados dos sentidos, interpreta esses dados e processa esses dados. E desse processamento, ela vai criar outras ideias. E ela vai fazer isso.
E, para fazer isso, veja bem, ela recebe esses dados brutos dos sentidos. A inteligência, então, tem de trabalhar sobre esses dados de uma forma crítica. Ela não pode simplesmente receber os dados e está tudo bem; ela precisa trabalhar ali de uma forma crítica.
Ela precisa, mais ou menos, entender que aquilo ali pode conter informações que precisam ser corrigidas. Eh, entre os diversos papéis que a inteligência vai exercer, nós vamos ver que um dos mais importantes acaba sendo exatamente o de corrigir os dados dos sentidos. Porque, por exemplo, quando eu vou dar o mesmo exemplo que eu dei em outro vídeo, você tem, eh, o desenho de duas linhas paralelas que parecem se tocar no horizonte.
Então, os dados dos sentidos, em um primeiro momento brutos, vão dizer: "Ó, essas linhas estão se tocando no horizonte. " Mas a pessoa que usa a razão vai falar: "Não, não, não! Elas não estão se tocando no horizonte.
Isso é uma ilusão de ótica por causa disso, questão de perspectiva, essas coisas. " Então, veja bem que a inteligência, que fez o que a razão fez por meio de outros conhecimentos, corrigiu aquilo que o dado do sentido bruto parecia estar dando, tá entendendo? A mesma coisa acontece quando você mergulha um pedaço de madeira na água.
Parece que ele tá quebrado, né, quando você olha, mas a inteligência fala: "Não, isso não tá quebrado. Isso também é um efeito da luz, essas coisas todas. " E ela vai falar: "Não, não, não.
" Ou seja, a inteligência está corrigindo o dado bruto do sentido, porque o dado bruto do sentido parece informar alguma coisa que não é verdade. Então, quem vai corrigir? A inteligência.
Então, nós vemos que a inteligência, um dos seus principais papéis em todo esse processamento que ela faz dos dados brutos que vêm pelos sentidos, é exatamente corrigir aquilo que está equivocado. Então, ela não nega os sentidos. É isso que os racionalistas, às vezes, parecem esquecer.
Isso que, às vezes, os céticos parecem esquecer: não existe negação do sentido, negação no sentido de que "ah, tá tudo errado, então eu não posso confiar em nada. " Não! E aqui, na verdade, quem erra bastante são os céticos.
Poxa vida, eu tenho a razão para corrigir isso, por isso que eu sou um ser humano. Então, veja bem, os céticos erram porque não colocam a razão a seu serviço para corrigir os sentidos, e os racionalistas erram porque confiam demais na razão e acham que a razão pode trabalhar sem os sentidos. Quando, na verdade, os dois, os sentidos, dão os dados brutos e a razão processa esses dados, aceita aquilo que é aceitável, que está certo, e corrige aquilo que precisa ser corrigido.
Ponto. Esse é o papel da razão. Essa é a função da razão, da inteligência.
E nós não nos tornamos racionalistas exatamente porque nós não confiamos na razão no sentido de que ela é a única que vai nos dar a verdade. Nós confiamos na razão como aquela capaz de dar ordem àquilo que os sentidos nos ofereceram. Porque, apesar de nós entendermos a falibilidade das sensações que nós experimentamos, nós sempre vamos reconhecer que elas são indispensáveis para nos dar os dados, para nos dar os elementos sobre os quais nós vamos trabalhar.
Então, assim, nós confiamos na razão, temos a razão como mais importante, sim, porque é a razão que vai colocar ordem nisso aí. Mas não podemos negar aquilo que os sentidos nos oferecem, porque é deles que vêm os dados sobre os quais nós vamos trabalhar. Entendido isso aí?
Então, por hoje é isso, e até a próxima!