Atenção, atenção, breaking news! Parem as rotativas, parem as rotativas. O presidente Washington acaba de sofrer um atentado à bala.
O quê? O quê? Não, não, não, não, não é possível, outro vexame do estagiário.
Porra, quem sofreu um atentado à bala foi o Lincoln, não foi o Washington. Porra, cara, é muita vergonha. O Washington lutou na guerra da independência, naquela soberba revolução americana.
Aliás, a única revolução que deu certo, né, além da cubana. Mas ele não sofreu nem atentado à bala, cara. O Lincoln é que foi morto com um tiro na nuca.
Para tudo, para tudo. Desculpe a nossa falha, caros telespectadores. Já disse, a culpa foi do estagiário.
. . O quê?
Ah, não foi Washington original, o americano, foi o nosso Washington, o Washington Luís? O paulista falsificado? Ah não, não, não.
Então é uma coisa grave. E como é que foi, bota na tela aí. .
. Como é que foi esse atentado aí? Temos informações?
O nosso helicóptero já está em cima do Copacabana Palace. . .
O quê? Tem uma mulher envolvida no caso? E não é a mulher dele?
Ih não, suspende, suspende, suspende que esse aqui é um canal de família. Bom, mas já que estamos no ar aqui em rede nacional, né? Que tal então a gente aproveitar pra contar um pouco da história do Washington Luís Pereira de Souza?
Hein? Hein? O último presidente da República Velha, e tu não sabe nada sobre ele mesmo.
. . Então, vem descobrir alguma coisa!
"Por um triz, por um triz, foi assim que escapou Washington Luís". Não pode! Bom, se não se pode dizer que Washington Luís era um Washington falsificado, né, se pode dizer que todo mundo chamava ele de "paulista falsificado", isso sim, porque afinal de contas, né, ele era Fluminense (não do time, não do time); ele nasceu em Macaé, no litoral do Rio de Janeiro, em 1870, mas virou paulista por adoção e por opção desde cedo.
Tanto é que em 1906, ele começou a ocupar cargos públicos em São Paulo, pra onde a família dele tinha se mudado quando ele era jovem. E aí de 1914 a 1919, ele virou prefeito de São Paulo e fez muito pela cidade, modernizou a cidade inteira e reestruturou todo o museu paulista. É, o Museu do Ipiranga, o Museu Paulista, foi muito, deve muito a ele, porque além de político, Washington Luís foi historiador, e um bom historiador --- claro né, meio velho e tal, mas ele escreveu um livro que eu adoro, "Na Capitania de São Vicente", e além de tudo, em 1922, no centenário da independência, ele fez muita coisa, muita coisa mesmo.
E além de tudo, ainda foi um dos principais incentivadores da Semana de Arte Moderna de 1922. Ele era um sujeito fino, elegante, bonito, assim que nem eu. Boêmio, que nem eu.
Entendia de arte, de literatura, que nem eu. E parecido com alguns presidentes que andam por aí atualmente, né cara? E evidentemente não gostava de pobre, não gostava de pobre.
Era espadaúdo, tinha um cavanhaque, um bigode espesso, um olhar penetrante, gostava de ópera. De ópera, ele gostava, mas de operário não. Tanto é que combateu muito as greves operárias de 1917, que você já viu aqui mais ou menos, mas vão ganhar um episódio só pra elas, né?
Umas incríveis insurreições operárias ligadas aos anarquistas. E durante esse movimento que ele reprimiu duramente em 17 ele teria dito a frase "a questão social é uma questão de polícia". Só que é fake news, é sacanagem da oposição, porque o que ele de fato disse foi "a questão operária é uma questão que interessa mais à ordem pública do que à ordem social.
Ela representa o estado de espírito de alguns operários e não de toda a sociedade". Hein? Que jeito elegante de ser reacionário, né?
Bom, depois de ser presidente de São Paulo, como então se dizia, Washington Luís começou a se tornar presidente do Brasil sete anos antes de ser eleito por aclamação em março de 1926, é, porque numa carta enviada pro Borges de Medeiros, que era o governador do Rio Grande do Sul em novembro de 1919, um congressista gaúcho alertou o presidente do Rio Grande do Sul, que era o Borges, que o Arthur Bernardes, que então era presidente de Minas, e que o Washington Luís, presidente de São Paulo, já tinham articulado uma estratégia na câmara e junto com as lideranças do Partido Republicano Mineiro e do Partido Republicano Paulista, que mandavam no Brasil, a tal "política do café com leite", que eles seriam os próximos presidentes do Brasil, e quando, três anos depois da carta, o Arthur Bernardes de fato foi eleito, né, ficou claro que assim seria, né? Porque esses dois mandavam no país, né? E aliás você já viu aqui o episódio sobre o Arthur Bernardes, o pior, o mais odioso e o mais odiado presidente da história do Brasil, né?
Foi eleito nessa articulação do café com leite. Aí em setembro de 1925, quando teve uma convenção nacional do Partido Republicano Paulista, o Washington Luís foi indicado formalmente como candidato único à presidência. Ah, bons tempos, bons tempos da democracia em que tínhamos um candidato único à presidência.
Por que que hoje não é assim? E aí em primeiro de março de 1926, a chapa unânime recebeu 98% dos votos. Foi a consagração definitiva, mas também final, de um sistema trapaceiro.
O sistema de eleição no papel, de eleição fraudada da República Velha. Só que, só que quando ele tomou posse em quinze de novembro de 1926, no Rio de Janeiro, teve desfile em carro aberto, teve chuva de pétalas de rosa, teve música, teve alegria, teve povo na rua, porque ninguém aguentava mais aquele Arthur Bernardes, que tinha governado quatro anos, quatro anos sob estado de sítio, tinha prendido gente, tinha criado campo de concentração, era um cara horroroso, e o Washington Luís primeiro já anistiou todo mundo, anistiou até o Luís Carlos Prestes, liberou o Partido Comunista, que homem maravilhoso, e resolveu estabelecer uma taxa fixa de câmbio, isso valorizou o mil réis e rompeu com padrão oficial e totalmente artificial que desde 1846 fazia $ 27 dinheiros equivalerem a mil réis, e aí $ 6 dinheiros passaram a equivaler a mil réis. Agora tu não me pergunta que porra quer dizer isso porque eu também não sei, eu copiei de mim mesmo aqui, ó, de mim mesmo, ó, de mim mesmo aqui no "Brasil: uma história", e foi isso que ele fez, mas o que eu sei é proibiu a emissão de dinheiro sem lastro e mandou incinerar todo o saldo orçamentário do exercício anterior, que era fake, e a medida, é claro, agradou aos cafeicultores de São Paulo e aos pecuaristas, gigolô de vaca gaúcho, porque eles eram exportadores, né?
O agro, o agro sempre prejudicando o Brasil, e a classe média, nós, você e eu, ficou indignada porque consumia produtos importados e se indignou com aquilo que passou a ser chamado de "Câmbio Vil". A outra marca bem conhecida do Washington Luís é que ele tinha um lema: "governar é abrir estradas". Essa tu já ouviu, né, no colégio.
"Governar é abrir estradas", e ele de fato abriu, ele fez a que viria a ser a Via Dutra, Rio-São Paulo, e fez a Rio-Petrópolis, e aliás tu já viu aqui nesse canal, no episódio do Tenório Cavalcanti, né, que quando eles abriram essas estradas os caras já sabiam onde as estradas iam passar, compraram todos os terrenos ao lado, e teve uma especulação imobiliária gigante deixando um monte de gente rica. Porque assim caminha essa nação, né? Mas pelo menos as estradas existem.
E aí ele fez um governo que parecia sensacional, né? A aliança café com leite parecia estar totalmente em paz e ia durar pra sempre. Só um fracasso na política financeira do governo e o rompimento da aliança São Paulo-Minas Gerais poderiam abalar o reinado do Washington Luís!
Só que daí, né meu chapa, teve a quebra da bolsa de 1929! E além disso, ele tentou fazer com que um paulista, o Júlio Prestes, fosse o sucessor dele, né? E não um mineiro, como deveria ser.
E aí duas terríveis ameaças desabaram sobre ele e uma revolução eclodiu. A revolução de 1930, e derrubou o governo, e ele escapou por um triz, mas eu não vou contar os últimos dias dele, nem como se deu o golpe, ah, não vou, porque eu vou ter que fazer um episódio só sobre isso, né? Eu nunca falei mesmo da Revolução de 30, dos dias definitivos da Revolução de 30.
. . Vou falar!
Porque eu não posso encerrar essa conversa sem falar do tal atentado, né? Tu acha que eu esqueci do atentado? Eu não esqueci do atentado.
Foi no dia 23 de maio. . .
parece Avenida 23 de Maio, né, 23 de maio de 1928. O Washington Luís, de novo, vou repetir, alto, espadaúdo, bonito, olhos faiscantes, um cavanhaque, bigode espesso, boêmio, literato, entrou aonde? No Copacabana Palace pra se encontrar com quem?
Com a amante dele, uma marquesa italiana de 28 anos, recém separada do marido abonado. Aí depois de um jantar daqueles do Copacabana Palace, com muita champanhe, eles foram pra onde? Pro quarto, né?
Eu não sei se era uma suíte temática, assim, tipo uma masmorra medieval, mas eu sei que lá dentro a Elvira Vishi, era o nome dela, Maurich, ou seja, além de tudo era rica, né? Tinha rica até no nome. .
. Sacou a pistola, cara, e deu um tiro nos bofe do cara, meu, pegou na barriga! Ainda bem que a arma era de baixo calibre e ela atirava mal, né, porque acho que era pra ser no coração.
Aí o Washington Luís foi imediatamente socorrido por quem? Pelo dono do hotel, o Otávio Guinle. Tudo na maior discrição, né?
Um médico de família foi chamado às pressas e ele foi levado de ambulância pra casa de saúde Pedro Ernesto e foi operado. Pra imprensa e pro povo a internação teria sido causada por uma crise de apendicite. E quatro dias depois a Elvira se jogou da janela do apartamento dela.
Tem gente que diz que foi a polícia secreta do Washington que convidou ela a dar um salto no escuro. Mas a versão oficial passou pra história como suicídio. De qualquer forma, logo depois disso quem cometeria suicídio foi o próprio Washington Luís a querer romper com o esquema que vinha dando certo e que ele não tinha sido articulador, só o continuador.
E aí o Brasil vai entrar na era Vargas. Já era, Washington. Tchau.