Caros amigos, bem-vindos a mais um episódio de hoje no Mundo Militar. Neste vídeo falaremos sobre porque a melhor defesa aérea latino-americana não funcionou contra a força de intervenção americana que no último sábado invadiu Caracas e capturou o ditador Nicolás Maduro. Na madrugada deste sábado, 3 de janeiro, um ataque norte-americano de grande escala atravessou o espaço aéreo venezuelano, entrou em Caracas e no final capturou o ditador Nicolás Maduro e a sua mulher.
Mas o mais intrigante para quem acompanha assuntos militares não foi apenas a audácia política e militar do ato, foi o silêncio operacional do que no papel deveria ser a defesa aérea mais intimidante da América Latina. É importante frisar que a Venezuela não é, em tese, um alvo desarmado com o país, construindo ao longo de anos uma arquitetura em camadas, com sistemas russos e soviéticos de diferentes gerações e com reforços de sensores de origem chinesa. Em desfiles e comunicações oficiais, podemos ver sistemas relativamente avançados, como S300VM de longo alcance, sistemas de média e curto alcance, como o Book M2E, Petora 2M e Igla S, além de artilharia antiaérea e radares móveis.
Tudo isso nos leva a uma pergunta inevitável. Como uma operação que envolveu mais de 150 aeronaves passou sem acionar a defesa aérea venezuelana. O general Dan Kin, chefe do estado maior conjunto dos Estados Unidos, descreveu, sem entrar em grandes detalhes, que a operação em Caracas envolveu o que chamou de meios não cinéticos associados ao US Space Command e ao US Cyber Command.
Unidades que, como os nomes indicam, dedicam-se ao espectro espacial e cyberespacial do campo de batalha, com a função de interferir na capacidade do adversário de ver, ouvir e compreender o que está acontecendo à sua volta. Isso mostra que as bombas e explosões que vimos em Caracas foram apenas um elemento de um ataque muito mais amplo que envolveu principalmente ações invisíveis a olho nu, mas que foram cruciais para o sucesso da missão de captura de Nicolás Maduro. Mas antes de avançarmos nesse tema, vamos primeiro dar uma olhada rápida pelas defesas aéreas que a Venezuela tão orgulhosamente afirma possuir em seu arsenal.
A Venezuela é o único país na América Latina a possuir uma defesa aérea em camadas autêntica, ou seja, com defesas de curto, médio e longo alcance interligadas. Uma defesa aérea em camadas para funcionar depende de três coisas. Primeiro, os olhos representados pelos radares e sensores.
Segundo, os nervos, que são as comunicações e o comando e controle. E finalmente as mãos representadas pelas baterias e os seus operadores com regras claras de engajamento. A Venezuela, ao longo dos anos, montou um arsenal relativamente vasto e completo, com destaque para o S300VM, para ameaças mais exigentes e para cobertura de áreas críticas.
No médio alcance, o destaque vai para o buook M2E, bastante móvel, muito útil para defender pontos sensíveis e para cobrir lacunas entre o longo e o curto alcance. E no curto alcance, o arsenal venezuelano é composto por sistemas como PEA 2M, uma modernização do S125 e muitos mampeds, principalmente o modelo soviético Igla S, letais contra aeronaves voando baixo como helicópteros. Mas apesar de no papel esse arsenal parecer impressionante, vários relatórios e análises recentes vinham sugerindo que a defesa venezuelana estava muito longe do auge, com diversas fontes referindo que mais de 60% das capacidades de vigilância e detecção estavam fora de serviço, parados por falta de peças.
E como se isso não bastasse, relatos apontam infiltração criminosa e manipulação de rotinas de radar para facilitar o tráfego ilícito de drogas. Ou seja, no papel, a Venezuela é o país com as defesas aéreas mais fortes da América Latina, mas na realidade é uma grande peneira com buracos por todos os lados. No caso do ataque americano, os Estados Unidos não precisam vencer cada bateria venezuelana, precisam apenas diminuir a consciência situacional das baterias e da cadeia de comando.
A lógica clássica, quando o tema é atacar defesas aéreas, envolve primeiro cegar, degradando radares e sensores. Depois calar, degradando as comunicações e confundir, degradando a capacidade do inimigo de distinguir o amigo do inimigo. E então, com adversário cego, surdo e confuso, é só começar a cortar as mãos, neutralizando as baterias que insistem em operar.
E para alcançar tudo isso, os Estados Unidos usam três meios principais, começando pela guerra eletrônica, com EA18G Graul existindo justamente para isso, para atacar, degradar e negar o uso do espectro eletromagnético pelo inimigo. E para calar as baterias resistentes, os Estados Unidos empregam mísseis antiradiação. Sempre que uma bateria liga o seu radar de engajamento, ela se torna um farol.
E é aí que entram mísseis AGM88 projetados para buscar e destruir emissores de radar. O resultado prático disso é que muitos operadores preferem simplesmente desligar o radar para não morrer, com isso criando bolhas de cegueira no meio do território inimigo. E finalmente, os Estados Unidos usam meios de engodo para saturar a tela com alvos fáceis e forçar decisões ruins, usando para isso sistemas como MD, para aumentar a confusão e o volume de contatos, fazendo o inimigo pensar que está sendo atacado por aviões que não existem.
Com tudo isso dito, levanta-se a pergunta título do vídeo: Por que as defesas venezuelanas não dispararam? O cenário mais plausível é uma combinação de cinco fatores, começando pelo ataque inicial americano a nós críticos, como radares, centros de comando e bases. Trata-se de um padrão clássico de ataque, no qual você não precisa destruir tudo, bastando derrubar os pontos que conectam os olhos com as mãos.
Outro elemento foram os ataques não cinéticos referidos pelo general DC, que bagunçaram com as comunicações, links, sincronização, roteamento, sistemas de apoio e até com a forma como os dados chegam às telas. E tudo isso é importante frisar sem precisar explodir nada. Também entram na equação o perfil de voo e geometria com helicópteros voando a muito baixa altitude.
Em voos assim você explora a curvatura da Terra e o chamado horizonte radar, quando o sensor fica limitado a enxergar apenas alguns poucos quilômetros de distância. Não podemos também ignorar o fator humano, pois mesmo o sistema mais moderno pode ficar inútil se as equipes estão reduzidas, se as regras de engajamento são confusas e se há medo de derrubar algo amigo ou de agir sem autorização. E por fim, o medo venezuelano em ligar os seus grandes sistemas de radar, temendo justamente os mísseis antirradiação.
Portanto, se as descrições iniciais estiverem corretas, o que vimos foi a diferença entre uma defesa aérea que existe no inventário e uma defesa aérea real, com graves deficiências em termos logísticos de manutenção e, principalmente de pessoal. Nesse sentido, a Venezuela pode ter as camadas de defesas que quiser e ainda assim estar vulnerável a um adversário que sabe atacar o que realmente importa, que é, como referia aqui, a consciência situacional, a coordenação, o tempo de decisão e a confiança do operador. No fim, uma defesa aérea não é só tecnologia e equipamento, é treinamento, manutenção e comando.
E quando esses três elementos falham ao mesmo tempo, até o S300 vira em Fate. Ч.