E essa imagem aqui da Thumbnail? Será que é IA? Eu respondo no final.
Pessoal, esse aqui vai ser um vídeo mais rapidão, com uma edição mais simples, buscando aproveitar de maneira oportuna, não necessariamente oportunista, mas oportuna, toda uma discussão sobre imagens geradas por inteligência artificial. Aliás, não só imagens, vozes também, porque também teve um episódio no mundo da dublagem. Esse assunto ganhou volume nas redes, teve muita briga, obviamente no Twitter, onde sempre dá mais briga, que agora não é mais Twitter, é Xuíter.
E eu sinceramente acho que por lá muitas vezes não dá certo, os pensamentos não conseguem se desenvolver, até mesmo pela própria limitação da plataforma. E eu aqui já fiz vídeos sobre essa questão, mas vamos voltar nisso até para poder, talvez, colocar as coisas numa linha geral. Eu, inclusive, fiz um roteirinho, tá?
Vai estar organizado aqui o papo. Primeiro, eu vou fazer aqui uma introdução, ou basicamente, qual é a fofoca. Segundo ponto, qual é o problema das IAs?
E ali eu vou responder. 2. 1, o falso problema.
2. 2, o verdadeiro problema. Terceiro ponto, aqui eu vou dar uma filosofada, mas é importante para a gente ter um embasamento, inclusive teórico, sobre o que está realmente rolando.
E o quarto e último ponto é o que resta fazer. E aí, sinceramente, eu só tenho sugestões. De antemão, quero demarcar aqui que eu procurei escutar diferentes pessoas, poderia ter escutado mais gente ainda, mas como eu disse, eu queria fazer esse vídeo justamente para aproveitar enquanto o assunto está quicando e que mais gente vai se interessar, sobretudo, eu acho que quem mais deveria ouvir esse conteúdo.
Porque falar o que eu vou falar aqui para artistas, bom, talvez tenha uma novidade ou outra para eles também, mas a ideia aqui é direcionar o vídeo principalmente para quem não é artista. Bom, então vamos lá. Primeiro, introdução do babado.
Como vocês que já acompanham aqui o canal há mais tempo sabem, eu gosto de surfar em polêmica, porque eu acho que a partir dela a gente pode usar ela como uma espécie de trampolim para dar um debate maior, buscar qualificar a própria conversa, sacou? Então eu vou situar aqui a parada, vou explicar o que aconteceu, mas a ideia aqui não é ficar apontando nomes ou chamar atenção de x, y, z, mas a partir disso conseguir aprofundar o debate. Tudo começou quando o canal Meteoro Brasil passou a utilizar thumbnails feitas por inteligência artificial.
Como já é de costume, os artistas ficaram bastante incomodados. Inclusive, talvez você fique se perguntando, por que que o artista fica incomodado? Eu já vou explicar.
Mas a galera ficou braba e no Twitter, como sempre, a coisa escalou. E o Álvaro Borba, do canal Meteoro, buscou trazer justificativas no Twitter, dizendo que faz assim porque não tem condições de pagar um thumbmaker, que ele próprio não consegue ver por que não seria arte o que ele faz, afinal, ainda assim, ele teve que fazer algum tipo de edição, algum tipo de colagem a partir daquelas imagens geradas por inteligência artificial. E depois, inclusive, ele chegou a fazer um vídeo reforçando os mesmos argumentos que ele já estava utilizando, e trazendo até mesmo como exemplo algo que eu quero depois desenvolver com vocês, porque eu acho muito, muito problemático, que é o fato de que o Meteoro Brasil antes se utilizava de artes que também eram apropriadas de um desenho x, de um game y, e que agora, usando inteligência artificial, pois bem, qual seria a diferença?
Deu, vou ficar por aqui. Tem mais episódios nessa fofocaiada toda, grosserias de um lado, coitadolândia do outro, mas deu, não nos interessa ir além disso. Outro episódio, também importante nessa semana, mas que, pelo menos pra mim, rendeu menos treta.
Mas aí pode ser só minha bolha, eu aqui, por causa do canal, tenho contato com muito artista, mas enfim, o episódio é o seguinte. Um documentário que está na Globoplay foi o primeiro a sair, pelo menos de maneira explícita, com dublagens feitas por inteligência artificial. É um daqueles documentários com voice-over, ou seja, aquela voz em cima da outra voz, saca?
E essa voice-over foi utilizada para os depoentes que eram estrangeiros, inclusive para aqueles que toparam, teve alguns que não toparam, daí foi legendado. Então vocês viram, duas categorias na mesma semana, num embate com a inteligência artificial. Ilustradores e dubladores.
Deixa eu só fazer aqui pra vocês um brevíssimo relato pessoal. Quem é que acompanha o canal há algum tempo, sabe que eu tô falando desse papo de inteligência artificial já faz um tempinho. Inclusive o primeiro vídeo aqui do canal sobre inteligência artificial já tem um ano e meio, eu acho, mais ou menos, sei lá.
Inclusive a thumbnail desse vídeo foi feita por inteligência artificial. Aqui eu achei bastante pertinente e ninguém reclamou. Até em minha defesa aqui, antes que venha alguém com dedo muito inquisidor, existem duas thumbnails com mais de mil vídeos feitos aqui no canal que se utilizaram de IA.
E as duas eu acho que são pertinentes. Uma foi essa, que era sobre IA, então eu achava que combinava, e a outra foi um vídeo especificamente sobre farsa. E sim, tô ciente do problema ético que eu vou desenvolver aqui, mas naquele caso específico, por causa da mensagem que eu queria trazer, eu achei que aquele determinado recurso estético cabia.
Mas enfim, isso aqui não é um vídeo de desculpas, tá? Tô só procurando aqui contextualizar, contextualizar e contextualizar. Dado tudo isso, vamos lá.
Qual é o problema do uso das inteligências artificiais? Primeiro, vamos descartar o falso problema. E no caso, qual seria o falso problema?
O papo de que inteligência artificial não é arte. Gente, olha, eu sei que quando se trata de arte, todo mundo se sente uma autoridade. Inclusive, dando licença aos maiores relativismos.
Só que aqui, vocês me desculpem, mas eu vou ter que dar uma carterada. Sou professor, doutor em literatura, professor da área de estética, e por muitos anos, lecionei em programas de mestrado e doutorado sobre teoria da arte. E o que eu quero dizer aqui, sem aprofundar demais nesse conceito de arte, eu já fiz um vídeo sobre isso.
Essa conversa de que IA não é arte, ela é conceitualmente errada. Ah, mas pra ser arte, tem que ser artesanal. Já foi derrubado isso, já faz um século.
Ah, mas pra ser arte, tem que ser humano. Também já caiu por terra, faz uns 60, 70 anos esse papo. Só que assim, não vou me desdobrar nisso, primeiro, porque não é o foco aqui desse vídeo.
E segundo, porque eu já falei, então vai lá assistir o que eu disse. Eu só tô trazendo essa questão porque ficar disputando se IA é arte ou não é extremamente contraproducente. Percebam como esse negócio desvia da questão.
A gente tá agora numa discussão conceitual da arte. Sendo que esse não é o verdadeiro problema. Antes fosse que o problema fosse apenas de uma discussão conceitual, acadêmica, que estivéssemos reunidos num simpósio discutindo.
Hum, é arte ou não é arte? Além disso, ficar fazendo essa disputa do conceito de arte, além de ficar exigindo que a pessoa fique dando explicações, o que, nesse momento, repito, é contraproducente, tem, ainda por cima, o efeito nulo. Porque se você disser pra uma pessoa que defende IA de que IA não é arte, ela diz, bom, então fica com o conceito que eu fico com a ferramenta.
Pode chamar de arte aí, então, o que você faz. Mas eu vou continuar usando IA. Eu até entendo pra usos políticos requisitar o conceito de volta, saca?
Do tipo, tá, a gente sabe que pode ser chamado de arte, dado o conceito de arte que a gente tem hoje, mas não, vamos tirar de volta, só pra gerar bafafá. Mas eu ainda acho que mais se perde do que se ganha tendo que dar voltas e mais voltas em cima dessa conversa. Então vamos pro que interessa de verdade.
Qual é o verdadeiro problema? Basicamente, o que está rolando é o avanço de grandes corporações em cima da produção cultural, da produção artística, alheia. A porteira que foi aberta quase às generativas trouxe o problema ético sobre o que essas IAs estão usando como modelo.
Elas estão aprendendo a partir do quê? E como isso é completamente desregulamentado, ao que tudo indica, essas IAs estão utilizando as fotos que você posta no Instagram, os vídeos que você coloca no YouTube e no TikTok, os memes ou as bobagens que você escreve no Twitter. Isso sem falar, muitas vezes, de sites que servem de portfólio para artistas e que têm as imagens acessíveis publicamente.
E aí começa o problema. A gente autorizou isso? Em alguns casos, lamentavelmente, a gente autorizou, porque cada vez mais essas redes estão querendo que a gente produza conteúdo para elas, porque muitas vezes elas estão mudando as normas de uso da rede, de modo que as nossas imagens, tudo aquilo que a gente produz, seja depois utilizado para alimentar as IAs.
E aí eu fico imaginando você pensando aí, tá, mas qual é o problema? Vamos lá, em duas escalas. Primeiro, qual é o problema para os artistas especificamente?
E depois, para você, que é de qualquer outra categoria. Para os artistas, é óbvio, eles estão tendo as suas artes utilizadas e empregadas, ou seja, o que está acontecendo em grande escala é uma espécie de roubo, porque afinal de contas não há consulta, tampouco remuneração sobre essas artes que estão sendo usadas como modelo para as IAs, além, é claro, de uma falta de transparência. De onde é que essas imagens estão sendo pegas?
A rede social tal impõe que você, uma vez postando lá, vai ter que servir. Bom, são as normas da rede social, embora a gente possa questionar se uma rede social deveria ter tanto poder a ponto de impor isso. Mas vamos partir do princípio que a rede social tal estabelece que sim, então se você quiser postar imagens aqui, saiba que vai acontecer.
Só que isso já extrapolou, sacou? Sites de portfólio, por exemplo, estão tendo suas imagens copiadas? Que controle há inclusive de que está rolando uma espécie de pirataria atravessada, ou seja, um site copia artes de outro site e a IA se alimenta desse segundo site que plagiou o primeiro que era um site, por exemplo, de portfólio.
Então basicamente o que os artistas estão sentindo, além de um medo gigantesco de verem a sua carreira virar farofa, porque vamos pensar, né, todo mundo quer economizar custo, então ao invés de chamar um artista, vai lá, faz um promptzinho no IA e resolve. E o que é doido é que a gente tem visto um avanço do uso de ferramentas de inteligência artificial por gente que teria muita grana para poder contratar um artista. É banco, é partido político, é mega empresa.
Daí o que muito se discute a partir das IAs é algum tipo de regulamentação que inclusive torne claro o que está rolando. E sim, algum tipo de regulamentação que não faz com que ferramentas destruam completamente o mercado. Apesar de ser dado uma ideia de que isso é inevitável, é tecnologia, isso é um mito, é um negócio que enfiaram na sua cabeça.
Não é inevitável. E ninguém, pelo menos que eu saiba, está contra a inteligência artificial. Os próprios artistas querem inclusive utilizar essa ferramenta para si.
Assim como lá atrás, sei lá, o Photoshop também virou uma ferramenta típica de qualquer artista. Porém o que justamente está rolando é a apropriação de milhões de artes produzidas por artistas de todo tipo, convertidas enquanto modelo para IAs generativas, que estão aí para enriquecer, tão somente os empresários envolvidos na produção dessa inteligência artificial. Sacaram?
Você tem uma engrenagem onde dava para todo mundo ganhar um pouquinho, mas alguns estão ganhando muito, para os outros ganharem nada. E sabe o que é hipócrita nisso tudo? É que, ao que tudo indica, isso só está sendo feito porque a artista é uma categoria bastante desunida, bastante dispersa, e demoraria para se organizar, para conseguir se articular, para meter um monte de processo nessas empresas de IA.
Porém, com a indústria fonográfica, reparem, não tem esse problema. Você já pararam que curioso isso? As IAs, antes mesmo de produzir imagens, já tinham muito poder de conseguir produzir som, de produzir música.
E vocês não estão vendo essas IAs que produzem músicas, se utilizando como modelo a diva pop do momento. E sabe por quê? Basicamente porque da indústria fonográfica eles têm medo.
Diferentemente dessa multidão de artistas, a indústria fonográfica é uma panelinha. E muito, muito rica. Eu até vi isso num youtuber gringo, então vou reproduzir aqui algo que ele falou.
A mesma empresa do Dance Diffusion é também a da Stable Diffusion. E enquanto a Dance Diffusion não tem problema nenhum, você praticamente não vê pessoas reclamando, não tem até onde eu sei histórico de processo, nunca vi a indústria fonográfica torcer o nariz. No caso da Stable Diffusion, os artistas estão incomodados.
Porque aí, neste caso, as imagens, tudo aquilo que os artistas produzem, está sendo empregado. Empregado sem pagar nada. Sempre frisando isso.
Vamos pensar aqui no cinema, vocês acham mesmo que Hollywood vai deixar que essas IAs se alimentem com seus filmes? Eu até acho que eles estão esperando de braço cruzado. Faz.
Faz que a gente vai processar. Então vocês sacaram que no final o que está rolando é uma grande covardia? Esses tech bros, esses caras que vão supostamente nos levar para um mundo melhor com tecnologias que deixam eles mais ricos?
Pois bem, eles estão abocanhando na produção daqueles que são mais fragilizados. E depois disso tudo você pode pensar, tá, mas isso é só um problema pros artistas, certo? Povo, olha só, as principais IAs, essas mais famosas, na ausência de regulamentação, estão fazendo uma espécie de autorregulamentação pra não ficar chato perante a opinião pública.
Porém, meu povo e minha pova, já tem muita IA aí que tá pouco se fodendo por que você acha ou deixa de achar. Então pra eu ir direto ao assunto, eu vou trazer o exemplo mais obsceno que você possa imaginar. Nesse momento, tem gente produzindo IA de p3dofilia com o teu rosto.
As tuas fotos nas redes sociais estão sendo copiadas. E amanhã vai sair um vídeo mega realista de você fazendo coisas horríveis. E sabe o que é o pior?
Você não pode fazer nada. É uma IA, certo? Talvez o pessoal da direita diga, não, mas teria como recorrer nisso, naquilo, naquele outro.
Mas perceba, provavelmente vai ter que dar uma volta imensa pra algo que talvez pudesse ser prevenido, pudesse ser punido, a partir de uma regulamentação. Daí que o que se demanda, basicamente, é que essas IAs, principalmente essas que produzem imagem, o que se espera dela é que elas se utilizem de imagens que são licenciadas pra isso. Imagens com selo Creative Commons, imagens em domínio público, ou mesmo imagens que os próprios artistas poderiam vender.
Sim, os artistas poderiam vender suas artes pra essas grandes IAs. Pô, são empresas gigantescas, eles teriam condições de pagar. Nem que fosse uma mixaria simbólica, mas ainda assim seria alguma coisa.
Sacou? Nem isso tá rolando. Você defende o capitalismo, a livre concorrência?
Então, não tá tendo livre concorrência nesse caso. Se as empresas de IAs generativas de imagens tiverem que pagar um pouquinho pra poder aumentar o seu repertório, vai rolar uma concorrência entre os próprios artistas que vão começar a vender a sua arte para aquela que paga mais, ou pelo menos para aquela que não pague tão pouco. Tornando então aquela IA que consegue trazer melhores pagamentos, também aquela que vai ter mais imagens que vão servir pra alimentar as suas próprias IAs.
Claro que também pode dar muito problema aí no meio desse negócio, não existe o mundo perfeito, mas o jeito que tá, percebam, é muito, muito ruim. O grande problema que a gente tem aqui, pra ser bastante objetivo, é uma grande alienação do direito autoral e, por consequência, do direito patrimonial. Assim como uma total falta de transparência sobre como é que as minhas fotos de família estão sendo usadas.
Só que isso também gera um outro problema. Ok, as empresas podem avisar. A rede social X vai dizer, ah, a partir de agora, tudo que você colocar aí eu vou usar nas minhas IAs.
Ainda assim, a empresa poderia ter esse poder? Só porque ela é uma empresa, ela pode tudo? Pensa no caso da Adobe.
Ela é uma marca extremamente consolidada. E agora atualizou seus termos, basicamente dizendo que tudo que você produz no Photoshop, ela pode se apropriar. O argumento, inclusive, é que isso pode prevenir coisas horríveis como pornografia infantil.
Mas vamos ser franco. Soa migué. E aí vem o ponto aqui, que eu quero dar aquela filosofada básica, mas é curtinha, que é sobre o que, afinal, do ponto de vista ideológico tá rolando.
E eu já respondo. Basicamente, todo esse papo é aquilo que filósofos como Gilles Deleuze iam chamar de sociedade do controle. Pra dizer de um jeito bem simples, a sociedade do controle é aquela que diz pra você o seguinte.
Cara, você é livre. Você pode fazer o que quiser. A tecnologia tá aí pra você aproveitar como se fosse mágica.
Eu digito meia dúzia de palavras, pá, surge uma imagem. Só que o preço dessa liberdade, com muitas aspas, é um controle absoluto sobre tudo que você faz, produz e vive. O que caracteriza uma sociedade de controle, antes de mais nada, é a alienação da sua própria identidade.
Ou, pra dizer de melhor, uma identidade que é sempre reduzida na condição de mercadoria. E por causa disso, é justificado todo tipo de vigilância. Esse papo da Adobe é um exemplo perfeito disso.
Não, é o seguinte, a gente vai pegar tudo que é de vocês, mas ó, a partir desse controle, agora, crimes não vão mais ser possíveis. Mas pros crimes não poderem ser possíveis, pois bem, a sua identidade, tudo que você produz, agora tá a serviço deles. Se eu tô sendo aqui impreciso em relação a essas novas normas da Adobe, até onde eu vejo, é mais culpa da Adobe do que minha, porque eu achei bastante vago o termo que eles trouxeram.
Se eu estiver sendo equivocado, por favor, digam nos comentários onde eu errei. Outra questão que eu queria aqui me aprofundar, e tem a ver com algo que o Álvaro Borba, no seu vídeo, falou, é a comparação que ele fez com o que o Meteoro Brasil fazia antes e faz agora. Repito, o argumento que ele utilizou é que antes a gente se apropriava também de elementos da cultura pop, e agora, com a IA, a gente tá fazendo isso também.
Não necessariamente da cultura pop, mas também estamos fazendo colagem, estamos fazendo algum tipo de apropriação. E aqui eu sugiro apenas um livro a respeito disso. Dá pra pegar um monte, mas vai esse.
Pós-produção do Nicolas Bourriaud. Para explicar aqui direitinho e não ficar só no 'leia o livro'. Vamos pegar o caso do hip hop nos anos 70, 80, surgimento do hip hop.
Tudo começa a partir de apropriações. DJs pegam discos que faziam sucesso na época, ou mesmo discos que foram sucesso em algum momento, e acabavam recombinando, produzindo uma música nova. Percebam que nesse processo, o agente da montagem é o próprio artista.
E aí já vem uma diferença em relação às IAs. Você está terceirizando a montagem. Pra pegar de novo o exemplo que o Borba trouxe, assim, no primeiro momento, ele tava pegando voluntariamente um ícone da Super Nintendo, um outro do desenho Steven Universo, e por aí vai.
Agora, o que tá sendo feito é pegar imagens de gente que ele nem sabe quem é. Porque quem tá pegando essas imagens é a própria IA. Então o artista, enquanto um montador, um colador, ou seja, alguém que tá fazendo colagem, no caso do trabalho com IAs, bom, isso é uma terceirização.
De novo, não é o papo se isso é arte ou não é. Eu só tô dizendo que não se compara, é muito diferente. Outro ponto também.
Quando você faz isso, ou seja, vou pegar referências x, y, z, você tem ainda a condição de reconhecimento de referência. Ah, isso aqui é do Super Mario. Ah, aquilo ali é do anime do One Piece.
Contudo, a partir das inteligências artificiais, exceto quando às vezes elas dão muita bandeira, o que você tá vendo é a utilização de uma série de outras artes que simplesmente se perderam nisso tudo. Ou seja, os artistas estão tendo as suas artes empregadas, sem a chance de remuneração e tão pouco de reconhecimento. Elas são referências que você perdeu o nexo com o referente.
Por fim, você também tem aí uma questão da sociologia da arte, que é uma mudança vetorial dessa apropriação. De novo, pegando o exemplo do hip-hop. Basicamente, eram artistas periféricos se apropriando de músicas da indústria fonográfica.
Era a periferia criando a partir de algo que o centro produz. No caso das IAs, o que está acontecendo é o exato oposto. A periferia do mundo, os artistas ou produtores de conteúdo mais precarizados estão sendo utilizados para que grandes empresas fiquem ainda mais ricas.
É o Robin Hood ao contrário. É roubar a dos pobres para dar para os ricos. Vamos então para o último tópico.
O que resta fazer? Nessa guerra contra as IAs, eu estou acompanhando basicamente três áreas. Tradutores, dubladores e ilustradores.
No caso dos tradutores, a gente tem aqui uma questão pessoal. A Thais, até pouco tempo atrás, era coordenadora de um setor internacional de tradução. Porém, ela acabou dispensada.
Isso até trouxe para a gente, na época, um problema financeiro bem considerável. E um dos motivos que colocou ela na rua tinha a ver também com o avanço das IAs. Muito do que ela produzia, agora uma IA estava fazendo.
Quer me parecer que o alto escalão da tradução ainda não sentiu. Mas é uma lógica de pirâmide. O pessoal que está mais no chão de fábrica está sentindo.
E vai chegar nesses tradutores top. Eu acho que é uma questão de tempo. Porém, confesso que faz mais de ano que eu não acompanho de perto essa discussão.
Então, também não sei bem direito como é que está isso agora. Já no caso dos dubladores, eu estou vendo que eles são os mais organizados. Eles conseguiram emplacar uma marca que identifica claramente a defesa deles.
No caso, o movimento Dublagem Viva. E além deles terem pautas muito objetivas, por exemplo, a discussão sobre marcar que tem que ser dublador mesmo quando tem lip-sync, ou seja, quando tem sincronia labial ou coisas do tipo, também está indo em quem interessa. Ou seja, estão pressionando políticos.
Porque se vai ter alguma regulamentação, quem vai fazer isso no final das contas vai ser um político. Quer você goste ou não de política, a gente precisa dela. E vai ser jogo duro, porque o lobby dessas grandes empresas também é bastante forte.
Já no caso dos artistas, até onde eu estou acompanhando, a coisa está muito, muito dispersa. De novo, por causa da própria dispersão da categoria. Porém, e aqui entra uma questão de opinião, claramente, eu acho que produzir constrangimento moral em Twitter está longe de produzir mudança.
Pode produzir oportunidade para a gente discutir algo, como agora eu estou tendo aqui. Mas cabe dizer que em mais de um ano que eu pelo menos tenho essas gritarias no Twitter, nada mudou. Pelo contrário, essas IAs avançaram.
E se antes só Bolsonarista ficava produzindo imagem de IA, dizendo que mandou o helicóptero salvar as pessoas quando você não tem isso, agora você vê setores progressistas dizendo: ah cara, também vou usar. O problema que eu estou querendo apontar aqui não é nem moral, do tipo, ah não, é errado constranger as pessoas. O que eu estou tentando apontar aqui é que não é efetivo.
Em todo esse tempo de constrangimento de Twitter, nada mudou. Pelo contrário, mudou pra pior. Até porque muito dessa postura inquisitória só chega naqueles que estão a alcance do próprio inquisidor.
Ou seja, os principais responsáveis por esse problema ou as grandes empresas, os banqueiros, que poderiam estar financiando a arte para um caralho. Enfim, pra essa galera, essa inquisição não faz a menor diferença. Ou seja, poder de pressão, zero.
E um problema adicional que eu vejo nessas posturas de constrangimento moral tem a ver com uma certa premiação da malandragem. Porque vocês não se enganem, quem usa IA e não vê problema, não vai deixar de usar só porque a galera está gritando no Twitter. O que essa pessoa vai fazer, talvez, é aprender a usar melhor a ferramenta pra esconder o que ele está usando de IA ou pagar alguém que sabe muito bem usar os prompts e produzir algo que não dê bandeira.
É bastante compreensível a revolta dos artistas. Eles estão assustados, eles estão de saco cheio e eu compreendo perfeitamente o que é estar de saco cheio. Eu sei, como eu relatei aqui o que aconteceu com a minha esposa, o que é ter o medo do futuro e ninguém está entendendo nada.
Ou está entendendo e dizendo bom, foda-se, ainda não chegou até mim. Mas repito, essa postura inquisitória que procura constranger o pecador apenas ensina o pecador a saber pecar de maneira mais escondida. Isso pra não falar em termos de opinião pública que vai cada vez mais achando que a artista é uma classe que apenas grita, esperna e ofende.
E tudo bem, o jeito é ignorar. Então, assim, pra sintetizar eu entendo a revolta nesse episódio todo que começou a partir do Meteoro Brasil. E as justificativas, pra ser bem direto, do Álvaro Borba, eu acho que são péssimas.
É um gigantesco desconhecimento de arte e das implicações éticas ou mesmo estéticas da inteligência artificial. Porém, ao mesmo tempo, esse constrangimento todo vai ser esquecido em alguns poucos dias. Talvez o YouTuber X, no caso aqui, o Álvaro Borba, possa ficar marcado.
Mas outros tantos que estão usando inteligência artificial a rodo estão fingindo que não é com eles. Enquanto ninguém estiver percebendo, ali não é problema. E não se engane, a estratégia é a seguinte: Deixe os artistas gritarem, por enquanto eles estão focando em 1, em 2.
Quando eles tiverem que focar em 10, em 20, em 30 ao mesmo tempo, vai se dispersar de tal maneira que daí, foda-se, todo mundo vai estar usando IA e eles não vão ter mais voz nenhuma. Se você é artista e está puto com o que eu estou dizendo, esteja puto se a minha análise está equivocada. Agora, não fique puto com a tendência que eu estou apontando.
Porque se você acha que a minha análise não está errada, a tendência é essa que eu estou falando mesmo, tá? Os artistas vão cada vez mais ficar falando e brigando apenas entre si. É a velha máxima da história do capitalismo.
Trabalhador que não se organiza, toma no cu. E eu posso dizer isso claramente em relação a produtos de conteúdo na internet, que também é uma outra categoria completamente dispersa, capacidade zero de articulação, e é por isso que também, enquanto youtuber, eu sou um fodido e tenho mais que tomar no cu também. E sobre a thumbnail aqui deste vídeo, ela é uma imagem produzida em inteligência artificial?
E a resposta é não. O artista é o Vinícius Laureano, e ele topou fazer essa arte num prazo muito, muito limitado pra eu poder publicar esse vídeo. Vão lá no perfil do Vinícius, conheçam o trabalho dele.
E antes de mais nada, não, não foi permuta, ok? Acho muito errado ficar usando o trabalho dos outros de graça. Mas era isso, pessoal.
Falei, falei, e obviamente renderia mais assunto. Espero que tenha ficado minimamente claro. E vamos discutir, tentando não ser tão acalorado nesse debate.
Ainda que sejamos seres feitos de afeto, e muitos já estão com a paciência no limite. Fica por fim o pedido pra que você curta o vídeo, se tiver curtido, se inscreva, caso seja novo por aqui e compartilhe. E segue a gente nas nossas outras redes sociais, TikTok, Twitter e Instagram.
Obrigado por assistir. Valeu, pessoal.