Bem distante, no espaço sideral, existe um planeta pairando a 635 anos-luz de onde você está sentado nesse momento. Ele é o primeiro planeta descoberto dentro da zona habitável de uma estrela que se comporta como um Sol. Seu nome é Kepler 22-b.
Quando um planeta está localizado na zona habitável de uma estrela, isso significa que há chances de existir água líquida em sua superfície. E onde existe água, existe também a possibilidade de vida. E vida humana.
Kepler 22-b é o que cientistas chamam de exoplaneta, um planeta fora do Sistema Solar. Encontrar exoplanetas como Kepler 22-b não é muito fácil. O brilho forte das estrelas que eles orbitam geralmente ofusca nossos telescópios.
Como os cientistas contornaram isso? Olhando para as próprias estrelas para ver se encontravam algo incomum nelas. Eles encontraram Kepler 22-b usando o que chamamos de fotometria de trânsito.
Eles observaram a estrela que esse exoplaneta orbita, conhecida como Kepler-22, e perceberam o brilho mudando de tempos em tempos. Isso acontecia porque Kepler 22-b estava bloqueando a luz da estrela. Foi assim que cientistas descobriram o tamanho de 22-b e sua órbita.
OK, mas o que sabemos realmente sobre Kepler 22-b? Ele tem uma massa 36 vezes maior que a da Terra e um raio 2,5 vezes mais longo que o nosso. Um ano em Kepler 22-b tem 290 dias.
Ele está localizado 15% mais próximo da estrela dele do que nós estamos do Sol. Se a Terra se aproximasse assim de nossa estrela, você estaria frito. Por outro lado, Kepler 22-b tem sorte porque seu sol é muito parecido com o nosso, só que menor e mais frio.
Essa proximidade da estrela possibilita que o planeta receba praticamente a mesma quantidade de luz solar que temos por aqui. A temperatura em Kepler 22-b seria em torno de 15 a 22ºC, parecido com a primavera na Terra. Na minha humilde opinião, seria bem agradável.
Mas nossa galáxia pode ser um lugar cruel. Nem tudo são mil maravilhas. Algumas simulações sugerem que Kepler 22-b rotaciona de lado, como Urano.
Isso pode parecer insignificante, mas só aumenta as prováveis complicações mortais. Isso significaria que os pólos norte e sul estariam cobertos por luz solar ou por escuridão durante metade do ano. Essa não é apenas uma questão de você ser alguém noturno ou diurno.
Um mundo como Kepler 22-b, girando de lado, teria temperaturas que poderiam te fazer ferver ou te congelar. Isso não seria nada legal para a vida humana. Eu sei.
É uma pena. Mas não se desespere ainda. Nossa galáxia é grande o suficiente para nos dar alguma esperança.
Novas pesquisas mostram que Kepler 22-b talvez esteja coberto por um oceano de 50 m de profundidade. Esse oceano poderia agir como um controlador natural de clima, mantendo as temperaturas extremas sob controle. É que um oceano consegue armazenar calor durante o verão e liberar tudo ao longo do inverno, proporcionando um clima ameno.
Como se você precisasse de algum outro motivo para morar perto da praia. Mas como você chegaria até Kepler 22-b? Porque mesmo que você viajasse na velocidade da luz ainda levaria 635 anos para chegar lá.
Sua melhor chance seria hibernar durante toda a viagem, dentro de uma cabine que preservasse seu corpo por muito mais tempo que a expectativa de vida normal. Seria como um sono criogênico. A Nasa já desenvolveu uma câmara de sono criogênico capaz de baixar a temperatura do corpo dos astronautas para 32ºC.
Isso desencadearia um processo natural de hibernação. Sondas providenciariam nutrientes ao corpo, coletando também qualquer resíduo. Mesmo em um sono criogênico, ainda seria uma viagem longa e arriscada.
Isso nos leva à parte mais perigosa dessa jornada. A única coisa que falta é tudo o que não sabemos sobre Kepler 22-b. Para começar, realmente não sabemos como a gravidade é por lá.
Ela poderia ser duas vezes mais forte que a da Terra. Nesse caso, carregar um saco de batatas de 10kg seria como carregar 20kg. Seu corpo também entraria nessa dança.
Você pesa 75 kg de atualmente? Boa sorte em passar a deslocar 150 kg por aí. Apenas por segurança, colonizadores como você precisariam ganhar bastante músculo.
Mas muito mesmo. Só um treinamento intenso de força aumentaria suas chances de sequer caminhar por Kepler 22-b. E quando ficasse trincado aqui na Terra, você precisaria descobrir como manter toda essa massa muscular em sua viagem de 635 anos na velocidade da luz.
Mas a humanidade não seria a única forma de vida afetada pela super gravidade. As plantas levadas da Terra para suprirem oxigênio e nutrientes não sobreviveriam em Kepler 22-b quando você começasse a cultivá-las. E se você levasse algum animal, eles precisariam dar uma boa avançada no processo evolutivo.
Uma gravidade mais forte poderia levar à evolução de seres com pernas extras para se movimentar. A gravidade afetaria inclusive a localização e o tamanho de órgãos internos. Mas os mistérios não param por aí.
Cientistas ainda não sabem com certeza se Kepler 22-b é um planeta rochoso. Ele poderia ser gasoso também, como Netuno. Ou poderia estar completamente coberto por água.
Seria uma pena se você ou outros colonizadores acordassem do sono criogênico e vissem que estão em um planeta gasoso. Não haveria uma superfície sólida para pousar a nave. Sem falar de um lugar para montar acampamento.
Nesse caso, você e sua tripulação precisariam descobrir como construir uma cidade nas nuvens, orbitando o planeta. Se vocês pousassem em um planeta oceânico, uma cidade-submarino seria a provável solução. Descobrir que Kepler 22-b é um planeta rochoso seria como acertar na loteria então, certo?
Calma lá. Vênus também é feito de rocha. Mesmo assim, sua densa atmosfera, repleta de gases de efeito estufa, torna tudo inabitável, com temperaturas escaldantes demais para existir água.
Se esse fosse o caso de Kepler 22-b, nossa única chance de sobrevivência nesse exoplaneta seria contar com robôs para a construção de abrigos subterrâneos. Um lugar onde talvez, bem talvez, aguentássemos possíveis temperaturas mais suaves. Isso só mostra que um lugar privilegiado não garante vida humana.
E por mais empolgante que encontrar outros planetas habitáveis possa parecer, nossa própria Terra continua o habitat perfeito para a humanidade. Mas às vezes as menores mudanças podem abalar o equilíbrio. Só de cortar o oxigênio por cinco segundos arriscaria te deixar com insolação.
Mas isso é uma história para outro "E se? ".