O jornalismo está sob ataque. O ambiente para a prática do jornalismo é ruim em 75% dos países analisados em um levantamento da organização Repórteres sem Fronteiras. E as razões por trás disso revelam verdades sobre o nosso mundo e sobre os desafios de fazer reportagens sobre ele.
A liberdade de imprensa é central para a democracia – mas algumas democracias estão mudando. A Índia com frequência é chamada de “a maior democracia do mundo”. Na eleição deste ano, quase 1 bilhão de pessoas estão aptas a votar.
E pesquisas indicam mais uma vitória para o BJP, o partido do atual primeiro-ministro, Narendra Modi. Jornalistas críticos ao governo indiano enfrentam: Ameaças físicas, perseguição na internet e processos judiciais. No ano passado, por exemplo, casas e escritórios de jornalistas do site Newsclick foram invadidos.
E o editor-chefe continua detido, acusado de publicar propaganda chinesa. Alguns especialistas acreditam que o que aconteceu com a liberdade de imprensa na Índia faz parte de uma tendência global. Se a saúde das democracias tem um impacto pra liberdade de imprensa, a ausência de democracia também.
De ditaduras e teocracias a juntas militares e Estados comunistas de partido único. De acordo com a revista Economist, mais de 39% da população mundial vive sob regimes autoritários. Isso inclui a China, onde jornalistas independentes com frequência são presos.
Em janeiro, por exemplo,, Shangguan Yunkai foi sentenciado a 15 anos de prisão por crimes que vão de fraude a “provocar disputas”. Em Hong Kong, uma nova lei de segurança nacional foi imposta por Pequim. Ela serviu de base para acusações de conspiração e conluio que recaem sobre o magnata midiático Jimmy Lai.
Ele se declara inocente. A China prende mais jornalistas do que qualquer outro país, segundo um levantamento do Comitê para a Proteção dos Jornalistas feito em 2023. Em seguida vêm Mianmar, Belarus, Rússia, Vietnã – e Irã e Israel.
No caso de Israel, o levantamento diz os jornalistas foram detidos no território palestino da Cisjordânia depois do começo da guerra em Gaza em 7 de outubro. Já o Irã impõe há décadas restrições à imprensa. O país mira jornalistas dentro e fora do seu território.
Quando a o serviço de televisão persa da BBC foi lançado em 2009, a reação foi imediata. Em 2022, a situação piorou. A morte de Mahsa Amini, jovem que estava sob custódia policial, levou a uma série de manifestações no país.
Depois disso, as ameaças contra os jornalistas iranianos no exterior se intensificaram. Assim como o autoritarismo e o declínio das democracias, os conflitos também restringem a liberdade de imprensa. Para jornalistas, a guerra traz perigos e restrições.
Na Ucrânia, o acesso à linha de frente é difícil de se negociar. Em Mianmar, o regime militar e a guerra civil criam um ambiente extremamente hostil. Na guerra civil do Sudão, os jornalistas enfrentam blecautes na internet e ameaças.
Existem muitos outros conflitos também – cada ponto aqui é um conflito que representa uma ameaça para civis, inclusive jornalistas. No caso da Guerra em Gaza, o risco à segurança dos jornalistas é extremo. Israel disse que não tem jornalistas como alvo.
E enquanto jornalistas palestinos em Gaza correm perigo, correspondentes estrangeiros não conseguem entrar no território. Em fevereiro, jornalistas do Reino Unido e dos Estados Unidos assinaram uma carta pedindo a Israel e Egito que autorizem a entrada da imprensa estrangeira em Gaza. Um dos signatários foi o correspondente da BBC Jeremy Bowen.
Israel já levou alguns jornalistas para viagens escoltadas em Gaza – segundo os israelenses, para dar segurança ao trabalho jornalístico. Conflitos. Autoritarismo.
Declínio democrático. Como nós vimos, os três afetam a liberdade de imprensa de formas diferentes. E tem também um outro fator.
A tecnologia mudou a forma como o jornalismo é atacado. Veículos de imprensa podem descobrir que seus sites foram bloqueados ou que seu sinal de satélite foi cortado. A BBC é um dos maiores veículos de notícias do mundo.
Estima-se que mais de três bilhões de pessoas vivam em países onde o conteúdo da BBC é censurado. E a BBC e outras organizações de notícias estão procurando formas de contornar isso. No Irã, a BBC divulga ferramentas que permitem o acesso ao site do serviço persa da BBC, apesar dos bloqueios.
Essas ferramentas estão surtindo efeito. A BBC diz que seus sites foram acessados do Irã por mais de um milhão de usuários únicos por mês em 2024. Mas a tecnologia também é usada contra os próprios jornalistas.
Esse tipo de vigilância patrocinada pelo Estado não está limitada a regimes autoritários. No ano passado, um relatório do Parlamento Europeu afirmou que o uso de programas de espionagem ilícitos colocava a democracia em risco na Europa. E se essas são ameaças que já existem, outras novas também estão surgindo.
De todas as formas que nós vimos, e de tantas outras, a liberdade de imprensa está sob pressão. E os jornalistas estão pagando um preço alto. Na Rússia, Evan Gershkovich, do Wall Street Journal, continua detido.
Ele enfrenta acusações de espionagem, as quais nega, e para as quais a Rússia nunca apresentou nenhuma evidência. O ataque a um jornalista está sendo usado para servir de alerta a muitos outros. Mas os jornalistas também têm suas próprias mensagens pra passar.
A democracia, no entanto, não é prioridade de todos. E é por isso que ataques à liberdade de imprensa estão se intensificando. Assim como a determinação daqueles que acreditam nela.