Entre os prazeres do terceiro grupo, não naturais e não necessários, Epicuro põe os prazeres vãos, oriundos das vãs opiniões dos homens, como todos os prazeres ligados ao desejo de riqueza, poder, honrarias e semelhantes. Ora, os desejos e os prazeres do primeiro grupo são os únicos que devem ser satisfeitos, porque, por natureza, têm um preciso limite que consiste na eliminação da dor. O prazer não cresce para além disso.
Se você atingiu esse prazer, não existe outro prazer real. Você atingiu todo o prazer necessário, que é o prazer natural e necessário; atingiu esse, meu amigo, é o que basta. Todo o resto é supérfluo, e alguns deles são tão supérfluos que vão te afastar de um caminho legítimo de felicidade.
Você pode discordar de Epicuro, tá? Isso aqui não é um dogma, isso aqui é a filosofia epicurista, como tem tantas outras, apresentando outras visões. Os desejos e os prazeres do segundo grupo já não têm aquele limite, porque não tiram a dor corporal, mas só variam o prazer e podem provocar dano.
Sabe aquele cara que fala assim: “Não, comecei a tomar um vinho um pouquinho melhor”? Ah, não, comecei a tomar um vinho um pouquinho melhor, outro melhor, outro melhor, outro melhor, depois fala assim: “Ô, vamos ali tomar aquele vinho? ” Nossa, aquele vinho!
Aí ele já começa a ficar enjoado, e aí o cara começa: “Ah não, porque ó, vamos viajar, a gente tá querendo ir pra Grécia, né? Eu só viajo de executiva. ” Não, beleza, podendo pagar, vai de executiva, mas o cara fica desesperado, ele quer se matar para ir de executiva porque ele já viajou de executiva.
Ele não tem a possibilidade de econômica: “Ah não, prefiro nem viajar. ” Ele vai ficando meio complicado, vai se perdendo. Diga, professor, veja como a ética epicurista lida com uma pessoa que, por exemplo, está viciada nos prazeres do terceiro grupo, que são aqueles prazeres mais luxuosos de honra, tal, mas ela precisa, de repente, se desfazer desses prazeres para se contentar com os prazeres do primeiro grupo, que são os naturais.
Isso não causa uma dor? Isso não causa um desconforto? Por exemplo, você é uma pessoa que é um glutão e você não pode mais continuar assim, você tem que se contentar com uma alimentação simples.
Isso causa um desconforto, porque você está abrindo mão de um prazer que você tinha, assim, em alto nível, para um prazer mais simples. Na visão epicurista, você está se livrando daquilo que é verdadeiramente causa de dor. Ah, você lembra do filme?
Para quem entrou agora, a gente tem um comentário aqui sobre o Matrix, sobre o filme. Então, o que está em jogo aqui é o seguinte: eu até um dia, brincando com um amigo, falei assim: imagine que a nossa realidade seja uma falsa realidade, uma realidade inventada por máquinas, inteligências artificiais muito avançadas criaram esse mundo aqui, e a gente, todo mundo, tá achando que o nosso mundo é a realidade, como tal, etc. , etc.
, e a gente está todo mundo igual no filme, deitado, servindo de pilha para a máquina, tirando energia do nosso corpo. Beleza! Então, mas aí, de repente, surge a possibilidade de eu me livrar dessa falsa concepção de realidade que foi propiciada pelas máquinas e travar contato com a realidade como tal.
O cara que traiu o movimento revolucionário dentro do Matrix foi um cara que falou assim: a cena é ele comendo um pedaço de carne, né? Ele comendo um filé, um negócio assim, um steak. Ele fala assim: “Eu sei que esse steak não existe, eu sei que ele é falso, eu sei que quando eu coloco ele na minha boca, todos esses sabores são falsamente criados no meu cérebro, porque eu nem estou aqui fisicamente, mas eu quero ser enganado.
Eu adoro ser enganado. ” Eu quero a mente, o Cipher, exatamente, Jé, o Cipher! Eu quero ser enganado, enquanto Neil, o Escolhido.
Assim, ó, existe aqui a Red Pill e a Blue Pill, escolhe aqui: eu te dou a realidade, aqui você fica aí nessas ilusões. Então, estabelecendo uma comparação com isso, o que a filosofia epicurista está propondo é o seguinte: “Olha, cara, aqui eu te ofereço a realidade. A realidade é que você não precisa de tudo aquilo que você está buscando lá fora para ser feliz.
” Então, claro que, para se desacostumar disso, isso vai te custar. Mas uma vez que você se desacostuma, já viu quando você começa a tomar café sem doce? Eu nunca fiz essa experiência, mas toda pessoa que toma café não adoçado.
. . Você toma café não adoçado, né, amor?
Ah, dizem o seguinte: falam assim: “Ó, quantos dias que as pessoas brincam e falam, falam assim: ‘Toma 15 dias, 20 dias café não adoçado. ’ Você não consegue colocar doce no café, você não consegue pôr adoçante, você não consegue fazer nada, porque você descobre o sabor do café. ” Eu ainda não tive essa coragem porque eu não tive 15 dias à disposição.
Mas é isso. De repente, você fala assim: “Caramba, eu achei que tivesse necessidade disso. Eu nunca tive necessidade real disso.
” Mas, se desacostumar, você tem o desconforto do sabor do café insuportável, inclusive. Depois que você solta a corda, vai um tempo para você. .
. A gente se habitua até às maiores desgraças. Você se habitua a um companheiro tóxico, destrutivo.
Gente, a gente se habitua com coisas absurdas, com situações que, no natural, seriam inaceitáveis. A gente vai. .
. É a teoria do sapo na água fervente: você coloca ele dentro da água e põe no fogo, ele não percebe que está sendo cozido. Ele vai ficar lá.
. . De repente, na hora que ele.
. . Assim, eu morri.
É mais ou menos isso: a gente vai sendo levado, a gente vai sendo levado. Aí a gente tem que se perguntar o que é real necessidade, o que é realmente motivo para me fazer ser feliz, entende? Como que isso não é.
. . Por isso que não é uma escola epicurista; é uma reflexão sobre a vida, uma reflexão sobre a vida.
Na hora que eu tô lá com a corda, né? E o cara tá puxando a corda, tá queimando a minha mão. Na hora que eu solto a corda, acredite, eu vou sentir falta disso, igual eu vou sentir falta do meu ciso extraído.
Depois de cinco, dez anos me dando dor de cabeça, eu passo a língua ali, hum. . .
como me fiz, mas depois, olho no espelho e falo: "Cara, não. Eu achei que fosse sentir falta de uma coisa, mas percebi que ela não era necessária para a minha vida. " É claro, aí tem um processo de adaptação.
Ah, eu. . .
outro dia eu tava vendo um amigo meu falando sobre isso. Trabalha com investimento. Eu falo assim: "Ó, carro.
Vamos partir de um pressuposto moderno de que o carro seja uma coisa essencial, o que não é, mas vamos partir desse pressuposto. O que eu preciso num carro? Que eu entre dentro e que ele me leve aos lugares.
Mas vamos dizer que ele tenha que me dar ainda algum conforto. Vamos dizer que ele é um prazer natural, não necessário. É igual, ah, um arzinho condicionado; não faz mal para ninguém, um sonzinho e tal.
Não sei, qualquer coisa além disso é gordura. É gordura! " "Ah, não, mas eu quero viver nessa gordurinha.
Eu quero viver. Aí eu quero acordar todo dia e trabalhar para isso. " Ok, vai.
Respeitado. Epicuro diria: "Velho, você tá doente! " Epicuro diria: "Por quê?
Eu consigo exatamente as mesmas coisas essenciais. A gente vê o carro aqui em casa, aqui a gente anda de aplicativo e, quando eu preciso viajar de carro, eu alugo o carro de acordo com as necessidades. " Eu tô quase um Epicuro.
Aí, o que que eu faço? Amor, quantos carros a gente já alugou? Tudo quanto é tipo!
A gente alugou carro de tudo quanto é tipo. Eu saio, eu falo assim: "É a mesma merda, é tudo da mesma desgraça. Pega esse sub, é tudo igual.
" Você pega esses. . .
é tudo igual, os mesmos equipamentos, as mesmas Harley. . .
não, Harley é bem de. . .
é natural e necessário. A Harley tá lá nos primeiros tipos de prazeres. E aí, se Epicuro vinha hoje, eu ia convencê-lo a respeito.
É tudo parecido, é tudo as mesmas telinhas, os mesmos negócios, as mesmas tecnologias. "Harley, Harley! Para você comprar, eles fazem teste de testosterona.
" Não é assim? "Ah, vou comprar uma Harley. " Pois bem, então tem isso.
Sabe, é ver o que é real necessidade, o que tá realmente gritando como necessidade e o que são necessidades que a gente vai criando. E depois, para se livrar disso, é uma merda. Se livrar de vício, é se livrar de vício.
Se livrar de paixão, é fácil. Se livrar de paixão, gente, paixão é uma merda. Paixão é descontrole.
"Ah, estou apaixonado! Estou no controle da situação. " Filho, você é uma mula, você tá apaixonado.
Você está numa situação de doença. É patos! Você tá de quatro, aquele negro tá pisando no seu pescoço, tá te humilhando, jeg, jeg, jeg, jeg.
. . e você tá: "Não vai mudar, vai melhorar.
" Entende? É doença! Aí, na hora que você se livra daquela desgraça da sua vida.
. . Aí você olha para trás e fala: "Como é que eu fui idiota esse tempo todo?
Todos nós já tivemos uma história merda dessa. Por que que eu me submeti a isso tanto tempo? Não precisava.
Para ser feliz, não precisava. Eu precisava antes ter me livrado disso.