Essa hoje é a atividade principal aqui do nosso departamento que marca o início das aulas, né, que é a nossa aula inaugural, tá? Eu quero particularmente aqui eh desejar boas-vindas aos ingressantes, não é? Eh, e espero que vocês tenham aqui um período bastante frutífero no nosso curso de filosofia, né? Bom, eh meu nome é Eduardo Eduardo Brandão, sou O chefe do departamento e vou tô aqui para apresentar, não é, o professor, para aqueles que não conhecem, né, professor João Virgílio, não é, que eh vai nos brindar hoje com uma a sua aula, aula inaugural, né,
intitulada a as estratégias do silêncio, tá? Então, sem mais delongas, mais uma vez cumprimentando a todos, agradecendo enormemente ao professor João, eh, eu passo a palavra a ele. >> Obrigado, Eduardo. É uma honra estar Aqui. É uma honra, em primeiro lugar, tá vendo tantos colegas meus, né, que começaram o curso junto comigo, alguns outros foram meus alunos e reunidos aqui para me ouvir. É uma ocasião especial, né, poder falar para vocês e poder falar também para tantos alunos que estão aqui, como eu estive um dia pelo pela primeira vez entrando nesse nesse ambiente, chegando cheio
de expectativas, de planos de inquietações Que me acompanharam ao longo de toda a carreira. E é sempre um pouco difícil você achar o tom para uma aula inaugural, exatamente em função dessa desse auditório diversificado. O que falar para pessoas tão diferentes? Eu vou fazer uma uma a tentativa de conseguir uma uma média entre o discurso próprio Para alguém que já tem uma formação em filosofia. E para alguém que tá começando agora, eu gostaria de ser entendido por todos. Eu vou falar sobre o autor que eu estudei ao longo de toda a minha vida adulta, que
é Witkenstein, né? E eu vou falar sobre três coisas ou três obras de Wkenstein. Em primeiro lugar, eu escolhi uma obra mais ou menos desconhecida. Pouco comentada, que é uma conferência que ele pronuncia em 1929, novembro de 1929, num clube, num desses clubes de eh de típicos ingleses, né, que um clube de discussões mais ou menos secreto, onde só são admitidas determinadas pessoas e era um clube chamado os heréticos. do qual faziam parte o professor de Russ o professor do Wyer Russell fazia parte A Virgínia Wolf fazia parte do do clube e periodicamente esse clube
se reunia para discutir uma uma ideia que era exposta por um dos seus membros. E nesse ano 1929, que é quando o Vit tá chegando em Camridge, retornando a Camridge, na verdade ele tinha estudado lá, tinha depois vai pro interior da Áustria, uma história bastante complicada. Ele volta pra atividade acadêmica em 1929 e é Convidado para fazer essa conferência que, como eu disse, fica muito é muito pouca pouco comentada. Ela não é uma conferência tão estudada quanto outros textos de Witgenstein, como tratatos. com as investigações filosóficas, como outros textos que fundaram uma tradição de eh
de exegese e de pesquisa. A conferência sobre ética ficou mais ou menos insulada como um momento eh à parte na carreira de 25. Nós já Vamos ver porquê. Eu vou, em primeiro lugar, essa é a primeira, o primeiro texto sobre o qual eu vou falar, vou falar sobre outros dois, que são os dois textos principais de investigão tratados e as investigações. Mas eu vou falar do tratados e das investigações partindo dessa conferência. Primeiro porque eu vou tentar mostrar para vocês que a conferência é muito ruim. Em segundo lugar, eu vou tentar mostrar A vocês que
ela não é tão ruim assim, né? E em terceiro lugar, eu vou mostrar que talvez ela seja realmente ruim, mas dá mas que dá eh oportunidade para um excelente desenvolvimento. E todos esses juízos de valor que eu vou fazer a respeito da conferência giram em torno, todos eles, das estratégias que Witgenstein encontra ao longo da vida para não dizer aquilo que não pode ser dito ou para tentar dizer sem dizer aquilo que não pode ser dito. Essa ideia que eu sei que para todos vocês que estão começando agora, que chegaram aqui, é é deve parecer
e é realmente e estranha, é uma ideia que é central na primeira obra de Virgstein, que é que é que é o Tratatus, né? O o Tratatus, ele talvez o o aforismo mais famoso seja o último. É um livro todo cheio, todo formado por aforismo. E no final do livro ele ele termina dizendo, né? Olha, quem leu esse livro e me compreendeu Sabe que nada do que eu disse aqui, inclusive isso que eu tô dizendo agora, faz sentido, tá claro? E além disso, compreende que aquilo sobre o que é logicamente impossível falar é eticamente indevido
falar, tá claro? Nós não devemos falar sobre aquilo que não pode ser dito, sobre aquilo que é impossível dizer em última instância. Portanto, o e a ao ao dizer isso, né, Witgenstein está de alguma maneira se comprometendo com alguma estratégia para Expressar aquilo que não pode ser expresso. E nós vamos tratar dessa estratégia a partir do exame dessa conferência, porque essa conferência trata exatamente disso. é uma conferência eh eh que é sobre ética, mas sobre ética num sentido muito amplo e estranhamente amplo. Eu vou descrever um pouco o movimento dessa conferência para que vocês possam
ter uma ideia de v de como é que se articula essa Estratégia. Quem começa dizendo a conferência se chamava ética. foi publicado depois conferência sobre ética, mas o título era mais o título oficial era mais inxuto ainda, ética. Ele disse: "Bom, eu vou em primeiro lugar, depois de um blá blá blá inicial mais ou menos como esse que eu acabei de fazer aqui, ele disse: "Bom, vou em primeiro lugar eh definir o meu o meu o meu assunto, meu meu tema". Eu vou assumir aqui a definição dada por Mur. Ética é investigação daquilo. Eu vou
vou vou citar a letra. Ética é uma investigação a respeito daquilo que é bom. Muito bem. A a insatisfação que vocês sentiram disso que todo mundo sentiu. Porque ao invés de continuar expondo a noção de mortal, como ele expunha no seu livro sobre os princípios da ética, Witgenstein fala assim: "Embora eu adote essa definição, eu quero dizer que o meu Conceito de ética é mais amplo que o de Mur, porque abarca também aquilo que vocês estão acostumados a chamar de estética". Bom, então é a respeito daquilo que é bom e a respeito daquilo que é
belo, tá? Mas agora a gente espera uma explicação sobre o que que afinal de contas ele entende por bom e por bel. E ao invés disso, ele faz o seguinte, ele fala o seguinte: "Olha, eu não vou dar explicação nenhuma. O que eu vou fazer é dar uma série de expressões que me parecem significam a mesma coisa que essa que essa que essa expressão inicial de Mho. Espero que vocês vejam essas diferentes expressões, essas diferentes definições, como se fossem fotografias sobrepostas, ou seja, como se vocês tivessem, vamos supor, você quer, havia uma um uma uma
técnica na época, você queria, por exemplo, mostrar qual é o rosto médio de um chinês. Então, qual é a técnica que um Cara chamado Gauton desenvolveu? Ele punha, ele, ele pegava várias fotos de chineses, deixava mais ou menos do mesmo tamanho, alinhava e ia fazendo exposições parciais. Você você pegava um um papel sensível que só que só ficava completamente quando você só tinha o resultado final, com uma exposição muito longa, vamos dizer 60 segundos, e você expunha, vamos dizer, 12 fotos de de chineses na mesma posição por 5 segundos Cada uma, de tal maneira que
no fim você tinha um rosto, que era o rosto médio do chinês. Esse experimento tem algo de algo de ridículo, né? e e Vitensin não o escolhe à toa, né? O próprio empreendimento que ele tá que ele tá que ele tá que que ele tá se propondo a a a desenvolver ver é num sentido muito especial e radical também ridículo. Então ele vai fazer uma espécie de sobreposição de margem. e fala assim: "Olha, sobrepõe essa ideia de que a Ética é investigação a respeito daquilo que é bom com essas outras outras proposições. A a ética
é uma investigação sobre aquilo que é valioso. A ética é uma investigação sobre aquilo que é realmente importante. É uma investigação sobre o significado da vida. é uma investigação sobre aquilo que torna a vida, que faz com que a vida vale a pena, em que vale a pena viver a vida. E é uma investigação sobre a Maneira correta de viver. Sobreponha tudo isso e você vai ver. Ele disse: "No final, o que é que eu entendo por ética, né?" Mas ele comendo um cuidado. Ele fala assim: "Olha, qualquer uma dessas expressões, ela pode ser tomada
em dois sentidos. um sentido relativo e um sentido absoluto. Num sentido relativo, por exemplo, eu posso dizer que uma determinada estrada é boa. É boa para quê? É boa para chegar Num determinado lugar. Tá certo? Se eu quero ir para Sorocaba, por exemplo, né? A Castelo Branco é uma boa estrada. A Fernão Dias é uma má estrada, tá certo? Vai me fazer dar uma volta tremenda. né? Então, pro objetivo de chegar em Sorocaba no menor tempo possível numa estrada razoavelmente boa, não é tão bom ir pela Fernandinas, nem é tão bom ir por São Roque,
é melhor ir pela Castelo Branco. Mas aí o que você tá formulando, isso é uma é um repete uma ideia muito Antiga, é na verdade um juízo hipotético, né? Você tá dizendo aqui, olha, se você quiser chegar em Sorocaba no menor tempo possível com o máximo de conforto, vá pela Castelo Branco. Isso é uma questão de fato, tá? Eu tô dizendo que a estrada é boa em relação a um determinado objetivo, mas não tô dizendo que ela é absolutamente boa. A mesma coisa sobre todas as outras, todas as outras a as outras coisas realmente importante.
Alguma coisa pode ser Realmente importante no sentido relativo. É realmente importante para eh paraa minha carreira fazer um mestrado se para fazer a carreira. Se eu quero fazer a carreira de acadêmica, é importante que eu eu faça o mestrado. Isso diz respeito a uma certa, vamos dizer, ordem de coisas no mundo acadêmico, etc. Descreve uma certa situação no mundo, tá claro? Mas não tem nada de absoluto. Não quer dizer que seja absolutamente necessário eu fazer Mestrado ou que seja incondicionalmente necessário que eu faça mestrado. E ele diz assim: "Então, eu tenho que distinguir duas coisas.
você cada uma dessas expressões que eu que eu disse é bom, é valioso, vamos dizer do eh é é realmente importante, é o o sentido da vida, o sentido da vida também pode ser um sentido relativo e um sentido absoluto. Aquilo que dá um sentido relativo a um certo objetivo, aquilo que dá um sentido absoluto. Tudo isso pode Ser tomado no sentido relativo ou num sentido absoluto. sentido relativo, ele diz: "Eu estou sempre descrevendo fatos". Tá claro? No sentido absoluto, ele diz: "Eu jamais estou descrevendo um fato". E essa e aí vem a a a
primeira, vamos dizer, a o primeiro aquilo que eu vou apontar como um primeiro defeito no no texto Vitensin, ele diz assim: "Olha, ou eu estou ou bem eu estou enunciando Algo que tem valor absoluto, ou então eu tô enunciando um fato. fato jamais pode ser parte do mundo, parte daquilo que eu um um valor, um valor absoluto jamais pode ser parte do mundo que eu descrevo. Se eu descrevesse, se eu tivesse um livro que descrevesse em detalhes tudo, tudo, tudo que aconteceu no mundo, cada um dos sentimentos que eu tive, cada um das, cada um
dos episódios da minha vida, da vida de cada um de vocês, cada um dos Episódios de cada um dos átomos do mundo, se eu tivesse um mundo que um um livro que descrevesse tudo isso, todos os os valores relativos estariam dentro desse livro de Witstein, mas nenhum valor absoluto tava estaria ali dentro. Você pode ler o livro do começo ao fim e nada do que acontece ali tem, vamos dizer, nada do que você vai ler vai te apontar para um valor absoluto. Portanto, ele diz, o valor absoluto, ele é num sentido, num sentido Importante, indisível,
tá claro? Ou seja, ele tá falando sobre valores absolutos. E enquanto fala sobre valores absolutos, afirma que nada pode ser dito a respeito deles. Isso parece envolver uma contradição evidente. Com que direito se fala sobre o que não se pode ceder, sobre o que não se pode dizer? Com que direito eu posso Expressar ou tentar expressar aquilo que eu mesmo estou dizendo sem poder dizer que não pode ser dito? É preciso ter alguma justificativa para isso. E o texto de Widenstein não oferece nenhuma esse texto. Tá claro? Ora, mas e aqui entra a primeira defesa.
Talvezstein ele não estivesse querendo diante de um auditório composto principalmente por leigos ali, tá? Gente muito inteligente, Mas tinha escritor, tinha e tinha filósofo também. Mas a grande maioria ali não era filósofo profissional, tá claro? Ele tava querendo, vamos dizer, expor um resultado que em outro livro, que em outro lugar tava devidamente bem defendido. E esse lugar era o tratatos, um livro, veja bem, muito famoso nessa época, 1929, né? embora ninguém o tivesse ou quase Ninguém o tivesse lido, era famosíssimo como o próprio Vigensai. Como o próprio expressão do Keines quando vão vamos dizer depois
de passar, deixa deixa eu dar um uma breve parênteses histórico aqui. O o o Witgenstein, ele ele escreve o o tratatos do boa parte do tratados durante a guerra. Rio Livro é publicado em 1921 e depois uma edição definitiva em 1922, publicado primeiro numa revista alemã de Filosofia natural, depois vai ser publicado então e na forma de livro e em 1927 então vai receber uma uma edição bilíngua com uma tradução feita por eh em grande parte pelo pelo Ramson e também por um linguista chamado Ogen, né? Então essa em 19, só que depois de publicar
em 1921, acabada a guerra, Witgenstein sai do cenário. Ele acredita que resolveu todos os problemas da filosofia, que tá tudo feito a partir daquele livro e ele vai pro interior da Alça, ele abre mão de toda a fortuna dele. V, o pai do Venç era rico, era riquíssimo, tá certo? Era, vamos dizer, muito rico, né? O pai dele era era era dominava a indústria siderúrgica do do antigo império austro-úúngngaro, antigo nessa época, né, da antiga império austro-húngng na época da segunda revolução industrial, né? Não era pouco, era muito dinheiro. E ele abre mão de todo
o dinheiro dele, né? Dá tudo pra irmã, porque ele diz: "A se eu Der pros pobres, a a o dinheiro corrompe as pessoas". Então os pobres vão ficar corrompidos com isso. Eu vou dar para minha irmã que já é rica e não pode corromper mais do que do do do que já se corrompeu. Ele também sustenta alguns o Rio, que por exemplo viu muito tempo do do do algum tempo do do do dinheiro do Witkstein. Teve teve ele ele ajudou vários eh artistas eh, né? é do durante essa época acaba e abrindo mult vai dar
aula para crianças No interior da Áustria, né? E sai do sai do do cenário. O tratado é publicado e o impacto do livro é enorme graças ao prefácio que é escrito pelo Berton Russell, que o Berton Russell o anuncia como um novo gênio da raça, tá certo? É livro, é, tem que ser lido, todo mundo tem que ler, só que ninguém consegue entender, nem mesmo o próprio Russell, o Witgenstein, ele chegou a interditar a publicação do prefácio do do do Bertr. Imagina o Bernard Russell, ele tava na China, ele tava dando conferências na China quando
a secretária do do Russ escreve eh eh professor, o o Dr. Witkenstein não quer publicar o livro com a sua introdução, porque diz que o senhor não entendeu nada [risadas] do Daí o editor dele fala: "Bom, fala com o editor". O editor fala assim, sem o prefácio do Rush, eu não publico quem é esse cara, né? E, e aí, vamos dizer, vai que vai, vamos Dizer, muita negociação. Ele aceita publicar com com o com o prefácio do Russ que olha, entre nós, é muito bom, tá certo? Hoje a gente sabe mais ou menos onde é
que ele enroscou, mas tem são questões de detalhe. Pouca gente entendeu o livro como o Russell entendeu naquela época. Aliás, ninguém tinha condição de entender, porque grande parte do livro dependia de um entendimento, vamos dizer, da de de das soluções que ele tava dando a Determinadas problemas que surgiram na na parte mais abstrusa, mais complicada da teoria do próprio Russell. Então, era um livro definitivamente hermético, mas que, por isso mesmo, foi considerado absolutamente genial. Afinal de contas, se o Russell, o professor dele, apresenta como um gênio, e ele diz que nem o Russell entendeu, deve
deve haver alguma coisa muito importante nesse livro. Realmente havia, a impressão era correta, mas o fato é que ele passa a Ser endeusado também pela distância. Então ele se torna uma lenda viva. É o cara mais rico que abre mão de toda sua fortuna e escrever um livro, um livro, o livro, veja bem, não é um livro longo, 60 páginas. 60 páginas, tá? Todo em aforismos, tá? Com com uma um simbolismo lógico. Simbolismo lógico já era. Vamos vamos lembrar de uma coisa, tá? Praticamente não havia, já havia um, mas praticamente não havia manuais de Incursos
de lógica nessa época. Tá claro? O simbolismo lógico era uma coisa estranha dentro dos departamentos de matemática e de filosofia. E o simbolismo do Russ e do Freg era uma coisa que pouquíssima gente entendia. O Witgenstein teve a feliz ideias de usar o próprio um simbolismo próprio que ele não explica, né? E deixa que o leitor deduza a partir de de de junções distantes ali do do texto o que que ele o que que ele Simboliza o quer dizer. Tá claro? Então ele ele ele adquire essa fama de gênio. Alguém que escreveu um livro onde
os principais problemas da filosofia foram resolvidos ou pelo menos encaminhados, a frase é dele no prefácio, tá certo? E que e eh sumiu. Cadê ele, né? Quando ele volta, o Keines vai recebê-lo na na estação, o o economista e o ele escreve para para uma para eu não lembro para quem que ele escreve isso, que para o Israfa. O Israfa, que é o economista também era muito amigo do Kees e depois vai ser incumbido pelo Keines de dearicaria, de se soreni o Witkens, que ele não aguentava alguém que discutia 3 horas por dia de filosofia.
Então ele encarrega o o York estava ocupado lá com crise de 29, com uma uma série de outras coisas. Então ele encarrega o Israf, o mas ele escreve para serfa no dia da chegada do Witgenstein, deu chegou, acaba de chegar em Cambridge que é a Chegada do Vitgenstein na na na estação. Não é não é que ele fosse recebido por é que havia uma aura em torno dele. Tá claro? Então essa esse deixa eu tomar uma água. Então essa esse o esse Wkenstein que chega em Cambridge, que vai dar em 1929 e que vai dar
a conferência no final desse ano, essa conferência sobre a ética, é uma espécie de semideus que ninguém entende bem, tá claro? E a conferência sobre a ética, Ela, vamos dizer, ela dependia um pouco desse status do tratado. Todo mundo sabia que a justificativa última daquelas coisas que ele estava dizendo podia ser encontrado no tratados, mas ninguém sabia bem como achar aquelas justificativas. Algumas das frases do tratatos, é verdade, elas se tornaram famosas já nessa época e davam uma ideia mais ou menos boa do que é que Witkenstein e Vamos dizer dava uma ideia eh sustentava
de maneira mais ou menos boa a tese de que o que ele tava dizendo nessa conferência ecoava o tratado. Eu vou ler alguma alguns dos aforismos finais do tratado. Vocês vão imediatamente sentir isso. Fido 6.52, por exemplo, diz o seguinte: "Sentimos que mesmo quando todas as possíveis perguntas científicas são respondidas, os problemas de nossa vida ainda não são Sequer tocados." É claro que precisamente então não resta mais nenhuma pergunta e essa é precisamente a resposta. Ou então esse outro, o método correto da filosofia, que é a 6.53, seria propriamente este: nada a dizer, a não
ser aquilo que se deixar dizer, portanto, proposições da ciência natural, portanto, algo que não tem nada a ver Com a filosofia. Então, sempre que alguém quisesse dizer algo metafísico, demonstrare que ele não deu significado para certas sinais em suas proposições. Este método seria insatisfatório para ele. Ele não teria sensação de que nós lhe ensinamos filosofia, mas esse seria o único rigorosamente correto. Tá claro? Ora, vocês podem podem podem pensar, mas escuta, ele tá roubando no jogo aqui na Conferência sobre a ética, ele tem que me explicar, afinal de contas, como é que eu tô entendendo
isso, tá? que ele tá falando, eu tô lendo, por incrível que pareça, aqui no final do livro é uma das primeiras sentenças do livro que eu consigo entender. E ele me diz que isso não pode ser entendido. E é mais ou menos o que ele tá dizendo. É mais ou menos, não é exatamente o que ele tá dizendo também na conferência sobre a ética. Portanto, havia ali um eco, havia ali a desconfiança de que todas aquelas verdades depositadas no Tratatus e que ninguém entendia no seu detalhe, estavam por trás daquele discurso sobre o silêncio que
parecia autorrefutador, que parecia se eh eh se destruir. Portanto, bastaria entender se não o tratatos, pelo menos digamos a perspectiva aberta pelo tratados, a visão de mundo ou sei lá o quê aberto pelos tratados para nós termos algum Acesso a esse silêncio. Mas qual era a estratégia do silêncio adotada pelo tratados? Aqui entra um longo capítulo de mal entendido, né? Porque o até até muito recentemente, quando se queria falar sobre o silêncio, sobre essa essa questão dos do que não pode ser dito no tratados, o que que se fazia? Você lançava a mão de autores
que você sabia que eram, digamos assim, Bem vistos por Vitensstein, né? que tinha lido, tinha gostado e de alguma maneira apoiava com as comais e eh ele ele concordava, né? Você você tem isso com Schopenhauer. Se você pegar, por exemplo, o livro do do David Pers, né? eh chama A falsa prisão, The False Prison. Nesse livro tem um volume sobre o tratatos e boa parte do volume é dedicada à questão de um certo sujeito transcendental que aparece no tratatus Que seria indisível, que estaria, vamos dizer, na na na no núcleo da formação do sentido. Metade
do livro do Pers é sobre Schopenhauer para tentar mostrar como Witgenstein teria se apropriado de ideias de Schopenhauer e poço no tratado. Essa é uma explicação, vamos dizer menos que capenga, porque ninguém fica famoso ou tão famoso por causa de um plágio, tá claro? Se ninguém se apropria de nada, tá? A não Ser que você seja, vamos dizer um péssimo filósofo, nem mesmo como comentador você pode se apropriar de algo, tá claro? Porque as coisas que você diz e que eventualmente você leu em outro autor, só tem o direito de entrar na sua obra se
elas tiverem lugar ali dentro, se elas puderem ser deduzidas a partir dos fundamentos da sua obra. Então, pouco importa se Schopenhauer ou não sei quem mais pensou num sujeito transcendental. A questão é saber por, Afinal de contas, Witgenstein precisava falar de um sujeito transcendental. E por afinal de contas esse sujeito transcendental de Witkenstein redund era indisível, não podia ser descrito e redundava na admissão de uma dimensão indisível da vida, de uma dimensão indisível do mundo, tá claro? Daquilo que Vidgensin vai chamar dos limites do mundo que não podem ser descritos. Então, durante muito tempo, toda
essa Questão da estratégia do silêncio em Witkenstein passava pela questão do sujeito transcendental e se apoiava, mais ou menos, conforme o caso, num suposto empréstimo, numa suposta influência, né, numa numa suposta recepção, essas palavras que nós costum costumamos usar, tá claro? E por isso mesmo todas elas eram insatisfatórias, porque o que interessa é saber o seguinte, né? Por que afinal de contas Witkenstein Ele é levado a admitir a necessidade do indisível, a necessidade do silêncio e a e o preenchimento do silêncio com um indisível que de alguma maneira é o é a coisa mais essencial
na nossa vida, é aquilo que dá sentido à existência enquanto tal, é aquilo que é absolutamente bom, é aquilo que é absolutamente belo. É só nessa medida que eu posso falar do que eu posso dar conta da estratégia do silêncio do tratatos. E isso por muito Tempo não foi feito. Eu não tenho, não posso aqui, não tenho condições de descrever o tratatos para vocês, mas eu posso descrever, eu posso dar uma um retrato aéreo que vai que vai que vai servir. É uma é uma, é uma é um, vamos dizer, é um é um guia,
tá certo? Não pensem que vocês visitaram a cidade, mas pelo menos vocês vão conhecer alguns dos pontos turísticos principais e vão compreender que estratégia é esse essa, em que medida ela é mobilizada aqui e Por essa estratégia do silêncio faz com que uma conferência que parecia não ser tão boa seja aceitável. Tá claro? Nós já vamos ver porque o aceitável, por que não excelente, boa? definitivamente eh eh eh definitivamente boa. Já já ponho essa vírgula. Em primeiro lugar, nós vamos para resumir o tratatos, porque é uma coisa muito difícil, senão é impossível de eu vou
conduzir vocês ao problema do Tratado. O problema do tratados, o problema principal do tratados pode ser visto, pode ser percebido a partir de três coisas. o incêndio da reitoria, o pato Donalds e João Virgílio. A partir dessas três coisas, vocês vão compreender perfeitamente qual é o problema do tratado. Assim, se eu disser para vocês, a reitoria está pegando fogo, vocês não entendem? E o que que é isso que vocês entenderam? A ritoria não tá pegando fogo. Eu sei lá se ela tá, mas não importa porque vocês entendem mesmo que ela não esteja pegando fogo. Tá
claro como isso é possível, não é? ou falando formulando o mesmo problema de um ponto de vista mais ou menos empírico, que é como os linguísticas costumam sentir esse problema e e isso dá um sentido muito vivo. Como é possível Que vocês estejam me entendendo agora? Quase a totalidade das sentenças que eu disse até agora, vocês nunca tinham escutado e não vão escutar de novo. Não com as palavras que eu disse, não na ordem que eu disse. Como é possível? Como é possível que vocês me entendam? Como vocês possível que vocês entendam que a reitoria
tá pegando fogo? Primeira resposta que nos ocorre, um cineminha mental. Não é isso? Não é? Eu imagino uma cena da reitoria pegando fogo. E a reitoria pegando fogo é tá associada à aquela cena, não riam, porque é mais ou menos isso que Vens vai dizer, tá claro? A teoria da figuração do tratatus, ela aponta para essa solução, só que com muito chantilly, nós vamos ver, tá certo? muitos enfeitos e muitos senões. Mas antes eu quero falar sobre o Pato Donald e sobre João Virgílio, que afinal de contas a reitoria pegando fogo, vocês podem dizer que
vocês montam essa cena, tá certo? Vocês montam essa cena a partir do quê? Vocês montam a partir da reitoria, que vocês sabem o que é, e incêndio que vocês vocês juntam, por assim dizer, é um Lego, tá certo? junta a reitoria com pegando fogo e te dá a a o sentido da sentença, a reitoria tá pegando fogo. O problema é que em determinados casos esse Lego não Funciona. Por exemplo, o Pato Donald saiu, foi às compras. De quem eu estou falando? Do Pato Donald. Mas quem é o Pato Donald? Vocês vão dizer: "Ah, é uma
é um é um é uma mancha de de de tinta no papel." Mas então, deve ser estranho dizer que uma mancha foi às compras. Vocês concordam comigo? O que é o Pato Donald? Quem é o Pato Donald? Vocês podem dizer: "Bom, é um pato que fala e isso é uma boa pista. É um pato que fala, porque aqui eu tenho como aplicar o jogo do Lego ao próprio pato do ao sujeito da sentença. Eu tenho a ideia de pato, a ideia de falar junto, digamos, batizo essa ideia de P Donald e digo que essa junção
foi as compras, sentença falsa, já que não existe essa junção no mundo, no entanto, compreensível. É isso que nós entendemos quando lemos a Historinha. Tá claro? Isso dá essa ideia do Pato, dá dá uma dá uma nos leva para uma lição interessante. As junções, se há se é verdade, se é se essa se essa teoria da junção é sustentável, eu devo admitir que determinadas junções não estão explicitadas na estrutura superficial da língua. Pato parece um nome próprio como João Virgílio e no entanto ele não é nome de nada. Para entender o que é o Patod,
eu preciso fazer uma junção semelhante àquela que eu faço no caso da reitoria para preencher esse sujeito de significação. Tá claro? Portanto, isso complica muito a teoria do Lego, porque agora eu tenho que descobrir quais são as partes constitutivas do Pato Donald E como diferenciar o Pato Donald do João Virgílio. Vocês diriam: "Bom, o Pato Donald não existe, mas o João Virgílio existe." Mas quem é João Virgílio? Uma questão antiga, né? Já já ocorreu sobre a forma, né? Quem é Sócrates, não é isso? Sócrates, como João Virgílio, já foi jovem, agora é velho. Ora, o
que que tem aquele João Virgílio que entrou aqui paraa aula inaugural com seus cabelos negros, tá certo? Pilotando minha marra 125. E esse João Vergílio que hora o que hora vos fala? O que que que tem, que que essas duas coisas têm em comum? E mais, a que é que eu me refiro quando me refiro a João Virgílio? Tá claro? Isso me mostra que talvez eu tenha, e é essa a tese de Witgenstein, que mediante uma análise muito cuidadosa, muito laboriosa da linguagem, chegar a certos átomos lógicos a partir dos quais todo e qualquer sentido
é constituído. Tá claro? são os tijolos últimos do discurso, os tijolos que constituem o discurso não na sua superfície, já que na superfície nós temos expressões que absolutamente não significam coisa nenhuma, como Patodonald, mas nas suas profundezas, onde ali sim eu vou encontrar os constituintes últimos da realidade. E é disso que trato tratados. É disso que falo tratados. é como eu chego nesses constituintes últimos e como eu poderia reconstruir o mundo a Partir deles. Só que essa análise essa reconstrução são feitas com o auxílio daquilo que os meus alunos esse ano de lógica um vão
conhecer de perto, né, que são os conectivos e quantificadores da lógica da da lógica de de de Freg de Russell que já eram, como eu disse, notação abstrusa, desconhecida, vamos dizer, não havia curso de lógica, eu repito, né? E é com esse com esses recursos que Witgenstein tenta mostrar De que maneira você pode reconstruir o mundo. Só que não usando a simbologia de de de Freg de Russell. Ele cria a sua própria simbologia e uma simbologia que tem só um símbolo lógico, que é a negação, né? Ele de de numa porção numa numa parte, vamos
dizer, tecnicamente genial do livro, ele consegue reduzir a lógica de Freg único conectivo, a negação, uma negação simultânea, mas que funciona de uma maneira altamente complicada. Então Você consegue definir as os termos da lógica como ou se então só a partir da negação e também outros termos mais complicados, como vocês devem, para quem já viu um pouco disso, para todo existe. Você já já quem quem já já o já já viu um pouco de lógica deve ter passado por aquele i ao contrário, o a de ponta cabeça, né? Esses conectivos todos, toda a linguagem da
lógica e quem sai resume o quantificador, a ao a negação de tal Modo que você divide toda a linguagem em duas grandes partes. negação de um lado, que é digamos o componente formal da linguagem, que só faz operações sobre sentidos dados e pequenos junções do Lego, que são as proposições elementares. E grande parte do prop do tratat incume de mostrar o seguinte, como chegar dessas proposições elementares apenas com o auxílio da negação. A proposição o Pato Donald foi às compras, ou João Vergil está dando uma palestra, ou a reitoria está pegando fogo, tá claro? Portanto,
é esse, é isso que V faz e é isso que ninguém, nem mesmo o Russell compreendia direito como fazer isso. O Russell tinha sido o proponente dessa lógica, juntamente com o Frega, o proponente dessa nova lógica. Portanto, o o o livro tava tava tava baseado em em determinada Em determinados experientes técnicos muito pouco palatáveis, muito pouco conhecidos. E ele redunda quando você tá de posse desse desse instrumental técnico todo numa tese forte, que é a tese de que os elementos que constituem as proposições elementares, eles não estão simplesmente justapostos na proposição elementar, eles estão articulados.
Eles estão articulados mais ou menos como o azul está articulado a minha camiseta. Ou seja, existe uma ordem categorial nesses objetos de tal modo que a nota dó não poderia ocupar o lugar da do azul, tá claro? E a minha camiseta não poderia ser sustenida ou aguda, alguma coisa assim. Há uma ordem categorial. E essa ordem categorial, ela não pode ser descrita, Ela só pode ser vista, ela só pode ser exibida. Tá claro? Então existe aqui, para que eu consiga articular o discurso, eu tenho que lançar mão de articulações que não podem ser tematizadas pelo
discurso sob o risco de um de um regresso infinito que eu precisaria de de algum tempo mais para explicar. Mas acho que intuitivamente todo mundo consegue perceber o que tá em questão aqui, tá claro? A mesma coisa acontece com a Negação. Eu não posso descrever a negação. A negação tem que ser uma um, vamos dizer, uma ação indescritível sobre um conteúdo. Eu não tenho como descrever aquilo que torna a negação, aquilo que faz a negação, porque a negação já tá pressuposta em qualquer descrição que eu faça. A descrição tem que estar disponível para que qualquer
descrição possa ser feita. Porque qualquer descrição que eu faça pode ser falsa e, Portanto, a negação dessa proposição deve estar disponível para poder para eu poder falar que a negação dessa proposição seria verdadeira. Portanto, um segundo componente indescritível aqui, a negação, as operações lógicas. Além disso, eu só consigo fazer esse cineminha mental se de alguma maneira eu projetar isso que são os componentes últimos da linguagem Nos componentes últimos do mundo. Senão eu vou ter uma imagem aqui que não diz coisa nenhuma. O que que é uma imagem do parto Donald com uma sacola na mão?
pode significar um tudo e nada. num imaginem um código secreto em que o Pato Donald seja um símbolo para eh para eh o eh vamos dizer o deputado X e a sacola na mão, quer dizer, já recebeu o dinheiro. Pronto, eu mando essa essa essa essa mensagem, o cara, ah, já Pronto, tá pago. Tá claro o que quer dizer o parto donacola? Então é preciso que haja uma projeção no fundo da linguagem entre os elementos constituintes da da linguagem no dos elementos constituintes da linguagem nos elementos constituintes do mundo. E essa projeção, veja bem, não
é uma mera relação. Ela tem que ser feita. Ela existe uma ação aqui. Nada é por sua própria natureza nome de coisa nenhuma. Você pode dizer que existe, o Vitstein Vai dizer que existe um isomorfismo entre linguagem e mundo. O que quer dizer um isomorfismo? Quer dizer o seguinte, primeiro lugar tem uma correspondência de um para um entre os elementos últimos da linguagem e os elementos últimos do mundo. Para cada elemento da linguagem, um e só um elemento do mundo, e vice-versa. Em segundo lugar, o que pode ser unido na linguagem? nomes que podem ser
unidos na se dois Nomes, dois ou mais nomes podem ser unidos na linguagem, os objetos correspondentes podem ser unidos no mundo. Então você tem uma isoporfismo porque você tem uma correspondência de um para um e você tem uma ordem categorial que espelha na linguagem que espelha a ordem categorial do mundo, tá claro? Mas essa esse espelhamento vai pros dois lados, tá claro? É tanto da linguagem pro mundo, quanto do mundo da linguagem. Só que é a linguagem que Tem que falar do mundo. Se eu não for daqui para lá, não vai se formar sentença nenhuma.
E mais, não é porque dois nomes pertencem à mesma categoria que tá dado a qual objeto eles azul e vermelho designam duas cores. Mas só porque nós decidimos associar as a o nome azul a essa cor e vermelho a outra. Nós poderíamos ter ter associado de outra maneira. Isso que acontece no nível superficial vai acontecer no nível Profundo também, de tal modo que você não tem como constituir o sentido sem um ato de projeção que nos leva dos nomes aos objetos do mundo. Ora, se tem um ato de projeção necessário na linguagem, tem um sujeito
desse ato. Tem alguém que tá fazendo essa ação e esse alguém que faz essa ação, não nasceu em Sorocaba, não tá dando palestra agora porque ele é uma condição de possibilidade para se dizer tudo isso, Tá claro? É um eu que tá subtraído ao mundo, que tá projetando constantemente nome sobre objetos e fazendo operações lógicas que redundam no sentido que tá negando e nomeando em última instância. Portanto, você tem como condição de possibilidade da linguagem a existência de um sujeito que não é o sujeito psicológico, que não tem uma história de vida, que Não entraria
em nenhuma história do mundo, nem na história mais detalhada que me dissesse quais foram todos os sentimentos de João Virgílio ao longo da vida. Quais foram todos os sentimentos de cada um de vocês? Onde é que estava cada um dos átomos? Nenhuma, nenhum dos episódios dessa história vai ser esse sujeito transcendental. Nenhum dos episódios dessa história vai ser a negação. Nenhum dos episódios Dessa história vai ser a forma lógica das proposições. Portanto, para falar, eu tenho que pressupor uma série de coisas que não podem ser ditas, tá claro? E são essas coisas que não podem
ser ditas, que fundamentam a estratégia do silêncio de Witkenstein. Veja, Vitkenstein, ele não tá negando que as proposições metafísicas podem ser, não precisa ser Tratadas qualquer outra, hã, que elas surtam o efeito ou que elas produzam uma impressão de sentido. Parece que faz sentido, mas não faz. Muita gente foi paraa fogueira por causa de de de proposições metafísicas, tá claro? Daqui até o fim do curso vocês vão ouvir proposições metafísicas à vontade e todos nós, do ponto de vista do tratatos, teríamos a mesma impressão de sentido. E nós podemos fazer prova de entendimento. Nós queremos
saber se as reações que vocês têm a determinados estímulos verbais são as adequadas. Tá claro? Portanto, vejam bem, o tratatos, ao mesmo tempo que postula a necessidade do indisível, abre espaço para um exercício da linguagem que se resume a uma economia de estímulos e respostas. A linguagem cotidiana funciona assim. Ela funciona assim. O que nós temos que que que que que distinguir é aquilo que de fato tem sentido, que procur tratados quer dizer simplesmente o seguinte: putsui condições e verdade. É claro daquilo que não faz sentido e que se for verdadeiro não é verdadeiro por
oposição ao falso. É verdadeiro porque é tá claro? Eu sou o Senhor de todos os sentidos que Chegam ao meu ouvido e de todos os sentidos que saem da minha boca. Mas esse eu não é o João Virgílio. O João Virgílio é simplesmente um ser humano como vocês, um bicho que foi criado numa certa cultura e tem determinadas reações. O sentido não é parte dessa cultura. O sentido tá de alguma maneira no fundo dessa cultura e de qualquer cultura, de qualquer ser humano e de qualquer ser, na verdade, que seja capaz de falar como É
o Sul. Tá claro? A conferência é boa. Quando eu aleio contra o pano de fundo dos tratados, eu vejo que ele tem o direito de falar isso. Ele sabe porque tá falando isso. Ele sabe como defender, se defender da acusação de contradição. Não, você tá dizendo que não pode dizer e não faz sentido. Eu não tô dizendo que você não vai ter Impressões de sentido. Eu não tô dizendo que você não vai ter determinadas sensações. Eu não tô vendo, inclusive que eu não posso levar você a ter, a assumir uma certa postura finalmente correta diante
disso que tá na sua frente. Tá claro que não é o que tá acontecendo. É o que tá acontecendo independentemente do que aconteça. é ou acontecer que a linguagem pode Descrever, qualquer que ela seja, independente de qualquer dúvida cética, independentemente de qualquer demonstração científica, de qualquer evidência científica, esse é um lugar que a ciência não pode entrar, porque esse é o lugar em que a ciência está junto com uma porção de outras coisas. Tá claro? A conferência é boa ou nem tanto, porque saibam vocês, um pouco antes de dar essa conferência foi dada em novembro
de 1929. Qu tinha dado outra foi numa num encontro, não lembro mais o nome da cidade em Inglaterra, onde teve um uma um encontro da Aristotelian Society, a primeira e único congresso científico que Witkenstein foi na vida, né? nesse congresso de de de famoso por Detestar essas ocasiões, ele ele teria evitado a todo custo aparecer nas conferências, que ele só foi lá e há muito muito a contragosto deu a sua a sua conferência, proibiu que fosse publicada a o o o texe. mesmo assim ele deu uma outra conferência, na verdade sobre o infinito e essa
e a e o texto original já tinha ido pro editor, acabou publicado, mas ele ele não ele evitava e o o alguém encontra com ele na na no pátio, Ele tava ali passeando no pátio da da universidade falando, né? Eu receio que eu receio que que que nós estejamos no meio de uma de uma conferência científica. Ele fala: "Eu tenho o mesmo receio que o senhor". em outro ele ele odiava essa eh eh essas ocasiões, né? Porque ele, vamos dizer ali ele achava que de alguma maneira aquilo não não não envolvia um compromisso visceral com
a filosofia. O que isso significa? Nós vamos ver um Pouquinho no final da no final da conferência. Mas ele ele em todo caso tinha feito essa conferência alguns meses antes, foi em agosto, agosto ou setembro, não lembro de 1929, dois ou três meses antes ele dá essa conferência. E nessa conferência sobre a forma lógica que é publicada depois nos procedings da Aristotan Society, ele dá uma notícia muito triste. Eu estava errado. O tratatos é um erro. Tá claro? A história desse erro é é longa, né? A história do período intermediário de Viting que vai de
29 a 33, quando ele tá abandonando a filosofia do tratatos e se encaminhando para outra que vai ser a filosofia do período maduro. Então essa realmente não dá para contar porque é cheio, mas eu eu adianto algumas coisas a vocês. O que tant acho um erro, vamos dizer Gigante no tratatos. Ele acha um erro num num tijolinho, tá claro? Só que sem esse tijolinho o edifício todo não fica em pé, tá claro? Então, e e é um detalhe técnico, é um detalhe, ele descobre que esse não, que aquele não que ele tinha usado, que ele
acreditava que era única operação lógica e servia para tudo e fundamentava matemática, coisa e tal, servia para tudo, menos para medir. Ou seja, você sabe que números, Números servem para duas coisas, basicamente, né? para contar e para medir. Um número que não sirva para medir, vamos dizer, tem pouca utilidade pra ciência, mas eu não posso nem dizer que essa mesa tem 3 m, tá claro? Então, se não serve para medir e ele descobre, o meu não, não mede, tá claro? Eu não meço para medir, eu tenho que ter um uma régua. Eu só só tenho
uma maneira de medir. É com uma régua, fazendo, não existe medida abstrata. Eu tenho que Sobrepor um objeto físico a outro objeto físico. E é isso que eu chamo de medida, porque nenhuma operação obstrata consegue reproduzir essa essa ação, tá claro? Então, vejam que eu não eu tô evitando contar a história porque vocês podem imaginar o quanto ela é longa, né? O quanto ela é complicada. Teria que falar sobre a matemática no tratado, sobre por que ela não se aplica a medida. Mas ela é uma história com começo, meio e fim. Var tinha toda a
Razão. O tratatos não funciona, tá galera? É possível admirar o tratados, não é possível acreditar no tratados. Tá claro ou não? Vamos dizer o tratar tem um erro formal ali dentro, né? Ele ele se propõe uma tarefa técnica que ele não realiza. E ele diz isso em agosto de 29, o que quer dizer que em fevereiro ou em, desculpa, em novembro de 29 ele não Tinha mais aquelas cartas na mão, já tinham ido pro morto. Tá claro? O jogo recomeçou e ele não tem a menor ideia do que vai pôr no lugar melhor. Ele tem
ideia, mas essa ideia vai demorar dois ou três anos para ser maturada. E quando ela ela se desenvolver completamente, o que vai surgir é uma filosofia completamente diferente do tratatus, oposta ao tratatos. O Witgenstein maduro vai ser o pior inimigo do Widgenstein, do tratatos. Ele vai dedicar a vida toda a construir uma filosofia que desconstrói a sua primeira filosofia e o tratatos e que, portanto, se ainda quer direito, quer ter direito de falar sobre o indisível, vai ter que lançar mão de outros recursos. Não quero me alongar excessivamente, mas vocês vão me dar 15 minutos
para descrever agora rapidamente o que é essa segunda filosofia de Wenstein e de que Maneira o indisível poderia se reintroduzir nela, porque oficialmente, ao menos no que diz respeito à letra do texto, ele não se reintroduz. Witkenstein nunca mais vai falar, a não ser nessa conferência sobre o indisível. Ele vai conservar isso sim, estranhamente. Uma atitude que um dos seus melhores amigos e interlocutores, Drey, um psiquiatra inglês que tinha alguma formação em filosofia, chamava chamava de ponto de vista religioso. O J diz o V até o fim da vida me disse assim: "Eu não consigo
pensar em nenhum problema filosófico a não ser de um ponto de vista religioso, não é claro? E vocês não vão encontrar nada No no nos escritos de Venstein que faça suspeitar do motivo de ele tá falando uma coisa dessa, porque ele não vai falar mais ou quando fala de religião, ele vai falar, ele vai falar para, vamos dizer, para descrever os jogos de linguagem religiosos, para dissolver, por exemplo, determinadas ideias de que o mundo tem de que as culturas têm uma evolução constante, que parte da magia passa pela religião e finalmente, ó, chega, chega na
gente essa coisa linda, A ciência, tá claro? Para dissolver essas ideias que eram comuns ali com Fraser e outros no no no final do século XIX, começo do século XX, o Witstein, ele ele ele vai ele vai analisar o e mostrar, vamos dizer basicamente sempre no mesmo esforço falar, você não pode compreender um jogo fora do seu contexto original. Você não pode compreender. Fala essa gente que gosta de arte africana, gosta de tudo, menos de arte. Impossível gostar de arte africana sem Ser africano. Quer dizer, nem, aliás, eu tenho que saber em primeiro lugar se
para um africano que produziu aquela estatueta tem sentido, algum sentido, a palavra gostar no sentido em que a gente usa e arte no sentido em que a gente usa. Aquilo tem um sentido no contexto original que tá completa. Não é que você não possa gostar daquilo, mas aquilo já não é arte. africana, já não é africano, já não é aquilo que era no seu contexto original. Não existe Uma beleza disponível para toda e qualquer cultura. Não existe um sentido disponível para toda e qualquer cultura. Tá claro? A linguagem não é uma estrutura abstrata lá no
fundo escondida nos confins da não sei qual inconsciente linguístico e que eclode no português e no tagalogue com a mesma força em diferentes maneiras, como se eu pudesse pensar os mesmos os mesmos sentidos que um ianomami pensa, só que Eu penso português e ele pensa na língua dele. como se houvesse uma linguagem, vamos dizer, originária por trás dessa dessas linguagens todas, que nós chamaríamos de pensamento. Pensamento, porque é com maiúscula o pensamento, não. Assim como a estatueta africana, o pensamento, ele é parte de uma sociabilidade, ele é parte de uma de uma de uma rede
de relações nas quais essas Palavras, esses esses sinais surgiram. A linguagem pro segundo Vidgstein, não é mais um espelho isomórfico ao mundo, é um jogo. Os mistérios estão todos aí. Por exemplo, olha o mistério. Eu chego numa loja, por favor, uma mercearia. Não existem mais mercearias, mas existiam na na minha Infância e na e na infância de Vai, certamente. Então, chega na meria, fala: "Eu quero cinco maçãs vermelhas, cinco maçãs vermelhas." Como é possível que quem me ouve compreenda esses sons que não tem nenhuma semelhança com maçã, que não tem cor, que tem mais que
tem mais palavras do do do do do do mais ou menos palavras Do que cinco. O que que existe de comum? Diz, não existe nada de comum por trás. De comum por trás desse sinal. Nós sabemos operar com esses sinais. Eu opero com a palavra cinco, como contando nesse contexto. Em outros contextos, eu operaria medindo com uma régua. Nesse contexto eu opero contando. Como é que eu aprendo a distinguir maçãs de peras? Como é que eu aprendo? Imagine como é que uma criança aprende, porque ele é um Bicho que é capaz de aprender isso. Você
ensina, você pode imaginar métodos mais sofisticados, mas vamos supor, eu coloco, vamos supor, um método bem tosco, né, mas que exemplifica bem o que acontece. Eu ponho a criança numa escolinha para ela aprender nomes de frutas. É, é o que ela tem que aprender agora. Nomes de frutas. Muito bem. Põe ali uma série de frutas diferentes entre si, uma maçã, um melão, uma melancia. E vou apontando pr pra maçã. Maçã, outra Maçã, maçã. Maçã. Se até que a criança aprenda a aplicar a mesma palavra às mesmas frutas que eu que eu aplico. E e quando
não aplicar? Tem duas duas soluções, né? o bombom ou castigo, tá claro? Eu faço uma cara feia, não falo nada com a criança ou então dou uma recompensa, então ah, uma melhor bombom que uma criança pode receber, que é um sorriso, tá claro? É Assim que ela aprende. É assim que um chimpanzé também poderia aprender, tá claro? Por quê? Porque ele tem a capacidade de aprender isso. Um cachorro começa a sair do trilho. Um gato não. Tá claro? Uma taturana de jeito nenhum. Tá claro? Você é são disposições biológicas de comportamento que nós temos para
aprender determinadas coisas. Nós aprendemos a operar a palavra maçã, a operar o som, o som vermelho. Da mesma Maneira. Aprendemos como nessa escolinha, só que em outra classe, e aprendemos a operar com o som cinco. E é por isso que quando eu çoco massas vermelhas, eu ajo da maneira correspondente. É um jogo, tá claro? A linguagem é uma coisa muito profunda. Ela tem uma profundeza, mas é a profundeza da floresta amazônica. Quando eu digo que eu tô que eu que eu tô no fundo da floresta, eu não tô dizendo que eu tô no subsolo, Eu
tô dizendo que eu tô no meio da floresta e não sei como chegar sair dali, tá certo? Por quê? porque eu tô perdido ali no meio. Então o que eu preciso de um mapa que me oriente, que mostre essas conexões imensas que nós aprendemos e que faz com que vocês sejam capazes de jogado comigo nesse momento. Vocês seriam seriam capazes de fazer as perguntas corretas? Vocês são capazes de imaginar objeções adequadas. Vocês são Capazes de concordar? Vocês são capazes de jogar diversas diversos lances desse grande jogo, mas é só um jogo, é só isso. Vejam
que a linguagem no segundo Vidgenstein, ela passa por um processo de humilhação, tá claro? Ela era um cristal, virou pôker. É jogo. É um jogo muito complicado, mas é um jogo. Tá claro? E o indisível? O indisível é indisível. Tá claro? Se eu puder fazer alguma coisa com linguagem para fazer aquilo que ele chamava nessa época de sinalizar o indisível, eu faria duas coisas. Primeiro, eu elegeria dois alvos, dois alvos tradicionais. De um lado, eu eu elegeria o eu, porque é num eu profundo, Anterior ao meu eu psicológico, de alguma maneira atemporal que o ponto
de vista religioso pode se reencontrar para dentro. Um outro ponto, o infinito. E aqui a matemática oferece material abundante. Tá claro? Se eu montar um discurso Que denuncie toda e qualquer tentativa de falar sobre um eu incomunicável, que denuncie toda e qualquer tentativa de falar sobre um infinito incomunicável. Eu não vou tá mostrando que esse eu e esse infinito são são comunicáveis. Claro que não. Eu vou est vou tá, vamos dizer pondo o meu interlocutor diante dessa impossibilidade. Mas não é porque eu ponho diante dessa possibilidade Que tudo que eu disse hoje aqui se torna
menos, digamos assim, atraente, menos instigante. Não é por isso que a gente chega, não deixa de sentir que alguma coisa escapou ao nosso jogo. E volto a falar daquilo e eu volto a me calar sobre aquilo. O livro de Virgem é isso, pelo menos na minha leitura. É uma leitura completamente gêneros, mas eu acho interessante. Eu já vou terminar minha Minha fala falando sobre esse interesse. É um, é um, eu gostaria de ler Witgenstein, o segundo Witgenstein, como um exercício espiritual, ou seja, um exercício que tem como finalidade não fazer análise sobre os jogos de
linguagem que se praticam nos seminários ou sobre, sei lá, que outro jogo de linguagem. na na Inglaterra durante muito tempo, eles eles selecionavam uma lista de de 30 40 palavr termos eh Estratégicos da linguagem, que na opinião deles era estratégico, né? Sem então e fazia uma análise a Laavgenstein desses termos. Isso não é nada mais pouco, vazio, sem sentido do que fazer isso. Deixa que os linguistas fazem. Eles fazem isso muito bem. Vocês não têm ideia da sofisticação com que eles fazem isso. Tá claro? O nosso assunto é outro, tá claro? Aqui a gente estuda
A liberdade humana, a imortalidade da alma, a existência de Deus. É isso que nós estudamos aqui. Tá claro? Se não dá para falar sobre isso, dá para exercitar a linguagem de tal modo que ela liberte a visão que vocês eventualmente têm de algo que transcende a vida da obrigação de descrever aquilo que vocês viram. Eu queria falar sobre mais uma coisa que é sobre essa, vamos dizer, essa relevância da filosofia. Quando a gente chega aqui, a gente chega cheio de ideias, a gente chega cheio de de motivações, a gente chega cheio de de entusiasmo, cheio
de planos e cheio de inquietações genuínas. E vai ser preciso, vai ser necessário Que eu e todos os meus colegas, né, calemos a boca de vocês, porque vocês falam disso de uma maneira muito superficial, muito desatenta, muito descuidada. E vocês têm que aprender a falar disso de uma maneira rica, de uma maneira interessante, de uma maneira profunda. Mas se eu fosse deixar um conselho a todos vocês, é não abandonem essa motivação, porque sem isso, esse exercício todo que Vocês vão aprender com conosco é um exercício útil, é um exercício inútil, é um exercício sem sentido.
Tá claro? Cada um de nós tem uma questão. Para mim sempre foi desde criança, a existência de Deus. É isso que eu sempre estudei. É isso que eu sempre quis saber. É disso que eu sempre quis falar. Mesmo sabendo que não dá para falar sobre isso, mas procurando estratégias para dar cidadania A essa ideia na minha cultura, não é claro? E é isso que eu acho que cada um com o problema que vocês têm, que não precisa ser esse para muitos. Por exemplo, o problema do relativismo é um problema fantástico, né? O problema da da
o o o o problema da alma, um problema fantástico. São todos problemas. Não abandonem esses problemas, ou seja, não se deixem levar excessivamente por nós. não servem isso, porque é isso que vai Dar a sofisticação que eu espero que vocês adquiram, uma um pano de fundo genuíno, um solo genuíno, que torne esse discurso, se não verdadeiro, se não significativo, pelo menos importante. Muito obrigado. [aplausos] Bom, a salva de palmas torna desnecessárias as minhas palavras, mas mesmo assim eu vou dizer algo aqui. Eu queria agradecer o João pela aula Instigante, excelente, clara e que abre tantos
horizontes e possibilidades para todos nós. Bom, com ela agora encontram-se abertas as atividades didáticas do ano, não é? em nome do Departamento de Filosofia, eu desejo aí um excelente ano a todos nós, particularmente aos aqueles que estão ingressando, não é? E eh nos encontraremos aí ao longo do ano. E bom ano aí para todos nós. E mais uma vez obrigado, João. >> Segunda-feira tem tabela de verdade lá. Eu fiquei feliz saber disso, né? Não, agora Obrigado.