Você contou que quando você teve seu primeiro cartão de crédito, ele te quebrou. Você não é um caso exclusivo, não. Eu acho que todo mundo que teve o primeiro cartão de crédito com o primeiro se quebrou e depois aprendeu a fazer isso.
Você acha que que pro Brasil ou de forma geral falta essa educação financeira? É comum as pessoas não entenderem o mercado, entender o crédito, entender débito, as consequências disso? Não, que falta educação financeira, com certeza falta.
Eh, só que isso tudo é estrutural, né? Assim, primeiro que os juros são cobrados no Brasil são abusivos, né? São distorcivos até, né?
Eu diria até eh, é um verdadeiro roubo. Quando você pega pega da classe média para baixo, os os operadores de cartão ou os bancos é legalizada. É, você pegar e analisar a taxa de juros dá mais de 500% ao ano, né?
Então, já falou várias vezes aqui, não pega dinheiro com banco, pega com idiota. Fale aí, pega o idiota só vai te bater. O banco ele vai acabar com sua vida, não entendeu?
Antes de você apanhar aí tem que acabar com sua vida eternamente. Eu costumo fazer uma análise assim mais eh mais macro, né? Principalmente porque eu tenho estudado bastante isso.
Quando você a gente olha esse problema específico do cartão de crédito, você tá você tá olhando só uma cena, né? A gente tem que olhar o filme inteiro, né? Sim.
Então, quando você olha só a cena do cara ganha mal, não consegue fazer frente, que a grande maioria da população, na realidade não é nem um consumismo no cartão de crédito. Você vê muita gente utilizando o cartão para sobreviver, salário acaba antes, aí o cara, né, vai comprar, precisa, pagou o aluguel, não sobrou dinheiro para fazer alimentação, ele vai lá no, faz compras com cartão de crédito e ele começa a entrar nessa bola de neme, né? Eh, essa é a cena que a gente tá vendo e a gente acaba culpando individualmente a pessoa porque ela entrou nessa situação.
Aí quando você olha a estrutura da economia como um todo, eh, isso de alguma forma você tá estorquindo as pessoas de classes mais baixas para transferir esse dinheiro para as classes mais altas, para elite dominante, que é o famoso capitalismo financeiro, né? Então você tem um país com essa estrutura de extrema desigualdade, igual existe no Brasil, propicia com que o capital financeiro consiga extrair mais riqueza do que extrairia num país mais igual ou num país mais desenvolvido, né? Então, de alguma eh quando você olha a estrutura do do nosso país ou de qualquer país capitalista que tenha essas características nossa brasileira, eh você vai ver que a o grande recurso, a grande riqueza é drenada das classes mais pobres em direção às classes mais ricas, né?
Então eu falo assim, quando você olha só cena, obviamente você tem que dar educação financeira, tal, mas as pessoas têm uma estrutura de remuneração muito baixa que não deixa com que E aí vem o o grande capital vem para prover, né? Pô, acabou o seu salário aqui na no dia 10 do mês, né? né?
Tem 20 dias. Toma aqui um, toma um cartão aqui para você usar, um cartãozinho para você usar engraçado. É porque a gente vai em outros países e vê que isso não é permitido.
Por exemplo, você for numa Argentina, você não consegue ter um cartão lá para você fazer uma dívida de 10 meses que aquilo lá. Você for num até num vizinho aqui no Paraguai, você tiver um cartão ali, é débito ou em uma vez. Aqui no Brasil os governos permitem que você faça compras de 24, 36 vezes no cartão e depois tem toda essa extorção.
Essa taxa de juros, né? Se a gente você, você entrar hoje a gente compra muita coisa pra internet. Se entrar em sites fora do Brasil para comprar as coisas e se você for um residente naquele país ou tiver um cartão, você vai ver e for permitido, né?
Eh, esses equipamentos de audiovisual que eu tenho um estúdio em casa, você vai comprar, você entra lá na famosa BH foto, né? fica em Nova York. Se você tiver um cartão Américas, você pode parcelar, mas você vê que a taxa de juros é ridiculamente inferior a nossa também.
Eh, e não justifica, porque hoje a taxa de juros no Brasil é no nos Estados Unidos é 4%, aqui é 14. Eh, só que quando você financia o negócio lá dá 15%, 20% no ano. Uhum.
E aqui se você financiar dá 500% no ano. Não dá se você deixar de pagar o cartão de crédito, né? Então, eh, é uma estrutura assim muito, muito perniciosa, sabe, na economia para para drenar recursos das classes mais pobres, né?
Essa essa essa organização que a gente tem aqui, essa sistematologia de o pobre não conseguir vencer, né? Eh, eu falo pagar todas as contas no final do mês e terminar o mês sempre endividado. Tem uma proposta nova aí que é tipo o empréstimo do FGTS.
Se a pessoa não tá preparada e entrar nessa, é mais uma armadilha. Sim. Ou não?
Ou essa é uma proposta diferente, já que o dinheiro, vamos entender, é como se o dinheiro fosse meu e o banco tivesse me emprestando. Tem alguma diferença sobre isso? Do que?
Na realidade, assim, quando eu eu olho estruturalmente, é uma armadilha, porque na realidade o que a gente precisa fazer em termos de economia, na evolução da economia do país, é propiciar que as pessoas não precisem tanto de crédito. Você precisa de crédito para fazer um investimento, né? Ah, eu preciso comprar uma casa, preciso trocar meu carro.
Até aí eu acho que faz sentido e você ter taxa de juros mais civilizadas, né? Mas o cara precisa fazer compra de mercado, né? Precisa pagar conta.
E você vê que as operadoras elas vão abrindo essas brechas, né? Hoje, se se quiser pagar a sua conta de energia com cartão de crédito, você pode, você entrar no site, seu banco, ele deixa pagar seu aluguel, você pode pagar os boletos com cartão de crédito. Então ele vai abrindo essas facilidades.
Mas se você for comparar, compara, eh, são exemplos simples, né? Eh, como que era feito na época da escravidão, depois que os aboliu a escravidão. Eu sei porque tem uma tem um filme até que é o protagonista é Antô de Fagundes, se chama Gaidin.
Conta que quando os japoneses chegaram no Brasil, eles também passaram por uma certa escravidão. Sim. Que até hoje existe em alguns rincões aí existe.
De vez em quando Ministério Trabalha você vê desmantelando. Uhum. Que o cara contrata você para na fazenda.
Nesse filme mostra, né, umas famílias japonesas, imigrantes que vieram tá lá trabalhando nas fazendas. teoricamente recebe, tem um salário, só que ele tem que morar na fazenda, tem que comprar na fazenda dono. Aí o dono fala, ele tem que comprar no mercadinho da fazenda, ele tem que o aluguel tem que pagar porque ele mora na fazenda, tal.
E aí no final do mês sempre chega lá e não bateu. Tá devendo. Você tá me devendo.
Eu sou fazendeiro. Falou: "Não, você tá me devendo aqui X de aluguel, você comprou o mercadinho XX, tá me devendo e tem a água que você usou, põe tudo ali, seu salário, sei lá, é 1000. Aqui deu R.
Você tá me devendo 500. Você nunca vai sair. Vou trabalhar outro.
É isso. Qual que é a diferença do que a gente tá falando hoje? Hum.
O cara tá trabalhando, ganha um salário mínimo e o grande capital faz o que com essas pessoas? Você passou o mês e sobreviveu. Só que para sobreviver usou 20 dias aqui do cartão de crédito.
Você tá me devendo. Você tirar a complexidade que é a financierização da economia para essa época da escravidão, é a mesma. É a mesma coisa que é feita com a sociedade.
Sim. Entendeu? Então o o que que a gente tem que fazer com que as pessoas tenham renda suficiente para sobreviver de forma decente.
E sobreviver que eu falo não é só pagar as contas, se alimentar. As pessoas tem que ter direito a lazer, tem que ter direito à cultura, tem que sobrar um dinheirinho para ele ir na ir no cinema com a família, ele passear no parque e ter como lanchar no final da semana. A maioria das das pessoas de classe baixa não tem essas condições.
O dinheiro que ela tem não consegue pagar nem as contas do mês. Quando você começa a enxergar as coisas desse jeito, você fica mal. Fico mal.
E acho que por isso que a gente tem que elucidar isso, né? Tem que botar isso as claras para que as pessoas tenham essa consciência. Porque tem muita gente que não enxerga isso, né?
Mas a hora que começa a enxergar dá um dá um malestar assim, né? Sim. O que o sistema financeiro hoje, que a financeiriação, o que o sistema financeiro hoje faz é exatamente o que fazia nessa época da escravidão.
Então, mas os grandes pessoas estão escravizadas, os grandes vilões são os bancos, realmente, é o é vamos falar, é omissão do governo, é a falta de oportunidade, de onde onde surge o primeiro mal pra gente centralizar, pensar assim, nossa, essa é a nossa ideia principal, isso aqui é a primeira vertente que a gente tem que trabalhar, é porque na realidade isso tudo só é possível porque não tem consciência política. Nós enquanto sociedade, nós não temos consciência política. A gente não consegue enxergar isso.
Então, o que a gente tem que fazer é despertar essa consciência de que existe um modelo econômico, existe um sistema que faz com que todo mundo esteja preso nessa armadilha. Você não saia igual o cara lá na fazenda, não saio, vou sair, vou para onde? Se eu sair, a outra fazenda faz a mesma coisa, né?
Vou ter que ficar aqui, vou ter, vai ficar trabalhando no resto da vida sendo escravizado. O que a gente tá fazendo na sociedade é exatamente isso, né? E aí quem é o detentor do capital quer que esse modelo perdure, não é bom para ele, né?
Então se pegar desde a década de 80 para cá, a concentração de riqueza só aumenta. Mas o cara da fazenda só sai de lá lutando com o fazendeiro, né? Exatamente.
A gente vai ter que chegar nesse ponto, então a gente vai ter que lutar com capital. Yeah.