Olá, meu nome é Alexandra, eu sou professora do departamento de psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo, trabalho com a discussão das temáticas da saúde, da saúde coletiva, saúde mental, suicídio. Para além dessa minha trajetória na universidade, eu também atuei como servidora do município de Vitória num Centro de Atenção Psicossocial por 8 anos. Então, faço essa discussão da temática do nosso encontro de hoje, que é saúde mental, desse lugar de professora, de docente que tem estudado essa temática, mas também de uma profissional que trabalhou diretamente com cuidado em saúde mental.
Vamos trabalhar o conceito de saúde mental por entendermos que trata--se de um conceito importante para as discussões do luto. Importante que vocês saibam de que saúde mental a gente está falando quando o termo comparecer ao longo do curso. E para gente falar de saúde mental, que trata--se de um conceito tão amplo, consideramos importante também trazer os entendimentos de saúde que foram se desenvolvendo ao longo do tempo e estão presentes ainda hoje.
Na verdade, eles coexistem, a gente não fala da superação de um conceito ao outro, mas que eles estão presentes, coexistem e orientam as nossas práticas. Então, a depender do conceito que se tem de saúde, de mundo, de sujeito, as práticas serão orientadas em um ou outro sentido e a gente vai vendo isso ao longo das nossas discussões ao longo desse momento, desse nosso encontro de hoje. O primeiro conceito que a gente vai trazer, a gente pode dizer como um dos mais antigos, é o conceito da saúde como ausência de doença.
E o que representa e não só representa, mas representou pro campo da saúde mental? É uma focalização na doença, uma focalização no saber psiquiátrico, na verdade psiquiátrica, isso significou uma certa exclusão, uma certa restrição das possibilidades de cuidado em relação às outras formações, às outras categorias, aos outros saberes e não só uma restrição dessas possibilidades de cuidado, mas também uma obstrução, vamos dizer assim, uma tentativa de apagamento desse sujeito já que o enfoque é a doença, já que o enfoque é a saúde. E o que isso representa?
Isso representa pro próprio cuidado uma perspectiva de cura, que no caso da saúde mental fica comprometida, porque a gente não fala dessa perspectiva de cura, mas de cuidado. Então, nesse sentido, a gente restringe as possibilidades de cuidar daquelas pessoas que sofrem. É como se fosse uma doença que porta um sujeito, então, a doença vem antes do próprio sujeito.
A gente considera, centraliza essa perspectiva, esse olhar para a doença restringindo, então, a abordagem psiquiátrica e a exclusão restringindo a possibilidade do sujeito compor nesse cuidado de saúde mental com as suas perspectivas, com a sua história, com o que faz sentido para esse sujeito. E nesse movimento, no que representou essa concepção para as práticas de cuidado a gente tem uma movimentação no sentido de trazer, enunciar um outro entendimento sobre saúde. Na década de 1940, a Organização Mundial de Saúde vai trazer um outro entendimento para a saúde, como um estado de completo bem-estar físico, mental e social.
Isso é de uma grande importância pra área, a gente tem uma expansão da perspectiva do próprio cuidado, porque a gente engloba para além do biológico, o mental e o social, para se pensar o cuidado. No entanto, também traz uma problemática importante quando utiliza esse termo de completo bem-estar. O que representa isso?
Representa uma idealização de algo que é irreal, que a gente não pode alcançar, que seria esse completo bem-estar físico, mental e social. Além disso, a gente tem como repercussão da prática, por isso, que eu tinha dito no início que essas concepções vão orientar as práticas em sentidos diferentes, então, a gente tem uma busca acelerada, desenfreada por um bem-estar que é irreal, que é padronizado para todos, que repercute uma hipermedicalização, uma hiperdiagnosticação das situações do cotidiano que afetam a vida das pessoas que falam da sua saúde mental, do seu sofrimento psíquico. Da mesma forma como esse conceito foi trazido a partir de movimentações, questionamentos, problematizações em relação ao primeiro conceito que eu coloquei expus aqui para vocês, as repercussões desse conceito de saúde como completo bem-estar físico, mental e social também comparece essa problematização, essa movimentação no sentido de repensar esse conceito.
E a gente tem figuras como Franco Basaglia, que é uma referência pra saúde mental, trazendo outras questões que conversam com essa discussão da saúde, questões de cidadania, de inclusão social e das singularidade do sujeito. O que significa? Uma composição de pensar a saúde com esse sujeito, com o contexto que ele traz, quais os sentidos de vida que ele construiu ao longo dessa história e também os outros setores e atores sociais para pensar esse cuidado.
Então, a gente fala de uma saúde que se relaciona com lazer, transporte, moradia, saneamento básico, todos esses elementos que pra área da saúde coletiva vai ser denominado de conceito ampliado de saúde. Então a gente tem ali uma entrada dessa história, desse sujeito, deste contexto para se pensar a condição, o processo, melhor dizendo, o processo saúde e doença desse sujeito. Quando a gente for trabalhar esse entendimento, essa concepção de saúde, a gente não traz qualquer perspectiva de padronização de uma saúde ideal, idealizada e nem a associação direta a uma patologia.
A saúde mental diz da possibilidade de como cada um se reinventa diante das adversidades desse contexto, que vão ser formas diferentes, tempos diferentes a partir, inclusive, das relações que essas pessoas estabelecem com a realidade, aquela vivência em específico que se configura na vida dessa pessoa naquele tempo e espaço. Então, não perder de vista isso, que a saúde mental que a gente está trabalhando é uma saúde que trabalha a questão da inventividade desse sujeito no lidar e que não necessariamente a gente fala de uma patologia instalada, mas dessa perspectiva mais ampla que engloba, corresponsabiliza vários atores sociais, setores e o próprio sujeito em pensar o seu processo de cuidado e a sua condição de saúde doença. A gente encerra aqui a nossa discussão específica sobre o conceito de saúde mental que a gente articulou os entendimentos de saúde, lembrando que esses entendimentos coexistem e, por isso, que a gente precisa colocá-los em constante análise para pensar em que práticas estão sendo efetivadas a partir desses conceitos.
Muito obrigada!