Hoje nós vamos falar sobre 45 traços autísticos que são mais prevalentes em meninas e em mulheres, lembrando que, quando nós falamos sobre o espectro feminino, sobre a apresentação feminina do autismo, nós não estamos pretendendo criar um novo diagnóstico, nem estamos fugindo dos critérios estabelecidos descritos pelo DSM-5-TR e pela CID-11. Não é nada disso! Mas, como em outras condições, a apresentação do autismo pode ser bastante diferente em meninas e mulheres, né?
Hoje em dia se fala em pessoas designadas como meninas ao nascer, então é sobre isso que nós vamos conversar. Um outro detalhe é que muitos rapazes podem se identificar com essas características listadas. Está tudo bem!
O vídeo não tem intenção de ser sexista; pelo contrário, a nossa comunidade é muito inclusiva e são todos bem-vindos aqui. Vamos lá, a nossa listinha de 45 traços autísticos mais prevalentes, mais observados em meninas autistas. O primeiro desses traços é a habilidade em fazer camuflagem social.
Então, nós sabemos, por estudos observacionais, que as meninas tendem a se assimilar ao grupo e, por isso, talvez os adultos não percebam as características atípicas delas. A menina tende a mascarar os seus traços autísticos, as suas atipicidades, esconder as suas estereotipias, por exemplo. Então, é mais uma barreira ao diagnóstico.
Nós temos também, hoje em dia, estudos de neuroimagem mostrando que o cérebro da mulher autista é bastante diferente nesse ponto. Então, parece ser configurado para compensar, para aprender habilidades sociais, e isso parece excelente, né? Então, parece uma grande vantagem.
Parece até contraintuitivo, mas acontece que a configuração dela, essa compensação, ocorre de forma analítica. Então, há uma diferença entre o cérebro da menina autista e do menino autista (no caso, o estudo foi feito com adultos). O segundo ponto é que o hiperfoco das meninas autistas pode ser mais compatível com o das meninas neurotípicas.
Então, talvez não seja tão destoante como acontece no caso dos meninos, que às vezes têm hiperfoco em trens, em dinossauros, em insetos, e isso chama muita atenção. Mas, no caso das meninas, pode ser um hiperfoco em literatura, em moda, bichinho de estimação, material de escola, papelaria. É bastante comum, e isso realmente não tende a chamar muita atenção.
O terceiro traço autístico, bastante observado em meninas, é a dificuldade para manter amizades próximas. Então, claro, as pessoas autistas naturalmente tendem a ter essa dificuldade de cultivar as amizades, mas, em uma avaliação superficial, se você pergunta a menina autista se ela tem amigos, é bem provável que ela diga que sim. Mas, quando nós nos aprofundamos, fazemos outras perguntas, talvez, no caso da menina autista, ela diga que só encontra aqueles amigos na escola, que ela não sai com ninguém, que ela não dorme na casa, por exemplo, de uma amiguinha, que não faz, às vezes, trabalho em grupo, prefere ter a sua privacidade e acaba não tendo o cultivo mesmo de relações mais próximas.
E talvez tenha até dificuldade de manter essas amizades porque ela não entende os conflitos sociais, não entende, às vezes, o sarcasmo, as brincadeiras das meninas. Então, tem dificuldade mesmo de se sentir pertencente. Isso nos leva ao quarto ponto de dificuldade, um traço observado em meninas autistas, que é a sensibilidade emocional bastante elevada.
E, às vezes, a gente percebe essa sensibilidade diante de conflitos sociais que, naturalmente, são resolvidos entre as meninas. Elas brincam, às vezes, brigam, ficam de mal e resolvem, mas tudo costuma ser muito dispendioso, muito desgastante, ansiógeno para a menina autista. Nós, inclusive, vamos ver isso no filme Geek Girl, na série que está na Netflix, que a Harot não sabe quando a amiga está realmente brigando.
Se elas estão discutindo, inclusive, ela pergunta literalmente, objetivamente: “Nós estamos discutindo? ” E a amiga precisa dizer sim ou não. E esse é um ponto; ela fica muito aflita, muito sensibilizada por essas questões.
O quinto traço, bastante observado em meninas autistas, é a dificuldade de entender a linguagem corporal das outras pessoas, de captar as pistas sociais, de utilizar também uma linguagem corporal que seja compatível com a mensagem verbalizada. E, por isso, existem muitos conflitos, às vezes, ruídos de comunicação. Talvez ela faça um compartilhamento exagerado das suas ideias, dos seus pensamentos, hiperfocos ou “sharing”, porque não compreende, não percebe que o outro está entediado, que já não quer ouvi-la mais.
Isso fica claro, por exemplo, na série Uma Advogada Extraordinária, porque a personagem fica o tempo inteiro querendo compartilhar, falar sobre as baleias, que são o hiperfoco dela, mas nem sempre é o mais adequado. O sexto traço é ter preferência por rotinas e por previsibilidade. Isso acontece bastante com a maior parte dos autistas, só que as meninas tendem a ser mais flexíveis na infância e, ao longo da adolescência e fase adulta, talvez elas fiquem menos flexíveis, fiquem mais rigorosas.
Mas essa inflexibilidade na infância e a dificuldade com mudanças talvez não sejam tão claras; só que ela pode se sentir muito ansiosa quando a rotina é alterada, quando um caminho é alterado. Mas, nem sempre, ela fala sobre isso; ela apenas fica aflita, fica nervosa, cansada, sobrecarregada. E aí, mais tarde, às vezes, ou por conta dos outros traços que nós vamos saber, que é o autismo.
O sétimo traço é dedicar muito tempo aos seus hobbies, que na verdade são seus interesses especiais, como leitura, escrita, artesanato. Só que isso acontece de maneira muito diferente das crianças neurotípicas; é muito mais intenso. Então, se a menina está hiperfocada em leitura, talvez seja até uma hiper, e ela pode ficar muito tempo enclausurada no quarto, escrevendo, crocheando.
E como nós vamos saber que isso é mais intenso? Porque a menina neurotípica pode até gostar de unicórnios, mas ela não vai ficar o tempo inteiro alinhando, observando os bichinhos, dando aula para os unicórnios, não vai pintar o seu quarto inteiro com aquele tema. E no caso da menina autista, se ela crocheta, por exemplo.
. . Às vezes, vai fazer uma co longa cobrir o quarto inteiro com objetos que ela faz e passa muito tempo realmente dedicada àquele interesse.
O oitavo traço é a dificuldade para interpretar o sarcasmo e a ironia. Então, também nada de novo aqui, né? Ainda estamos falando sobre o autismo, só que a partir dessa diferença, muitas vezes os meninos recebem um diagnóstico, vão passar por uma avaliação, e as meninas não.
Elas vão ser vistas socialmente como bobas, como engraçadas; elas vão ganhar rótulos sociais e não o diagnóstico adequado, o suporte que precisam. E o problema é que, diante dessa dificuldade para entender o sarcasmo, as piadas, o deboche, talvez ela se torne chacota, e o comportamento compensatório passa a ser o silêncio, fingir que está entendendo o que as outras pessoas falam, mas, na verdade, por dentro, ela fica muito confusa e extremamente ansiosa. O nono traço é a hiperreatividade sensorial; faz parte do critério B.
Então, nem todos os autistas têm essa característica, essa dificuldade, mas a menina pode ser realmente muito sensível a determinados tecidos, barulho muito alto, ar condicionado, luzes muito brilhantes. Às vezes, o autocuidado é complexo. Outra pessoa cuidando dela, penteando o cabelo, pode ser muito difícil.
Então, acontece das meninas autistas se tornarem independentes bem precocemente, porque elas querem fugir da outra pessoa que às vezes puxa o cabelo ou vai dar banho, e ela se sente mal, ou vai vestir a roupinha nela; ela também não gosta que encoste. Mas, novamente, talvez isso não seja visto como autismo em meninas, como um sinal de alerta, e por isso o diagnóstico tardio nas meninas autistas. O décimo traço é a dificuldade para iniciar e manter as conversas, e esse é um traço imprescindível para o diagnóstico do autismo, fazendo parte do critério A.
Então, todos os três aspectos precisam ser observados para que se fale em transtorno do espectro autista. Só que, muitas vezes, esse sinal não vai ser observado em meninas, porque elas tendem a ter maior motivação social. E maior motivação social não significa maior traquejo também, então, muitas vezes, elas vão se sentir desconfortáveis ao iniciar uma conversa.
Talvez alguém faça uma pergunta, e ela tem uma dificuldade de processar, elaborar uma resposta. Então a resposta, a interação, fica muito picotada, e a pessoa, o interlocutor, às vezes abandona a conversa. Muitas vezes, ela fica em silêncio, só se mantém próxima ao grupo, mas, na verdade, não está incluída, e isso tudo causa extrema dificuldade e muita confusão, novamente, e mais ansiedade.
O 11º ponto é ter foco em detalhes. Então, os meninos também costumam ser muito detalhistas, e as meninas autistas às vezes vão passar muito tempo, vão passar horas olhando pequenos detalhes, minúcias, colecionando alfinetinhos, clipes, coisas muito pequenininhas. Às vezes, têm memória excelente também, e aí as pessoas sabem que ela observou os detalhes porque comenta, e às vezes isso aparece como crítica também, pela transparência.
Talvez não seja um comportamento adequado, ou socialmente aceito. O 12º traço é a dificuldade em lidar com as críticas. Então, ela pode se sentir extremamente magoada, ficar muito ressentida, às vezes se isolar ou ficar em silêncio, muito ansiosa, se ela tiver um feedback negativo.
Isso acontece às vezes na escola, da nota não ser excelente, e aí a menina fica magoada, fica triste e não consegue superar tão rapidamente aquela questão. Se tiver um feedback, também, né, alguma crítica na família, isso pode ser bastante difícil. O 13º traço é ter o comprometimento nas habilidades motoras finas e grossas, e isso aparece também na série "Geek Girl", em que a Harriet tem dispraxia.
Ela tem um transtorno motor, por isso parece desajeitada, tropeça nas coisas, esbarra nos objetos, cai com muita frequência. Às vezes, a pessoa tem dificuldade nos esportes, e aí a menina foge das atividades físicas. Ela pode ter dificuldade com a letra, né, a disgrafia, e tudo isso pode ser um grande problema.
E, inclusive, também costuma afastar a menina do diagnóstico preciso, porque, quando ela vai a uma clínica, passa pela avaliação, isso acaba desviando o raciocínio clínico, enquanto o contrário acontece com os meninos. Se os meninos têm a dificuldade motora, muitas vezes eles vão ser avaliados e vão receber o diagnóstico de autismo. Então, aí está mais uma diferença: nem sempre é na apresentação, mas na interpretação que nós fazemos como profissionais dessas características.
O 14º traço é a dificuldade para entender as regras sociais que não são escritas, que não estão extremamente claras. Por exemplo, a menina pode não perceber as normas sociais que estão implícitas no discurso, que se espera em um ambiente diferente. Por exemplo, quando a gente entra em um museu, quando a gente vai a um casamento, quando a gente está em diferentes contextos, existem regras já implícitas de comportamento e conduta naqueles ambientes, e talvez ela não perceba.
Então, apesar de ter maior motivação social, apesar de parecer mais sociável, de parecer fluir melhor nesses contextos acadêmicos e em outras situações, ela precisa que tudo seja transparente, muito bem estabelecido, né, que essas regras sejam ditas. O 15º traço é a preferência por atividades solitárias. Não à toa, às vezes, por essa série de frustrações, a menina se retira, perde a motivação social, e aí ela pode se sentir mais confortável lendo um livro, assistindo a uma série, estudando sozinha, desenhando, do que na presença de outras pessoas em um grupo social.
Tem estudos mostrando também que estar em um grupo social pode ser bastante ansiogênico para os meninos e para as meninas autistas, e isso tende a ser menos ansiogênico para as meninas na infância e mais ansiogênico para os meninos na infância, e o contrário acontece na adolescência. O 16º traço é a dificuldade para expressar as suas emoções. Então, a menina pode sentir alegria, tristeza, todas as emoções possíveis, mas uma parcela significativa dos autistas tem.
. . Uma condição que chama a atenção para Alex é uma dificuldade justamente de identificar, reconhecer, nomear e expressar as suas emoções.
E na menina, isso pode aparecer de maneira diferente, porque talvez ela não expresse alegria com a felicidade do outro, talvez ela não manifeste também a tristeza ou uma certa frustração. E aí ela vai se sobrecarregando porque não respeitou essas emoções. E, aí, talvez essa dificuldade de expressar emoções apareça no corpo novamente, como ansiedade.
Por isso, às vezes a menina fica tão sobrecarregada, tão exausta, e não compreende direitinho o motivo. E nós, como profissionais, precisamos fazer uma alfabetização das emoções, usar diversos recursos para facilitar o reconhecimento e também a dinamização dessas emoções. O 17º traço é a dificuldade para entender o humor das outras pessoas e também expressar o seu próprio humor.
Então, aqui é um pouco diferente da ironia e do sarcasmo, mas a menina pode não entender as piadas e, talvez, ela conte piadas que acha engraçadas ou histórias que, muitas vezes, são inapropriadas para aquele momento; talvez sejam muito literais, muito transparentes ou, às vezes, muito específicas daquele hiperfoco. Então, as pessoas não vão entender e isso não vai ser humor para elas, não vai ser engraçado. O 18º ponto é ter movimentos repetitivos e estereotipados escondidos.
A menina pode, por exemplo, balançar as mãos às vezes ou ficar batucando os dedinhos ou ter estereotipias clássicas; só que ela vai nos contar que faz isso no próprio quarto ou no banheiro quando precisa. O 19º ponto é a dificuldade em entender os relacionamentos e também os limites desses relacionamentos. Esse é um traço clássico do autismo, mas muitas vezes na menina aparece como vulnerabilidade.
Talvez ela compartilhe demais informações; talvez exponha a vida pessoal para pessoas que não são realmente amigas ou para um namorado que não é realmente confiável. Então, isso a deixa vulnerável, mesmo a relacionamentos tóxicos, e, às vezes, a problemas, intrigas. Muitas vezes as pessoas colocam a culpa de fofoca no nome da menina autista.
Então, apesar de ser um traço clássico, isso costuma aparecer também novamente como ingenuidade ou, às vezes, como falta de inteligência e não como autismo. O 20º traço é a preferência por se comunicar de forma direta, transparente e bastante honesta. Inclusive, vocês me falaram que essa é uma razão de orgulho e é um ponto que agrada vocês no autismo, só que, às vezes, a pessoa corre o risco de ser delicada, porque também vai falar de maneira muito direta sobre coisas ou vai falar sobre aspectos físicos da pessoa.
Tem um caso da garotinha que recebeu uma bicicleta de presente dos pais e, aí, a tia brincou — era uma tia adulta e obesa — e ela disse: "Ah, eu vou andar primeiro, vou andar antes de você na bicicleta. " E ela falou: "não, você não pode porque você é grande e pesada. " E não era uma inverdade, mas era algo que ela não deveria compartilhar naquele momento, já tinha idade para perceber que aquele não seria um comentário elegante.
O 21º ponto é a dificuldade em entender interações e motivações dos outros. Mais uma vez, é a dificuldade de captar as pistas sociais. Por exemplo, talvez ela não perceba quando alguém está tentando tirar vantagem, tentando manipular uma informação, uma situação.
É bastante comum que a menina autista passe por gaslighting por muito tempo, sem saber. O gaslighting é quando alguém manipula a sua realidade, nega o que você está vendo, e, talvez, ela confie tanto na outra pessoa que pode ser um membro da família; às vezes, é o namorado mesmo, é uma situação de um relacionamento romântico, e isso faz muito mal à pessoa. O 22º ponto é a habilidade excepcional para alguma área específica.
Então, o autismo pode vir junto com a superdotação, com as altas habilidades. Então, a menina pode ter uma memória extraordinária, pode guardar informações muito precisas, números também, e geralmente essa memória está relacionada ao seu interesse especial. E, como no caso da menina, ela tende a ter esses interesses mais típicos dos pares; talvez essa habilidade não seja tão observada ou também não seja associada nem às altas habilidades nem ao autismo.
O 23º traço é a dificuldade para entender hierarquias sociais. E esse ponto é muito interessante porque, às vezes, a menina autista vai ser vista como muito confiante, corajosa, determinada, decidida, destemida, porque ela conversa com todas as pessoas, porque ela faz uma pergunta para um professor que tem a fama de malvado ou bravo; com o chefe, talvez ela fale como se estivesse falando com uma colega de trabalho. Na escola, isso aparece de maneira muito peculiar, porque as meninas populares geralmente ficam mais sozinhas e as pessoas não têm nem coragem de conversar com elas, e a menina autista, ingenuamente, pode se aproximar, sentindo-se amiga, ou não percebendo essa hierarquia social.
E, aí, ela vai ser excluída muitas vezes; as pessoas vão debochar também e, novamente, não é autoconfiança, nesse caso, é o autismo, a dificuldade para compreender as pistas sociais. O 24º traço é a preferência por ambientes previsíveis e estruturados. Novamente, essa é uma característica bastante prevalente em pessoas autistas e, nas meninas, isso pode aparecer como a tendência, por exemplo, no trabalho a querer fazer um concurso público, porque ali elas sabem que vão ter a estabilidade, que vão ter as regras todas muito previsíveis, muito claras, em vez de ter um trabalho autônomo em que ela precisa criar os próprios objetivos e seguir, arriscando a sua agenda.
Talvez ela prefira estar nesse ambiente mais estruturado; ela vai se sentir mais confortável quando as regras e as expectativas estão bem definidas e ela está de certa maneira protegida por essa estrutura. O 25º traço é a dificuldade para entender e expressar as emoções mais complexas. Então, se já é difícil expressar as emoções.
. . Básicas, aquelas que aparecem no filme "Divertidamente": alegria, tristeza, raiva.
Então, se já é difícil conseguir nomear, expressar e elaborar essas emoções, imagine dizer ao outro que ela está frustrada ou sentida porque alguém não cumpriu as expectativas ou ultrapassou determinados limites. Ou então, para explicar o entusiasmo que ela sente com um filme ou um livro; isso pode ser bastante complexo. E novamente, nós entramos aqui na alfabetização das emoções e também nos recursos, como a roda das emoções e os quadros explicativos.
Temos vários recursos para conversar sobre esse tema, e isso ajuda muito a ter essa perspectiva e também a observar as nuances de cada emoção. O 26º ponto é a tendência a falar de forma muito monótona ou, às vezes, de maneira um pouco atípica. E aqui, nós não estamos fugindo dos critérios; a comunicação não verbal costuma ser atípica; esse é um critério – um ponto imprescindível para o diagnóstico.
E, no caso das meninas, às vezes, a entonação e o ritmo da fala vão ser diferentes porque elas estão imitando um personagem. Então, isso pode não chamar atenção, porque as pessoas imaginam que seja uma brincadeira. Ou, então, acontece também que a menina fala de uma maneira muito formal, muito elegante, como se fosse uma princesa.
Aí, talvez, esse ponto seja até socialmente valorizado. O 27º traço é a dificuldade para passar pelos períodos de transição. E o próprio DSM-5 fala que, às vezes, o autismo está relativamente estabilizado, que os traços não se manifestam com tanta intensidade.
Então, nós não vamos observar dificuldades tão intensas, mas, quando as demandas sociais excedem os limites da pessoa, aí o autismo pode se manifestar de forma mais clara. Nós percebemos isso quando a menina entra na escola, às vezes na puberdade, com mais hormônios. A dinâmica social também na escola se altera; isso pode desestabilizar a menina.
Às vezes no ingresso à faculdade ou à maternidade, gestação, amamentação – todas essas fases de transição podem ser bastante ansiogênicas para a autista. E, às vezes, o autismo vai aparecer de verdade lá na menopausa. Inclusive, nós falamos isso no nosso livro "Espectro Feminino", que, às vezes, é nesse período, no climatério, que o autismo "quebra" ou "enguiça".
E há artigos falando sobre isso, que, às vezes, a pessoa está estabilizada. Ela criou suas estratégias de enfrentamento, suas estratégias de camuflagem; usa suas habilidades ou atipicidades muito bem no trabalho, na escola ou mesmo na família. Mas, quando tem essa queda hormonal, ao passar por esse período de transição, realmente ela pode não dar conta.
E aí, inclusive, aparecem os traços clássicos numa pessoa que era aparentemente típica. O 28º ponto é ter interesses muito intensos em pessoas específicas. Então, aqui nós não estamos falando sobre objetos, conteúdos ou assuntos de interesse especial; estamos falando de pessoas.
E a menina ou a moça autista pode realmente ficar muito presa, muito vinculada a uma amizade em especial ou a um relacionamento romântico específico. Talvez ela nem tenha esse relacionamento, mas passa muito tempo pensando naquela pessoa, observando, procurando a pessoa na internet. Ela não faz isso por maldade, mas tem dificuldade, às vezes, de se expressar, de mostrar o interesse; talvez ela nem queira aquele relacionamento real.
E, no caso da amizade, esse traço vai aparecer às vezes como ciúme, como ressentimento. Por exemplo, se a amiga, a mediadora dessa menina, vai conversar com outras amiguinhas, com outras colegas, com outras pessoas, e talvez a menina autista não saiba expressar esse sentimento, essa dificuldade, essa frustração. E aí ela vai ficar silenciosa, vai questionar se a outra pessoa é realmente uma amiga.
O 29º ponto é a dificuldade para entender e acompanhar as conversas quando ela está em grupo. E nem precisa ser uma família italiana, com muitas pessoas conversando ao mesmo tempo; as pessoas se entendem e riem juntas. Não, às vezes é um grupo com cinco, seis pessoas, e, talvez, mesmo assim, ela fique muito perdida, ansiosa, excluída.
E essa dificuldade talvez apareça também como sintoma físico. Ela pode ter dificuldade para respirar, pode ficar tonta por sobrecarga sensorial, não apenas sobrecarga social. O 30º ponto, então, é justamente se isolar, se manter longe dessas situações que costumam ser ansiogênicas.
Ela pode tirar a campainha da própria casa; pode não querer aceitar nenhum convite para festas, para celebrações, para eventos sociais. E isso faz com que ela treine menos as suas habilidades sociais, e vai ficando cada vez mais difícil estar nesses ambientes e compreender essas conversas. Então, é um ponto de reflexão.
O 31º traço é a dificuldade para reconhecer e, principalmente, para responder aos sinais emocionais das outras pessoas. Então, a menina e a mulher autista podem não perceber quando alguém está triste ou muito bravo. E aí, naturalmente, elas vão conversar com essa pessoa como se nada tivesse acontecido.
E, às vezes, quando percebem, é muito difícil lidar com as emoções do outro. As mães autistas, às vezes, me falam que o filho chega chateado da escola ou que tem ciúmes. Tem essas emoções fortes, não consegue entrar no banho, não consegue deixar que o cabelo seja penteado ou cortado, e elas não conseguem lidar com essas emoções porque as suas próprias emoções já são fontes de sobrecarga.
Imagina, de repente, algo imprevisível e extremamente ansiogênico vindo de fora; realmente pode ser assustador e drenante. O 32º traço é a preferência pela comunicação escrita. Então, a menina ou mulher autista pode se sentir muito mais confortável se comunicando por e-mail, por mensagem de texto, às vezes por carta.
Talvez ela traga a agenda dela, o diário ou um bilhete. E essa alternativa tem que ser considerada, tem que ser oferecida durante a avaliação também. Às vezes a gente tem uma reunião; nós vamos fazer várias perguntas, vamos querer saber sobre as experiências delas.
As vivências na infância e talvez ela precise de tempo para elaborar e tempo também para organizar as ideias, fazer os tópicos extremamente organizados. E aí, em seguida, apresentar esses pensamentos, né, o que ela refletiu num outro encontro ou, às vezes, nessa comunicação, que vai se perpetuar durante a avaliação ou a terapia. O 33º traço é a dificuldade para lidar com conflitos sociais.
Isso pode ser tão ansiogênico, pode gerar uma sobrecarga tão grande, que muitas vezes a menina autista, a mulher autista, também vai fazer uma fuga radical desses conflitos, de qualquer conversa, discussão que possa parecer um confronto. E aí, muitas vezes, ela cai num comportamento oposto, que é de ser muito passiva, de não estabelecer os seus limites e de não ser respeitada. O 34º traço é ter um interesse intenso e, às vezes, um hiperfoco muito específico em aspectos mais objetivos relacionados ao seu próprio corpo.
Por exemplo, a menina vê um número na balança, ela acha que aquele peso é o ideal. Mas esse traço, essa característica, essa fixação nem sempre está relacionada a um transtorno alimentar, porque ela pode ter uma alimentação relativamente variada, ela pode não ter problema com a sua autoimagem. Não é essa a questão; é o número mesmo.
Então, ela não quer nem abaixar, não quer ficar mais magra, nem quer ganhar peso. A questão é exatamente o número e, por isso, a avaliação precisa ser muito minuciosa. Isso acontece também, por exemplo, com o corte de cabelo, que precisa ser específico exatamente naquele tamanho que ela determinou, às vezes no número que essa moça quer calçar de sapato.
E aí, se ela determinou que é aquele número, não importa se está apertando, se o sapato está mais largo. Isso pode causar prejuízos, inclusive, né, mas se ela determinou que é aquele número específico, ela tende a manter. O 35º traço é a dificuldade para entender e usar também as expressões faciais.
E aqui, novamente, nós caímos nas vistas sociais ou no comportamento não verbal, que pode ser bastante atípico. E aí, talvez a menina aprenda que precisa sorrir, que é necessário estar mais relaxada nos ambientes sociais. Ela vai determinar aquele tipo de face, aquele tipo de expressão facial para tudo.
Um outro detalhe é que, às vezes, por não conseguir identificar quais são as suas expressões faciais, ela pode ser extremamente transparente em relação às suas emoções, que ela não consegue nomear, mas que ficam claras no rosto. E aí, talvez as pessoas estranhem, talvez ela receba feedbacks negativos porque pareceu chateada ou parecia não gostar de determinada ideia, e ela nem entende o motivo, porque não sabia que estava expressando, naquele olhar de desgosto, quando uma amiga usou um vestido estranho ou quando alguém pediu uma opinião. E talvez ela tenha entendido, ela tenha aprendido que não pode manifestar literalmente a sua opinião sobre determinados temas, mas apareceu tudo que ela pensava na sua expressão facial.
O 36º traço é, às vezes, a dificuldade para seguir regras de etiqueta, para compreender tudo o que é exigido em determinados ambientes, e isso, às vezes, quando se trata de uma conversa, uma conversa mais formal, pode ser muito difícil. E aí, ela não sabe quando interromper; às vezes, ela perde o fio da meada porque foi interrompida. Então, acaba não tendo voz em reuniões de trabalho ou mesmo na família, e isso pode ser mais um dos problemas da menina autista.
O 37º traço é a dificuldade para lidar com muitas tarefas ao mesmo tempo. Então, a maior parte dos autistas tende a ter esse foco mais específico, né, ter um funcionamento cerebral mais monótono. Então, precisa fazer uma coisa de cada vez.
E aí, ela pode se sentir sobrecarregada quando alguém exige que ela faça múltiplas tarefas ao mesmo tempo ou quando a própria situação, como ser mãe, exige isso dela. O 38º ponto é racionalizar demais quais são os seus gestos, o seu comportamento não verbal. E aí, ela perde a espontaneidade.
Mais uma vez, nós vamos ver isso na série "Geek Girl", porque ela fica o tempo inteiro pensando. Os pensamentos aparecem, eles são narrados pela própria personagem principal durante as cenas. Então, fica claro perceber que ela pensa demais sobre o que vai fazer e, às vezes, um comportamento que é para ser interessante ou romântico acaba saindo infantilizado ou desproporcional.
O 39º traço é a dificuldade para lidar com as frustrações. E aí, os meltdowns podem aparecer, às vezes, por questões que parecem muito pequenas para as outras pessoas. Mas, como as meninas autistas podem ter ansiedade atípica, isso significa que talvez elas tenham um tipo de ansiedade que não está descrita no DSM ou em outros manuais diagnósticos, mas que aparece nas pesquisas, nos estudos de neuroimagem.
Então, talvez as pessoas neurotípicas tenham medo, fobia, por exemplo, de agulha, tubarão, altura, mas para a menina autista, um simples tic-tac de relógio pode ser extremamente ansiogênico, pode causar uma frustração muito grande e, às vezes, comportamentos que parecem desproporcionais para as outras pessoas. Eu, por exemplo, quando ia dormir na casa de uma amiga que estudava comigo no Colégio Militar, tinha que fazer a caça aos tic-tacs na casa dela durante a noite, porque eu simplesmente não conseguia dormir. Aí, eu saía pela casa buscando os tic-tacs que eu ouvia a quilômetros de distância, embrulhava numa toalha e colocava na gaveta, escondia tudo, e aí sim, eu conseguia dormir.
Já era difícil estar na casa de uma amiga, dormir na casa de outra pessoa, numa cama diferente, e ter o tic-tac simplesmente era impossível para mim. O 40º traço é a tendência a se sentir muito diferente, achar que não pertence a esse planeta. E aí, por isso, muitas meninas autistas se isolam, perdem a motivação social na adolescência e na fase adulta.
E, por outro lado, muitas delas também acham isso o máximo, porque elas acabam. . .
Se identificando com os filmes, imaginando que elas sejam mutantes, super-heroínas, ou que sejam realmente de um mundo M diferente. Então, dependendo da interpretação da pessoa, esse pode ser um ponto positivo ou pode ser extremamente negativo. O 41º ponto que os estudos trazem é ter maneirismos, às vezes, mais masculinizados, segundo a visão dos próprios pais das meninas autistas.
Em pesquisas que eles fazem com famílias que têm filhos meninos autistas e outras famílias com meninas autistas, eles fazem a entrevista com os pais e perguntam sobre o que eles observam do comportamento não verbal. E aí a interpretação dos pais das meninas é de que os maneirismos, o comportamento não verbal, a gesticulação dela pode ser mais rígida e mais compatível com o que se espera de um comportamento do menino neurotípico. Mas isso não tem necessariamente relação com a escolha de gênero ou identidade de gênero, mas é o que a gente percebe.
E aí, se a gente for se aprofundar em estudos de neuroimagem, tem também essa comprovação de que o cérebro da menina autista, da mulher autista, ele tem uma configuração, ele tem uma conectividade mais compatível com a dos homens neurotípicos. Enquanto o homem autista tem uma configuração ligeiramente mais parecida com a da mulher neurotípica. E aí tem algumas repercussões, né, inclusive motoras, porque essas alterações são mais observadas no cerebelo e às vezes têm a ver com o comportamento, as emoções.
Por exemplo, em outros estudos, a gente consegue perceber que a menina pode observar as cenas sociais e racionalizar como se fosse um cubo mágico, racionalizar aquilo de maneira lógica, tentando resolver os conflitos sociais de uma maneira muito pragmática. E esse é um outro ponto de diferença. O quarto traço é ter essas ansiedades, esse tipo de ansiedade mais atípica, que é o medo da mudança, mas às vezes está relacionado a períodos de transição, e também ter fobias atípicas.
Como nós já mencionamos aqui, a maior parte das pessoas têm esse medo de agulha, de altura, de um leão, de coisas assim que estão no ambiente e que às vezes são realmente prováveis, né, que aconteçam de determinado modo. Mas, no caso das meninas autistas, a descrição da ansiedade não é a mesma que a gente observa nos manuais diagnósticos. Então, elas podem ter medo de uma face específica, de uma música específica, de um tic-tac, e que, né, ela não tolera.
Às vezes, um toque muito específico, e isso pode ser realmente fóbico. O 43º traço é a redução da flexibilidade mental e também da motivação social ao longo da adolescência e na fase adulta. Então, a gente já falou um pouco aqui sobre isso também, mas o que acontece?
O que a gente vê em estudos observacionais, principalmente, é que as meninas autistas tendem a ter mais motivação social do que os meninos. Então, elas aparentemente estão incluídas, mas, quando a gente observa mais de perto, é apenas uma assimilação, quer dizer, ela está próxima a outras meninas, mas talvez ela não esteja interagindo, não esteja socializando de verdade com as meninas típicas. No caso, os meninos autistas tendem a ter menor motivação social na infância, mas aí, se os meninos autistas têm, por exemplo, habilidades motoras, eles vão ser convidados para os jogos, para as brincadeiras dos meninos, que têm menos reflexões, têm menos interações, menos intimidade.
E aí, eles têm tempo para cultivar habilidades sociais ao longo da infância, da adolescência e da fase adulta. Então, acontece essa via oposta: no caso dos meninos, eles têm menos motivação social na infância e costumam aumentar essa motivação social lá no ensino médio. A menina, pelo contrário, tem maior motivação na infância, mas, por uma série de frustrações, talvez ela tenha redução da motivação social.
Agora, em relação à flexibilidade mental, a menina costuma ter menos adesão às rotinas, ela costuma ser um pouco mais flexível do que os meninos na infância, e os meninos costumam ser realmente muito rigorosos, muito metódicos, e tudo. E aí, eles já começam no nível alto e tendem a manter, ou às vezes aumentar um pouco, e as meninas começam no nível mais baixo de inflexibilidade e vão alcançando os meninos na adolescência e na fase adulta. O 44º traço é a síndrome da boazinha.
Por uma série de motivos que nós listamos aqui, por não compreenderem as pistas sociais, às vezes por se sentirem rejeitadas, ou por não saberem como expressar as suas emoções, estabelecer limites, ou falar sobre as suas questões, manifestar a sua opinião e dizer os nãos, a menina acaba ficando sobrecarregada também, para que os outros não julguem ou não questionem a sua competência no trabalho ou para que não a excluam de determinados ambientes. Talvez ela queira agradar demais e diga muitos sims, e acabe, no final das contas, exausta, não apenas pelo trabalho que ela faz para os outros ou, né, faz de maneira exagerada para compensar aquelas atipicidades que ela imagina que as outras pessoas possam perceber, mas também porque ela não consegue elaborar, não consegue compreender direito o que está acontecendo. E, finalmente, o 45º traço é a síndrome de Cassandra.
Nós, inclusive, temos vídeos sobre esse tema aqui. A menina autista pode ser muito perceptiva, às vezes intuitiva. Muitas vezes, ela tem altas habilidades, pode ter superdotação, e ela pode antecipar resultados dos acontecimentos de acordo com o que está vendo no momento.
Mas quando ela é transparente e honesta sobre isso, nem sempre ela vai receber o crédito das pessoas que estão à sua volta. Por quê? Tem estudos mostrando também que as pessoas autistas são julgadas, né, pelas pessoas neurotípicas.
Isso não acontece por maldade, mas às vezes por causa do comportamento não verbal, por causa do jeito de se comunicar, o outro não consegue se conectar com a pessoa autista. Isso acontece, às vezes, em menos de. .
. 30 segundos. Esse afastamento, então, por essa série de rejeições, por não ser considerada, por não ser ouvida em vários contextos.
Aí talvez a menina se cale, não acredite também em seus próprios pensamentos, na sua própria intuição, no que ela pensa. E esse é mais um ponto de problema de ansiedade, às vezes de depressão. Então, novamente, é importante lembrar que esses traços não são exclusivos das meninas autistas, nem das mulheres autistas; nós percebemos em diversos grupos populacionais.
Mas aqui eu fui citando, né? Me lembrando de alguns estudos que falam especificamente do grupo feminino. E esses traços, eles podem variar bastante de intensidade e apresentação de pessoa para pessoa.
As mulheres com autismo frequentemente desenvolvem essas estratégias de camuflagem, de assimilação, compensação, para se adaptar socialmente, e isso pode tornar o diagnóstico bastante desafiador. O DSM-5 fala isso em alguns dos trechos da descrição do autismo. Então, é essencial considerar a individualidade e a heterogeneidade também do espectro autista, que é muito mais colorido do que a gente poderia imaginar, e cuidar de cada pessoa como única, porque na verdade é exatamente isso que acontece quando a gente recebe cada pessoa no nosso consultório.
E um outro detalhe a ser considerado é que muitas pessoas neurotípicas têm as suas dificuldades sociais ou, às vezes, têm também comportamentos mais repetitivos ou mais restritivos, traços obsessivos, e não têm nenhum outro transtorno; não têm um transtorno do neurodesenvolvimento e não vão receber um diagnóstico de autismo porque não são autistas. Mesmo assim, isso é esperado também porque o espectro é um contínuo e tem ali os seus limites não muito bem claros, não exatamente estabelecidos. Então, tem o fenótipo ampliado, que é esse diagnóstico, né?
Para quem tem muitas das características, mas não fecha todos os critérios. E, às vezes, a pessoa que está fora do espectro mesmo, mas acaba se identificando com uma ou outra característica. E agora eu quero saber de você: comente aqui embaixo se você fez muitos pontos nessa lista, se acabou se lembrando das suas experiências da infância ou se agora mesmo, nesse momento, você está tendo algum tipo de dificuldade desse tipo.
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