Um dos maiores compositores da música brasileira não morreu quando o coração parou. Belor começou a morrer quase 10 anos antes, quando decidiu desaparecer do mundo e de si mesmo. Em 2008, ele abandonou carreira, dinheiro, família, amigos e até a própria identidade.
Deixou apartamentos, carros, contratos e o próprio nome para trás. O país passou anos perguntando: "Onde está Belor? " Mas a pergunta certa talvez fosse outra: quem ele estava tentando deixar de ser?
E o que realmente aconteceu naquela manhã silenciosa de abril de 2017, quando seu corpo foi encontrado numa cidadezinha do interior gaúcho, longe de tudo e de todos, Antônio Carlos Gomes Belquior. Fontenelli Fernandes nasceu em 26 de outubro de 1946 em Sobral, interior do Ceará. Era o terceiro filho de Dolores Gomes Fontinelli Fernandes, cantora do coral da Igreja, e Otávio Belquior Fernandes, juiz e delegado muito respeitado na cidade.
Pequior teve uma infância de menino livre que roubava ata no quintal do vizinho, louco que era pela fruta. Numa família numerosa de 23 irmãos, cada criança tinha que se virar sozinha. Eu fazia máscaras de carnaval, pegava galinhas, pombas", revelou em entrevista ao jornal O Povo em 2004.
Ainda criança, Belor mostrou talento excepcional para a música. Estudou coral, canto gregoriano e piano com o professor Acácio Rley no colégio Sobralense, além de línguas e filosofia na mesma escola. Sua mãe cantava no coral da igreja e ele recebia a influência dos cantores do rádio como Ângela Maria, Caubi Peixoto e Nora Nei.
Durante a infância, Belquior se apresentava em feiras como cantador e poeta repentista. Uma passagem curiosa de sua vida é o período em que esteve por três anos vivendo em uma comunidade de frades em Guaramiranga. Essa experiência religiosa marcaria profundamente sua formação intelectual e filosófica.
Bem novo, já estudava piano na escola e se apresentava em feiras de música. O menino tímido do interior cearense demonstrava uma inteligência aguçada e curiosidade insaciável pelo conhecimento. Em 1962, aos 16 anos, Belor se mudou para Fortaleza, onde deu seus primeiros passos como artista profissional.
Entre 1965 e 1970, participou de inúmeros festivais de música, shows amadores e programas de rádio e TV, dividindo o palco com colegas como Fagner, Amelinha, Ednardo e Fausto Nilo. O grupo se autointitulava O pessoal do Ceará e representava uma nova geração de compositores nordestinos. Mequior iniciou o curso de medicina na Universidade Federal do Ceará, passando em primeiro lugar.
No entanto, abandonou a faculdade no quarto ano, em 1971, para dedicar-se inteiramente à carreira artística. A decisão ousada logo se mostraria acertada. Após deixar a universidade, Belquior se mudou para o Rio de Janeiro e participou do quarto festival universitário da MPB, conquistando o primeiro lugar com a música Na hora do almoço.
Em seguida, lançou o compacto Na hora do almoço Quem Me dera pelo selo Copacabana, estreando oficialmente como cantor em 1971. A década de 1970 foi o período de explosão de Belquior. Ele estourou nos festivais e compôs músicas com letras poderosas como Apalo Seco.
Em 1976, lançou o álbum Alucinação, que continha a icônica Como Nossos Pais, que fez enorme sucesso na voz de Elis Regina. Seus sucessos foram gravados por grandes nomes, como Elis Regina, Jair Rodrigues e Roberto Carlos. Belki era um artista com vasta cultura, dominava cinco idiomas, conhecia filosofia e gostava de física quântica.
A reação da família ao sucesso foi de orgulho imenso. Ele havia se tornado o mais bem-sucedido entre os 23 irmãos. até os anos 2000, lançava em média um disco por ano.
Ele era uma máquina, chegava a fazer três shows por noite, era uma pessoa completamente dedicada à carreira. Relembra o parceiro e ex-sócio Jorge Melo. Seu cachê havia se tornado alto e conseguia lotar casas de espetáculo por todo o Brasil.
Belquior casou-se com Angela, com quem permaneceu por 35 anos e teve dois filhos já maiores de idade. No entanto, não era um marido muito presente, ficando até dois meses sem aparecer em casa. Durante o casamento, teve duas filhas fora do matrimônio.
Uma delas com uma fã que morava em São Carlos, no interior de São Paulo, com quem saiu uma única vez. A outra era fruto de um caso com uma estudante de psicologia no Ceará. Belkior pagava pensão alimentícia para a primeira filha, mas a família da segunda menina não o acionou na justiça.
Além da música, Belquior tinha outros interesses profundos. Era artista plástico, pintava quadros e frequentava o ambiente artístico. Tinha o sonho de traduzir a Divina Comédia de Dante Aliguieri para uma linguagem popular.
projeto que lhe consumiu três anos. Nos bastidores mostrava-se uma pessoa de vasta cultura e memória fantástica. Seus amigos o descreviam como um pensador, um filósofo, alguém lúcido e intelectualmente brilhante.
No começo de 2005, tudo começou a mudar quando Belkior conheceu Edna Prometeu, pseudônimo da produtora cultural Edna Assunção de Araújo, de 46 anos. Eles se encontraram no atelier do artista plástico cearense Aldemir Martins em São Paulo. Edna queria organizar uma exposição de Aldemir no Ceará e Belquior se ofereceu para ajudar.
Os dois acabaram organizando juntos a exposição em Fortaleza naquele mesmo ano. Na volta, Edna ligou para um amigo e contou a novidade. Estamos namorando.
A partir daí, a vida plácida de Belquior derrapou no trevo a 100 por hora, como diz a letra de paralelas. Em 2006, Belquior terminou o casamento de 35 anos para dar início ao relacionamento com Edna. No final daquele ano, ainda com a carreira aquecida, pediu que o empresário Jackson Martins parasse de agendar novos shows.
Pretendia passar um tempo se dedicando à pintura e à tradução da Divina Comédia. Mas isso não foi apenas um reo, foi o começo de um desligamento progressivo da identidade pública que construíra durante 40 anos. No início de 2007, deixou o apartamento em que vivia com Ângela, mas continuou morando em São Paulo com Edna num flat alugado.
A família relata que desde então não teve mais notícias dele. Desde 2007, Belkior não entra em contato nem com os filhos. Não entendo.
Os empresários dele não entendem, disse a ex-mulher Angela. As complicações começaram a aparecer em 2008. Angela cobrava na justiça uma pensão mensal de 7000, mas Belor se recusou a pagar.
Na época deixou de pagar também a outra pensão alimentícia. Belquior não fugia da justiça, fugia do personagem que o mundo exigia dele. Seus amigos notaram uma diferença de comportamento.
Ele parecia estranho. Me ligou perguntando sobre amigos que não vemos há 30 anos num tom de voz que não era o seu, relatou Jorge Melo. Esse não foi apenas um afastamento, foi uma ruptura com toda a estrutura que o sustentava.
emocionalmente, financeiramente, socialmente. Em outubro de 2008, Belquior abandonou um carro no estacionamento do aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O sumisso havia começado oficialmente.
"Essa figura nefasta está fazendo uma lavagem cerebral nele", afirmou Jackson Martins, ex-empresário de Belquior. "Depois dela, sua vida só andou para trás", disse o artista plástico cearense Tota. amigo de Belquior.
Na manhã de domingo, 30 de abril de 2017, em Santa Cruz do Sul, interior do Rio Grande do Sul, Edna Prometeu acordou e percebeu que algo estava errado. Belkior, de 70 anos, dormia ao seu lado na casa que dividiam, mas não respirava mais. O cantor havia morrido durante a noite enquanto dormia.
Não houve sinais de agonia, gritos ou pedidos de socorro. A morte foi silenciosa, acontecendo nas horas mais calmas da madrugada. Quando a polícia chegou, encontrou o corpo de Belquior, já sem vida na cama.
Não havia sinais de violência ou qualquer indício de crime. O ambiente estava tranquilo, sem sinais de luta ou desordem. Era claramente uma morte de causas naturais.
A delegada plantonista Raquel Schneider constatou que não havia nada suspeito na cena. O corpo foi encaminhado para o Instituto Médico Legal para a realização da necropsia. Belkior vivia escondido naquela pequena cidade gaúcha havia alguns anos.
Poucos sabiam que o compositor lendário morava ali. Ele havia chegado ao Rio Grande do Sul, fugindo de mandados de prisão por falta de pagamento de pensões alimentícias. Nos últimos anos, o casal havia perambulado por diversas cidades do sul do país.
Ficaram hospedados em hotéis, sem pagar as contas, foram abrigados em instituições de caridade e moraram de favor na casa de fãs que nem conheciam. Belkior não bebia nem comia carne vermelha nos últimos tempos. Passava os dias tomando chá, caminhando e fazendo anotações em papéis.
Recusava-se a tocar violão e cantar. Edna impedia que ele fosse fotografado. Quando a notícia da morte começou a circular, ninguém sabia ao certo onde Belor estava.
Sua família havia perdido o contato com ele havia quase 10 anos. Ele não havia comparecido nem ao enterro da mãe que morreu em 2011. Quando Edna chamou as autoridades naquela manhã de domingo, a resposta foi rápida.
A polícia civil de Santa Cruz do Sul foi acionada e deslocou uma equipe até a residência. Não houve necessidade de resgate ou tentativas de reanimação. Quando os socorristas chegaram, Belquior já estava morto há algumas horas.
O corpo apresentava sinais evidentes de óbito. A delegada plantonista Raquel Schneider coordenou os primeiros procedimentos. foi realizada a perícia de local e o corpo foi removido para o Instituto Médico Legal.
Não houve dificuldades no processo, pois a morte claramente havia ocorrido de causas naturais. O corpo de Belquior foi submetido à necropsia no Instituto Médico Legal de Santa Cruz do Sul. O médico legista conduziu um exame minucioso para determinar a causa exata da morte.
O laudo da necropsia confirmou que Belquior morreu devido ao rompimento de uma parede da artéria aorta. Foi disseção da aorta, que é a destruição voluntária. O médico legista explicou que a artéria tem duas camadas e uma se rompeu informou o delegado Luciano Menezes, diretor da delegacia de polícia regional.
Houve dissecação ou destruição voluntária da aorta. Uma das duas camadas da artéria se rompeu sozinha, causando hemorragia interna massiva. A morte, portanto, teve causa natural.
O delegado Luciano Menezes foi categórico. O médico legista foi categórico. Acreditamos que virá zerado, referindo-se ao exame toxicológico que ainda seria realizado.
A Polícia Civil também pediu exame toxicológico, procedimento de prae nesses casos e aguardava o resultado. O rompimento da aorta é uma condição médica grave que pode ocorrer de forma súbita. E geralmente é fatal.
Não há sinais de avisos significativos e a morte acontece rapidamente. Beior simplesmente adormeceu e não acordou mais. A notícia da morte de Belkior chocou o Brasil inteiro.
O artista que havia desaparecido misteriosamente em 2008 foi encontrado morto em uma pequena cidade do interior gaúcho. As redes sociais explodiram com manifestações de fãs e artistas. As homenagens começaram logo cedo, quando o corpo do artista foi velado em Sobral, no Teatro São João, na manhã de segunda-feira, 1o de maio de 2017.
O povo sobralense e da região norte se despediu do compositor em meio a músicas e fotos de momentos especiais de sua carreira. O transporte do corpo de Belquior aconteceu pela tarde, quando o caminhão do Corpo de Bombeiros veio à Fortaleza passando pela Avenida Luciano Carneiro, Avenida 13 de Maio, Avenida Pontes Vieira, Avenida Desembargador Moreira e Avenida Abolição, até chegar ao centro cultural Drgão do Mar. Mais de 7.
000 fãs se despediram do cantor e compositor cearense na tarde e noite daquela segunda-feira no Centro Drgão do Mar de Arte e Cultura. Carregando cartazes, discos e cantando as canções do ídolo, os fãs chegaram cedo no velório. Muitos familiares e artistas cearenses compareceram para dar adeus ao ícone da música popular brasileira.
O governador do Ceará, Camilo Santana, e o secretário da cultura do estado, Fabiano dos Santos Piúba, também estiveram presentes no Drgão do Mar. O Belgior é uma referência para todos nós cearenses. Ele foi um grande artista, um grande poeta, acima de tudo, que influenciou gerações, destacou o governador.
Na madrugada daquele primeiro de maio, ainda antes do velório em Fortaleza, aconteceu um grande show articulado rapidamente pela produção do festival Maloca Drgão. 19 intérpretes participaram da homenagem, entre eles Roger Rogério, Lúcio Ricardo, Marcos Café, Chico Pio, Mona Gadelha e muitos jovens artistas. Sob aplausos de uma enorme e comovida plateia, a música de Belquior foi recriada por grandes músicos cearenses de diferentes gerações.
O desaparecimento de Belor em 2008 havia transformado o músico em figura cult. A pergunta onde está Belkior? Ecoou na internet e teve até repercussão internacional.
Surgiram blogs sobre o tema e campanhas nas redes sociais pedindo a volta do músico. Suas músicas no YouTube, que antes tinham 5. 000 acessos diários, passaram a bater 500.
000 Após o sumisso, o sucesso no mundo virtual não trouxe nenhum benefício para o Belquor de carne e osso, mas consolidou seu legado para as novas gerações. Compositor Fausto Nilo, amigo de Belquior, disse no velório: "Era uma pessoa muito forte, resistente, o que ele sabia da vida transformava em poesia". O cantor Sávio Leão afirmou: "Na verdade, o Belquior nunca sumiu para mim.
esteve sempre presente. A obra dele é eterna. Podemos estar perdendo o corpo do artista.
Mas Belor entra para a história como um dos maiores talentos da música. Belkior, que cantava como nossos pais e questionava se vivíamos uma vida que é parecida, acabou escolhendo um caminho de total ruptura. abandonou tudo, carreira, família, bens, fama, numa tentativa desesperada de viver segundo seus próprios termos.
Mas talvez a verdade mais dolorosa seja essa. Belkior fugiu de tudo, menos de si mesmo. E no final foi justamente o próprio corpo que não o deixou escapar.
morreu sozinho, escondido, longe dos filhos que não viam o pai há 10 anos, longe dos palcos que o consagraram, longe até da mãe que não teve a chance de enterrar. A morte silenciosa durante o sono, aos 70 anos, encerrou uma trajetória marcada por brilhantismo artístico e uma solidão que nenhuma palavra conseguiu curar. Sua obra permanece eternamente viva, tocando gerações que ainda descobrem a profundidade de suas letras.
Mas fica a pergunta que o canal sempre faz. O que se perde quando um artista precisa desaparecer para sobreviver? Yeah.