Bom dia, moçada! Tudo bem? Sejam bem-vindos de volta.
Hoje, dia 12 de março, com mais uma meditação estóica, hoje de Marco Aurélio, o nosso filósofo imperador, extraída das suas meditações. Espero encontrá-los todos muito bem, todos em paz, com saúde. Se não estiverem nem em paz, nem com saúde, aprendam a lidar com isso estoicamente.
É o que nos cabe, é o que nos cabe: sem desespero, sem autopiedade, sem excesso de condescendência consigo mesmo, de forma racional, prudente e sensata. Hoje, na meditação de Marco Aurélio, ah, sempre convidando a todos, né? Não se esqueçam de se inscreverem no canal, de curtirem, de comentarem.
É muito importante para o projeto. Na descrição desse vídeo, vai o nosso link de WhatsApp, um grupo que vai sobreviver ali por duas ou três semanas, só para te mostrar o caminho para ingressar na Sociedade da Lanterna, que é o melhor espaço não acadêmico do Brasil para se falar de coisas da filosofia, para trazer a filosofia para a vida. Ah, no seu mês de aniversário, estamos completando, nós completamos agora 4 anos de funcionamento, 4 anos de atividades, e vai ser um prazer ter você lá com a gente como lanterneiro na Sociedade da Lanterna.
As pessoas me perguntam: "Por que a Sociedade da Lanterna? " Vem, cá, meu bebê. Todo dia, um bicho diferente.
Todo dia, vai colocar pelo na camisa do papai. Ela é a nossa gorda peluda. Ela é tímida, mamãe!
Ela é tímida. Ah, hoje, dia 12 de março, com uma meditação intitulada "Ver as coisas como a pessoa culpada as vê". Eu gosto muito dessa meditação porque ela exige um grau de empatia com os outros e um grau de compreensão de como os outros veem a natureza, de como os outros veem a realidade, de como os outros leem as suas próprias vidas.
Marco Aurélio diz o seguinte: sempre que uma pessoa faz algo de errado perto de ti, considera que noção de bem ou mal ela tinha em mente. É um exercício duro. Dói o estômago, a gente passa raiva, mas também devemos nos colocar no lugar da pessoa e ver que tipo de noção de bem ou de mal moveu aquela pessoa quando ela fez o que fez.
Pois, quando fizeres isso, sentirás compaixão em vez de espanto ou raiva. Cara, olha que exercício difícil! Esse exercício é muito difícil, pois tu mesmo podes ter as mesmas noções de bem e mal ou parecidas, caso em que serás tolerante com o que ela fez.
E, caso não tiveres as mesmas noções, estarás mais disposto a ser complacente com o erro dessa pessoa. Muito difícil isso aqui para mim, então é muito difícil, porque eu tendo a ser meio impiedoso no modo como eu vejo algumas pessoas fazendo algumas coisas que eu considero inescusáveis, que eu considero completamente absurdas. Mas é uma proposta do Marco Aurélio: coloque-se no lugar do outro.
Na perspectiva do outro, existe uma entrevista do Peterson—eu acho que eu já comentei sobre essa entrevista aqui—na qual ele diz assim: a gente se coloca muito, né, como seres messiânicos, maravilhosos, né? Nossa visão de mundo é sempre acertada. Quando a gente fala de nazismo, a distância histórica que nós estamos, a gente nunca se imagina entre os nazistas.
Mas o fato é que se nós estivéssemos lá, naquele momento histórico, vivendo aquela realidade, muitos de nós seríamos os nazistas, apoiando Hitler e todos aqueles absurdos que ele cometeu. Na alegoria da caverna de Platão, nós somos sempre aqueles que saem da caverna. A gente nunca se vê.
Eu já dei 800 aulas sobre a alegoria da caverna de Platão. Todo mundo termina falando assim: "Essas pessoas que estão lá dentro, a gente tem que ajudar essas pessoas. " Ninguém se vê dentro da caverna.
Nós somos sempre aqueles que saíram da caverna. Nós somos sempre os não nazistas. Nós somos sempre os não estalinistas.
Mas, de repente, se eu sou menos condescendente comigo mesmo, eu tenho que levar em consideração o fato de que, se eu estivesse lá, naquele momento ou no interior daquela alegoria, talvez eu fosse o cara dentro da caverna. Talvez eu fosse o nazista, o fascista. Então, a proposta do Marco Aurélio é interessante nesse sentido: não para tolerarmos o erro na sua natureza de erro, mas para entendermos o que move as outras pessoas.
E, com isso, afastarmos o ódio, a raiva, para que não sejamos movidos por ódio e pela raiva, que são sempre maus conselheiros. Eu queria mostrar para vocês como é que a gata está aqui no meu pé agora, toda maluca, toda louca do papai. A gata gorda, obesa, tá doidona no colo.
Ela não quer ficar, mas no pé. Então é isso, moçada. Eu sei que eu entendo vocês aí, como estão pensando, porque é como eu penso também.
É muito difícil. Ah, existe uma série que eu indico demais, assim: acho que foi, se não foi a melhor série que eu vi na vida. É “Band of Brothers”, que foi produzida pelo Steven Spielberg.
Eu não me lembro o título em português. Você se lembra? "Irmãos de Armas", alguma coisa assim.
Band of Brothers é parte de uma trilogia, inclusive. Tem o Pacífico, depois tem a força aérea. Não usa o nome em português, é Band of Brothers mesmo.
É uma série, assim, poética e, lá pro final dessa série, sem querer dar spoiler—porque é um fato histórico já bastante conhecido—I mas não vou dar spoiler, não. Mas, assim, o Batalhão norte-americano, quando chega na Alemanha, na verdade, acho que ali era Polônia, eu não me lembro exatamente onde é que eles chegam, que eles veem pela primeira vez um. .
. Campo de concentração que eles não entendem, né? Mas isso está registrado nas páginas da história.
Quando os americanos chegam e travam contato com os primeiros campos de concentração, eles não. . .
assim como é que os alemães fizeram isso com os próprios alemães? Aí eles ficam assim: "Ué, mas que foi? Vocês são criminosos de guerra!
". Olha o horror, como que o cara faz isso? Aí imediatamente você é tomado pela ira, pelo ódio.
E isso me lembra muito o julgamento que foi relatado pela Hannah Arendt, que tem um livro, inclusive, sobre o julgamento de Eichmann, que no momento em que ele é chamado de banalidade do mal. . .
Por que a banalidade do mal? No meio do julgamento, eles começam a tentar entender como é que um cara, que era um burocrata das Forças Armadas nazistas, como é que ele era capaz de fazer aquilo. Assim, ele fala: "Não, nós temos que otimizar a morte dos judeus, dos ciganos, dos homossexuais e não sei o quê, como é que a gente faz?
" Não, se a gente fizer assim com os vagões, enquanto um sai daqui, o outro vai para lá. Aí ela viu que na cabeça desse cara era uma burocracia. Era uma burocracia, não era um.
. . ele tinha uma ética própria, claro, inescusável, indesculpável, mas ele tinha um modo de ver o mundo.
Essa é a loucura. Então, o que o Marco Aurélio está dizendo, e foi um imperador que se envolveu numa série de guerras, é que "cuidado com os julgamentos". Outro dia, no Brasil mesmo, tinha gente assim falando: "Dentro da nossa democracia, eu autorizo, pode fazer o que tiver que fazer".
É a mesma filosofia que move esse tipo de pensamento totalitário. Ou não, tem que fazer isso mesmo, para a esquerda e para a direita. "Pode fazer isso mesmo, faz do modo como quiser".
Cuidado! Cuidado, porque esse tipo de pensamento que se abre a essas possibilidades, com base numa ética, pode trazer resultados muito ruins, com base numa ética tortuosa. Onde que eu tô.
. . Nossa, eu nem li o comentário ainda, eu tô entusiasmado com essa meditação de hoje, né?
O comentário dos nossos autores: Sócrates, talvez a pessoa mais sábia que já viveu, costumava dizer que ninguém comete erros de bom grado. Ninguém comete erros de bom grado. Na visão de Sócrates, os erros que você comete derivam de leituras mal realizadas da realidade, querendo dizer também que ninguém erra de propósito.
Ninguém pensa que está errado, mesmo quando está. Você adota uma visão de mundo e você começa a acreditar naquilo. E aquilo começa a se transformar numa segunda natureza.
E de segunda natureza, você começa a achar que aquilo é absolutamente certo. As pessoas pensam que estão certas quando estão enganadas; do contrário, não pensariam assim. Seria possível que as desfeitas que você experimentou ou o mal que outros lhe causaram não tenham sido intencionais?
E se elas simplesmente estivessem pensando que estavam fazendo uma coisa certa para eles e até para você? É como o memorial para os soldados confederados em Arlington, obviamente uma causa equivocada defendida por pessoas que se equivocaram. Quantas batalhas na vida nós enfrentamos achando que estamos fazendo certo e, na verdade, estamos errados?
No modo como nós vemos, declara, em parte, que os soldados confederados serviram em simples obediência ao dever, tal como o compreendiam. Mais uma vez, eles entendiam errado, mas era um entendimento genuíno, assim como Lincoln foi genuíno quando concluiu seu famoso discurso na Cooper Union, dizendo: "Ousemos, até o fim, cumprir nosso dever tal como compreendemos". Então, nós temos que tomar esse cuidado, né?
No modo como julgamos os outros, porque nós mesmos podemos estar em compreensões bastante equivocadas sobre a realidade, sobre as coisas que nos envolvem. Quão mais tolerante e compreensivo você seria hoje, se pudesse ver as ações de outras pessoas como tentativas de fazer a coisa certa? Não é para ungir as coisas erradas e aceitar as coisas erradas, mas é para ser tolerante no modo como elas veem aquela realidade, compreender historicamente como elas veem aquela realidade.
Porque nós podemos estar fazendo exatamente a mesma coisa agora, quer você concorde, quer não. Quão radicalmente essa nova visão mudaria sua perspectiva sobre ações consideradas ofensivas ou beligerantes? Para mim, uma das meditações mais difíceis de serem absorvidas no dia a dia, porque eu tendem a ser muito pouco tolerante com certas visões de mundo, especialmente aquelas gritantemente absurdas.
Mas hei de conceder que o que é gritantemente absurdo para mim pode não ser gritantemente absurdo para outros. E muito do que eu defendo pode ser completamente absurdo para outros. Portanto, ainda que a realidade seja o grande ponto de referência para todos nós, para sabermos se estamos indo bem ou mal, é bom ter esse cuidado, essa prudência no modo como nos avaliamos e avaliamos os outros.
Beijo grande para vocês, tenham uma excelente jornada e amanhã a gente se encontra por aqui.