Irmãos e irmãs, celebramos hoje o segundo domingo do Tempo Comum, mas também é, de certo modo, um desdobramento da festa da Epifania. Pois, na festa da Epifania, nós celebramos três mistérios: a visita dos magos, o batismo do Senhor e as Bodas em Caná. O relato que nós temos aqui do Evangelho de São João é um relato muito profundo, teologicamente muito bem construído, e que faz referência a muitas imagens já conhecidas pelo povo de Israel.
Ele disse: "Houve um casamento em Caná da Galileia. " A mãe de Jesus estava presente; também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento. A primeira coisa que chama a atenção é como a frase começa de maneira genérica: "Houve um casamento em Caná da Galileia", casamento de quem?
Não se diz. Não é curioso um relato de casamento em que não se mencionem os noivos? É um pouco estranho.
Ou seja, mais do que falar de um casamento concreto, o que esse texto coloca diante de nossos olhos é o casamento de Deus com o Seu povo; é o casamento escatológico. É aquilo que os profetas, por exemplo, o profeta Oséias, foram o primeiro deles a utilizar essa imagem, falam do relacionamento de Deus com Israel: "Casa de Israel, tu és a minha esposa, eu sou o teu marido". O próprio profeta Isaías também fala: "Como um jovem desposando a sua bem-amada, assim também eu vou desposar-te".
O profeta Jeremias diz a mesma coisa logo no capítulo segundo da sua profecia, da alegria da bem-amada, da jovem que é desposada. Ou seja, este casamento são as Bodas arquetípicas; é Deus se unindo ao seu povo para ter um relacionamento de amor e fidelidade com ele. A mãe de Jesus estava presente; também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento.
Quando o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: "Eles não têm mais vinho. " Aqui entra um segundo elemento: o vinho. Na Bíblia, o vinho é sinal de alegria.
Então, por exemplo, no livro de Sirácida se diz muitas vezes que o vinho traz alegria. O livro do Eclesiástico diz que, se você tem um homem pobre, etc. , desgraçado, dê um pouco de vinho a ele; pelo menos ele sente um alívio.
Ou seja, o vinho é uma imagem da alegria, mas também uma imagem do amor. No Cântico dos Cânticos, a amada diz: "O teu amor é mais forte do que o vinho. " Ora, é justamente a mãe de Jesus que é uma imagem de todo o Israel fiel, que na simplicidade, na pobreza, aguarda a manifestação do Messias, que percebe que não tem mais vinho.
Ou seja, Deus é o esposo de Israel, e isso aqui é uma festa. E, nessa festa, não tem vinho; não tem alegria, não tem amor. Então, é ela que percebe e diz ao filho: "Eles não têm mais vinho.
" Jesus respondeu-lhe: "Mulher, por que dizes isto a mim? " Talvez a melhor tradução seja, é muito difícil traduzir esse texto; essa frase do grego, literalmente, seria "Mulher, o que para ti e para mim? " Então, os comentadores quebram a cabeça para dar uma melhor tradução para essa frase.
É interessante que ela aparece outra vez no Novo Testamento, no episódio do endemoniado de Gerasa, quando o endemoniado diz a Cristo: "O que tens a ver conosco, Jesus Nazareno? " Mais ou menos é a mesma coisa: "Mulher, o que temos a ver com isso? Em que estamos implicados nisso?
" "Minha hora ainda não chegou. " Essa é outra frase muito difícil de traduzir, pois no grego não existia pontuação; então, sinal de interrogação, sinal de exclamação, ponto final etc. Era um texto corrido.
Então, alguns sugerem que essa frase na verdade seria uma espécie de interrogação que nosso Senhor diria, mais ou menos assim: "Mulher, o que tens a ver comigo? Será que a minha hora ainda não chegou? " Ou seja, ele está falando que a hora está chegando; a hora está próxima.
De fato, quando nós lermos a partir do capítulo 13 do Evangelho de São João, nós temos aí o chamado livro da hora de Jesus, porque São João começa: "Tendo chegado a hora de entregar-se, de passar deste mundo para o Pai", etc. Sua mãe disse aos que estavam servindo: "Fazei o que Ele vos disser. " Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para purificação, que os judeus costumam fazer.
Em cada uma delas cabiam mais ou menos 100 litros. Jesus disse aos que estavam servindo: "Enchei as talhas de água. " Encheram-nas até a boca.
Esse versículo está bem no centro do relato; é o coração do relato. Ou seja, ele fala de seis talhas de pedra. Seis é o número que, na Bíblia, indica imperfeição.
Ou seja, essa religiosidade aqui de Israel é imperfeita. Talhas de pedra: os mandamentos escritos em tábuas de pedra, entregues a Moisés, a lei, a lei escrita. Colocadas aí para purificação, deviam estar cheias de água para as purificações rituais dos judeus.
Acontece que Jesus veio, justamente, para sanar o que é impuro, para trazer salvação a quem é pecador, como médico que vem trazer saúde aos doentes. E é por isso que essas talhas estão vazias; é aquela religiosidade judaica em que ele se preocupa com o cumprimento da lei, com a observância dos preceitos, com todas as exterioridades. Mandou Moisés deixar a barba crescer, deixar, por exemplo, uma caixinha com versículo do Deuteronômio na cabeça, andar com os filactérios, aquelas fitas penduradas.
Exterioridades vazias. Mas cadê o vinho? Cadê a alegria?
Cadê o amor? Cadê a fusão? Não tem.
É uma observância exterior; é apenas o cumprimento de um código religioso. De fato, as talhas estavam vazias. Eles encheram-nas até a boca.
Jesus disse: "Agora tirai e levai ao mestre-sala. " Essa é a arqui-triclo, né? O termo grego que aqui aparece, o mestre-sala, é, na verdade.
. . Uma imagem dos líderes de Israel, aqueles que organizam a festa.
Eles levaram o mestre-sala, que experimentou a água que se tinha transformado em vinho. Ele não sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que tinham tirado a água. O mestre, então, chamou o noivo e lhe disse: "Aqui é a primeira vez que aparece o noivo.
Todo mundo serve primeiro o vinho melhor, e, quando os convidados já estão embriagados, serve um vinho menos bom; mas tu guardaste o vinho melhor até agora". Aqui nós sentimos as ressonâncias das tradições de Jesus no período de formação do Novo Testamento. Por exemplo, quando Jesus diz "vinho novo, odres novos", é interessante que, nessa passagem, se não me engano, do Evangelho de São Mateus, Jesus conclui dizendo: "Quem tendo provado o vinho velho, gostará do vinho novo?
Na verdade, dirá: 'o velho é melhor'. " É interessante essa afirmação de Jesus, sobretudo se nós a contrastamos com esse comentário do mestre-sala: vejam, o vinho bom é o vinho novo, mas você precisa ter a alma aberta para o vinho novo. Você tem que ser um odre novo; um odre novo você tem que ter a mente aberta para acolher o vinho novo, senão você vai funcionar com os padrões normais.
E quais são os padrões normais? Um vinho velho, um vinho já bem curtido. Esse é o melhor.
O vinho novo, não; onde já se viu o vinho novo? É um vinho fraco, um vinho que ainda não foi suficientemente apurado. Ou seja, o vinho melhor vem no fim.
É o vinho do Novo Testamento, é o vinho da graça, é o vinho da alegria. O texto termina dizendo: "Este foi o início dos sinais de Jesus; ele o realizou em Caná da Galileia, manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele. " É um final pomposo esse de São João, porque esse não é apenas o primeiro dos sete sinais que Jesus vai realizar no Evangelho, mas ele diz que ele manifestou a sua glória.
Como assim ele manifestou a sua glória? Ele teria manifestado a sua glória de uma maneira mais eloquente, por exemplo, na ressurreição de Lázaro. Por que aqui ele manifestou a sua glória numa passagem, num trecho tão cheio de descrição, em que ele vai lá, recebe uma informação da sua mãe e discretamente vai até os mestres-sala?
Aliás, até os serviçais; os serviçais fazem o que ele manda, começam a servir sem saber de onde aquilo vinha para os demais convidados. Jesus manifestou a sua glória porque ele manifesta sua glória justamente quando nós vivemos segundo o vinho novo do Evangelho. Qual é a lição que nós podemos tirar disso tudo, queridos irmãos?
Quantos cristãos do Velho Testamento ainda existem? Cristãos que estão preocupados apenas com observâncias exteriores, com a execução externa de uma lei. Cristãos que reduzem o seu catolicismo, por exemplo, ao cumprimento de preceitos, feitos com maior ou menor exatidão, e que se apegam a tudo isso como se fossem as coisas mais importantes da sua espiritualidade, da sua religiosidade.
Quantos de nós ainda carregamos a lei escrita em tábuas de pedra, mas não vivemos a realidade da lei escrita em nossos corações pelo Espírito? Exatamente como diz São Paulo: "a letra mata, o espírito vivifica. " Ou seja, nós não devemos, por exemplo, vir à Santa Missa simplesmente porque é um dia de preceito.
É verdade que é um dia de preceito, mas, mais do que isso, é o dia em que nós nos encontramos com Deus, em que nós vamos ter uma união com o seu Corpo, com seu Sangue, com a sua Palavra, com o seu Espírito, em que vamos nos unir para cantar os louvores de Deus como Igreja, todos juntos, manifestando a alegria por sermos todos membros de Cristo que ressuscitou da morte nesse dia, no domingo. Assim, o mesmo vale para tudo mais. Quantas pessoas rezam simplesmente para cumprir uma obrigação, vão cumprindo um checklist, e parece que tudo é a questão de check, check, check, check, check; ou seja, um cumprimento exterior?
Onde está o coração? Onde está a verdadeira alma que se derrama aos pés do esposo? A teologia do matrimônio no Evangelho de São João, nos escritos de São João em geral, é muito tensa.
Não é à toa que Jesus vai sair daqui de Caná da Galileia e, na sequência do Evangelho de São João, vai ao templo de Jerusalém para expulsar os cambistas. É como um esposo revoltado que vai para a casa da sua esposa e que não aguenta mais aquele tipo de amor cana feito de pinchas: "O que Deus manda eu fazer, então vou fazer aquilo para ficar livre e assim já cumpri a minha obrigação. Estou kits com Ele.
" Essa é a mentalidade de muitos de nós. Nós nunca estaremos kits com Deus; sempre seremos devedores dele. Deus não está interessado minimamente em outra coisa senão no amor e na alegria da sua noiva.
Peçamos ao Senhor que nos conceda esse amor e essa alegria. E então, queridos irmãos, a vida espiritual para nós será deliciosa, não será uma vida insípida, uma vida sem expressão, mas será cheia do sabor da alegria e da exultação do amor do Espírito Santo.