Olá, [música] sejam muito bem-vindos. Eu sou Josélia Cíntia e hoje começaremos um tema crucial para a nossa prática farmacêutica, a administração de medicamentos por vinalatória. A via inalatória é há quase 70 anos a principal forma de administrar medicamentos para doenças obstrutivas crônicas como a asma.
E isso não é por acaso. Ela proporciona início de ação rápida do medicamento, especialmente pros broncodilatadores, e uma baixa incidência de efeitos adversos, o que é especialmente importante no caso dos corticos. Isso acontece porque o medicamento age diretamente na mucosa respiratória.
Ele acabará tendo baixa absorção sistêmica e o efeito desejado será alcançado com doses menores e concentrações séricas mais baixas. E como consequência a segurança será maior para o paciente quando comparada ao uso de medicamento por via oral. Contudo, apesar de suas vantagens, a viaatória também apresenta desafios.
O principal deles é garantir que o medicamento chegue ao trato respiratório inferior, onde realmente precisa agir. Uma parte significativa do medicamento pode acabar ficando presa nas vias aéreas superiores, sem alcançar os brônquios e bronquíolos onde deveria atuar. Além disso, a efetividade do tratamento está diretamente ligada à técnica correta de inalação, que exige conhecimento e habilidade tanto do paciente quanto, é claro, do profissional que vai atendê-lo.
Dessa forma, o maior desafio é o domínio da técnica pelos profissionais da saúde e pelos pacientes, porque o uso de dispositivos inalatórios envolve etapas complexas. Para vocês terem a dimensão do desafio, vou compartilhar ao final dessa aula alguns dados alarmantes que indicam a falta de domínio na técnica inalatória, tanto pelos profissionais da saúde quanto pelos pacientes. E para que o medicamento consiga alcançar o local adequado, ele precisa ser administrado na forma de aerosoles.
O que que é um aerosol? Um aerosol é um conjunto de partículas líquidas ou sólidas suspensas em um gás. Agora, para que essas partículas sejam consideradas respiráveis e atinjam as vias inaratórias periféricas e os alvéulos, o ideal é que tenha um diâmetro entre 1 e 5 micrôm.
Quanto menores as partículas, maior a chance de se distribuírem ao longo da árvore brônquica. Já as partículas de maior diâmetro tendem a se chocar e depositar predominantemente nas vias aéreas superiores e orofaringe. Por outro lado, se forem muito pequenas, menor do que 1 micrômetro, acabam sendo inaladas e isaladas sem se depositarem.
E aqui entra um ponto essencial, o tipo de dispositivo inalatório utilizado. Os dispositivos inalatórios são uma forma farmacêutica complexa, pois o seu uso exige que o paciente tenha conhecimentos e habilidades para executar a técnica correta de administração, que varia de acordo com o modelo do dispositivo utilizado. Os aparelhos também necessitam ser preparados para ser utilizados a cada administração da dose.
A técnica inalatória, ela envolve várias etapas, desde a postura, o preparo do aparelho, o posicionamento do dispositivo na boca, até o acionamento de alavancas ou botões, a forma de inspirar e o tempo de retenção da respiração. Qualquer erro em uma dessas etapas pode comprometer a quantidade de fármaco que alcança os pulmões. No entanto, infelizmente, a realidade é que erros na técnica de inalação são extremamente comuns.
Esses problemas já foram identificados pouco tempo depois do lançamento dos primeiros inaladores desde a década de 60 e lamentavelmente ainda fazem parte da nossa realidade clínica. O impacto desses erros é significativo, porque por mais eficaz que seja o medicamento, ele simplesmente não funcionará se não alcançar as vias aéreas que são alvo do seu funcionamento. E para ilustrar essa questão, vamos olhar com atenção para essa figura.
Ela traz uma visão clara sobre como evoluiu a técnica inalatória ao longo de quatro décadas de observação entre 1965 e 2014. O gráfico nos apresenta três curvas diferentes, cada uma representando uma categoria de desempenho. A primeira, a linha tracejada em vermelho, mostra os testes com técnica correta, ou seja, todas as etapas do uso do inalador foram realizadas extremamente como recomendado.
contraste. A linha tracejada em azul mostra os casos classificados como técnica aceitável. Aqui, cerca de 80% das etapas foram executadas corretamente e não houve erros críticos.
Já a linha sólida representa os testes com técnica pobre, o cenário mais preocupante, quando os pesquisadores identificaram um ou mais erros críticos, ou quando mais da metade das etapas foram feitas de forma inadequada, o que mais chama atenção neste gráfico é que ao longo de décadas essas proporções se mantiveram praticamente estáveis. Mesmo com todos os investimentos em educação, treinamento e no desenvolvimento de dispositivos mais modernos, os índices de técnica correta, aceitável e pobre não demonstraram melhora significativa entre os períodos de 1975 a 95 e de 96 a 2014. E o dado mais marcante é o seguinte.
Apenas 31% dos testes foram classificados como técnica correta. Essa revisão sistemática traz uma conclusão muito clara. O uso incorreto ou subótimo dos inaladores é ainda hoje lamentavelmente comum para todos os tipos de dispositivos.
E o mais alarmante, isso não mudou nos últimos 40 anos. Esses erros persistentes são um dos maiores obstáculos pro controle eficaz de doenças respiratórias como a asma e estão diretamente associados a piores desfechos clínicos. Como podemos contribuir para mudar essa realidade?
Essa realidade também nos lembra algo essencial. A nossa responsabilidade como farmacêuticos, ela precisa ser contínua. Por isso, educar o paciente não pode ser visto como evento pontual, mas sim um processo contínuo, interativo, incluído na prática de cuidado e utilizando estratégias educativas corretas para melhor comunicação com o paciente.
Devemos sempre demonstrar a técnica correta, pedir que o paciente repita, oferecer orientações claras e possíveis e revisar esse processo a cada nova consulta atendimento. Porque no fim das contas o nosso compromisso vai além da dispensação. Ele está em garantir que o medicamento chegue realmente aos pulmões e proporcione o alívio e o controle que nossos pacientes precisam.
Ou seja, a nossa missão é contribuir para maior efetividade do tratamento com menor risco. Atualmente, no mercado temos uma grande variedade de dispositivos inalatórios com diferentes princípios ativos que podem estar isolados contendo broncodilatadores de curta ou longa duração, corticosoides inalatórios. Também identificamos associações nessas formulações que estão presentes no mercado, que podem conter uma associação de bronco de longa duração com corticosoide inalatório ou até mesmo terapias triplas com três princípios ativos.
Esses dispositivos, de maneira geral, podem ser representados por quatro grupos. Os inaladores pressurizados, que também são conhecidos como bombinhas, spray, aerosol doosimetrado ou nebulímetro, inaladores de névoa suave, inaladores de pó seco, multidose ou em unidose e nebulizadores. Cada uma dessas classes tem suas próprias vantagens e desvantagens que veremos em outro vídeo.
Outras informações ainda merecem destaque. Além da técnica, é importante orientarmos o paciente sobre cuidados após o uso. Então, ele tem que ser orientado sobre a higiene bucal após a inalação, principalmente corticosoide.
Isso é fundamental para ajudar a reduzir a deposição do medicamento na oro faringe, minimizando efeitos a diversos locais, como sapinho, né, que é candidíase e rouquidão. Devido ao ressecamento das cordas vocais, o paciente deve escovar os dentes e a língua, fazer borcheo, gargarejar e cuspir a água. Se você não der essa informação, ele vai engolir essa água.
Sobre o armazenamento, é importante que o paciente seja orientado que o medicamento deve ser mantido em temperatura ambiente, ou seja, entre 15 a 30ºC, protegido do calor e da umidade. Oriente ainda o paciente a não guardar medicamento na cozinha, no banheiro ou dentro do carro, longe do fogão e de superfícies quentes. sobre o descarte, precisamos orientá-lo sobre o impacto ambiental dos dispositivos inalatórios.
É fundamental compreender as diferenças entre os principais tipos, os inaladores pressurizados, os inaladores de pó seco e os inaladores de néva suave. Os inaladores pressurizados utilizam hidrofluorocarbonetos como propelentes, gases com elevado potencial de aquecimento global, fazendo com que apresentem a maior pegada de carbono entre todos os dispositivos disponíveis. Para ter uma dimensão do impacto, um único inalador, contendo 200 doses possui uma pegada de carbono equivalente a uma viagem de 290 km.
Por outro lado, os inaladores de pó seco não utilizam propelentes. Com isso, apresenta um potencial de aquecimento global muito menor quando comparado aos inaladores pressurizados. No entanto, vale destacar que a embalagem plástica desses dispositivos ainda representa o impacto ambiental, sobretudo no que diz respeito à poluição marinha ao longo de ciclo de vida desse produto.
Os inaladores de névoa suave surgem como uma alternativa mais sustentável. Esses dispositivos também não utilizam propelentes. Outro ponto importante sobre o impacto ambiental dos dispositivos inalatórios está relacionado à conscientização do paciente sobre o descarte correto.
Os dispositivos inalatórios usados acabam em grande parte sendo descartados no lixo doméstico e destinados a aterros sanitários. Esse descarte inadequado contribui não apenas para o acúmulo de resíduos plásticos no meio ambiente, mas também para a liberação gradual de gases residuais na atmosfera pelos inaladores pressurizados. Além disso, os resíduos de medicamentos que permanecem nos dispositivos podem contaminar o solo, os recursos hídricos e afetar organismos aquáticos, representando um risco ambiental.
No Brasil, o decreto 10. 38 de 2020 regulamentou a logística reversa de medicamentos e de suas embalagens. Esse decreto orienta que o descarte deve ser feito em farmácias para terem o destino correto.
É essencial orientarmos os pacientes sobre essa prática, pois o descarte inadequado ele contribui para a contaminação ambiental. Por isso, nossa atuação educativa deve incluir informações sobre o descarte adequado dos dispositivos, mesmo que aparentemente vazios. As cápsulas e os dispositivos vazios, vencidos ou fora de uso, não devem ser jogados no lixo comum.
Oriente seus pacientes sobre os pontos de coleta disponíveis em sua cidade para o descarte adequado. Uma das opções é consultar a rede de locais de coleta cadastrados no site www. logmed.
org. br. Agora vamos entender porque este curso é tão vital.
Vamos olhar os dados que eu tinha mencionado anteriormente. As avaliações feitas com profissionais da saúde que incluíram médicos, fisioterapeutas, enfermeiros e, é claro, farmacêuticos, mostra uma realidade super preocupante. Somente cerca de 16% desses profissionais dominam a técnica correta de uso dos dispositivos inalatórios.
Além disso, muitos subestimam a complexidade da técnica, acreditando que os pacientes conseguiram realizá-la facilmente. Alguns até consideram essa habilidade pouco relevante paraa sua prática profissional. Essa falta de domínio e a subestimação podem, lamentavelmente contribuir para manter o cenário de uso incorreto dos dispositivos pelos pacientes e, portanto, o controle inadequado da doença.
Em uma outra revisão sistemática com metanálise, observou que 87% dos pacientes cometeram pelo menos um erro na técnica inalatória. E mais, 77% deles erraram 20% ou mais das etapas de uso do dispositivo. É importante destacar que não há um dispositivo inalatório mais seguro que o outro e erros durante a utilização podem ocorrer com todos os modelos de dispositivos disponíveis.
No Brasil, um estudo feito em um hospital terciário revelou que 60,5% dos pacientes realizavam a técnica de forma incorreta e os números são ainda mais preocupantes quando olhamos com mais atenção. 84% dos usuários eram usuários de aerosóis noimetrados. 52% dos usuários usavam os inaladores de pós seco.
A variação nos percentuais de erro de técnica em cada estudo, ela tá influenciada tanto quanto ao tipo do dispositivo utilizado, como por características individuais dos usuários, bem como pela forma de análise, se foi analisado todas as etapas, se foi analisado somente etapas críticas. Então, dependendo da análise que o pesquisador faz, esse percentual pode ser maior ou menor. Mas o detalhe é que independente da do tipo de análise, esse percentual sempre tem aparecido muito alto nos estudos.
Erros no uso de dispositivos inalatórios são comuns entre os pacientes. Estão associados a redução do controle da asma, ao aumento do risco de exacerbação e aumento de utilização dos serviços de saúde. que como vimos, o domínio da técnica pelos profissionais da saúde pode perpetuar esses erros, já que eles não estão aptos a orientar adequadamente os pacientes.
E por tudo isso, colegas farmacêuticos, é que precisamos dominar a técnica inalatória, estar preparados para ensiná-la passo a passo, com clareza e paciência. Avaliar a técnica do paciente em cada consulta deve ser uma prática constante, rotineira. E mais, repetir, reforçar, orientar quantas vezes foram necessárias.
Nas próximas aulas abordaremos as técnicas corretas, os principais erros para cada tipo de dispositivo para garantir a máxima eficácia do tratamento. Os pacientes precisam do seu apoio para alcançarem o máximo de benefício que o tratamento que utilizam. E vocês podem ter certeza que esse curso foi preparado com muito cuidado, com muito comprometimento para que vocês realmente se tornem um agente de transformação e contribuam de verdade, com responsabilidade para melhorar esse cenário.
Contamos com vocês nesse grande movimento de transformação. Até lá.