De uns tempos para cá virou comum comentários do tipo: O regime militar foi o melhor tempo da minha vida, ou coisas parecidas. Isso, principalmente, nas redes sociais. É difícil de entender como que pessoas podem lembrar com saudosismo de um tempo em que houve perda de direitos políticos, prisões sumárias, tortura, toque de recolher e censura prévia da imprensa, entre muitas outras medidas de perda da liberdade.
Um relator da ONU chegou a dizer que comemorar o regime militar brasileiro é imoral e inadmissível. Bom, 58 anos depois dos militares tomarem o poder, o governo do presidente Bolsonaro disse que o golpe de 64 foi um marco histórico da evolução política brasileira. Dá uma olhada: Para muitos, os anos de chumbo são lembrados como os anos do milagre econômico.
Anos em que a vida dos brasileiros era melhor. Será? Vamos conversar!
? De uns anos para cá começou um movimento de revisionismo histórico dos tempos da ditadura brasileira. Um movimento que romantiza os 21 anos que os militares passaram pelo poder.
E isso ganhou força com a chegada do Jair Bolsonaro na presidência. É comum ver comentários na internet que o regime militar só foi ruim para comunistas, vagabundos e arruaceiros. Mas afinal de contas quem se beneficiou dos tempos do regime militar?
E quem foi prejudicado? Aqui eu não vou nem comentar do ponto de vista dos direitos humanos, que acho que já está bem claro. Tanto para os historiadores, quanto para as organizações internacionais como a Anistia Internacional, a Human Rights Watch entre muitas outras, é consenso condenar a ditadura brasileira, que foi extremamente violenta.
Mas eu quero dar uma olhada na economia e nos indicadores sociais. Vamos lá? O governo militar foi de 1964 a 1985 e apostou em um modelo desenvolvimentista com uma participação estatal pesada para fazer o país crescer.
No chamado Milagre econômico, o país chegou a taxas de crescimento de 14% ao ano em 1973. Uma propaganda do governo até dizia “Ninguém mais segura este país”. Mas nas palavras do ministro da Fazenda da época, o Delfim Neto, era Mas esta repartição do bolo nunca aconteceu.
Os empresários e a classe média tiveram uma melhora na qualidade de vida. E quem pagou a conta foi a população mais pobre. E a conta foi alta.
O salário mínimo no período da ditadura caiu 50% em valores reais. Os reajustes não davam nem para compensar a inflação. Vale lembrar que com a ditadura, os sindicatos eram perseguidos e não tinham poder de negociação.
Isso entre outras coisas resultou num aumento enorme da desigualdade social. Um estudo feito pela Universidade de Brasília com base no Imposto de renda mostrou que o 1% mais rico em 1964 tinha entre 17 a 19% da renda do país, mas no fim da ditadura essa participação subiu para quase 30% da renda. Na prática, isso significava miséria e fome.
Em 1974, 62% dos brasileiros sofriam de subnutrição. Entre 1972 e 1976 morreram quase um milhão e meio de crianças brasileiras por causas, que são associadas à desnutrição e à falta de saneamento básico. O governo militar mascarava a situação.
Por exemplo, em 1974 uma epidemia de meningite foi censurada na imprensa. E até um estudo sobre como o brasileiro se alimentava foi engavetado depois de mostrar resultados ruins. Na época, a censura controlava tudo o que era impresso ou transmitido nos meios de comunicação.
As críticas e pontos negativos eram censurados. E aí só com mídia positiva ficava mais fácil de criar uma sensação de avanço do país. Mas os indicadores sociais eram duros: um terço da população era analfabeta, não tinha auxílio social e o SUS nem existia.
Ele foi criado só em 1988. Na época dos militares, quem não tinha carteira assinada não tinha acesso ao sistema de saúde e tinha que contar com a benevolência dos hospitais beneficentes. Mas e a segurança?
Quem nunca ouviu aquela história de que antigamente dava até pra deixar a porta de casa destrancada e a janela aberta? E num regime militar, com maior controle, a tendência seria de ter mais segurança, certo? Bom, os números mostram o contrário.
A chamada epidemia de violência no Brasil ganhou corpo com os militares no poder. Vamos pegar o caso de São Paulo. Em 1960, a taxa de homicídio era de seis casos para cada cem mil habitantes.
No fim da ditadura, disparou para 36. A ONU considera valores acima de dez, já como uma epidemia de violência. E a ideia de que bandido bom é bandido morto vem muito desta época, em que foram formados os esquadrões da morte dentro das polícias para exterminar criminosos.
Mas especialistas argumentam que assassinar sumariamente bandidos aumenta a sensação de desordem e é contraprodutivo. Na prática, traz uma escalada de violência dos dois lados. A raiz desta insegurança para os estudiosos é a desigualdade social e o êxodo rural que aconteceu nessa época.
E no aspecto financeiro? Quando a gente olha mais de perto, dá pra ver que o milagre econômico não caiu do céu. As grandes obras do regime militar, como a ponte Rio-Niterói, a hidroelétrica Itaipu e a Usina Nuclear em Angra dos Reis, foram feitas com empréstimos estrangeiros.
Isso ajudou a dívida externa brasileira a quadruplicar e chegar aos cem bilhões de dólares. E a inflação no fim da ditadura era de 223% ao ano. Isso, no jargão financeiro, ficou conhecido como a herança maldita da ditadura.
Então, se alguém comentar algum dia num grupo de zap ou do telegram que a vida era melhor na ditadura, manda este vídeo para eles. Pode até ser que para alguns poucos a vida era melhor no regime militar. Mas para a grande maioria isso não era verdade.
Neste clima de polarização e extremismo, a gente tem que tomar cuidado para não se embrutecer e perder a capacidade de se compadecer com a dor do outro. Lembrando aqui, 62% dos brasileiros em meados dos anos setenta estavam subnutridos, ou seja, passavam fome. E você?
Que lembranças você tem dos anos de chumbo? Ou que história você escutava dos seus pais e avós? Escreve aqui para gente nos comentários.
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2022 é ano de eleições. Ano de debater e escolher candidatos dos mais diferentes espectros políticos. Uma coisa que não se podia fazer nos tempos da ditadura.
Não desperdiça esse direito!