No vídeo de hoje eu vou falar sobre uma das doenças autoimunes mais famosas do mundo: o Lúpus. Ele ganhou a mídia recentemente quando a cantora Selena Gomez passou a falar abertamente sobre os desafios de viver com Lúpus e revelou as consequências do tratamento. Será que você, mesmo nascendo saudável, pode desenvolver lúpus em algum momento da vida?
Será que o Lúpus é igual para todo mundo? Me conta aí se você tem ou conhece alguém que convive com essa doença que marcou a ciência e a história. A história do Lúpus começa na idade média, por volta do ano 855.
Foi quando Eraclius, conhecido como o bispo de Liege, desenvolveu uma série de lesões misteriosas na pele. Elas surgiram sem nenhuma causa aparente e se pareciam com mordidas de lobo. Por isso, a doença misteriosa foi chamada de Lúpus, que significa lobo em latim.
Eraclius tentou todos os tratamentos da época, mas nada funcionava. Foi só quando ele visitou a igreja de São Martinho, na França, que as lesões se curaram milagrosamente. Pelo menos é o que está descrito na biografia de São Martinho.
Fato é que essa foi a primeira vez na história em que a palavra Lúpus foi usada para descrever uma doença. E segue assim até hoje, com a diferença de que ela ganhou um sobrenome: Lúpus Eritematoso Sistêmico. Eu sei que o nome assusta, até parece que os médicos inventam esses nomes para dificultar a nossa vida.
Mas olha como faz sentido. Eritemas são manchas vermelhas na pele. Lúpus eritematoso são lesões avermelhadas na pele, geralmente redondas ou em formato de borboleta no rosto.
E é sistêmico porque não fica restrito só a um local, afeta várias partes do corpo, inclusive os órgãos internos. Só aí já deu para perceber que o Lúpus causa muito mais do que lesões de pele né? E o mais intrigante é que os sintomas iniciais mais comuns do Lúpus não te fazem suspeitar dele: fadiga, mal-estar, febre, perda de peso, às vezes até sintomas respiratórios, como tosse e falta de ar.
É só depois começam as lesões de pele específicas do Lúpus, junto com perda de cabelo, sensibilidade à luz do sol, dor e inchaço nas articulações… Só que o Lúpus, pessoal, não é a única doença que causa lesões de pele e todos esses sintomas variam muito de pessoa para pessoa, o que confunde os médicos e pode atrasar o diagnóstico em até 5 anos. Imagina que tristeza, 5 anos indo de médico em médico sem descobrir qual é o problema. Enquanto isso, a pessoa piora aos poucos e pode desenvolver complicações graves que colocam a vida em risco.
Um caso famoso foi o da cantora americana Selena Gomez, diagnosticada com lúpus em 2014. 3 anos depois, ela teve falência dos rins e precisou de um transplante com apenas 25 anos. E ela não é a única, até 22% de quem tem Lúpus desenvolve doença renal grave.
Depois disso, Selena até teve uma melhora, mas nos últimos anos, o Lúpus voltou a gerar problemas pra ela, causando dores insuportáveis no corpo todo. O caso dela ilustra o lado sombrio do Lúpus. Ele gera crises muitas vezes debilitantes que aparecem de repente, quando a pessoa menos espera.
O grande mistério por trás do Lúpus sempre foi entender o que dispara essas crises repentinas. Só assim que a gente poderia pensar em formas efetivas de combater a doença. Por muitos séculos essa pergunta intrigou cientistas do mundo inteiro.
Mas finalmente nós estamos próximos de desvendar como o Lúpus começa. Independente se você foi picado por um mosquito ou se você exagerou no sol, o resultado é o mesmo: danos nas células da pele que levam à inflamação. Para a pele voltar ao normal, a célula tem duas opções: ou, se não for possível, apertar o botão da autodestruição.
Ela morre para ceder espaço a uma célula nova, saudável. Nessa hora, o sistema imune entra em ação para limpar os restos de células mortas. Quer dizer, isso é o que deveria acontecer.
Na prática, as células de defesa de algumas pessoas não fazem essa limpeza de maneira adequada. Moléculas que normalmente ficam escondidas dentro das células, inclusive o DNA, agora ficam soltas por aí. Ao invés de simplesmente eliminar a sujeira, o sistema imune comete um erro imperdoável.
Ele reconhece essas moléculas que vieram do próprio organismo como algo estranho e produz anticorpos contra elas. Tudo bem que atacar restos de células mortas não parece ser um grande problema. Mas o perigo do Lúpus é o que vem depois disso.
Durante o ataque, o sistema imune libera substâncias inflamatórias que danificam as células saudáveis que estão por perto. A lesão que já existia fica cada vez pior porque vão surgir mais restos de células mortas que também vão ser atacados. A partir desse momento, se estabelece a condição autoimune que nós chamamos de Lúpus.
É o organismo combatendo ele mesmo. Depois de algum tempo nesse ciclo vicioso, as células de defesa ficam hiper-reativas, tipo quando você está estressado e desconta a raiva no primeiro que aparece, sabe? Elas passam a atacar também as células saudáveis de órgãos como pulmão, coração e rim.
É aí que surgem as complicações do Lúpus que se desenvolvem ao longo dos anos e vão desde alterações cardiovasculares a problemas neurológicos, como AVC, convulsões e psicose. Depois que a reação autoimune se estabelece, não tem mais volta. O sistema imune guarda a memória das células que foram atacadas e novas crises podem voltar quando a gente é exposto a danos comuns do dia a dia.
Um dia de sol na praia, o que para a maioria das pessoas é quase o paraíso, para quem tem Lúpus, vira um tormento. Especialmente o sol danifica as células da pele e pode reativar o sistema imune, disparando novas lesões no rosto, nos braços e em qualquer parte exposta. Infelizmente não existe cura para o Lúpus, mas a evolução do conhecimento científico sobre a doença permitiu a criação de tratamentos.
Dependendo do caso, o médico pode receitar anti-inflamatórios, imunossupressores e mudanças de hábitos de vida para reduzir a intensidade e frequência das crises. Mas é um processo lento que exige acompanhamento a longo prazo. Tudo por causa de uma série de falhas do sistema imune que eu duvido que você já tenha visto de forma tão objetiva e didática antes.
Não vou mentir, falar de ciência no YouTube é trabalhoso, mas você pode apoiar o meu trabalho financeiramente licando no valeu demais se chegou até aquil. Se não puder, deixa um like aqui embaixo que isso ajuda muito o YouTube a entender que você é um cientista iniciante e vai te recomendar nossos vídeos com mais frequência. Eu prometo que vai valer a pena porque aqui eu não te conto só as curiosidades, é conhecimento aplicável na sua vida.
Quer ver? Será que você pode desenvolver Lúpus, mesmo tendo uma boa saúde? Quem é que pode desenvolver lúpus e como se proteger?
O Lúpus pode aparecer em qualquer pessoa, em qualquer fase da vida. Só que ele é 9 vezes mais frequente em mulheres e o motivo parece estar em um hormônio que é mais abundante nas mulheres, o estrogênio. Uma das funções do estrogênio é regular o sistema imune.
Ele estimula justamente as células de memória e, durante uma reação imune, mantém as células de defesa ativadas. Indiretamente, o estrogênio cria um ambiente favorável ao Lúpus. Não é que ele seja a causa, mesmo porque nem toda mulher vai ter Lúpus.
Mas o fato das mulheres terem uma concentração maior de estrogênio circulando isso facilita com que elas desenvolvam a doença Mas atenção, homens! Apesar de nós sermos menos afetados, nós temos mais complicações quando nós temos lúpus como infarto, falência dos rins e até morte. Essa diferença do Lúpus entre homens e mulheres não é só um reflexo das diferenças hormonais.
Os homens que têm Lúpus geralmente têm mais alterações genéticas que predispõem a ele em comparação com as mulheres. Mas não se desespere. A hipótese mais aceita é que o Lúpus depende de uma predisposição genética somada com outros fatores a que somos expostos ao longo da vida para se desenvolver.
Isso significa que se a sua mãe ou qualquer outro familiar tem Lúpus, você tem um risco maior de desenvolver sim. Mas isso não é uma sentença. Talvez você nunca desenvolva Lúpus, mas é importante ficar atento a fatores que podem aumentar o seu risco.
O primeiro deles são medicamentos. Sim, eu já te falei no vídeo da talidomida o quão perigoso pode ser ficar tomando remédio sem receita, mas existe uma lista de mais de 100 remédios comprovadamente relacionados ao desenvolvimento de Lúpus. Dois exemplos são os anti-hipertensivos captopril e metildopa.
Nesse caso, o Lúpus geralmente aparece em uma forma mais leve e na maioria das vezes, é só interromper o uso do remédio que os sintomas somem. Um outro fator de risco que muita gente não conhece são as infecções. Alguns vírus afetam o funcionamento das células de defesa e podem levar ao Lúpus a longo prazo.
O principal é o vírus Epstein-Barr, que causa a mononucleose e mais de 90% da população adulta carrega no corpo, como eu expliquei aqui. Se você já pegou mononucleose, não tem muito o que fazer. Mas a boa notícia é que existem outros fatores de risco que aí sim você pode evitar.
Assim você reduz o seu risco para se proteger do Lúpus. No caso das mulheres que têm casos de Lúpus na família, é importante conversar com o médico antes de começar a tomar remédios à base de estrogênio, como anticoncepcionais e terapia de reposição para menopausa, tá bom? .
Eles podem aumentar o risco de Lúpus. E independente de ser mulher ou não, faça o possível para evitar comportamentos que atrapalham o funcionamento do seu sistema imune. Estresse, principalmente se ele aparece de forma frequente e por longos períodos, deficiência de vitamina D, uso de cigarro e consumo abusivo de álcool.
Tudo isso você pode tentar controlar e ainda ganha de bônus uma saúde melhor. O Lúpus é uma doença complexa que gera muito sofrimento, mas graças à ciência nós já temos muitas respostas. Mesmo quem precisa conviver com o Lúpus pode ter uma vida normal.
Mas tem uma coisa que já está afetando a sua vida e provavelmente a sua saúde: os microplásticos que estão em quase tudo do nosso dia a dia. Eu explico como se proteger aqui. Um grande abraço, cuide do seu sistema imune e eu te vejo no próximo vídeo.
Tchau.