Você tem 23 anos. O despertador nem precisou tocar, porque o barulho do ônibus da primeira linha já passou tremendo a janela. Não é um plano de carreira, é sobrevivência.
O aluguel na quebrada subiu, a conta de luz veio com bandeira e a faculdade virou um boleto que você olha e suspira. Você olha pra chave da CG 160 em cima da mesa. Ela não é só uma moto, é a sua ferramenta, seu escritório e às vezes sua única companhia.
Você veste a jaqueta, confere se a antena corta pipa tá firme. Em São Paulo, isso salva vidas. Você coloca o capacete e o mundo lá fora some, vira só você e o motor.
A primeira partida é sofrida. O óleo ainda tá frio, igual ao vento que corta a viseira. Você sobe, ajusta o retrovisor e sente o peso da bagas.
Ela ainda tá leve, mas você sabe que até o fim do dia ela vai pesar 1 tonelada. 0:30 a 1 hora você entra na marginal. O sol ainda não saiu, mas o trânsito já nasceu gigante.
É aqui que o jogo começa. No corredor, a vida passa a centímetros dos retrovisores dos carros. É uma dança milimétrica.
Um erro de um palmo e o corre acaba no asfalto. Você buzina, dois toques rápidos, o código da rua. Tô passando, me vê.
Tem motorista que entende. Tem motorista que fecha por maldade. Você não xinga, não dá tempo.
O tempo é dinheiro e o aplicativo já deu o primeiro plim. 1 hora a 1:45. O primeiro pedido é numa lanchonete no centro.
Você chega, desce o pezinho da moto e entra. "Tá saindo, chefe", diz o atendente sem olhar na sua cara. Você olha pro relógio.
5 minutos ali parado, é 1 km a menos que você poderia estar rodando. Você olha em volta, cinco, 10 motoboys na mesma situação. Olhar de cansaço, mas de respeito.
O pedido sai, você confere se a bebida tá firme. Se vazar, a nota cai. E se a nota cair, você não come.
1:45 a 2:30. Endereço: Prédio de luxo nos jardins. Você chega na guarita.
Pode subir. A voz vem seca pelo interfone. Você respira fundo.
A política do app é entregar na portaria, senhor. O silêncio do outro lado é pesado. Você sabe que a estrela única já tá sendo desenhada no dedo do cliente.
Ele desce, cara de poucos amigos. Pega a sacola sem dizer obrigado. Você monta na moto, engata a primeira e deixa o desaforo para trás.
O asfalto não tem espaço paraa ego. 2:30 a 3:30 meio-dia. O asfalto de São Paulo parece que vai derreter o pneu.
Você para num posto, pede R$ 2 de pão na chapa e um café. É o luxo do dia. O celular tá no suporte, fervendo sob o sol.
Você olha o grupo de WhatsApp, acidente na radial. Blitz na ponte. A informação ali corre mais rápido que o Google.
Você manda um boa para nós e volta. A tarde é um buraco negro, pouco pedido, muita rodagem. Você gasta gasolina para procurar trabalho.
A chuva de fim de tarde em SP não avisa. Ela desaba. Em 2 minutos sua bota tá encharcada.
Você para embaixo do viaduto para colocar a capa. Tá todo mundo lá. Uma fila de capas amarelas e pretas.
Ninguém reclama. O silêncio é de quem sabe que o risco dobrou. A pista tá sabão.
Cada frenagem é um teste cardíaco. Você entrega o remédio para uma senhora na ladeira. Ela te vê ensopado e diz: "Cuidado na volta, meu filho aquilo ali vale mais que a gorgeta de R$ 2".
8 horas da noite. O cansaço já não é mais físico, é um zumbido constante na cabeça que se mistura com o barulho do trânsito. A lombar grita a cada buraco que você não conseguiu desviar.
Você aceita a última do dia para fechar a meta com chave de ouro. É um combo de hambúrguer para um grupo de amigos. rindo na calçada de um barbado.
Eles nem te vem. Você é só o braço que entrega a comida e recebe um valeu, sem contato visual. Mas quando você monta na moto e engata a primeira, o coração gela, a traseira da moto começa a sambar.
Você tenta equilibrar, mas o peso da roda no asfalto não engana. O pneu furou no meio da radial leste, longe de casa, com o celular em 5%. Você para no encosto, olha pro pneu murcho e sente um nó na garganta que não é de fome.
Você abre o aplicativo e olha o saldo do dia. R$ 120. 10 horas de sol, chuva e risco de morte.
Você sabe que o borracheiro 24 horas mais próximo vai cobrar 80 pelo conserto e pela câmara nova. Você empurra a moto por 10 quarteirões. O suor agora é frio.
Cada passo que você dá é R que some da janta. Na borracharia você observa o borracheiro mexer na roda enquanto os carros passam voando lá fora. O barulho da chave de fenda batendo no aro soa como um cronômetro tirando dinheiro do seu bolso.
Você paga. Sobraram R$ 40. O lucro de um dia inteiro de trabalho foi engolido por um prego de 2 cm.
Você trabalhou 12 horas hoje só para consertar a ferramenta que te permite trabalhar amanhã. Você chega em casa no automático. A moto, agora com o pneu cheio e o tanque na reserva, dorme na sala, protegida por três cadeados.
Ela é mais cara que todos os seus móveis juntos. Você tira a bota, o pé tá branco da umidade daquela chuva de mais cedo. Abre o app de novo na esperança de que os números tenham mudado por milagre.
Gasolina, óleo, a parcela da moto, o pneu. A conta não fecha. Hoje você pagou para trabalhar.
Você entra no banho. A água quente é o único momento de paz. O vapor limpa o cheiro de fumaça e o gosto amargo da frustração.
Você senta no sofá com um prato de arroz e ovo, olhando pro nada. O corpo treme levemente, ainda vibrando na frequência do motor. Você deita na cama e o silêncio do quarto parece mais barulhento que o corredor da Paulista.
O alarme já tá marcado. 5:30. porque não tem espaço para luto.