[Música] Irmãs, neste terceiro domingo do tempo comum, nós começamos a nossa jornada pelo Evangelho de São Lucas, que é o evangelho correspondente ao Ano C do ciclo dominical, que é o ano em que nós estamos. Justamente por isso, a liturgia nos apresenta dois textos. O primeiro é o chamado prólogo do Evangelho de São Lucas, e o segundo, logo na sequência, é o início do Ministério Público de Jesus, segundo São Lucas.
O prólogo de São Lucas começa dizendo: "Muitas pessoas já tentaram escrever a história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como nos foram transmitidos por aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra. " Ou seja, São Lucas está nos dizendo duas coisas: a primeira é que ele não é uma testemunha ocular, ele escutou a pregação de outros; ele pertence, por assim dizer, a uma segunda geração. E também ele está dizendo que outros tentaram escrever a história.
Nós sabemos que, quando São Lucas escreve seu evangelho, já está em circulação o evangelho de São Marcos. Aliás, o evangelho de São Marcos é a base a partir da qual ele escreve várias coisas no seu evangelho. Porém, havia outras tradições em circulação; havia certamente panfletos pequenos, ditos materiais prévios.
Então ele diz: "Assim sendo, após fazer um estudo cuidadoso de tudo que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado para ti, excelentíssimo Teófilo. " Teófilo é chamado de excelentíssimo, portanto deve ser uma figura de certo envergadura no tempo, um homem possivelmente de condições econômicas confortáveis e que também, possivelmente, financiou o trabalho de escrita de São Lucas. Naqueles tempos, não era como hoje; os pergaminhos custavam muito caro, as tintas para escrever custavam muito caro, sobretudo se fosse necessário fazer algum tipo de investigação e viajar, por exemplo.
Isso tudo era muito caro. Então, possivelmente, Teófilo é alguém que financiou esse trabalho do evangelista, mas ele diz: "Após fazer um estudo cuidadoso de tudo que aconteceu, eu decidi escrever de modo ordenado. " Ou seja, o que São Lucas faz, e ele mesmo diz, é tomar um material, tomar uma tradição precedente e colocá-la dentro de certa ordem, organizá-la.
Mas não uma tradição qualquer; ele diz: "De tudo que aconteceu desde o princípio. " Ou seja, a nossa fé não é uma crendice. Nós não estamos falando sobre hipóteses, sobre teorias; o que nos interessa é o que aconteceu.
Por isso, quando nós lemos as Escrituras, nós procuramos chegar o máximo possível na realidade. Ou seja, no contexto em que o escritor eclesiástico, o escritor sagrado, escreveu, quais eram as suas motivações, aquilo que realmente estava presente no seu coração, porque nos interessa o que aconteceu. Nossa fé não é uma crença qualquer; nós realmente queremos chegar ao núcleo da realidade.
Desta forma, conclui São Lucas o prólogo: "Poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste. " A palavra aqui é a palavra grega "catequese", que significa falar algo ao ouvido que ecoa ao ouvido. Então ele está dizendo ao Teófilo: "Você foi catequizado, mas agora eu quero escrever com ordem para dar solidez à sua catequese, para que você realmente saiba quais são os fundamentos disso tudo.
" Para nós, é importante, porque precisamos sempre olhar as Sagradas Escrituras com esse desejo de chegar a Cristo, que é o fundamento de tudo. Então nós saltamos para o Capítulo Quarto, o início do Ministério Público de Jesus segundo São Lucas. Naquele tempo, Jesus voltou para a Galileia com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a redondeza.
Ele ensinava nas suas sinagogas e todos o elogiavam. Então, a primeira coisa que chama a atenção é que São Lucas sempre salienta o papel do Espírito Santo na missão de Cristo. Ele vem com o poder do Espírito Santo; ele tinha sido batizado, e no seu batismo o Espírito se manifestou de maneira corpórea, como se fosse uma pomba.
Então, cheio do Espírito, ele vai para a Galileia e começa a pregar nas sinagogas. Ele é um pregador itinerante, ele é um anunciador da palavra, o mensageiro. Ele vai de sinagoga em sinagoga, anunciando; sua fama começa a se espalhar, todos começam a falar bem dele.
Então, ele vai a Nazaré, veio à cidade de Nazaré, a vilazinha de Nazaré onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado e levantou-se para fazer a leitura. Jesus era judeu.
Os judeus, no século I e até um pouco antes, no século II antes de Cristo, começaram a cultuar a Deus também nas sinagogas. No judaísmo, nós tínhamos, nesse período, duas estruturas religiosas básicas: o Templo de Jerusalém, que era exclusivo, era um só, o templo de Deus, onde se ofereciam os sacrifícios, os sacerdotes ofereciam o sacrifício no templo, e nós tínhamos as sinagogas. As sinagogas eram lugares onde não se fazia sacrifício; a única coisa que se fazia era a leitura da Palavra de Deus e o louvor a Deus através da recitação do canto dos Salmos.
Era costume na sinagoga que se lesse sempre um trecho da Torá, que é a parte principal do Velho Testamento, são os cinco primeiros livros da Bíblia, e se lesse também um escrito dos Profetas. Ali em Nazaré, eles não deviam ter muitos escritos dos Profetas; possivelmente tinham só o de Isaías, que era o mais difundido. A leitura da Torá geralmente era feita pelo rabino, e a leitura dos Profetas podia ser feita por um convidado.
Então, é nesse contexto que Jesus se levanta para a leitura. Possivelmente, o rabino, já conhecendo a fama, sabendo que todos o elogiavam, ele se tornava, digamos, uma pequena celebridade; alguém já o conhecia. Então, o rabino chama para ler, deram-lhe o livro do profeta Isaías.
Abrindo o livro, Jesus achou a passagem, ou seja, ele procurou a passagem em que está escrito. Então, nós começamos aqui a leitura dos primeiros versículos do. .
. Capítulo 61 de Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres. Enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos, a recuperação da vista, para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da Graça do Senhor.
" Estes versículos do profeta Isaías estão na terceira parte do livro do profeta Isaías. Essa terceira parte, escrita por volta de 450 antes de Cristo, é uma parte muito interessante, porque recolhe os ditos de um profeta na tradição de Isaías para aqueles que voltam da Babilônia. Então, se nós lembramos bem, Judá, cuja capital era Jerusalém, teve a sua elite e parte do seu povo deportado para a Babilônia.
Eles passam na Babilônia durante aproximadamente 73 anos. Acontece uma mudança de império: o império medo-persa, aliás, o império persa conquista a Babilônia e o rei Ciro autoriza os judeus a voltarem. Só que muita gente não queria mais voltar; já tinha se estabelecido na Babilônia, tinha feito a vida lá, estava com a vida estável e já tinha alcançado uma certa segurança financeira.
Então, os profetas começam a dizer: "Voltem para a terra, voltem para a terra, porque senão vocês vão perder o culto a Deus. Aqui na Babilônia, vocês vão começar a adorar Mardu, vão começar a adorar as divindades daqui. " O que acontece?
Parte dessa população volta. Quando eles chegam à terra, eles têm uma grande decepção, porque todo o território foi conquistado pelos povos vizinhos. Então, estavam ali os moabitas, os amonitas, os edomitas e outros povos, que já tinham colocado o culto dos seus deuses ali.
Estava aquela bagunça, tudo literalmente ao Deus dará. Diante dessa decepção, o profeta diz: "O Espírito do Senhor está sobre mim. Ele me consagrou com a unção.
" Jesus, apropriando-se dessa palavra, está se referindo ao seu batismo, em que ele foi consagrado, em que se manifesta publicamente aquilo que o Pai quer dele: "Ele me consagrou com a unção para quê? Para anunciar a Boa Nova, para anunciar o evangelho, para anunciar uma notícia boa para os pobres. " Que notícia boa é essa?
A libertação dos cativos, aos cegos a recuperação da vista, a liberdade para os oprimidos e para proclamar um ano da Graça do Senhor. Ano da Graça. A que Jesus está se referindo aqui?
No capítulo 25 do livro do Levítico aparece essa expressão "ano da Graça", "ano do Jubileu", que se realizava em Israel a cada 50 anos. Então, a cada 7 anos, a terra descansava do plantio, e 7 x 7 é 49. Então, no final do 49º ano, no 50º ano, era um período de Jubileu.
Ou seja, todas as dívidas eram perdoadas, todas as execuções penais eram perdoadas, todo tipo de pendência era resolvida. Então começava uma espécie de anistia geral que permitia um recomeço, especialmente para os pobres. Então, vejam, imaginem que declarassem um ano desses hoje; todas as suas dívidas com os bancos seriam perdoadas, todas as suas dívidas de cartão de crédito, todas as dívidas de consórcios, financiamentos.
Tudo, tudo perdoado. Zero. Você não deve mais nada.
Você que perdeu a sua casa numa hipoteca, etc. , vai voltar para a sua casa. Tudo começa de novo.
Isso era o Jubileu. Ora, portanto, do que o profeta está falando aqui? Ele está dizendo: "Eu vim trazer uma boa notícia.
Estou começando um Jubileu. " E esse Jubileu é o seguinte: todos aqueles pobres que foram presos, porque não conseguiam pagar suas dívidas, eu vou libertá-los. Todos aqueles escravos que estavam oprimidos, porque não conseguiram pagar as dívidas, então foram trabalhar como servos de graça no campo dos outros, eu vou soltar.
E Jesus troca uma afirmação de Isaías. Isaías diz que veio trazer conforto para quem tem o coração aflito. Jesus troca isso por devolver a vista ao cego.
O que isso significa? Você que não tinha mais perspectiva, você que não conseguia mais enxergar uma luz no fim do túnel: eu cheguei aqui para trazer a resposta. O Jubileu vai começar, tudo de novo, vai começar tudo do zero.
É interessante que São Lucas diz que Jesus abriu o livro. Depois diz que Jesus fechou o livro. É uma coisa muito óbvia; se alguém vai ler, e aqui estamos falando de pergaminho, então ele abre, ou seja, ele desenrola, e depois ele fecha, ele enrola.
Mas isso tem um significado teológico: Jesus abre o livro, ou seja, ele é a chave para entender a profecia. Jesus fecha o livro; o tempo da promessa acabou. Agora chegou a realidade; ele veio trazer a realidade disso.
Depois, ele entrega o livro ao ajudante e se senta. Essa posição, sentar-se, era ocupada na época por todos os rabinos, os mestres. Hoje em dia, quando alguém quer ensinar, em geral, se levanta para falar.
Nos tempos de Jesus, não era assim; quando alguém ensinava, se sentava. Só que ele se senta, e todos na sinagoga ficam olhando para ele, esperando que ele vai fazer uma homilia, que ele vai fazer um comentário. Aqui também, São Lucas está nos dando uma dica: "Olhem para ele", porque tudo que virá na sequência desse evangelho é sobre isso.
Isso aqui é uma palavra programática; ele está inaugurando o seu ministério e trazendo como que a essência do que ele veio fazer. Então, olhem para ele. Então, começou a dizer-lhes: "Hoje se cumpriu esta passagem da escritura que acabaste de ouvir.
" Ou seja, está aberto o Jubileu. Deus se fez homem, como diz São Paulo: "Cristo estava reconciliando consigo mesmo todas as coisas. " Em Deus, ele é aquele que veio para nos levar a uma espécie de recomeço, para começar de novo, e nós, como povo de Deus, temos que estar aqui, diante da sua palavra, atentos ao seu ensino, porque ele vai ensinar e ele vai fazer pelo poder.
Do Espírito Santo, ele vai nos levar a receber tudo isso através da oração. Ele vai nos fazer entender que Deus é amor e misericórdia e que ele vem para nos perdoar de todos os nossos pecados. Ele vem para mostrar que ele morre em nosso lugar, para que nós possamos viver com ele.
Em outras palavras, queridos irmãos, nós temos que ter esperança. Um cristão não tem direito a não ter esperança. Talvez você muitas vezes diga: "Nossa!
Cheguei ao fim da linha, não tem mais jeito, acho que para mim não tem solução. " Mas Jesus veio para dizer: "Eu tenho uma notícia nova para te dar, eu cheguei e, porque eu cheguei, agora é Jubileu. " Pode ter esperança; os seus olhos podem se abrir.
Eu te dou perspectiva, eu vou zerar tudo na sua vida, eu vou fazer você começar de novo. Que essa palavra nos coloque em sintonia com aquilo que a Igreja quer para nós. Nesses dias, nós estamos no ano do Jubileu na Igreja Católica, o ano convocado pelo Santo Padre Papa Francisco como Jubileu da Esperança.
Que nós possamos, queridos irmãos, olhar para a frente, sabendo que em um estalar de dedos Deus faz um reboliço e ele muda tudo; só ele sabe fazer isso. Que em Jesus nós não deixemos a esperança morrer, mas, pelo contrário, que nós nos agarremos a ela com toda a nossa alma, porque nele nós temos acesso às preciosas promessas que o Pai quer cumprir em toda a nossa existência.