Se nós queremos compreender o Tratado da Verdadeira Devoção à Virgem Maria, o primeiro passo que a gente tem que dar é entender o que é uma devoção, porque, é evidente, a devoção é interpretada geralmente como uma coisa de sentimento, mas não é bem isso. A primeira realidade, o mais importante da devoção é o amor, ou seja, nós precisamos amar Deus e é Deus o destinatário de todas as devoções, até mesmo a devoção aos santos e à Virgem Maria tem que terminar em Deus e é exatamente isto que o Tratado coloca desde o começo, ou seja, a centralidade da nossa entrega, da nossa devoção, da nossa amizade e do nosso amor a Jesus e, portanto, a devoção a Maria é uma devoção que é uma espécie de meio, de instrumento, de caminho para nós nos entregarmos perfeitamente a Jesus. O Papa João Paulo II, que tinha tanta gratidão por esse pequeno livrinho, ele mesmo disse em várias ocasiões o quanto o livro de São Luís o ajudou a superar as dificuldades que ele tinha, por quê?
Porque ele começou inicialmente achando que ele deveria se afastar de sua devoção mariana que tinha adquirido na infância, para ser mais voltado para o Cristo, para Jesus, mas aí, providencialmente, esse livrinho caiu nas mãos dele e ele, então, compreendeu, na escola de São Luís que a devoção à Virgem Maria é cristocêntrica, ela é toda voltada para Jesus. Isso João Paulo II diz várias vezes entre outras citações, eu poderia colocar aqui o seu famoso livro "Cruzando o limiar da esperança", onde ele diz e testemunha esse seu caminho espiritual ou na sua entrevista a André Frossard "Não tenhais medo", pois bem, se a devoção é voltada para Deus, como é que a gente vive mesmo essa realidade da devoção? Veja, em primeiríssimo lugar, quando você ama uma pessoa, você quer se unir a ela e se esse amor é profundo, quanto mais profundo ele é, mais ele gera em você uma prontidão para servir essa pessoa, para estar com ela, para ser verdadeiramente amigo e então, aqui, você tem duas realidades que se alimentam, se retroalimentam mutuamente, ou seja, o nosso dever de nos entregarmos a Deus, na virtude da religião, mas também o nosso amor, a nossa realidade querermos nos unir a Deus.
Existe um dever como criatura, mas existe um amor, como amigo, essas duas realidades de alimentam mutuamente, a gente vai se entregando a Deus e se entregando cada vez mais. Como você cria uma devoção? Como é que você tem um coração devoto?
Bom, você tem que entender que a devoção, estritamente falando, é uma prontidão, uma prontidão quer dizer o seguinte: um ato de vontade e não o sentimento, às vezes o sentimento está lá, às vezes o sentimento não está, mas, por exemplo, quando uma mãe ouve o filho chorar durante a noite, pode ser que ela não tenha sentimento nenhum naquele momento, ela não está sentindo uma consolação: "Ai que maravilha, que bom que meu filhinho existe", os sentimentos ela tem lá, durante o dia, quando o filho está brincando, ela olha para o filho e o coração dela cresce e ela tem aqueles sentimentos bonitos. Durante a noite, quando ela está querendo descansar, aquilo é um fardo, é um peso, no entanto, tão logo o filho chora, existe uma prontidão, uma prontidão para prestar aquele auxílio, aquele serviço, para estar lá como mãe. Muito bem, esta prontidão da mãe que ama e serve o filho, pode depois se expressar também numa vontade meiga e terna de querer se unir a esse filho, de estar abraçadinha lá com ele e de um carinho todo especial, pois bem, essa é uma devoção materna.
Agora imaginemos o contrário, a mãe envelheceu, essa mãe está na cama, doente, alquebrada e o seu filho, cheio de gratidão, devotamente, está pronto para servi-la ao primeiro chamado, ao primeiro sinal, pois bem, Deus quer que nós O amemos, estejamos prontos para o primeiro chamado para nos unir a Ele, mas Ele sabe do nosso limite, do limite do pecado original, por isso, aos pés da Cruz, Jesus nos deu Maria porque olhando esta Mãe, nós nos sentimos mais prontos, mais voltados à entrega, ao menor sinal da mãe, o filho, na devoção filial, diz: "Eis-me aqui", adsum, "Eis-me aqui, presente devotamente inclinado para servir a esta mãe bondosa e me unir a ela como um filho carinhoso e cheio de gratidão", pois bem, se nós fizermos isso com Maria, nós estaremos no caminho de nos entregarmos a Deus com essa mesma prontidão, com esta mesma devoção, porque Ela não segura nada para si. Eva, lá no Paraíso, olhou para o fruto que estava naquela árvore e quis tomá-lo para si. Maria, no Calvário, viu uma outra árvore, a árvore da Cruz, viu um outro fruto, o fruto do seu ventre, Jesus, e não O tomou para si, entregou-O totalmente a Deus.
Pois bem, se Ela não teve nenhuma hesitação de entregar Jesus a Deus, quando você se jogar nos braços Dela, Ela não irá pensar duas vezes, vai entregar você a Deus, por isso, eis aí a devoção a Maria é um caminho para a verdadeira devoção a Deus. Toda devoção, em última análise, deve ser devoção a Deus, ao Cristo Senhor, a devoção a Maria é um instrumento maravilhoso para que nós, devotamente, nos lancemos com prontidão para amar e nos unirmos a Deus, amando e nos unindo a esta Mãe bendita. Deus abençoe você.