saudações meus queridos amigos Esta é a segunda parte do vídeo mulheres de Atenas caso você queira assistir na ordem certinha como eu planejei eu te aconselho a começar clicando no link que tá aparecendo no card aqui em cima ou na descrição aqui embaixo no primeiro vídeo eu foquei em Augusto Boal e Lisa a mulher Libertadora a peça que originou a canção que será o Ponto Central da nossa análise de hoje mas se você quiser começar por aqui Creio que não haverá um grande prejuízo para compreensão do que eu irei propor dito isso procuro um lugar
confortável coloca o fone de ouvido ou espelha na tv porque a obra que nós iremos analisar hoje é mulheres de Atenas de Chico Buarque de Holanda conforme eu expliquei no vídeo anterior a parceria em tribal e Chico para composição de mulheres de Atenas se deu majoritariamente por correspondência Naquele tempo não havia internet as tarifas telefônicas internacionais eram caríssimas era preciso confiar nos correios e aguardar um longo tempo pela troca de mensagens com o parceiro o Bob estava exilado em Portugal quando a maior parte destas cartas foi trocada em uma delas há uma passagem muito interessante
onde Chico diz sou meio contra mostrar letra de música Sem música acontece que a letra saiu cheia de erros no jornal do Brasil não quero que você a Leia errado por isso é que assim que tiver um portador Manda uma fita com todo o material que estiver pronto caso você seja familiarizado com a obra de Chico Buarque talvez tenha percebido que neste trecho da carta ele praticamente antecipa os versos de Meu caro amigo uma faixa que ele escreveu com e que era por acaso dedicada ao Augusto Boal num determinado momento da música ele canta Meu
caro amigo me perdoe por favor se eu não te faço uma visita Mas como agora apareceu um portador umando notícias nesta fita Meu caro amigo e mulheres de Atenas são duas faixas do mesmo disco o álbum meus Caros Amigos de 1976 que aliás conta com várias canções que serviram de trilha para outras mídias lá nós encontramos Vai trabalhar vagabundo feita para o filme de Hugo cavana Passaredo noiva da cidade para o filme de Alex vianni e também gota d'água para peça homônima escrita pelo próprio Chico um parceria com Paulo Pontes quando o disco foi lançado
Chico contava com 32 anos de idade Ele já tinha feito 8 álbuns de estúdio descontando os especiais produzidos ao longo desse tempo ele já tinha um nome consolidado na música brasileira e além dos seus versos acordes e melodias inspiradíssimos ele também já tinha escrito para o Teatro peças como Roda Viva e a própria gota d'água que já foi citada se banham com leite se arrumam suas meleca é muito importante que você saiba que a letra de mulheres de Atenas é baseada no arquétipo feminino da mulher ideal segundo ponto de vista masculino ateniense Este é um
excelente ponto de partida os autores gregos costumavam utilizar o nome Melissa para se referir a esse tipo de mulher o nome vem da mitologia grega Melissa seria uma imensa que teria ensinado os homens a utilizar o mel por isso muitas vezes ela é associada com a imagem de abelhas o poeta grego do século sétimo antes de Cristo simones elaborou uma tipologia de mulheres associando cada uma delas a um animal a mulher abelha seria a esposa ideal aquela que não merece qualquer tipo de censura fiel zelosa administradora do Lar e responsável por gerar e cuidar dos
filhos Então vem aqui lembrarmos de um ponto que foi tratado no vidro anterior Essa visão idealizada não deve causar a falsa impressão de que para os autores esta seja a imagem definitiva das mulheres é preciso ter em mente que a peça deveria ser um Manifesto de libertação não apenas de gênero mas de todo e qualquer forma de opressão sabendo disso podemos pensar no verso que os autores utilizam no início de cada estrofe mire-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas podemos perguntar com quem eles falam Quem deve mirar se neste exemplo uma vez que a frase
não tem indicativo de gênero podemos entender que eles estão falando com todos nós mulheres e homens ricos e pobres camponeses e Operários os que vivem num regime democrático e os que vivem no regime de exceção como era o caso deles a certa ambiguidade nesta construção ao mesmo tempo podemos entender que eles estão dizendo espelhem-se neste exemplo no caso das médias o modelo de resiliência ou também podemos entender que eles estão dizendo tomem cuidado com este exemplo não se deixem viver como elas mas ainda falta uma pergunta que exemplo é este o que nós podemos aprender
com ele de acordo com os versos essas mulheres vivem sofrem desfense geram temem e secam por seus maridos é os teótipos de uma vida feminina condicionada pelos comandos e desejos masculinos compreendemos assim a existência de uma hierarquização social baseada no gênero homens e mulheres não eram vistos como iguais no mundo grego mas nunca é demais reiterarmos Sempre que falamos dessa visão grega estamos falando da lente masculina ao longo da canção os autores exploram diversos lugares comuns desta lente nós precisamos mapealos primeiro elemento que iremos trabalhar é a reclusão de acordo com o autor e os
gregos como Aristóteles e xenofontes o espaço feminino é sobretudo doméstico há um termo específico grego para designar esse espaço gineceu que algumas vezes é apresentado como uma área da casa onde as mulheres concentram o seu trabalho e na outras vezes designa o próprio Lar a Melissa o modelo da mulher ideal foi apresentada aqui como uma administradora zelosa do Lar ela é responsável por cuidar dos trabalhos internos como cozinhar cuidar das crianças vigiar os escravizados da casa organizar o culto doméstico gerenciar as provisões para que não se esgotem e finalmente os autores Dizem que quando os
maridos embarcam elas descem longos bordados até selagem é uma das atividades mais profundamente identificadas com o gênero feminino na Grécia e este verso é uma citação ao poema épico A Odisseia de Homero um dos mais importantes textos da literatura grega lá existe uma personagem chamada Penélope que é o modelo da esposa virtuosa e fiel seu marido Ulisses o inventor do Cavalo de Tróia Passa muito tempo longe de casa e nesse período vários pretendentes surgem e querem ocupar o lugar do seu marido tanto no comando da pequena ilha de itaca quanto no leito de Penelope ela
totalmente assustada com a violência representada por esses homens elabora uma estratégia ela começa a ter ser um bordado e diz quando eu terminar este trabalho escolherei o meu novo marido porém ela confeccionava a peça de dia e de noite a desfiava como forma de se manter casta para a esperança do seu marido voltar Em contrapartida o lugar privilegiado dos homens é o espaço público a cidadania grega é exclusivamente masculina o palco das decisões políticas é constituído pelas assembleias que ocorrem em praça pública onde aqueles que gozam do status de cidadão podem debater e votar Além
disso são os homens Os Bravos Guerreiros eles embarcam soldados eles são poderem força de Atenas cabe a eles tomar as decisões acerca da política externa da cidade especialmente no contexto da Democracia quando Atenas esteve envolvida nos seus principais conflitos militares o segundo elemento que iremos trabalhar é o da subordinação as mulheres eram vistas como completamente dependentes dos homens devendo obedecer os seus comandos de forma Incondicional a letra da música Diz que vivem por seus maridos e num outro trecho que elas não têm gosto ou vontade isso seria reflexo do que o filósofo grego Aristóteles chamou
de poder marital onde o macho governa a fêmea e as suas crias a Melissa a mulher virtuosa é aquela que recebe o comando de forma resignada ela vence a dificuldade de obedecer a sua honra está no seu silêncio não contestando nada por mais absurdo por mais injusto que seja Este comando o Aristóteles diz ainda que somente entre os bárbaros a mulher pode ser vista como igual ao homem isso nos permite notar como os gregos percebiam que a diferença de gênero seria um traço civilizacional a subordinação no entanto não se restringe A Hierarquia doméstica ela passa
também pela subordinação sexual quando as mulheres são obrigadas a receber e fazer o que os chamam de Carícias plenas obscenas muitas vezes sobre violência que fique registrado os desejos masculinos precisavam ser saciados mesmo quando estes buscavam por isso fora de casa nos braços de outras e outros amantes o terceiro elemento é o mais Óbvio de todos é a reprodução a letra da canção diz que elas geram para os seus maridos os novos filhos de Atenas a natureza ofereceu apenas as mulheres a possibilidade fisiológica de gestar uma criança sendo assim elas eram fundamentais para os seus
maridos para que eles pudessem perpetuar as suas linhagens algo fundamental especialmente no seio das famílias aristocráticas se a mulher não conseguisse dar à luz a uma criança este marido estava autorizado a procurar outra esposa porque certamente na compreensão dos gregos a responsável pelo insucesso em reproduzir era a figura feminina as crianças não apenas perpetuariam a linhagem Mas seria um investimento para posteridade pois seriam elas que quando adultas cuidariam e protegerem os seus pais na velhice nas casas aristocráticas a união entre um homem e uma mulher raramente resultava de um ato de amor o casamento normalmente
era um pacto entre famílias com os termos sendo negociados entre O Pai da Noiva e o noivo o casal geralmente possuía uma grande diferença de idade onde o homem já estava consolidado na sociedade ateniense e a mulher tinha acabado de entrar na puberdade estas ao casar engraçavam na família do marido e toda a herança era transmitida de forma Pátria linear ou seja apenas para os herdeiros homens último elemento que eu quero trabalhar com vocês é o da resignação ao longo da canção em diferentes momentos os autores mostram a reação feminina a oscilação de humor dos
seus maridos quando bem tratadas elas se animam ficam felizes Sim ceitam e se perfumam para eles mas quando maltratadas elas devem se recolher ao silêncio a conformidade elas devem até pedir por mais castigos eles falam das Jovens viúvas e das Gestantes abandonadas que jamais devem fazer cena e sim se cobrir de negro e se recolher as suas novenas serenas os gregos tinham muito medo do que eles chamavam de três loucadas mulheres que não resistindo mais a opressão explodiu em violência muitas vezes atacando ferindo e até matando os seus maridos eles acreditavam que a culpa dessas
mulheres recairia sobre toda a comunidade como uma espécie de maldição sendo assim ao menor sinal de desvio do comportamento esperado essas mulheres eram imediatamente tratadas como insanas como uma ameaça ao equilíbrio da ordem elas descem em longos bordados e o quarentena com o passar do tempo a letra de mulheres de Atenas se tornou uma ferramenta didática extremamente recorrente quase um Clichê na preparação dos alunos que prestam vestibulares em todo o Brasil no entanto há uma questão que nós não podemos contornar seria viável simplesmente transplantar as descrições de boa e Chico para pensarmos a história das
mulheres atenienses podemos utilizá-las sem considerar o que os autores pretendiam dizer para o seu próprio tempo no fundo eu creio que é necessário desconstruir algumas visões cristalizadas pela análise da letra submetendo os seus Versos Ao escrutínio do Historiador uma vez que a música foi pensada para abrir o segundo ato da peça no conjunto da obra ela deveria ser apenas um recorte Esse ato ocorre logo após as mulheres conseguirem por fim a Guerra do Peloponeso através da greve do sexo nem das senhoras aristocráticas conversam desanimadas sobre o fato de que tudo voltou a normalidade e homens
e mulheres estariam novamente exercendo os seus papéis tradicionais o objetivo da música seria acentuar a imagem da Melissa que está prestes a mais uma vez ser rompido a partir daquele ato ouvindo a canção isolada perdemos a percepção de que ela é apenas um Prelúdio para libertação das mulheres um dos primeiros pontos que nós precisamos desconstruir passa pela ideia de que a média se a esposa ideal é sobretudo a mulher aristocrática os historiadores conhecem muito mais sobre elas do que sobre as outras mulheres da cidade e é muito fácil entender a razão disso as fontes primárias
gregas Principalmente as fontes escritas tem de uma se concentrar na descrição das mulheres das casas mais importantes a historiografia no entanto vem buscando festas para compreender o lugar das mulheres dos outros grupos sociais do Pedro Paulo Abreu funnari por exemplo entende que o casamento das famílias pobres ocorria em termos diferentes das casas aristocráticas a diferença de idade entre os noivos seria menor e a família interferiria muito menos nesta União devemos compreender que para a maioria da população da cidade não era viável abrir mão de uma pessoa que pudesse contribuir para o provimento da casa haveria
diversas mulheres que trabalhariam fora do espaço doméstico no comércio no artesanato isso para não mencionarmos as mulheres escravizadas sendo assim o gineceu como o espaço feminino por Excelência não é uma condição universal para todas as mulheres de Atenas há um outro ponto que não podemos esquecer a maior parte daquilo que nós conhecemos sobre as mulheres de Atenas é na verdade a conduta que os maridos esperavam delas certamente escapando muita coisa acerca do modo como ela realmente se comportavam a historiadora Marta Mega de Andrade explica que esta imagem ganha força especialmente no século 19 na era
vitoriana inglesa naquele tempo já estava disseminada a teseurocêntrica de que a Grécia seria o berço da civilização ocidental desta maneira os britânicos utilizavam a suposta exemplaridade da mulher ateniense como parâmetro para o comportamento das suas próprias mulheres já em uma sociedade burguesa Industrial reforçando assim o arquétipo da Melissa ainda de acordo com a historia Marta Mega de Andrade é um dos maiores equívocos que se pode cometer é confiar na tese de que as mulheres eram passivas embora elas não pudessem participar reuniões das assembleias elas possuíam os seus próprios espaços informais do debate basicamente desprezados pelos
autores masculinos a iconografia das cerâmicas e as comédias de aristófanes a despeito do seu caráter satírico e do conservadorismo inerente de um autor grego falando sobre mulheres nos permitem perceber a existência de encontros e diálogos femininos e que o tema da política não era completamente desprezado por elas conforme eu já disse antes a cidadania plena era uma exclusividade masculina em Atenas com as reformas de Cristo ficou determinado que para ser cidadão o indivíduo precisava ser homem livre adulto ateniense um critério que vigorou durante boa parte do tempo que nós chamamos de democracia cabe na verdade
uma observação um ajuste foi feito em 451 antes de Cristo num contexto em que apenas viveu seu apogeu econômico e militar ela assumiu a sua feição mascosmopolita com uma grande quantidade de estrangeiros residindo na cidade o chamados metecos surgem então uma determinação que os historiadores chamam de Lady Péricles além dos critérios pré-estabelecidos por clístenes era determinado que o cidadão precisava ser filho de pai e mãe ateniense era uma estratégia para fechar a cidadania exclusivamente em famílias originárias de Atenas embora as mulheres permanecessem de fora do grupo Cívico a partir de agora elas contribuíram diretamente para
definir quais homens poderiam gozar deste privilégio a historiadora Marta Mega de Andrade entende que este é um reconhecimento ainda que indireto de um elo que associa as mulheres a polis a comunidade de cidadãos outro elemento que precisa ser desconstruído passa pela percepção de que a Amélia é muito mais produto da cultura do que da natureza ela é muito mais uma do que uma realidade inerente ao gênero feminino a construção da esposa virtuosa se dá pela educação desde a infância na verdade mas atingindo o seu ápice no casamento quando o marido se torna responsável pela orientação
pela fiscalização e pela punição do seu comportamento isso se deve ao fato de que de acordo com o Imaginário grego a natureza feminina está longe de ser virtuosa se o arquétipo da Melissa é produto da educação a natureza feminina está associada a um outro arquétipo também fundamentado pela mitologia o mito da primeira mulher de forma bem simplificada havia um conflito envolvendo Zeus e prometeu no meio de muitas situações prometeu roubou o fogo dos Deuses e ofereceu aos homens desde então o rei do Olimpo maquinava uma estratégia para atingir os protegidos do seu adversário ele chamou
o exército Deus do Fogo E ordenou que ele molda argila figura de uma donzela a seguir pediu para que Hermes o mensageiro dos deuses conferisse aquela boneca vida e voz e finalmente chamando Afrodite Atena respectivamente as deusas da beleza e da sabedoria ordenou que elas descem aquela figura uma beleza comparável a das deusas Imortais esta era Pandora a primeira mulher a aparência de Pandora cuidadosamente ornamentada pelos Deuses é feita para encantar e Despertar a paixão em quem quer que é encontrasse no entanto toda esta formosura enganosa o encanto e a beleza escondem o fato de
que os deuses concederam a ela uma palavra capaz de dissimular e mentir Pandora é então enviada aos homens e a partir deste momento a humanidade é finalmente dupla com os dois sexos necessários à procriação Pandora descrita como ardilosa mesquinha o grande helenista Jean Pierre vernan analisando o mito afirma que na compreensão dos gregos todas as mulheres descendem de Pandora sendo portanto todas elas duplas com uma natureza ruim o mesmo ventre capaz de engolir todos os recursos provenientes do trabalho masculino passa a ser um único capaz de reproduzir a sociedade a partir da gestação dos filhos
merece Pandora a oposição entre cultura e natureza nos dois arquétipos femininos a mulher não precisava ser tutelada apenas pelo fato de ser vista como uma criança incapaz de se desenvolver sem orientação dos mais velhos do seu quírios a natureza feminina a segunda ótica dos gregos não era da resignação e da subordinação mas do conflito o ideal da esposa virtuosa desta forma seria um instrumento de coerção deste comportamento desta natureza vista como um ou como pensava o um ideal que gerava a opressão [Música] o Episódio de hoje teve por objetivo calibrar a lente com a qual
alunos e professores analisam mulheres de Atenas de Augusto Boal e Chico Buarque de Holanda a música e a peça são obras de arte que utilizaram a cidade grega e suas mulheres como um objeto de reflexão muito mais abrangente do que a história antiga capaz de comportar as mulheres descritas nos seus versos não estavam restritas aos neceu das casas aristocráticas elas também estavam nas mansões vitorianas e certamente e infelizmente continuam existindo nos apartamentos de luxo e nas casas populares do nosso tempo conforme eu disse no vídeo anterior a proposta da peça era trazer o debate acerca
da opressão do gênero feminino para plateia permitir a reflexão e organizar a sua transformação a resignação não era mais uma opção ainda mais num tempo em que o movimento feminista ganhava corpo e a Luta pelos direitos individuais tornava-se uma necessidade para brinquedos que enfrentavam a ditadura militar a historiografia não nega o caráter patriarcal da sociedade ateniense nem a necessidade dos homens vigiarem a conduta das mulheres vistas como ardilosas e atraentes na mesma medida o que os Historiador as historiadores vêm buscando fazer é acabar com o mito da passividade resignação nesse ponto o texto de Boal
dos anos 70 já estava muito à frente do que o aristófanes dizia bem meus amigos eu espero que vocês tenham gostado dessa série sobre as mulheres de Atenas Muito obrigado a você que chegou até aqui dá uma conferida na playlist autor e obra existem outros vídeos analisando outros contextos e outras Mídias e não se esqueça daquele velho ritual de se inscrever comentar curtir compartilhar até o próximo [Música]