Agora, com essas discussões que nós temos visto aí na internet, vocês me perguntaram o que eu acho sobre o autodiagnóstico de autismo. Bem, eu acho que a reflexão sobre as nossas características sempre pode ser válida e sempre pode levar a um bom resultado, se isso servir para buscar ajuda profissional. Outro dia, eu estava assistindo a um vídeo da Sente Chagas, e ela dizia que sentia uma dor muito forte no peito.
Foi ao médico acreditando que estivesse sofrendo um infarto e, chegando lá, ela descobriu que a dor era muscular, talvez porque ela tenha feito um treino físico mais intenso, mais pesado, teve um espasmo e acabou confundindo essa dor com um infarto, né? Com uma dor cardíaca. Quando eu trabalhava como fisioterapeuta, outro dia estava até comentando isso com a Mirela Carla, do Alpod.
É que, quando um paciente chegava sentindo dor no joelho, quase sempre ele dizia que estava com lesão no menisco. E esse autodiagnóstico, muitas vezes equivocado, acontecia porque o repertório da pessoa era limitado naquela área, sobretudo quando se tratava de uma questão ortopédica, distante, às vezes, do trabalho da pessoa. Não há problema se eu for ao mecânico e também disser que o meu carro está ruim, que o motor está ruim.
Na verdade, a mensagem que eu quero passar é de que o carro não está funcionando bem, não está funcionando como eu gostaria. Mas se é a embreagem ou se é qualquer outra coisa, qualquer outra estrutura do carro, é o especialista quem vai procurar essa resposta e vai me informar também quais serão os próximos passos. Pois bem, esses exemplos aqui foram para dizer que o nosso papel como profissionais não é julgar, não é criticar, não é refutar imediatamente as hipóteses que a pessoa traz para a gente no consultório.
Pelo contrário, o mais importante é escutar a demanda de ajuda. Por trás daquele autodiagnóstico, daquele nome que a pessoa nos traz, tem informação ali. Talvez ela esteja dizendo que está com dificuldade na socialização, que está com dificuldade para estar com outras pessoas, está muito sensível.
Tudo isso é útil durante o processo de avaliação, e os estudos mostram que não raramente a própria pessoa pode, sim, ter muita consciência sobre a sua falta de cognição social, sobre os seus comportamentos repetitivos e restritivos. Então, é muito importante alinhar as expectativas e dizer logo no início do processo de investigação que nem toda hipótese inicial, por mais que pareça pertinente, vai se confirmar. Talvez a pessoa esteja fraca porque está com anemia.
Talvez seja um hipotiroidismo. Todas as possíveis causas são aventadas e investigadas. E aí, claro, nós vamos trabalhar de maneira colaborativa com a pessoa que está no nosso consultório e também com outros profissionais.
Então, quando nós temos algum tipo de dúvida, não precisamos nos sentir culpados se a primeira hipótese, o nome que a gente leva ao médico ou ao profissional da saúde ou da educação, não se confirmar. Pelo contrário, nós estamos ali para receber ajuda. E aí, nós vamos trabalhar de maneira colaborativa com a pessoa que está no nosso consultório e também com outros profissionais.
Então, resumindo, o que eu penso sobre o autodiagnóstico em qualquer área: eu sinto que a autopercepção, nomear as características, por mais que o seu repertório não alcance tudo, vai facilitar a conversa com as pessoas que podem ajudar você.