Vamos ao berço da filosofia no Ocidente, que é a Grécia antiga. Toda escola de filosofia gira em torno de alguns eixos fundamentais. Hoje nós vamos falar sobre esses três princípios claros, bem definidos, que já nascem junto com a filosofia grega e vão acompanhar todo o processo do seu desenvolvimento.
O mundo existe desde sempre, ele está sempre aí, e esse mundo é inteligível, ele é possível de ser compreendido, e esse mundo é [Música] ordenado. Vamos ver que todo o pensamento da filosofia grega vai girar em torno desses três eixos fundamentais, e todo o caminho da busca da verdade vai refletir essas ideias. O primeiro princípio, que é universo existe desde sempre, significa não que os gregos não concebem que um momento da criação existiu, até porque eles falavam que havia, mitologicamente, o caos, e esse caos teria sido fecundado, ordenado pelo princípio Divino, que era teus e gerava o Cosmos.
Então, quando ele diz que o Mundo Existe sempre, é a mesma coisa que falar que esse Cosmos, essa natureza, é sempre, está sempre aí, esses princípios, essas essências estão sempre aí, e ele procura não buscar explicar essa origem, ele quer compreender o que virá a existir, a manifestar nesse mundo, nessa natureza à volta dele, nesse Cosmos do qual ele faz parte. Então, ele vai falar sobre isso, a explicação da manifestação de toda essa pluralidade, de todos esses elementos, inclusive contraditórios, que vão existir nesse mundo, à volta dele e vão ser as diversas explicações que nós vamos encontrar, por exemplo, nos pré-socráticos. Então, essa forma de ver o mundo nos remete a uma ideia de perceber que, para além de toda a multiplicidade, manifesta uma raiz, uma essência, uma eternidade.
O segundo princípio é que esse mundo à nossa volta, que é ordenado inteligentemente, ele pode ser compreendido, nós podemos refletir sobre ele, saber como ele funciona, saber que as coisas se contrapõem entre si. Mas elas também se relacionam de uma maneira harmônica, e é isso que os gregos vão fazer, eles vão o tempo todo perceber que há polaridades que contrastam, que há a multiplicidade, as diferenças, mas tudo isso eu posso ir refletindo. Daí vai nascer uma série de filosofias para compreender esse mundo que tem por trás uma raiz inteligente.
Então, quando eu digo que é possível de ser compreendido, que é possível, não quer dizer que eu só posso traçar um processo lógico, quer dizer que eu vou precisar mais do que a lógica, uma percepção mais profunda, porque eu vou precisar entender uma relação que faz com que essas partes que aparentemente são contrárias se coordenem harmonicamente. Então, não basta só uma lógica linear, é preciso entender como elementos tão múltiplos e diversos vão com essa unidade, até porque toda essa manifestação ela veio de uma unidade. Então, eu preciso ir raciocinando, construindo a maneira de ver esse mundo para que eu possa entender o processo evolutivo dele, porque à medida que eu vou vendo esse mundo, eu vou percebendo que nesse mundo há mudanças, que nesse mundo há movimento, que é um elemento bastante presente, mas esse movimento não é só mudança externa, não é só o movimento externo para eles, todas as mudanças e alterações conduzem a um processo de evolução, a transformação verdadeira era o movimento interno das coisas, para que as coisas, à medida que elas caminhavam ou fluíam, elas iam manifestando aquilo que elas são verdadeiramente.
Já o terceiro princípio nos fala acerca de um mundo que é ordenado, como ele pode ser então, ordenado, preciso que haja uma lei por trás. Essa lei que ordena todas as coisas, que ordena esse universo, é a mesma lei que ordena o ser humano. Então, que é prático nisso, ele sabia que ele precisava compreender essas leis, porque ele falava, nossa, tudo está em ordem e se eu compreendo essas leis, eu também posso participar conscientemente desse mundo, ser um elemento de ordem, de harmonia, e ao mesmo tempo, ordenar a mim mesmo.
Porque se eu sou uma espécie de célula, uma espécie de ser que participa desse mundo ordenado, eu teria que ordenar a mim mesmo da mesma maneira que no segundo princípio, eu posso compreender esse universo porque sou parte dele. A mesma mente, a mesma razão, que compõe esse universo, é aquela que compõe a mim mesmo. Então, eu posso fazer esse exercício de reflexão acerca do mundo e agora, eu posso também compreender essas leis que estão mantendo toda essa ordem e essas leis podem ser aplicadas por mim conscientemente.
Daí vai derivar uma série de elementos morais, porque é uma moral que vai refletir as leis naturais. Portanto, era uma filosofia que já partia dessa compreensão de um ser humano que integrava de maneira harmônica o mundo onde ele vivia. Então, ele não podia ser um elemento estranho, um mero observador.
Ele era constantemente alguém que participava desse mundo e, para participar do mundo, ele precisava saber como funciona esse mundo, qual é a chave para que ele então possa ter uma harmonia com ele. Por isso, que a evolução do mundo, a mudança aparente, era, na verdade, um elemento que voltava à raiz, à origem porque, desde as origens, esse mundo já era e eu fazia com que ele desse essas voltas, esse processo de transformação, de multiplicidade, e divisão aparente, para que à medida que ele fosse evoluindo, ele pudesse voltar à sua natureza original, à sua verdade original e o ser humano era esse que podia então fazer todo esse processo de uma maneira consciente e não simplesmente seguindo automaticamente um processo da vida. Ele pegava toda essa compreensão que ele possuía e fazia o seu caminho evolutivo de uma maneira consciente.
Por isso, eu queria deixar com você uma frase de Platão que reflete muito essa ideia da filosofia, porque ele diz que a filosofia nada mais é do que um diálogo. Interno silencioso com a nossa própria alma em torno do ser, porque o princípio primeiro da filosofia grega nos fala dessa Essência desse ser do mundo e o ser de cada coisa e o ser do ser humano. E quando eu reflito sobre o meu próprio ser, eu tô refletindo sobre o ser do mundo, e quando eu faço esse diálogo, essa reflexão, eu tô novamente me conectando, me harmonizando, me compreendendo melhor e compreendendo o mundo.
No fundo, a filosofia sempre vai trazer essas questões fundamentais: é o ser humano em busca de compreender ae mesmo o mundo à volta dele e o seu destino, o seu caminho evolutivo. E é isso que a filosofia grega vai trabalhar desde as chaves um pouco mais obscuras dos pré-socráticos, até a chave dos modelos do mundo das ideias de Platão, a moral socrática, as escolas moralistas; tudo isso vai compor essa busca constante do ser humano em direção à verdade, à compreensão de todas as coisas, saber onde nós estamos, o que fazemos aqui, e qual é o sentido, qual é o nosso caminho evolutivo. O que é melhor para nós, para que a gente possa alcançar uma verdadeira realização humana.
Como nós poderíamos aplicar de forma prática hoje em dia esses três princípios fundamentais da filosofia grega? Eu vejo que quando nós conseguimos perceber que algo existe para além de tantas mudanças, tantas ações, e a nossa própria vida nos dá uma boa compreensão de que há uma essência, há um elemento eterno, e nós precisamos de uma espécie de eixo na nossa vida que nos ensinam que a gente tem uma raiz, que nos permite conectar com aquilo que verdadeiramente somos. Então essa imagem de que a gente tem algo duradouro, ela é importante para que a gente vá se aproximando aos poucos desse elemento dentro de nós, porque eu creio que uma das coisas que angustia muito o ser humano, que perturba muito a nossa vida, é uma falta de um eixo, é saber que nós temos dentro de nós algo que não muda, algo que está sempre; porque é como se a gente tivesse o tempo todo uma sensação de perder as coisas, uma sensação de que amanhã pode não ser do jeito que tem hoje.
Então nós conseguimos perceber que se eu tenho uma consciência que capta um elemento duradouro, isso me dá estabilidade. Por isso que esse primeiro princípio ele remete àquilo que é o ser, então se eu conseguir perceber na minha vida, em mim mesmo como indivíduo, um elemento que me dá essa estabilidade, essa essência, com certeza eu vou poder também melhorar a minha capacidade de perceber esse mundo à volta de mim mesmo. Porque quando a gente fala do segundo princípio, como esse mundo que pode ser compreendido, eu vou também poder compreender melhor esse meu mundo, as minhas experiências, as minhas reações, o meu mundo emocional.
Então eu vou construindo uma compreensão, uma percepção e, por outro lado, a minha relação com a vida, com as experiências que eu tenho, com as pessoas, isso vai me dando também uma capacidade de não ver só aparência, mas de ver um elemento de harmonia, um fio que une todas essas coisas e dá sentido. Então vejam que eu tenho que ter uma espécie de centro em torno do qual eu vou conseguindo compreender o mundo, tomar consciência e quando eu tomo consciência, eu participo dele ativamente, eu sei que sou parte e sei o que me cabe, isso me dá uma condição muito interessante porque é da liberdade de escolha e ao mesmo tempo de tá conectado com a vida, com as pessoas, com as experiências. Eu percebo que não é algo que eu tô fora da vida, eu começo a participar conscientemente da vida e isso me dá um elemento chave porque assim eu posso acompanhar esse processo evolutivo, ao mesmo tempo se eu entendo que tudo isso tá regido por determinadas leis, eu começo a perceber o que é justo para cada uma das partes e eu começo a trabalhar com essa ordem consciente.
Então eu já sou um elemento que conscientemente imita a natureza, embora eu não seja separado dela, mas eu consigo viver na unidade da minha própria vida, esse elemento da ordem de toda a natureza que é ordenada, unificada eu consigo reunir aquilo que dentro de mim é um contraste, eu consigo perceber que as forças que eu aparentemente achava que só desintegram, separam, eu consigo ver que elas podem ser unidas quando a ordem. É como se eu tivesse no espaço e quisesse então ordenar esse espaço, eu vou ter que reconhecer cada parte, saber o lugar de cada parte, mas ao mesmo tempo eu vejo o conjunto, o que é justo para cada parte e assim eu vou construindo uma ordem natural. Isso é bonito da filosofia grega é que nós não estamos contra a natureza, nós participamos da natureza, nós construímos essa harmonia natural.
Então a nossa ética, os nossos princípios de vida, não são algo que vem de fora para dentro, mas são algo que nós vivemos de maneira harmônica com o nosso próprio ser. Então se está em harmonia com meu ser e esse ser participa de um conjunto, de uma unidade, eu também tô em harmonia com o todo. É como o que é válido, bom, justo para mim sempre vai ser pro todo.
Então no fundo nós temos uma vivência cada vez mais consciente e esse caminho do ser humano em direção a essa tomada de consciência é que é o caminho em direção à sabedoria que os gregos ensinavam. Então vejam vocês que apesar de ter tantas diversidades de filósofos, tantas concepções diferentes, nós vamos poder reuni-las em torno de três eixos fundamentais, isso que é chamado ecletismo, a capacidade de nós não contrapormos as visões desses diferentes filósofos, mas simplesmente de nós encontrarmos pontos de convergência, de nós sabermos. Que são apenas perspectivas diferentes, e isso é o maior aprendizado daquele que, como todos nós que estamos aqui, buscamos ser filósofos.
Essa é a mensagem que eu queria trazer para vocês: como poder reunir elementos tão diversos dentro de unidades fundamentais para que a busca de todos nós seja sempre frutífera. Que a gente saiba extrair as essências, que a gente saiba também trazer a essência de todas as épocas, de todos os filósofos para a nossa vida prática de hoje. Espero que tenha sido uma contribuição para que vocês se debrucem de uma forma mais reflexiva e mais profunda sobre as diversas ideias filosóficas e que apliquem, que façam esse uso dessas reflexões sobre a vida, sobre o mundo e sobre si mesmo em cada uma da vida de vocês, para que, de fato, a nossa vida seja com um pouco mais de sabedoria e harmonia.
Obrigada. [Música].