O homem é um ser que deseja encontrar sentido em sua existência. Dostoyevski aborda melhor do que ninguém a natureza fundamental do ser humano e sua constante busca por significado em um mundo repleto de sofrimento e contradições. O ser humano é inerentemente orientado para a busca de sentido e propósito em sua vida.
Nós ansiamos compreender nosso lugar no universo, desejamos entender melhor nossa relação com os outros e sempre estamos atrás de entender o significado de nossas experiências e ações aqui nesse mundo. Essa busca por sentido pode se manifestar de várias formas, por meio da religião, filosofia, amor, arte, conhecimento ou através da busca pela verdade. Cada pessoa encontra um caminho diferente, mas inquietude é a mesma.
Dostoyevski estava profundamente interessado em como as pessoas enfrentam as dificuldades da vida e como encontram significado em meio ao sofrimento e a incerteza. Para ele, a busca de sentido não é apenas um desejo filosófico, é uma questão de sobrevivência psicológica e influencia todos os aspectos da vida. Em uma de suas obras mais legais, chamada Memórias do subsolo, Dostoyevski aborda todas essas questões que disse de forma única e, claro, nos oferece soluções incríveis.
Imagine passar uma vida inteira preso em um ciclo de pensamentos sem nunca agir. Na obra, Um narrador anônimo, que se intitula O homem do subsolo, vive isso e narra, através de seus monólogos internos temas como o nilismo, a alienação, a liberdade individual e a natureza do ser humano. Ele se apresenta como alguém profundamente insatisfeito com a sociedade e consigo mesmo.
Despreza as normas e convenções sociais, mas ao mesmo tempo sente-se incapaz de escapar delas. Seu comportamento é frequentemente contraditório e autodestrutivo, refletindo a luta interna entre seu desejo de liberdade e sua necessidade de pertencimento e aceitação. Ele é um homem preso entre a vontade de agir e a paralisia total.
Essa é a história de um funcionário público de meia idade, aposentado, que acabou de completar 40 anos e se sente absolutamente miserável. Ele vive na pobreza, em um pequeno apartamento subterrâneo e não tem amigos. é um homem perdido no vazio existencial, não trabalha, não ama e não constrói nada.
Esse livro foi escrito por Dostoevski como uma resposta às novas correntes filosóficas e sociais que estavam surgindo na Rússia e na Europa naquele momento, em particular o surgimento do nilismo. Essa obra é um grande alerta do autor para todos nós. De forma sublime, ele nos diz: "Não vivam como esse homem ou acabarão como ele".
Muitos que estão passando por tempos difíceis ou que estejam desesperançosos com a vida acabam se identificando com um homem do subsolo. Não é difícil estar na mesma posição que ele, mesmo nos dias atuais. E é aqui que mora o perigo.
Essa situação se refere a um estado em que uma pessoa se encontra presa em um ciclo de nação, onde não toma nenhuma atitude significativa na vida e se limita a pensar e refletir sem ação, sem agir. Na obra, o narrador diz várias vezes que fará isso e aquilo, mas nunca faz nada. Ele deseja todo tipo de desgraças e rancores às pessoas ao seu redor, mas não levanta um dedo para que isso aconteça.
Quanto mais ele pensa, menos ele age e quanto menos age, mais se odeia. Seu monólogo interno é repleto de ruminações, mas suas ações externas não refletem nenhuma execução e isso é um dos componentes centrais de sua intensa miséria, a estagnação completa. Dostoyevski explora as consequências psicológicas e morais de evitar os desafios.
Ele nos ensina que evitar os confrontos e desafios é abrir mão do nosso próprio poder. É como trancar sua própria voz em uma cela e jogar a chave fora. Ele critica a atitude daqueles que tentam fugir das dificuldades e não encaram as responsabilidades da vida, argumentando que isso leva a uma existência vazia e sem propósito.
O narrador evita os desafios, nunca se impõe e é completamente inseguro e revoltado. Em momento ele encontra um antigo colega em um bar e, embora ele sinta um profundo ressentimento por esse colega, não consegue confrontá-lo, mesmo sendo ridicularizado pelo mesmo. Em vez de agir, ele reprime seus sentimentos e finge se encaixar, o que apenas intensifica seu sofrimento.
Eu não respeito ninguém e também não quero que me respeitem, mas o que fazer se eu mesmo não consigo me respeitar? Uma característica inerente a um adulto é assumir a responsabilidade por suas ações. No entanto, o homem do subsolo aproveita cada oportunidade para transferir a responsabilidade de sua vida para os outros.
Ele culpa seus conhecidos por sua falta de autorrespeito, culpa o mundo por sua falta de amigos, sem perceber que ele próprio é o causador de sua miséria. Em um momento particularmente comovente, Lisa, uma prostituta que ele conheceu e de quem tornou-se amigo, o abraça por pena e ele diz: "Não posso voltar a ser bom". Esse é o ponto de virada em sua vida.
Ele rejeitou qualquer possibilidade de mudança e assim condenou seu destino a um ciclo de infelicidade e repulsa. E por que ele rejeita a mudança? Porque assumir a responsabilidade é enfrentar o próprio reflexo, mas é o único caminho para sair do subsolo.
Dostoyevski tinha uma visão crítica sobre a arrogância intelectual. Ele frequentemente retratava personagens que exibiam esse traço como indivíduos mesquinhos e imorais. O narrador do subsolo é um exemplo perfeito disso.
Ele se considerava intelectualmente superior a todos. Mesmo que não tenha realizado nada significativo em sua vida, ele se convenceu de que seu nilismo sombrio é a posição natural do homem inteligente e se recusa a aprender ou evoluir. Ele está preso em seu próprio subsolo de arrogância.
Ele acredita que seu cinismo é sinal de inteligência, mas na verdade é apenas um disfarce para sua covardia. Essa soberba impede qualquer crescimento pessoal. Em vez de aprender com os outros, ele prefere se afundar ainda mais em sua miséria, acreditando que é mais inteligente do que todos ao seu redor.
Se você deseja ser respeitado pelos outros, a melhor coisa é se respeitar. Apenas por isso, o respeito que você tem por si mesmo inspirará os outros a respeitá-lo. O homem do subsolo nos mostra o preço da inação, da fuga, da covardia e da arrogância.
Ele é o exemplo vivo do que não devemos nos tornar. Porque no fim ele não é apenas um personagem literário, ele é um espelho. E a pergunta que fica é: você se sente no subsolo?
Se sim, você vai esperar até quando antes de agir? E para concluir, eu cito Dostoevski mais uma vez: A beleza salvará o mundo. Se quiser mais de Dostoyevski, assista esse vídeo aqui que fizemos sobre o livreto O sonho de um homem ridículo, que com certeza vai te agregar em cultura.
Muito obrigado por assistir e um abraço.