As pessoas não vão na clínica para buscar um diagnóstico, até para se se autorizar, para se permitir, até para usar como álibe, a hora que elas ganham o diagnóstico, elas ganham uma transformação incorporal que se atribui ao corpo delas, à mente delas, né? E é isso mesmo. A hora que eu digo: "Eis ali um castelo".
N aí alguém diz para mim: "Ah, aquilo é um simples castelo". E daí? Lá na minha terra tem um monte de castelo.
Mas se eu te disser que aquele castelo é o castelo do Hamlet? Puxa, aquilo é o castelo do Ham. Mudou tudo.
Ora, mas era o mesmo castelo material, só que o encapamento semiótico, a transformação incorporal que é atribuída à aquele corpo, muda o sentido daquele corpo, né? Então, claro, há um cruzamento entre forma de expressão e forma de conteúdo, entre substâncias de expressão e substância de conteúdo. Então, há um entrelaçamento.
O Foucault vai dizer que há uma pressuposição recíproca do regime de signos ou discursivo e do regime de corpos, doível e do visível, tá? vai haver uma pressupção, vai haver um entrelaçamento. Só que até a arqueologia do saber de 1969, o Foucault ainda não sabia bem o que era ele como uma espécie de discípulo do Morris Blanchot.
Morris Blanchot, que vai designar tudo que não é da linguagem como não discursivo. O Foucault também designava como não discursivo. A partir do momento que ele entra no colégio de França e ele começa a trabalhar, por exemplo, o poder psiquiátrico.
O poder psiquiátrico já vai pro campo do diagrama de forças e não mais pra forma de saber. Então ele ultrapassa a história da loucura que tava focada na como uma formação de saber e encontra o diagrama de poder psiquiátrico e depois ele encontra o diagrama de poder em defesa da sociedade. Tem até um um curso que ele deu no colégio de França chamado em Defesa da Sociedade que aparece antes da obra chamada Vigiári e Punir, que aparece em 1975.
E ali ele já trabalhando o campo de força. Por quê? Porque o campo de força é a razão da relação ou da pressuposição recíproca entre o regime de signos ou de discurso e o regime de corpos.
Se o regime de corpos invade o regime discursivo, se o regime discursivo invade o regime de corpos, é porque tem um campo de forças por trás. Esse duplo regime formal, a forma do corpo e a forma do pensamento ou a forma dos movimentos e a forma do incorporal. tem uma articulação e uma pressuposição recíproca operada a partir de um campo que não tem forma, que é o diagrama de forças.
E aqui Foucault se torna ainda mais nitiano. Foucault vai fazer várias palestras e textos e artigos que ele vai chamar de genealogia genealógicos. Vai haver até uma coletânea de textos reunidas pelo Roberto Machado aqui no Brasil.
que vai se chamar Microfísica do Poder. E esse livro chamado Microfísica do Poder vai ter um texto sobre a genealogia, né? O aspecto genealógico do método, o método genealógico do Fou, porque até então ele tava fazendo um método arqueológico.
O método arqueológico é o método do arqueólogo que vai descobrindo camadas. Camadas de quê, né? O arqueólogo ele desenterra coisas.
O Fult desenterrando formas do discurso, né, para descobrir que tem formas, memórias de longa duração que são atuais nos discursos atuais e que são extremamente de vanguarda, ainda que tenham emergido numa época arcaica, elas operam aqui, elas continuam aqui operando. Quando o Foucault faz essas investidas e ele vai até investigar a história, ele não vai virar historiador simplesmente, ele quer saber o que comanda o nosso presente e que apareceu num certo momento da história, foi inventado num certo momento da história. Então o Foucault vai se focar nas emergências e não na origem.
Ele vai fazer uma distinção entre emergência e origem. de repente emerge uma maneira de dizer, uma maneira de agir, de reagir, de sentir, de pensar diferente a partir de um diagrama de força. Então, ele vai trabalhar com emergências, né, com eventos, com acontecimentos.
E esses acontecimentos se repetem. A tomada Bastilha é um acontecimento que se repete, que é festejado todo ano, que que significa a tomada da bastida, a queda do antigo regime e o nascimento do novo regime, que é a tal da democracia francesa. Liberdade, igualdade, a fraternidade é uma nova maneira, é o humanismo, o nascimento do humanismo.
Queda bastilha é a emergência do humanismo, nascimento da forma homem, humanismo forma homem, tá? vem junto. Então o Foucault ele tá preocupado em saber o que é o homem.
E o homem tem 200 anos, nasceu esses dias aí alguns anos atrás. Que homem? O que ele chama de homem é uma forma de pensar, de experimentar, de sentir e de agir.
É uma forma de existir. Antes da forma homem tinha o quê? Isso é n.
Tinha uma a forma Deus. Então tem a forma Deus e a forma homem. O humanismo vem da forma homem.
É por isso que os direitos humanos, a gente tem que desconfiar dos direitos humanos, quando os direitos humanos são os direitos desta forma homem. Os bolsonaristas hoje eles reivindicam os direitos humanos para quem é humano direito, não é? Eles não dizem assim: "O Netaniarro é um humano direito superior aos palestinos, né?
Então, direitos humanos, direitos dessa forma homem, que forma homem? " A forma homem é esse sistema de julgamento que se colocou no lugar do julgamento de Deus. Agora o julgamento do homem.
Mas na verdade o sistema do julgamento sempre foi de um tipo humano. Só que era um tipo humano que inventou a forma Deus. Agora é um tipo humano que inventou a forma homem.
É Kante no lugar de Platão, é Lutero no lugar do Papa, é a moral no lugar da religião, é a ciência no lugar da teologia, os novos valores no lugar dos antigos valores, a democracia no lugar dos velhos regimes de soberania. É a nova forma. Foucault tá desenhando pra gente como é que essa forma se desenha a si mesma, como é que ela ela se constrói a si mesma.
A obra do Foucault desenha para nós, faz nascer diante dos nossos olhos como é que apareceu a formação capitalista. Ele vai chamar de sociedade disciplinar. Essa sociedade disciplinar ela não usa os corpos naturais, ela produz os corpos que ela precisa.
Ela não usa uma alma natural que vai encontrar a verdade. Ela produz e ela não faz nem lavagem cerebral. Ela inventa o cérebro.
Ela produz o cérebro que ela precisa. Ela produz subjetividade, produz e reproduz verdade. A verdade é aquela que interessa.
Loucura, doença mental. Essa me interessa. Então, qual é a verdade de uma função?
verdade do trabalhador, do patrão, do professor, do aluno, do policial, do juiz, do cceireiro, do médico, do advogado, do engenheiro, não importa qual. Então, há uma maneira de usar o discurso, há uma ordem de discurso que faz dizer ao mesmo tempo que obriga a calar. Então, coisas são silenciadas por esse discurso.
Da mesma maneira que você liga a TV e aí muitos dizem: "Ah, isso não dá na mídia, não dá na grande mídia, não dá mesmo. " Aquela mídia, ela é feita para silenciar muitas vozes. E, no entanto, ela diz o que interessa para ela, o que interessa ao grande capital.
O grande capital é que patrocine a grande mídia. Então, é importante, por exemplo, fazer um ataque especulativo ao governo Lula. É importante dizer um ataque de pesquisas, dizer que o governo vai de mal a pior.
É importante criar opinião pública, formadores de opinião. É importante dizer coisas que acontecem a 500. 000 1000 km de distância e não que acontece diante do nosso nariz para desviar a tensão e fazer cortina de fumaça.
Então, eh, a ordem de discurso, ela silencia uma boa parte das nossas vozes e só dá voz aquilo que interessa, a produção e reprodução das verdades que reproduzem o poder e o capital, né? O que ameaça esse poder e capital é sistematicamente silenciado e o corpo é invisibilizado. Então, há um regime de invisibilização de gestos, de movimentos, de afetos, existências simplesmente apagadas, como diz alguém, né, que acho que é o Lapujad, né, que fez um livro chamado existências mínimas, né, elimina as existências mínimas, apaga essas existências, não tem menor importância.
Só existe aquilo que é iluminado, né? Então, há um regime de luz. O regime de luz é o quê?
Nesse enunciado que os olhos não vêm, o coração não sente. É isso. Então, o que são os olhos?
São órgãos de percepção. Fazem parte dos nossos sentidos. os nossos ouvidos também, o nosso tato, o nosso gosto, o nosso olfato.
Você vê que o nosso olfato tá cada vez mais eliminado do campo social. Os animais não, eles precisam muito do olfato. Os humanos cada vez menos.
Bom, mas enfim, então há uma produção e uma organização, uma hierarquização daquilo que é mais importante no nosso corpo e o que deve ser percebido, o que deve ser, o que deve ter existência do ponto de vista do movimento, do ponto de vista da sensação, do ponto de vista do corpo, o que é estimulado, o que é provocado e o corpo tem que reagir. E o que se o corpo se sentir provocado por outras realidades de movimento, aquilo tem que ser invisibilizado, que aquilo pode ameaçar. E aí você produz 1000 doenças.
Vocês entendem como é que tem uma fábrica de doença? Aí quando você invisibiliza, quando você silencia, você tá impedindo, tá separando a vida do que ela pode, tá roubando a superfície da vida, tá roubando as condições do acontecimento da vida. diz assim: "Não, aqui não pode fazer isso, ali não pode fazer aquilo, aqui você não pode dizer isso, ali, você não pode, aqui você é obrigado a dizer tal, diga seu nome, como é que você se chama?
Você é interrogado, sente-se direito, presta atenção, fique no seu lugar. se está sendo inoportuno, se está sendo grosseiro, se está sendo tudo regime de signos e de luz, a gente vai sendo encaixado, incorporado, adaptado. E quanto mais você se adapta, mais recompensado você é.
Você aprende as determinações do sistema e você vai determinando o teu corpo e o teu pensamento em ressonância com aquilo que é esperado de você, como uma boa função social, um corpo eficiente, um modo de desejar moral, responsável por suas paixões, não perverso, não vagabundo, não desorganizado e um pensamento competente, um sujeito de pensamento, um sujeito especulativo, né, competente, que é capaz de distinguir o que é verdadeiro do que é falso e reproduzir essas verdades. E aí você tem uma racionalidade, um bom senso e um senso comum. você se torna um modelo, um ser humano padrão, um ser humano diligente.
Diligente porque eficiente de corpo, responsável com seu desejo moralmente no sujeito prático e como sujeito especulativo, se é competente, que se é capaz de identificar ou produzir ou reproduzir verdades, os valores estabelecidos. Então, é uma máquina de produzir corpos que se comportem bem. Por isso que aqui você pode questionar a TCC, a terapia cognitiva comportamental, porque o comportamento é produzido por um regime de luz.
A cognição é produzida por um regime discursivo. Ah, a cognição, vamos ter uma cognição que te libere das tuas obsessões, das tuas compulsões, eh, das tuas depressões, das tuas euforias, dos teus delírios. É só entender direitinho.
Entender o quê? segundo a ordem estabelecida do discurso. Por isso que eu digo que esse tipo de psicólogo é funcionário de estado, porque o estado ele é um braço do capital.
O estado, os aparelhos de estado são necessários para ser produzir subjetividades, individualidades e forçar a vida a entrar em regimes de corpos e de discursos. O estado é um aparelho violento, assim como ele está a serviço do grande capital, investindo uma disponibilização máxima de energia humana livre, como o Marx chamava de força livre de trabalho, que é a única propriedade que teremos, essa energia humana disponível, né? É o estado que opera essa conexão violenta.
Aqui uma captura, né? Claro que a violência é consequência. Primeiro tem a captura.
Então, e a as escolas, as universidades, os hospitais, as fábricas, as instituições, as famílias, tudo tem esse duplo regime de corpos e de discurso. São então dispositivos que funcionam como? A partir de um campo de forças.
um campo de forças que produz e reproduz um regime de acumulação, no caso nosso de acumulação de capital.