Um dos maiores fatores de risco para a saúde mental de crianças e adolescentes é a exposição a situações estressantes agudas ou crônicas. Os maus-tratos infantis são um exemplo desse tipo de situação e podem ter um grande impacto na saúde mental. Os maus-tratos infantis envolvem a negligência e o abuso físico, sexual ou psicológico.
A negligência é a falha de cuidadores em atender às necessidades físicas mais básicas de uma criança, tais como a higiene, a segurança, a alimentação e o vestuário. O abuso físico por parte de um cuidador resulta em um prejuízo físico e não acidental no corpo da criança, tal como hematomas e fraturas. Já o abuso psicológico envolve comportamentos que prejudicam o desenvolvimento emocional e a percepção de autovalor da criança.
Crianças que sofrem maus-tratos estão em maior risco de desenvolverem várias condições, tais como depressão, transtorno do estresse pós-traumático, TDAH, alguns transtornos de personalidade, sintomas psicóticos e comportamentos antisociais. Além disso, essas crianças têm uma chance maior de, na adolescência ou fase adulta, cometerem crimes, serem presas, praticarem a autolesão e cometerem suicídio. Os maus-tratos também se relacionam com prejuízos na inteligência, memória e funções executivas.
Sim, maus-tratos podem fazer um belo estrago! As pesquisas indicam que os maus-tratos infantis podem impactar a saúde mental por diferentes mecanismos e vamos falar aqui de quatro deles. A exposição constante e desde cedo a maus-tratos e a emoções negativas tende a tornar as crianças mais sensíveis à perceber possíveis ameaças no ambiente.
As amídalas cerebrais dessas crianças podem ir se tornando mais reativas e sensíveis a estímulos ameaçadores com o passar do tempo. Isso leva tais crianças a terem uma hipervigilância de ameaças o que aumenta as chances delas apresentarem sintomas de ansiedade posteriormente. Os maus-tratos também podem impactar a saúde mental porque crianças maltratadas tem maiores dificuldades de reconhecer emoções nos outros e de regular as próprias emoções.
Crianças tendem a aprender sobre emoções de forma diferente quando seus cuidadores são abusivos. Esses cuidadores tendem a expressar emoções negativas de maneira menos prototípica ou distinguível de outras emoções. Por exemplo, um cuidador abusivo pode tender a expressar emoções negativas tanto exaltando a sua voz quanto não exaltando, o que torna mais difícil pra uma criança entender a diferença entre estar com raiva e não estar.
A reatividade reduzida à recompensas é outro mecanismo importante. Várias pesquisas indicam que maus-tratos infantis tendem a tornar as crianças menos sensíveis à eventos positivos e menos capazes de aprender a partir de experiências positivas. O abuso sexual na infância, por exemplo, pode impactar o desenvolvimento do córtex cingulado anterior, uma área relacionada à aprendizagem, o que por sua vez prejudicará a capacidade da criança de aprender a partir de experiências positivas e isso a deixará em maior risco de desenvolver depressão.
Por último, experiências estressantes na infância podem influenciar também o desenvolvimento do sistema imunológico por desencadear com frequência a ativação e a hiperreatividade da resposta inflamatória do organismo. Essas feridas biológicas ocultas podem maximizar as reações endócrinas e imunes da pessoa a novos estressores ao longo da vida e isso pode tornar a pessoa mais vulnerável a desenvolver condições como a depressão e transtornos de ansiedade, por exemplo. De acordo com um estudo de 2016, cerca de 59% de casos envolvendo depressão e ansiedade no mundo estão ligados a um histórico de maus-tratos infantis e uma redução de 10% nos maus-tratos poderia representar a prevenção de mais de 31 milhões de novos casos envolvendo depressão e ansiedade.
Muita gente minimiza a importância dos maus-tratos por julgar que são pessoas saudáveis apesar de terem sofrido abusos. Essa tolerância à violência é exatamente uma das piores consequências dos maus-tratos, pois aumenta as chances das pessoas que sofreram abusos tratarem outras pessoas e os seus próprios filhos de forma violenta. Além disso, os maus-tratos podem sim ter prejudicado a saúde mental dessas pessoas e elas que não fazem ideia de como isso ainda as impactam.
Por fim, como já falamos em outro vídeo, evidências anedóticas são pouco informativas. Não adianta querer encontrar um padrão geral a partir de uma experiência individual. Mais confiável do que a evidência anedótica de alguém são as evidências presentes nas centenas de pesquisas que consideraram os dados de milhares de pessoas ao redor do mundo e que apoiam o que estamos descrevendo aqui.
Se queremos promover a saúde mental na população, um caminho importante é reduzir os maus-tratos infantis. Eles violam os direitos humanos das crianças e ainda por cima são formas pouco eficazes de educar. Falaremos melhor sobre isso em outro vídeo.
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