Isso aí vai dar um problema essa minha fala, mas também não tô nem aí. Tanto que uma vez um eu falei para um analista, eu posso trazer escrito? Ele falou: "Não, porque é ali que você se protege, eu quero que você fale.
" Porque eu achava que eu soltava tudo escrevendo e que isso ia ser interessantíssimo para uma sessão de análise, porque muitas vezes eu descubro o que eu estou sentindo escrevendo. Ele falava: "Não, ali tá bem calculado". Eu eu sou muito mais tímida falando do que escrevendo.
Escrevendo eu tenho uma, sei lá, coragem é uma palavra brega, né? Mas assim, eu tenho uma audácia, sei lá, que falando eu sou bem mais travada e eu sou hipocondríaca que gosta de ter os remédios por perto, mas eu não gosto de tomar eles. Eu não, eu não gosto de remédio.
Eu queria muito. Eu sempre olho para ela, eu falo: "Cara, se eu fosse bissexual, mas eu tentei a vida inteira e não consegui". [Música] Comecei a ser colunista, eu tinha 20 anos.
Eu comecei na TPM, no online da TPM, e aí fui pra VIP alfa. Aí fui pra Folha, acho que eu tô uns 13, sei lá. Eu preciso ter um assunto toda semana, há muito tempo.
E é toda semana, de vez em quando eu tiro aquelas férias para ler, para tentar assuntos, né? E na ânsia de preciso entregar, às vezes falta um dia para entregar a coluna, eu tinha que segurar, falava: "Não, mas esse é do livro". E era e era uma briga porque eu falava: "Puxa, mas eu preciso ter assunto, eu preciso entregar, tá?
Daqui é o prazo máximo. " Mas eu falava: "Não, esse é do livro". Então, foi uma briga e não à toa eu demoro também, não lanço livro todo ano, porque o meu assunto ele é a minha vida, né?
E e eu tomei a decisão de tá OK com isso, porque já foi uma crise para mim, porque eu escutei de muito editor eh ao longo da minha vida, principalmente editores homens, que eu deveria amadurecer e começar a escrever ficção, né? que essa este personagem que sou eu mesma deveria fazer parte de um processo de amadurecimento meu eu deixar isso para trás, né? Tanto que esse livro agora, A Boba da Corte, ele começou escrito em terceira pessoa, era uma personagem, era uma psicanalista.
E a e esses personagens que eu falo no meu livro em primeira pessoa e admito, assumo que fazem parte do meu núcleo, na verdade era uma psicanalista expondo eles, né? Por isso também eu demorei tanto tempo para esse livro ficar pronto, porque eu achava que que tinha que ter esse amadurecimento da ficção, só que não saía. Eu comecei a ter dor física, eu comecei a ter tendinite, eu comecei a ter dor na lombada, servicalgia, eu sentava para escrever, eu começava a bocejar, não conseguia parar de bocejar.
Então, era tudo que eu queria contar, só que com o amadurecimento da ficção. E eu falei: "Eu não quero isso. " Tá aí Anô, tá aí Eduard Luiz, não quero esse amadurecimento da ficção.
Que bom que eh agora a gente vive essa febre de mulheres que se narram e a importância política disso, né? Porque durante um tempo eu achava que eh tava não errado, porque eu também nunca deixei de fazer, né? Mas não tinha esse aval intelectual, talvez que tem hoje em dia.
É um livro que eu tiro muito sarro da do meu desejo de ascensão, né? Ele ele é um livro que eu queria contar desses personagens que eu fui conhecendo, mas tirando sarro da minha vontade dessa dessa ascensão intelectual, dessa ascensão para uma elite intelectual, né? Mas antes disso eu tive meu certo meu deslumbramento com a simplesmente rico, não precisava ser elite intelectual, né?
Tipo, quem são essas pessoas, né? Quem são essas casas de frente praia? Quis mais nova, eu quis frequentar, entender o que que era aquilo.
E aí eu percebia que tinha uma coisa assim que me levavam nos almoços, tipo, conta aquela lá, conta aquela do da sua mãe te deu um carro e colocou adesivo do Corinthians para você não ser assaltada, pra galera achar que tinha um mano lá dentro. E eu era piada nesses almoços, né? E mas era o preço que eu pagava para est naquela casa de frente pro mar, naquelas condomínios fechados.
maravilhosos, né? E eu percebi que a minha vingança tava que um dia eu ia contar essas histórias. E aí eu falei isso numa análise, a análise falou: "É a boba da corte, né?
Você sabe os podres, você frequenta e você não tá sem poder nesses lugares, né? Porque você ter o olhar crítico, eu já era cronista na época e já expunha, né? E eu gostei muito desse termo, achei ele bem interessante.
Quando eu comecei a escrever paraa Folha, a grande pergunta era: "De onde essa mulher saiu? " E eu não entendia essa pergunta. E aí eu fui entender que era assim, ela não fez os colégios e as faculdades, ela não é da nossa turma, onde ela tava esse tempo todo que a gente nunca achou ela na festa do cronista tal, onde que ela tava, né?
E aí eu entendi que tinha certos códigos, né? E eu achei isso muito interessante porque eu sou a mulher branca que nasceu na zona leste, perto do metrocarrão, não era o Tatuapé Nalha Franco, mas muito privilegiada, porque minha família era classe média, eu estudei em colégio particular, eu fiz inglês, eu fiz a Disney aos 14 anos e tinha, eu era muito mimada. Então assim, eu começo dizendo isso no livro, eu achava que era rica, né?
É, eu não tô contando a trajetória da hero da heroína branca, que seria uma coisa muito ridícula e que era o meu medo nesse livro, né? Por isso que eu demorei tanto para escrever. O que eu tô contando nesse livro são esses pequenos códigos que são engraçados, porque daí era assim, de onde saiu essa fulana, né?
A gente não é amiga dela do Santa Cruz, do Vera Cruz, do Bandeirantes, do Gracinha, da USP, de onde saiu, né? Na época que eu trabalhava em publicidade e tinha um namorado ali meio playboyzão da época da publicidade, quando eu tinha 20 e poucos anos, eu namorei, sei lá, um cara, já aconteceu de eu namorar um cara mais machistão assim de centro direita, né? Que é aquele cara que é muito escancarado o quanto ele quer que você seja uma lady, né?
E aquilo é tão escancarado que você larga o cara em três semanas porque ele fala: "Fala mais baixo". Eh, essa sua raiva, ela não é quase como assim, não é? Não é para moça para casar.
Isso era tão escancarado que você fala: "Nossa, esse homem não serve". No meu caso, eu acendi para uma elite intelectual, comecei a, né? São pessoas muito progressistas de esquerda, meu meio e eu escutei de alguns namorados dessa elite intelectual a mesma frase, só que maquiada, que é o seguinte: medita mais, vai mais paraa yoga, é a mesma coisa.
É tipo, não seja essa mulher com tanta raiva, não seja essa mulher com tantos braços quando fala, né? Ou seja, não seja uma mulher da Zé L, que à direita e os playboys da publicidade diziam: "Não é para casar". E a galera de esquerda falava: "Eu acho que talvez se você meditar mais, sabe, se se libertar comaline, sei lá, falava de um jeito progressista, cirandeiro, mas era a mesma coisa.
Baixa a tua bola porque a gente quer uma mulher elegante, né? Então são o livro é sobre essas essas eh pequenas nuances, não eh esses códigos que eu acho isso muito interessante, porque hoje em dia eu tô te dando entrevista num apartamento de Genópoli, eu sou uma mulher branca, loira e eu tô falando, eu não tô falando de luta de classes, pelo amor de Deus, mas eu tô falando de códigos e eles são engraçados, né? E principalmente, é um livro que tira sarro de mim, porque eu eu quis pertencer a isso mesmo percebendo o que tinha de ridículo.
E hoje em dia eu replico muitas vezes esse ridículo. Por isso que eu acho que é um livro mais de humor do que de qualquer outra coisa. Eu hoje tenho um grupo, eu encontrei os meus no mundo, assim, eu tenho muito amigo legal, eu sou uma pessoa muito bem acompanhada assim, né?
Eu não sou a escritora maldita sozinha que falou tudo que queria falar e ficou sem amigos. Muito pelo contrário, eu trouxe muita gente assim, né, legal assim, que ama ver, que de repente saiu numa crônica e morre de rir e me liga, [ __ ] que pariu, não sei o quê. Então assim, a minha mãe tem 76, 75 anos, 76, ela se incomodava no começo.
Hoje em dia ela fala: "Ai, meu Deus, já sei, esta merda que falei estará na sexta-feira na coluna". Eu não tenho mais medo de perder pessoas com o que eu escrevo, porque já tem muita gente na minha vida. Tá, tá, tô tranquila assim, eu sei que essas pessoas eu não vou perder.
Elas gostam disso, elas entendem que esse é meu trabalho, elas entendem que um escritor autobiográfico de autoficção faz isso por prazer e também porque vive disso, né? E mas assim, ao longo de minha vida, claro, tive problemas, teve namorado que ficou muito bravo, teve amiga que falou: "Você tá falando de mim". Pessoas que se levam muito a sério, geralmente não convivem bem comigo.
Cara, o Gregório, Gregório do Vivier leu esse meu livro, fez até um blurb. super legal, assim, que eu fiquei emocionada e ele falou para mim, cara, é muito legal ver uma mulher de esquerda feminista falando o quanto ela gosta de dinheiro e sim, continuo gostando, apesar de ter de torrar muito e não conseguir guardar, até porque trouxe comigo aí toda uma galera da Z que não tem dinheiro, então sustento aí uma turma, né? Eh, sim, gosto.
Atira para todo lado, seu be só de livro. A minha mãe foi uma figura central na minha vida nesse sentido. Quando eu falei que queria ser escritora, ela falou: "Você nasceu numa família sem grana, logo mais você vai ter que estar aí ajudando a gente, né?
E você quer isso, mas assim, ninguém vai te ajudar muito mais tempo, né? Não vai dar para você brincar de artista com a gente pagando suas contas. " E a e mais do que isso, a minha mãe, assim, eu quando trabalhei em agência agência de publicidade como estagiária, só os filhos de cliente milionários eram estagiários, né?
E tinha eu lá no meio e a gente não recebia salário. E eu chegava, eu ganhava prêmios, eu era uma boa redatora publicitária, né? E eu chegava, mostrava pra minha mãe, olha, esse esse anúncio vai sair, eu ganhei esse prêmio, minha mãe falava: "Enquanto não te dão dinheiro, você só está sendo enrolada.
por homens brancos, em cargos de poder, você está sendo enrolada. Respeito é dinheiro, né? Então ela falou, e aí quando eu entrei nesse nesse mercado do do da cultura do do das pessoas, né?
Então assim, você vai trabalhar com cinema, alguém tá ganhando dinheiro. O produtor daquele filme cabeça, claro que tem projeto que a gente faz por amor ao cinema, principalmente se ele for autoral. Já fiz muita coisa por por amor a mim.
Aí eu amo o cinema, o teatro. Agora, amor ao cinema pra ideia de um produtor que tá ganhando dinheiro, nunca me comprou, porque eu tive essa mãe que desde os 15 anos falava: "Tem alguém ganhando dinheiro. Você quer trabalhar com arte, com cultura?
Não seja uma trouxa deslumbrada". Então, eu atirei para todo lado. Eu tenho um monte de podcast, eu escrevo para teatro, para cinema, eu escrevo livro, eu tenho a coluna na folha, eu entrevisto pro wall, eu tenho o meu canal de YouTube, eu faço publis com marcas legais que não apoiaram o fascismo.
E eu atiro para todo lado. [Música] [Música] Yeah.