Oi, seja muito bem-vindo ao Na Leitura. Hoje vamos ler A Cabeça do Santo, uma obra de Socorro a Seol que conta a história de Samuel, um jovem que passa a morar dentro da cabeça oca de uma estátua de Santo Antônio e descobre que consegue ouvir as preces de amor de toda a cidade. Lembre-se que essa é uma narração caseira. Caso escute qualquer barulho externo, é apenas a vida real acontecendo. Vamos juntos. A cabeça do santo. Primeira parte, caminho. Ele não tinha mais sapatos e seus pés àquela altura já eram outra coisa. Um par de bichos
desformes, dois animais dentados e imundos, duas bestas presas aos tornozelos incansáveis. Avante um depois do outro. Avante, conduzindo Samuel por 16 longos e dolorosos dias sobre o sol. Nos primeiros dias, o sangue e a água que minavam das bolhas arrebentadas nos Seus pés chivam em contato com asfalto em brasa, inclemente. De tão secos fizeram silêncio. Surgiu uma pele nova, quase um couro de cobra esturricado, admirável engenho da natureza para os que não podem contar com nenhum lapso de piedade do inimigo. pernas gêmeos paradoxos. Quanto mais magras, mais fortes. Os músculos cresceram até nas canelas sujas
que sustentavam as coxas de pouca carne. Ele, sujo como um desenterrado, andando Sempre em linha reta. 16 dias. Por vezes, olhava para baixo e temia que o ventre colasse de vez nas costelas, como na história do homem caído que a mãe Marinha contava. Dizia que foi num dia de muito calor, pior que o sopro quente de sempre. Quando ela ouviu alguém bater palmas diante de sua porta, foi abrir, levando a alegria discreta que sempre doava aos vizinhos ou aos compradores de chapéu. O sorriso acabou-se no espanto, porque ali Estava um homem esticado no chão, tão
faminto, que a pele da barriga colara nas costelas. O desmaiado era bonito e foi isso que o salvou. As mulheres da vizinhança não demoraram a ferver um mingal de milho, cozinhar uma galinha gorda, 1 kg de arroz refogado com alho e sal, uma panela grande de farofa com carne seca e coentro, nove copos de leite com canela e oito ovos cozidos. Não faltaram voluntárias para trazer os pratos, dar comida na boca, fazer a Barba, limpar o rosto com pano perfumado de colônia. Foram dois dias de comilança para que a barriga do desinfeliz descolasse das costelas,
fazendo um estalido seco e alto que se ouviu por todo o horto. Voltou dos mortos, tão cheio de desejo, que não demorou para que pedisse a mão de uma das moças em casamento. Era Estelita. A que lhe trouxe mingal de milho. Samuel também tinha o ventre quase colado nas costas e Oxalá ainda Fosse possível desgrudar quando chegasse a hora. Alguém ajudaria? Alguém daria comida a um desenterrado? Pensava na galinha cozida, nas bananas, nas mãos da mãe, enchendo seu prato de louça branco leitoso, com as bordas quebradas e a pinturinha de flores descascada. Das mãos da
mãe, ele tentava não lembrar. Era uma dor sem nome. Sapatos, as pernas da calça, mangas da camisa, o parco e dinheiro. Tudo ficou Pelo caminho. Existe quem compre mangas de camisa. Isso é espantoso. Seu torço mal protegido tinha duas cores. Os braços queimados de sol não serviam para nada, além de sustentar as mãos. Das coisas que um corpo exige, ele não tinha quase nenhuma. O corpo pede e pune na mesma medida. A mala que levava quando deixou a casa ficou pelo caminho logo no quinto dia. Ou isso ou a fome. Trocou por um prato de
carne cozida e baion de dois. A dona de uma pensão Aceitou. de uma vontade, só porque precisava de uma mala para guardar as toalhas das mesas. Restavam apenas os seus 28 anos e um endereço de poucas palavras no bolso esquerdo. Às vezes, o pequeno pedaço de papel pegava fogo e torrava a única pista do seu destino. Samuel enfiava a mão no bolso com desespero. Era o pior do elenco de pesadelos daquela jornada. Ele queria chegar lá, no lugar indicado por oito palavras e um número. Chegar lá Era a única coisa que tinha na vida. Os
cabelos escuros e lisos cresciam rápido e já escorriam de forma irritante sobre a testa, atrapalhando a vista. Tinha olhos pequenos, sobrancelhas partas e juntas acima do nariz, boca carnuda e traços de índio, herdados da mãe Mariaha. Samuel era um corpo magro e faminto, quase uma sombra que não parava de andar. Quase 10 horas de caminhada por dia, pouca água, comida rara, sono em Cotas breves. Tudo ficou pelo caminho. Juventude, alegria, pedaços de pele, mililitros de suor, quilos do corpo e os parcos e velhos fios de esperança de que houvesse alguma coisa invisível que ajudasse os
homens sobre a terra. As esperanças nunca foram suas, eram de Mari. Ele as usava por empréstimo em casos raros. Naquele momento, Samuel não tinha fé nenhuma nas coisas do espírito. Do outro lado da estrada, em direção contrária, caminhavam exemplares do seu Extremo oposto. Candeia. Oito pessoas feitas de fé, três homens, duas mulheres, três crianças. Todos usando a túnica marrom de pano grosso, exatamente igual a que São Francisco usava. Eles tinham direito de acreditar nisso. Surrão amarrado na cintura, algumas provisões, poucas. Eram sacos murchos no fim da jornada, pois dali já se enxergava a imagem de
São Francisco de Canindé, marrom, gigantesco, de mãos Espalmadas. Andavam devagar. O homem mais jovem, de joelhos, os outros ao redor, por perto. As crianças menores iam nos braços, a maior ia a pé e aceitava a penitência. talvez sem saber que ainda não devia nada a santo algum. Balbuceavam o tempo todo, não deixavam de rezar. O santo estava ouvindo. Caminhavam para que os visse, olhasse para o seu sacrifício e fosse benevolente com os pedidos que carregavam. Não demorou para que percebessem o rapaz seminu e solitário do outro lado da estrada. Uma das mulheres se apressou a
tirar do saco de pano uma garrafa de água, um trapo, um vidro com álcool, um pedaço de pão seco. Estavam ali para ajudar, como São Francisco ajudou. Junto com outro homem, o seu marido correu para cuidar do suposto jovem romeiro. Quanto mais perto, mais doía o seu estado de miséria. "Não vai te faltar caridade, irmão. São Francisco está te vendo", disse a mulher com fé e prontidão. Samuel tomou a garrafa, bebeu água com desespero, deixando cair pelos cantos da boca, pescoço, pelo peito. "San Francisco vai te dar força, irmão. Você vai anoitecer nas bênçãos dele?",
disse o homem sorrindo. "Não sou Romero não, senhor", disse o hálito podre de Samuel com algum deboche. "Só queria saber se Candei ainda tá longe, mas se tiverem mais Comida, eu também fico agradecido." A mulher foi tomada de fúria. Não era romiro, era um moleque malandro qualquer, um ladrão, estuprador, assassino, salafraio, coisa boa não poderia ser. Um rapaz de bem não anda imundo pela estrada, nem responde daquela maneira à caridade de quem tenta diminuir seu flagelo. Era uma mulher que partia em segundos de um extremo a outro da sua escala particular de análise do caráter
aleheio. Jogou o pão seco no Chão e atravessou a pista de volta para os seus. O romiro que ia com ela ainda ficou. Sabia um pouco mais da vida e sobre a paciência com as fraquezas humanas. Já vira muita gente de bem enlouquecer na estrada das chagas. Isso sempre foi comum. Naqueles anos de Romaria, vira de tudo no caminho e teve piedade, porque às vezes nem Deus livra o homem de enlouquecer. O demônio é artista. Poucos escapam dos enganos do Satanás. Apontou A estátua de São Francisco e mostrou para Samuel o quanto já estava perto
de chegar aos pés do santo. "Ao menos pintar uma roupa desses infeliz", debochou. O padre Cícero parece alma do outro mundo, todo branco. Candeia fica desse lado da pista. Depois de Canindé. Vá com Deus, irmão. Samuel não respondeu nada. O Romero sorriu muito levemente. Seu olhar dizia alguma coisa, talvez uma ou duas palavras de fé e força. Samuel sentia-se muito mais forte depois de Beber água e encontrar o homem que ainda observava do outro lado da pista. Acelerou o passo e constatou que estava mesmo perto de Candeia. Agora sabia. Para isso, o homem serviu, ele
pensou. Já vistava algumas casas ao longe, à direita. Olhou o papel no bolso. Niceia Rocha Vale, Manuel Vale, rua da matriz 52. Café. Candeia era quase nada, não mais que 20 casas mortas, uma igrejinha velha, um Resto de praça. Algumas construções nem sequer tinham telhado, outras invadidas pelo mato, incompletas, sem paredes. Nenhum ar tinha esperança de ser vento. Era custoso acreditar que morasse alguém naquele cemitério de gigantes. O único sinal de vida vinha de um bar aberto. Duas mesas de madeira na frente, um caminhão, um homem e uma mulher na boleia ouvindo música. entre abraços,
beijos e carícias ousadas. Mais desolado e triste que Juazeiro do Norte aquele povoado, muito mais. Em Juazeiro tinha gente. A cidade era viva. E no meio daquele povo todo sempre se encontrava uma alma boa como a de sua mãe, uma moça bonita, um amigo animado. Candei era morta. Pior ainda naquela hora, quando até o sol iniciava o seu funeral de todos os dias. Samuel ao menos ficou um pouco feliz por ouvir a música do caminhoneiro, quase sorriu. O esboço de alegria durou até aparecer pela porta mal pintada de azul, uma Mulher assombrosa praguejando com uma
vassoura na mão e mandando desligar aquela música maldita. O caminhoneiro a chamou pelo nome. Cadê o café, Lenice? Deixa de praguear coisa ruim. Pela mesma porta saiu uma moça bem jovem com uma garrafa térmica vermelha e duas canecas. Foi e voltou com rapidez. Agora trazendo dois pratos, quatro pães pequenos, duas bananas cozidas e um pote de margarina. R$ 5, ordenou Elenice com a mão na garrafa térmica. Só come se pagar. O homem pagou, sempre rindo da cara de Elenice, visivelmente bêbado, sempre tentando morder a mulher da boleia, mal vestida, desgraçada, seminua, feia, bonita, feliz. E
quase não era possível que isso tudo coubesse na mesma pessoa. Samuel envejou o caminhoneiro. Não tinha tanto dinheiro para comer naquele fim de tarde, fim de vida. Lembrou-se de Mari, que gostava de tapioca com café. Essas lembranças de Marinha eram assim: chegavam o tempo todo sem palavras, eram Fotos da memória, cenas apressadas, às vezes com cheiro, sempre o cheiro da mãe. Heleniss entrou com a vassoura e a moça foi para a lateral da casa. Ele foi atrás, sem imaginar o quanto a sua presença era mais assustadora na penumbra. A senhora tem um pão, pelo amor
de Deus. Ele não se reconhecia daquele homem que pedia pão metendo o nome de Deus na frase, mas aprendeu no orto que a única forma de comover naquele pedaço perdido De mundo era a ameaça de que Deus estava vendo tudo e não tolerava descaridades. Sua voz foi um susto para a moça quando viu o miserável. Primeiro porque havia tempos não chegava ninguém ali além de um ou outro caminhoneiro. Segundo porque ele era estranho, instigante, parecia jovem, parecia bonito, sentiu medo e pena ao mesmo tempo. Lembrou-se do saco de pão velho que tinha mesmo que jogar
fora. Disse um espera aí, apressado, e voltou logo jogando saco para ele. A Fome não impediu de notar o quanto aquela moça era jeitosa, de corpo bem feito e uns olhos de mel de jandaíra. Samuel atacou o pão com força, ro desespero e engasgou-se com farelo seco. Sua cara rocheou rápido, asfixiado. Tinha disso desde pequeno. Não era cena bonita de se ver. A moça pegou uma garrafa suja de qualquer coisa e encheu com água da torneira, entregando ao sufocado, que bebeu com afobação e desentalou a garganta. Ela teve pena de Novo. Talvez tivesse mesmo a
sua idade. Melhor se eu fosse velho, bem velho. Assim seria inofensivo e ela poderia ajudá-lo mais. Talvez até a mãe tivesse pena também. A moça pensou uma coisa egoísta. Ele sofria mais que ela. Que bom ver alguém que sofre mais. Que bom. Aquela desgraça de destino, seja lá como tem acontecido, tornava sua cina um pouco mais leve. Ela sempre achou que nunca encontraria alguém que sofresse mais que ela. Encontrou por segundos. Helenice chegou enfurecida e enchotou o homem com a vassoura como bicho. Ela mais bicho que ele, pediu à menina que tomasse a garrafa da
mão do vagabundo, que ainda se recuperava de falta de ar do engasgo. A moça desobedeceu. Saiu correndo para dentro da bodega, enquanto Elenísa fugentava o homem aos gritos, empunhando a vassoura como se fosse uma espada. A Samuel só restou sair dali correndo. Estava em Candeia, enfim, onde ninguém o conhecia, onde mal chegou e já Foi expulso a vassouradas, onde só conseguiu um saco de pão seco com água suja, onde era difícil acreditar que alguém vivesse, de onde o sol se despedia. Dois ou três meninos barrigudos, quase nos, corriam pelas ruas daquele sábado à tarde. A
poeira, os gatos magros, tudo sofrendo de falta de vida. sentou-se numa calçada qualquer para comer mais um pouco dos farelos secos. Agora com mais cuidado. Tomou água aos poucos, até que viu uma Torneira no muro da casa ao lado de onde estava sentado. Bebeu o que quis. Poderia encher novamente a garrafa até lavar o rosto antes de procurar o endereço. Ele estava ali para procurar uma casa, encontrar uma mulher, perguntar por um homem, resolver uma dívida antiga e depois ir embora. Deveria ser rápido. Era mais fúria do que plano. Achava que saberia o que fazer
quando chegasse a hora. Aproveitou a torneira, molhou as mãos, a cara, Cabelo, tentou tirar a lama preta assentada sobre suas unhas grandes e duras. Olhou-se no espelho de uma moto velha parada logo ali e viu como estava horrendo. Não era assim que gostaria de chegar àquela casa. Falar com Niceia não era a forma mais agradável de se mostrar. Também não foi assim que imaginou a própria vida. E lá estava ele transfigurado em filho do diabo naquela cidade onde ninguém o conhecia à procura. Foi no caminho de Juazeiro a Candeia que o diabo apareceu pela primeira
vez como seu pai. Antes era pai nenhum, não permitia que a mãe falasse nele, portanto ele não existia. Foi uma noite qualquer dormindo no meio do mato, perto dos inhamuns. Sonhou que Mariinha, vestida de noiva, sorria para alguém e caminhava para um homem. E esse homem era um monstro. Era o diabo. Parecia com ele de alguma forma, sendo monstruoso ao mesmo tempo. Era a única imagem que Samuel guardava do pai, o retrato da Besta fera. Lembrou-se disso enquanto sentia a água, agora escassa, caí da torneira, sem forças, um fio. Até a água parecia morrer. A
dona da casa e da torneira apareceu na calçada, andando com passos lentos. vinha de braço dado com homem decrito, de olhar fixo, como se não pudesse mais mover os olhos para nenhuma outra parte. A vida estava ali com ele, na consistência de fumaça no fim da fogueira. Na calçada, duas cadeiras foram Confortavelmente forradas com almofadas desbotadas de tecido florido. Primeiro ela acomodou o velho, falava com ele, sorrindo, mostrava isso e aquilo, como se ignorasse a debilidade. Chamou um gato amarelo pelo nome, Jerimum. que atendeu e pulou no colo do homem. Talvez fosse um hábito antigo.
Gatos são dados ao método e à rotina, mas o velho não deu conta da sua presença. Foram amigos um dia? Seria o gato também um velho vivente perto da Morte? Samuel assistia tudo parado do meio da rua, até ser notado pela velha já acomodada em sua cadeira. Sua figura horrenda não foi suficiente para assustá-la, e tamanha bondade correspondia exatamente à descrição que Mari fizera de sua avó Niceia, uma mulher de bom coração. De mãos dadas com o apoplético, sorriu e desejou bom dia ao desconhecido. Sem saber o que dizer exatamente, o sorriso deixara mais confuso
que a vassourada. Samuel tirou Do bolso o endereço e perguntou se ela era Aniceia. Ele queria que fosse, mas não. Seu nome era Rosa. Depois perguntou onde ficava a rua da matriz. É essa que passa aqui ao lado da matriz. Estavam ao lado da rua, ela sempre sorrindo. E a casa de Niceia Rchavale? O velho resmungou alguma coisa, um barulho angustiante, gutural, quase desesperado. "Ele quer água", ela traduziu para o forasteiro. Ainda de mãos dadas, ficou De pé e chamou por alguém pelo muro. Ninguém veio. Ela entrou em casa para buscar água, ajudou o velho
a beber, acalmou o homem, ajudou-a a levantar, separando bem as pernas, puxando com força o corpo peso pena. E os dois entraram, ela deixando um rápido aceno de despedida e evitando olhar para ele ou responder a pergunta. Samuel teve certeza de que o velho tentou responder. Casa. Não tinha nenhuma hora que chegara a Candeia e Samuel já estava na rua da matriz, segundo a referência da velha. Tudo rápido demais. Achou que levaria mais algum tempo para enfim estar diante de sua avó e de seu pai. O que diria? Não pensou em palavras para dizer, mas
lembrava da voz de Mariinha letra por letra, pedindo que fosse encontrá-los. Se pudesse, mataria o pai. Nunca matou, não tinha arma, não tinha ideia do tamanho do homem. Eram anos de motivos, especialmente pelos últimos 15 dias, o Rosto de Mariinha, o fio de voz, os quatro pedidos. Respirou fundo e foi. Não demorou a achar a casa. Era a maior da rua, perto da igreja. Tudo continuava morto. Olhou ao redor antes de chamar por alguém naquele portão. Portas janelas fechadas com tijolos, mato crescendo por cima das telhas, saindo das frestas. Raízes quebrando o piso das calçadas
e varandas, vencendo a pedra. As casas distribuídas acompanhando o desenho da Praça. Em muitas delas ainda era possível ler as palavras escritas com tinta velha e descascada. Barbearia Santo Antônio, Lanches, Santo Antônio, Pousada Santo Antônio, Restaurante Santo Antônio, marcas borradas de um passado que ele não compreendia. Uma coragem súbita tomou conta dos seus pés novamente. Era a besta fera, nele acreditava. A vida que levara nos últimos dias fazia parecer mais possível acreditar no mal. Puxou o papel do bolso. Precisava ler mais uma vez as oito palavras e o número já cravados na memória e fazer
o que tinha de ser feito ali. Bateu palmas com a barriga encostada no portão de ferro, fechado com corrente cadeado. Um jardim na frente, o mato tomando conta de tudo. O mato e os gatos. Coisa de oito, nove, cada vez chegava mais. As duas janelas estavam fechadas com tijolos. Era uma casa grande, com alpendre. cadeira de balanço enferrujada. Havia uma grade na frente da porta de madeira e não demorou duas palmas para que a porta de dentro se abrisse e surgisse uma mulher de dificíima descrição. A senhora dona Niceia? E você é Samuel? Não era
uma pergunta, não era um sorriso, não era uma acolhida. A senhora me conhece? Não. E nem você? Mas sei quem você é. Tinha cara e conversa de louca. "Está com fome?", perguntou a velha. "Muita. Tá se vendo pela cara. Veio do juazeiro?" Foi e não trouxe nada para mim? Não. Sua mãe mandou. Mandou, mas eu não trouxe. Veio como? a pé o caminho todo. Foi quantos dias? Uns 15, 16. Como a senhora sabe? Eu sei. E o Manuel? Que Manuel? O seu filho. Ah, sim, meu Manuel. Fez nuvem de choro em seu rosto. Baixou a
cabeça, deixando amostra os cabelos raros e brancos. Ele mora aqui na cidade. Isso não é mais uma cidade. Mora onde? É mistério de Deus. Ele tem muitos. Ele se mudou daqui faz tempo. Não houve resposta. Ela olhava para Samuel somente. Então ele mora aqui. Não adianta tentar entrar. segurou a porta com as duas mãos, mudou O rosto, agora tinha raiva. Ele está vivo. Tá com fome? Muita. A mudança de assunto foi bem-sucedida. Tá se vendo e sujo, carecido de banho. Samuel tinha certeza de que ela o chamaria para entrar e depois, talvez mais tarde ou
no dia seguinte, poderia perguntar os detalhes do que aconteceu com Manuel, seu pai. Se estivesse morto, pouparia o seu trabalho. Talvez ficasse lá uns tempos. A ideia de uma casa para Dormir era tudo de que ele precisava depois de 16 dias como um cão de rua. Se ela notou que ele estava carecido de banho, o convite viria a seguir. Ele pensou, mas não veio. Algo dizia que Manuel morava lá e estava escondido. Talvez para sentindo que o filho não buscara para pedir a bênção. Nesseia voltou a falar. Já escureceu e daqui a pouco vai chover.
Você saia daqui, vá andando pelo mato. Segue aqui na rua a pasta da matriz e do cemitério. Entra Nos matos mesmo, sempre reto, sem dobrar. Quando avistar um pé de goiaba, aí dobra pro rumo da direita que tem um canto coberto para dormir. Entra correndo e dorme. O temporal vem forte. Bateu a madeira velha da porta com força e sumiu. Nenhum rastro de som lá por dentro. Por todo esse tempo, Samuel permanecia com a barriga colada no portão de ferro e a mulher de cabelos desgrenhados do outro lado. Não foi assim que Marinha descreveu a
velha Niceia. Não foi assim que ele imaginou o encontro com a sua avó. Ela chamou à chuva, pediu que viesse. Antes, pouco antes, o céu estava limpo, sem dar sinal nenhum de que as nuvens estavam para chorar. Todas as nuvens do céu choraram ao mesmo tempo. Cachorro. A primeira da família, a saber o dia da própria morte foi a Tataravã Mafalda. Pendurou os brincos no rasgo da orelha, passou perfume e batom, vestiu roupa de Domingo na hora de dormir e foi despedir-se da filha. Olhe, Toinha, é hoje que eu fico por lá. Minha mãe disse
que vem me buscar com tia Malha. O gado é seu. E de Francisco, repartido. Se vender, reparte. Se matar, reparte. A casa é sua. Que ele já tem a dele. E o que tá aqui? é seu mesa, cadeira, cama, filtro, pote, tudo. A filha catava o feijão e riu sem sequer levantar a cabeça, porque aquilo era conversa de velha caduca. Mafalda era assadia e não Dava sinal nem de caduquis tão pouco de morte. Avisou de novo que iria e por lá ficaria e ficou. Não acordou nunca mais, morta e fria, de vestido de domingo, brincos
e batom. A filha chorou a morte da mãe duas vezes, por perdê-la e por não ter aproveitado a oportunidade da despedida. Tinha muita coisa para dizer e as palavras que não se dizem ao morto queimam na boca para sempre. Assim aconteceu com todas as mulheres da família e com Marinha não foi diferente. Todas sabiam exatamente o número de dias que formavam essa coleção de horas que chamamos de vida. Sabiam desde cedo, guardavam segredo, mas anunciavam a tempo de fazer pedidos à família e tomar providências. Mari chamou Samuel e avisou que iria embora na quinta-feira. Moravam
numa casa de nada na ladeira do orto, no caminho que leva até a estátua de padre Cícero. Mas ela não era de lá. Foi pro Juazeiro quando se viu sozinha, com um filho nos braços. Já que o menino Ia mesmo se criar sem pai, pois que ao menos fosse afilhado do padim, abençoado por ele dia e noite. Mariinha do orto caiu nas graças de glória, a abençoada, que cuidou dela como de uma filha. Aprendeu logo a trançar palha e vender chapéu pros romeiros. E assim viveu e criou o filho por 15 anos com pouca saúde.
Disse o médico que a doença ela pegou de homem. Samuel só soube disso depois da sua morte. Disseram à beatas que foi doença do pecado, castigo de Deus por se deitar com o homem sem casar. Pois se era verdade, foi marca de Manuel, o único. Foi-se embora quando Marinha estava grávida. A mãe dele chamou. Mandou que fosse a Candeia para um trabalho importante. Não disse detalhes. Telefonar era caro. Ia ganhar dinheiro. Depois voltava para buscar Mariinha e Samuel para morarem com eles numa casa avarandada, a melhor de Candeia. Ela sempre soube que seria um menino.
Sabia simplesmente sem precisar De exames. Escolheu um nome que achava o mais bonito do mundo, aprendido na missa. Manuel gostou, falava com a barriga, chamando o filho pelo nome, e prometia voltar. Era coisa de seis meses. Ele disse: "Volto logo, Marinha". Nunca voltou. Nunca mais. No primeiro mês, mandou dinheiro por um portador e um bilhete com o endereço da mãe. Foi logo quando a barriga já aparecia. Mariinha saiu de Tauá e foi pro Juazeiro. Só tinha pai e uma irmã mais Velha que não queriam mulher da vida dentro de casa. Deixou o recado com toda
a cidade, avisando o seu rumo. E nada, nem notícias, nunca mais. Mari esperou a vida inteira todos os dias. Samuel esperava junto, até quando tinham se anos, e os amigos da escola disseram que ele era filho de mãe solteira e prostituta. Eram a mesma coisa. A sombra do pai era a sua infelicidade. Eu vou na quinta-feira, Samuel. Minha mãe disse que vem me buscar. Não foi um Aviso de quem vai ali perto. Nos olhos de Marinha significava ir para sempre. Samuel não acreditava muito na conversa da morte anunciada das mulheres da família materna. Não conheceu
nenhuma delas. ouvia falar, mas nunca viu o anúncio de se cumprir. Se fosse verdade, não haveria mais ninguém por ele no mundo. A mãe tinha pouca vida nos olhos, pouca carne nos ossos. Ela disse que tinha quatro coisas para pedir a ele antes de partir. E Samuel intuiu que não Seria fácil escutar. Eu quero que você acenda três velas para minha alma. A primeira no santuário do meu padrim Cícero, a segunda na estátua do São Francisco de Canindé. No dia em que você puder ir lá, não carece depressa. E a terceira é para Santo Antônio,
porque ele era o santo de devoção da minha mãe. Todas três nos pés deles, meu filho, encostadas nos pés. Isso é importante para mim. Mas o meu maior pedido é que você vá para a Candeia procurar sua avó e seu pai. Tirou um papel velho de uma bolsa de pano, as oito palavras e o número. O nome dela é Niceia, sua avó. Ela deve saber onde está seu pai. Vá sem ódio. Dona Aniceia é uma boa mulher e você agora só tem esse povo no mundo. Ela veio me ver uma vez. Veio para te conhecer.
Se nunca voltou, é porque não podia. Quero que você leve o meu rosário da mãe de Deus para ela. Samuel tentou, mas não conseguiu Disfarçar o ódio. Não via motivos para procurar aquela gente que nunca deu a menor importância para sua existência. O homem deveria ter outra família, filhos, netos, e certamente nem lembraria dele. Eu sei que você não quer saber disso, mas é a última coisa que eu te peço. Minha alma nunca terá paz se você não atender. Procure por ele. Deus vai te ajudar. Você vai, Samuel? Você vai procurar seu pai? Samuel disse
que sim, aos quatro Pedidos. A vela para o padre Cícero, outra vela para São Francisco, mais outra para Santo Antônio e a busca da avó e do pai. E aconteceu, como ela disse, foi morrendo devagar, um pouco de vida escapando a cada dia. Na quinta-feira à noite, Marinha não moveu mais os olhos. Fria, pouco a pouco, morta, sem volta. Era muita gente levando a redinha com o corpo magro da boa mulher, Mario, conhecida de todos em Juazeiro do Norte. Tantos anos fazendo Chapéu, trançando palha com paciência. Quem sabia fazer aprendeu com ela. Qualquer chapéu comprado
no orto tinha bondade de Mariada na trama da palha amarela, entrançada. As carpideiras todas choravam por verdadeira tristeza. Nem elas, que viam defunto todo dia sabiam se acostumar à morte. O enterro foi na sexta-feira, cova rasa em Juazeiro do Norte. Foi no trajeto que Ivanisia, a fofoqueira do orto, aproximou-se de Samuel para Lamentar que uma mulher tão boa tivesse sofrido uma vida inteira até a morte por causa de doença de homem. Ele não sabia de nada disso, mas ela fez questão de arrancar a casca da ferida mais dolorosa e contar detalhes do diagnóstico do médico.
Ivaníia planta ódio poderia ser seu nome. Enquanto o pai era uma sombra, foi suportável. Agora o pai era morte. Samuel arrumou a mala velha de couro no mesmo dia e partiu no sábado. A mesma Mala que Marinha carregou de Tauá, a Juazeiro. Deixou as poucas coisas de casa para as boas vizinhas, que choravam pela morte da mãe e pela partida do filho, tão amargurado, tão revoltado. Samuel, o menino feliz da ladeira do orto, agora tão triste, cheio de ódio daquele pai, que só serviu para a maior desgraça de sua vida, essa vida que ele lhe
deu. partiu para a candeia, não por obediência, mas porque não houve tempo de dizer que não iria. Mariu Acreditando. Anoiteceu e ele obedeceu a indicação de Nisseia, porque de fato começou a chover e não havia nada a fazer além de abrigar-se. Ele agora não sabia se a falsa bondade da avó era uma mentira inocente ou engano da pureza quase milpe de Mariinha, que não sabia enxergar maldade. A velha nem sequer abriu a porta. Um copo de água, um prato de comida, uma dormida, nada. Obedeceu. Seguiu para o mato, apertando o passo por causa da chuva,
avistou a goiabeira seca. Cinco cachorros magros e raivosos desceram o pequeno morro logo à frente, correndo, latindo para cima dele. O menor deles, branco e tomado de ódio, atacou em cheio sua canela. Samuel gritou para alguém. Os outros aam alto, enquanto o pequeno mordia a perna, cravava os dentes sem piedade, até que um assovio de longe, um apito, algo assim, fez levantar as orelhas dos Bichos, que saíram em disparadas, subindo pelo mesmo caminho por onde vieram. Escuro demais para enxergar. Não fosse a mordida na perna sangrando, diriam que eram cães fantasmas. Andando com dificuldade, achou
a entrada de uma gruta escura e fétida enquanto escorria sangue da perna. A velha falou de um canto coberto para dormir. Era esse. Chovia ainda mais forte. Não havia nenhuma récha de luz. Rastejando, Samuel entrou na gruta imunda, sentou-se com a Perna esticada para lavar o sangue da mordida que ardia. A água da chuva molhou o pão todo e agora ele tinha uma papa, uma gosma branca para jantar. Lá dentro ouvi os gritos fracos, agudos e histéricos dos ratos que corriam. caiu, dormiu de cansaço, apesar dos ratos, da dor e da fome. Bem ou mal,
era a primeira noite de sono em muitos dias. cabeça. Eram exatamente 5 horas da manhã quando Samuel começou a acordar, atormentado, Confuso. Ouvia vozes de mulheres, várias falando ao mesmo tempo. Falando, falando, falando. Parecia reza, briga, conversa, tudo ao mesmo tempo. Talvez fosse pesadelo. Pareciam as mulheres do orto. Sentou-se assustado, acordado, mas as vozes não paravam. Mais alto, mais forte. Sim. Era reza. Parecia a voz das carpideiras amigas de Mariinha, tirando o terço quando morria a gente. Samuel saiu correndo daquela gruta maldita, sem lembrar que a perna estava ferida com a Mordida do cão, que
estava fraco, faminto, cansado e caiu no chão poucos metros depois. Não tinha mulher nenhuma rezando ali. Não havia ninguém por perto, nem os cachorros da noite. Do lado de fora, só mato, chuva fina e silêncio. Não se ouvia nenhuma voz. Nem o sol fazia nenhum barulho para acordar. Quando se virou para observar o lugar onde estava, com a ajuda da pouca luz do sol encoberto, Samuel percebeu que a gruta onde passou a noite era, na Verdade uma cabeça gigante, oca. Uma cabeça de santo. Mesmo coberta de plantas, via-se que o nariz era grotesco. Dois buracos
enormes, boca para cima, lábios grossos, fechados, olhos esbugalhados, expressão séria. O globo ocular era o mais assustador. Um par de bolas de concreto presas por um fio de aço nos olhos vazados. Não era uma cabeça maciça, mas feita de peças simétricas enumeradas com tinta branca. Samuel levantou-se com dificuldade e Chegou mais perto. Aquilo era delírio. Ele pensava. Mordida de cachorro louco. Enlouquecera também. O dia estava cada vez mais claro e era possível ver a gruta estranha onde Samuel cabia em pé. Do pescoço ao topo era quase do tamanho da casinha onde vivia com Mariinha. Era
assim numa cabeça de santo, oca, gigantesca, assustadora, coberta de mato na cidade de Candeia. Um santo degolado era o seu único abrigo no mundo e foi para lá que Ele voltou. A ferida da perna doía cada vez mais e a pele esquentava pouco a pouco. Tinha um resto de água na garrafa, tinha um resto de pão mole por ali. Não conseguia andar. da cabeça, avistou a goiabeira e viu frutos verdes em galho baixo. Achou que talvez conseguisse ir até lá e foi. Viu de novo a cabeça aterrorizante, mas dessa vez subiu à vista para o
alto do morro e descobriu espantado que o resto do corpo do santo estava lá em cima. "Talvez um Gigante tenha degolado o santo", ele pensou. Passou uma espada pelo pescoço e a cabeça rolou morra abaixo. Não havia outra possibilidade para aquela aberração. A cabeça desceu como bola e parou lá embaixo. Cinza, sem pintura. Nem o branco do padre Cícero, nem as cores de São Francisco. Samuel riu por dentro, rio do santo degolado. Pegou as goiabas verdes e voltou para dentro da cabeça. Riu de medo. Mordeu os frutos bichados, engoliu as lagartas, aliviou a Fome. Choveu
o dia todo. Isso foi bom. Samuel sentou-se ao lado de fora da cabeça e tirou a roupa para se lavar. bebeu água da chuva e descobriu que pelo canto do olho do santo caiu uma bica certeira para encher a garrafa. Era lágrima do santo, Marinha diria. Levou o dia assim, suportando a dor, lembrando da mãe, lavando a ferida, bebendo água de chuva. Já perto do fim da tarde, adormeceu novamente e só despertou às 5 horas em ponto, com as mesmas vozes de Mulheres atormentando o que restava do seu juízo. Não tinha relógio, não sabia que
eram 5 horas. De novo, não havia ninguém do lado de fora. Samuel colou o ouvido no concreto e conseguiu ouvir uma das vozes de forma mais nítida. Era uma reza muito clara, um pedido para Santo Antônio. O fato é que as orações das mulheres reverberavam dentro da cabeça do santo e, por algum motivo, Samuel conseguia ouvir. No dia seguinte, ele comeu goiaba, folhas, Bebeu água da chuva e percebeu que as orações aconteciam de manhã e à tarde. Nem sempre todas as vozes, nem sempre as mesmas palavras. Mantinha-se apenas o pedido. Elas amavam e queriam casar.
Foram quatro dias dentro da cabeça, comendo goiaba verde, folhas das árvores ao redor e bebendo água da chuva que resolveu parar. A ferida piorou muito. A fome e a febre da infecção deixavam Samuel cada dia mais indisposto, sem conseguir sequer ficar em pé. Ele estava condenado a morrer naquela tumba espantosa, não fosse a pancada nas costas que levou certo dia. Um pacote cair através do nariz do santo. Depois vários sacos plásticos com algo dentro deles. Quando Samuel tentava arrastar-se do fundo da cabeça para alcançar o embrulho, um garoto invadiu a gruta, pegou imediatamente o pacote
e abriu apontando uma lanterna. Depois de desamarrar vários e vários sacos, apontou a luz fraca da lanterninha para As páginas que segurava com uma das mãos. Eram revistas pornográficas. Que escolhivação é essa? O menino berrou muito alto com o susto e o deboche de Samuel. Seu único reflexo foi subir as calças rapidamente, pálido e apavorado. Samuel riu tudo que tinha guardado nos últimos dias sem sorriso. Gargalhou porque era patética a cena de um moleque, lendo a revista pornográfica dentro da cabeça de um santo degolado. Tinha visto muita coisa no Juazeiro, mas ali já era demais.
Seu nome era Francisco e tinha 13 anos. Descobrir o esconderijo havia um ano, mais ou menos. Ia lá em segredo desde então. Arranjava as revistas com o caminhoneiro que sempre parava no bar da candeia e se divertia quando podia, enchendo o cérebro do santo com seus devaneios de adolescente. Contou isso tudo assombrado, com medo das perguntas de Samuel. Estava meio escuro, não dava Para ver direito. Ninguém de candeia entraria naquela cabeça. Francisco imaginou. Deveria ser forasteiro, fugido da polícia, assassino, pior tipo de marginal. Foi o que ele pensou nos poucos segundos entre o movimento de
subir as calças e se levantar para ir embora. Se você me arranjar comida, eu não conto a ninguém da tua imoralidade. Tu é bandido, tu? Ainda não, mas quero matar gente que é do meu ódio. Tá Fugindo da polícia? Ainda não. Tá fazendo o que aqui? Vim atrás do diabo do meu pai, mas quero ir embora logo. Só não fui ainda por causa dessa ferida na perna. Não vou morar no teu castelo, não. Pode deixar. O menino fez cara de nojo olhando a ferida. Estava tomada de P, inflamada, rocheada. Aqui tem hospital? Não, só posto.
E tem médico? Só de sexta. Que dia hoje? Sábado. Como é teu nome, moleque? Só moleque não. Como é teu nome? Francisco, se você me Levar no posto sexta-feira, eu tomo remédio, vou embora de lá mesmo e deixo sua cabeça em paz às duas. Você chegou aqui quando? Faz uns dias. E tá vivendo de quê? De goiaba verde. Mas já comei folha também. Qual é o remédio que se passa nisso aí? Sei lá, álcool. Vai arder que só a gota. Você tem onde arrumar? Lá em casa tem remédio para ferida. Vou trazer uma pomada. Se
quiser trazer comida, eu aceito qualquer coisa. Tô com Medo de morrer aqui dentro. Não era só o que faltava. Apareceram um cadáver na cabeça do santo. Aí dói do resto do povo que sobrou aqui. Quanto mais você me ajudar, mais rápido eu saio daqui e não conto para ninguém do seu esconderijo. Francisco foi embora. Caiu facilmente na chantagem besta de Samuel. Primeiro ele voltou no mesmo dia, trazendo a pomada de basilicão que sua mãe usava para curar furúnculo. Sentou mais um pouco para conversar para tentar entender. A Curiosidade aos poucos ficou maior que oumento. Tinha
raiva da chantagem, mas tinha pena ao mesmo tempo. Por isso, passou a visitar o forasteiro todos os dias, levando comida e águas escondidas. Não tinha álcool, mas achou cachaça. Sabe-se lá como, mas deu para limpar o pus, para a pomada fazer algum efeito. E assim a ferida, ao menos não piorava. Ir à cabeça do santo diariamente era um risco imenso, quase um crime para o povo de Candeia, condenado ao fim por aquele Crânio mas para Francisco era melhor correr o risco do que ser denunciado. Se o sujeito fosse louco e contasse para alguém, ele estava
perdido. Além do mais, a companhia do forasteiro começou a ficar engraçada. Samuel gostava de conversar. Carvão, você também escuta o quê? A resalhada das mulheres aqui dentro. Ninguém vem rezar aqui dentro. O povo de Candei odeia essa cabeça. Por quê? É a maldição daqui. Como é isso de resalhada? Desde a primeira noite aqui, eu escuto a voz delas pedindo ao santo para casar, falando de homem. Tem uma que só fala num tal de Dr. Adriano. E quem é? Não sei o nome não. Ela toca bem aqui. Samuel apontou o lugar exato da cabeça onde ouvi
a voz. Eu nunca escutei nada aqui, não. Que horas são? Francisco olheu o relógio. Demorou, fez as contas. 4:40 Começa à 5 horas. Tu é doido? Sei lá. Acho que é. Só dá para saber esperando. E Francisco esperou desconfiado. Samuel conversou um pouco sobre a ferida, os cachorros, a cidade fantasma. Gostava de conversar. Falou que só queria ir embora. Falou do padre Cícero, da romaria, dos dias em que acordava cedo para vender chapéu no orto e não sobrava nada. ia falar da mãe, mas mudou logo de assunto. Falou tudo que não pôde dizer Naqueles dias
de silêncio, até que as vozes começaram. Cada uma brotava num lugar diferente. Do lado direito da cabeça, dois palmos acima da orelha, era a voz da menina que amava o doutor. Meu santinho, me escute. Eu lhe tiro debaixo da cama, seu Dr. Adriano casar comigo. Juro que tiro na hora e faço um altar bem bonito na minha casa. Escute, meu santo, eu quero ir lá no posto sexta-feira, mas não sei o que eu invento. Não tenho doença nenhuma. Minha Mãe bem que tá sismada. Se souber que eu vou no posto, ela fecha a bodeg e
vai comigo. Já roubei uma meia dele, meu santo. Já fiz simpatia e nada. Mande uma luz, meu Santo Antônio. Mande logo para eu lhe desamarrar, viu? Mande esse homem almoçar aqui e dê um jeito de atrasar as consultas para ele não ir embora cedo. Faça alguma coisa. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo. Amém. Samuel estava controlando o riso, tanto pela conversa da menina, como pela cara De Francisco, de ouvido colado na cabeça, indignado. Não ouvi nada. Pois deixa eu te dizer. É uma menina dizendo que gosta do Dr.zinho Adriano. Quer ir lá
na sexta-feira na consulta, mas não sabe o que inventar. Tá inventando só porque eu falei que o posto é dia de sexta. Mentiroso. Tô não. Infeliz. Como é que eu ia saber o nome dele? Tu disse o nome dele por acaso? Disse não. Pois escuta. Ela pediu ao Santo um jeito de enganar a mãe dela e ir lá sozinha. Ela disse que a mãe vai fechar a bodega e ir junto porque tá desconfiada. Então é Madinusa, filha de Helenice da Bodega. Só tem uma aqui. Então é. Ela me deu pão seco e a velha me
enchotou com a vassoura. A voz tá diferente, mas deve ser efeito do altofalante desse diabo de santo. Não chamo santo de diabo, homem. É pecado. Ele é revista de mulher nua na cabeça do Santo. É pecado não. E não tem mais outra rezando. Não mandou de assunto. Pera aí. Samuel se ajeitou com alguma dificuldade por causa da ferida, pôs as palmas da mão nas paredes e saiu esfregando o ouvido por dentro da cabeça até achar outra voz identificável. Eram mais duas ou três confusas, entrecortadas. Tem uma pedido perdão. Perdão, meu santinho. Samuel imitava a voz.
Francisco riu, mas parou de rir de Repente. Eu não caio nessa não. Tu é bem bandido. Já investigou a vida do povo e vem com essa pro meu lado. Tantos anos essa cabeça tá aqui. Ninguém escuta nada. Eu não tô ouvindo zoada nenhuma. Mas você disse que ninguém vem aqui. Como é que vai saber? Pois já veio muita gente de fora de candeia. Usavam a cabeça de banheiro no começo. Depois veio o casal de toda a qualidade. O povo chamava de cabeças motel. Pararam de vir com medo dos cachorros do mato. Mas Gente da cidade
não vem de jeito nenhum. Diabo de cachorro. Pois eu não tô acreditando em nada. Como é que pode a mulher reza lá na casa dela e a reza vi bater aqui na cabeça do degolado? Mas a reza não era para ele. E é assim. A reza tem destino. Essa cabeça parece que dá inteligência. Porque eu tô tendo uma ideia. Não me meta nisso. Já tá metido. A ideia tem duas partes. Primeiro, a gente vai armar esse namorai da menina com o doutorzinho na sexta-feira. Como? Pera aí que eu conto. Escuta. Até a sexta tu continua
me arranjando comida, água, lençol, travesseiro e as revistas de mulher pelada. Todas? Não, umas duas. Se você acreditar no meu poder de escutação, pode preparar os bolsos para ganhar dinheiro. É enrolação muita. Presta atenção. Se eu não te provar que É verdade o que eu escutei, eu voume embora assim que ficar bom da perna. Mas tu não tem certeza do que escuta? Pode ser doidice. Tá. E se for verdade? Se for verdade, eu sou o cabra que sabe o segredo das mulheres da cidade toda. A gente pode ganhar dinheiro e muito. Eu não sei como
você conhece o povo da cidade. Vai me dizer quem é quem? A gente arma tudo, faz casamento ou faz confusão, depende do caso. Chantagem dá dinheiro. Eu não Acredito em santo, nem em amor. Eu quero é ficar rico. Sou nascido e criado, vendendo coisa para Romero, homem. Confia em mim. [roncando] Francisco pensou. Pensou? Você tinha dito que ia embora quando ficasse bom da perna. E eu tenho culpa de ouvir essas coisas. Tem mais mulher falando? Samuel encostou o ouvido lá no topo da cabeça. Por dentro tem uma cantando, mas é baixo. Canta Lindo essa aqui.
Preciso nem de radinho de pilha. São quantas? Muitas, mas com a voz que dê para ouvir só umas cinco, seis. Preciso de um carvão para marcar. Parece que o lugar das vozes é o mesmo todo dia. Só tem essa que canta. Só. Devem ter parado de rezar para colocar a janta. Por falar nisso, cadê minha comida? Até o dia da consulta, Francisco e Samuel permaneceram na cabeça estudando o fenômeno das orações que reverberavam no crânio gigantesco e oco do Santo Antônio. Com um pedaço de carvão, Samuel marcou as áreas das vozes e chegou à conclusão
de que só conseguia ouvir bem quatro mulheres. As outras vozes eram muito fracas, falhavam como rádio de antena quebrada. Foi nessa inspeção mais detalhada que ele notou uma letra M pintada de branco com um círculo ao Redor. Alguém deixara sua marca ali antes dele, mas não indicava nenhuma relação com as vozes. Só um M, nada mais. Francisco, que conhecia a todos da cidade, descobriu de quem era cada voz. Por mais desconfiado que estivesse a princípio, entendeu que não seria possível o forastero conhecer tanto assim a vida daquelas pessoas, nomes, detalhes da rotina. Elas abriam o
coração para o santo. O Fato é que Samuel tinha o poder inexplicável de ouvir os segredos que só Santo Antônio poderia conhecer. Se era por falha do santo ou engenho do demônio, não se sabe. Aquele era o segundo acontecimento mais bombástico da história de Candeia. O primeiro foi no dia em que o engenheiro do Rio de Janeiro disse à população que o crânio gigante jamais seria posto sobre o corpo no alto do morro. Ele estava certo. A cabeça de Santo Antônio permanecera no Chão para sempre como prova e testemunha do erro irreversível que fez a
desgraça do povo de Candeia. Cícero. Mari tinha 25 anos quando conheceu Manuel, que viera para Tauá a trabalho e tinha data certa para ir embora. Era caçula, condenada pela tradição do sertão a não casar e tomar conta do pai. viúvo enquanto ele vivesse. Manuel estava lá para dois meses de serviço na construção de um prédio da Prefeitura. Foi tempo suficiente para ver Marinha passando pela obra todos os dias e conquistar seu coração com flores e bilhetes. Seus galanteios eram cheios de caprichos. Os buquês improvisados tinham flores dos quatro cantos de Tauá. Dizia palavras bonitas, falava
de amor com olhos doces, beijos doces e não dava nenhum motivo para que Mariinha resistisse à suas investidas. A urgência da paixão gerou um fruto. Mari ficou grávida quase no fim do trabalho de Manuel em Tauá. Antes dos dois meses, a mãe dele avisou sobre um serviço em Candeia, sua terra. Não houve tempo para que ele voltasse e a pedisse em casamento para o seu pai, casasse na igreja e deixasse tudo bem explicado. O bebê crescia mais rápido que a volta do pai, que não deu mais sinal de vida além daquele bilhete com o endereço
da casa da mãe. Mariinha era orgulhosa demais para ir atrás dele, além de não ter Dinheiro nem nenhuma certeza de que fora ele quem mandara aquele papel. Nada garantia a veracidade. Nem sequer sabia onde ficava a candeia. Ir até lá estava fora dos seus planos. Foi a irmã mais velha quem notou a barriga da moça crescendo, seios maiores, o nariz inchado. "Iso é bucho", ela disse. O pai tomava uma sopa, olhando fixamente para o prato. Ouviu a frase e continuou a sorver as colheradas fazendo barulho. Pousou a colher e, ainda de cabeça Baixa, anunciou a
sua sentença. Diga a sua irmã que se isso for bucho, ela vai embora dessa casa amanhã mesmo, que eu tô velho demais para aguentar a filha malfalada. É bucho, meu pai. É Samuel, meu filho. Mari contou um rasgo de piedade de sua irmã, que lhe deu algum dinheiro e uma mala velha de couro para que pudesse partir. Parou na igrejinha de Tauá antes de ir embora, pediu perdão a Deus pelo seu pecado e pediu por seu filho que Tivesse saúde, que fosse forte, que fosse seu amigo. O padre estava pela sacristia e Mariinha achou por
bem se confessar antes de sair. contou tudo ao padre. Falou do seu pecado e paixão, da expulsão do Pai, do Filho no ventre, da solidão que enfrentaria agora. Só foi esse padre benevolente quem disse a ela que quem tem fé nunca está só e sugeriu que ela fosse morar em Juazeiro do Norte, a cidade que vive sobre Cícero. Entregou a Mariinha um rosário da mãe de Deus abençoado, de contas azuis e brancas. Mari anou que havia uma conta verde no lugar de uma das bolinhas azuis que deveria estar ali. "Vde é minha cor da sorte",
o padre explicou. Num pedaço de papel anotou o nome de várias pessoas que conhecia dos tempos em que morou lá, mas sublinhou como amiga mais importante, a buscar em Juazeiro o nome de dona Glória, a abençoada. Dizem que um dia dona Glória virará santa. mal completara 13 anos. Estava na igreja Quando o homem se aproximou pela janela lateral e fez sinal para que ela fosse até ele, porque tinha um recado de sua mãe. Era coisa séria. Seu pai tivera um ataque do coração e estava morrendo. Sua mãe pedira que ele a buscasse de bicicleta para
chegar mais rápido. Foi tudo muito embaralhado e Glorinha só notou que algo estava estranho quando a bicicleta quase voava por um caminho muito longe de sua casa. quando começou a fazer perguntas, Sentada na barra da bicicleta, o homem disse que ela calasse a boca ou ele a mataria. Quase matou. Estuprou Glorinha e só não a matou no final, porque dois homens que passavam por lá, por milagre salvaram sua vida. O estuprador conseguiu fugir, mas engravidou a pobre da menina. Era uma desgraça pública e toda a cidade concordou que ela deveria fazer um aborto. O médico
do Juazeiro arranjou tudo e preveniu a família de que havia algum risco de vida no Procedimento. Foi quando Glorinha pediu à mãe que chamasse o padre Cícero para sua última bênção e quase não acreditou ao ver que ele já estava atrás de sua mãe antes mesmo que terminasse de dizer o seu nome. Furioso, transtornado de raiva. Levante daí e vai esperar seu filho nascer. que você já tem idade para saber o que é coragem. É ele quem vai te ajudar na vida. Era forte a presença do padre, a roupa preta, os olhos azuis. Glorinha obedeceu
Contra todos e muitos viraram as costas para ela. Teve um parto difícil, quase morreu. O menino nasceu doente. Mãe e filho viviam em hospitais e nada da vida dos dois se parecia com a previsão do padre. Diziam que o menino não viveria. Era um documento do pecado, a lembrança de um crime. Só Glorinha, no fundo, nunca duvidou. E só lá, pelos seus 30 anos, as coisas começaram a mudar. O menino estudou, cresceu, virou doutor advogado, foi morar na capital e passou No concurso para juiz. Glorinha nunca quis sair de Juazeiro e com o passar dos
anos, sua presença era a testemunha de um milagre. Seu filho, Dr. Marcelo, não botava os pés lá, mas mandava dinheiro pro sustento da casa de cinco quartos que comprara para mãe. Cinco quartos. Nessa casa, ela acolhia mãe solteiras e recebeu Marinha grávida, com abraço silencioso, mas cheio de todas as palavras que ela precisava ouvir. Fez o seu parto, ensinou o trançado dos Chapéus e Mari cuidou dela até o dia de sua morte. Glorinha, a abençoada. Antes de ir embora da cidade onde nasceu, Samuel foi ao pé da estátua do padre Cícero pela última vez. Disso
ele ria, dessa ilusão de que aquela estátua branca, imóvel gigante estivesse vendo alguma coisa preocupada se alguém estava vivo ou morto sobre aquele juazeiro do norte. Era a mesma ilusão de sua mãe sustentada até a morte. Ao lado da estátua há uma casa que Abriga os exvotos de quem pediu graças ao padre Cícero e ele atendeu. Pernas e braços de madeira, vestidos de noiva, fotos de carros, corações, milagre para todo gosto. Samuel acendeu a vela que sua mãe pediu. Mariha queria uma cada sexta-feira, mas ele sabia que não conseguiria. acendeu com despreo por aquele ato
estúpido que para ele tinha o único propósito de encher o bolso dos vendedores de velas, mal companheiros de Lida, que ele conhecia. Bem, viu a chama Da vela tremendo, tentando ser fogo. Isso era bonito. Lembrou-se da mãe, da mão magra da mãe coberta de pele flácida e seca, a mão trêmula acendendo a vela com a pouca força da outra. As mãos irmãs que trançaram chapéus por tantos anos, agora mortas sobre a terra, as mãos da mãe correu. Desceu a ladeira do orto, correndo com a mala na mão. A bagagem não era pesada, ele sempre teve
poucas possas. Caminhou o fegante em direção à saída de Juazeiro do Norte. Senti um pouco menos de dor no peito quando saiu de lá, correndo sobre as pedras, onde os frágeis pés de Mariinha não pisariam mais. Houve um momento na estrada. em que ele olhou para trás e percebeu que não enxergava mais o homem branco e gigantesco, que não foi forte o suficiente para salvar a sua mãe de uma vida de desgostos e uma morte miserável. Acreditava que os santos eram todos uma mera invenção dos desesperados, e nada do que Marinha dissera a vida toda
o Convenceu do contrário. Santos são pedras e só pedras. Era a lei de Samuel. Conversa. Os primeiros dias em Candeia foram tempo de algum conforto, comparados à miséria da travessia. Tinham de dormir, qualquer coisa para comer, por obra e graça de Francisco e da chantagem envolvendo o segredo tolo das revistas pornográficas. Os cachorros não voltaram mais. A chuva só choveu mesmo por ordem giceia. Depois disso, as nuvens pareciam felizes. Não Choravam mais. eram secas como algodão, raras, quase fumaça. Samuel estava um pouco mais limpo, mas ainda vestido de trapos, cabelo crescido. Francisco mostrou uma lagoa
grande ali por perto, onde ele poderia tomar banho de vez em quando. Seria bom se a lagoa não fosse o bebedouro dos cachorros. Viu os bichos na outra margem um dia e tentou de sair sem ser notado em vão. Os cães também o viram, mas não fizeram nada dessa vez. Talvez por ser dia, talvez porque o Trabalho de guardar o morro fosse só durante a noite. Não se late em horário de folga. Morava na cabeça. Virou sua casa e tudo já estava mais ou menos arranjado como um lar. Um colchão velho com travesseiro, cobertor de
lã, velas, uma mesinha de três pernas, algumas garrafas, dois copos, um prato, talheres, presentes de Francisco, que não comprou nem roubou. Candeia tinha mais casas abandonadas do que habitadas e muita gente foi embora Sem levar parte dos seus pertences depois da desgraça do santo sem cabeça. O boato de que a cidade estava amaldiçoada sustou as almas mais impressionáveis do dia paraa noite. A família da Casa Verde, que ficava quase de frente para a igrejinha, deixou o lar com todos os móveis, mesas, sofás, camas e em cima de uma cama a velha Sara. A cidade só
se deu conta de sua morte quando a gata que ela criava inventou de mear dia e noite no telhado da casa. Havia de ser algo estranho. Gato não é de dar cabimento a ninguém. Dr. Adriano entrou na casa abandonada com o delegado e encontrou a pobre Sara morta na cama de olhos abertos. Morrera fazia mais de uma semana, ele disse já fedia. Dona Sara foi esposa de prefeito, a mulher mais rica dos bons tempos de Candeia, e terminou enterrada no jazico da família só porque o coveiro, pai de Francisco, assumiu o atrevimento de mexer na
sepultura alheia. Conhecia o Marido de dona Sara, foi quem arrumou seu emprego e lhe deu casa. Haveria de sofrer vendo a esposa, sua linda Sara, enterrada em cova rasa, depois de morte tão desgraçada. Foi da casa verde que Francisco tirou o colchão, os talheres, o travesseiro. Tudo estava lá porque ninguém entrava na casa. Diziam que lá estava o hálito da primeira morta pela desgraça da cabeça do santo e dali só poderia sair maldição. Falavam que ela ainda andava Pela cozinha, assistia a televisão às 6 horas e tirava o terço na janela em dia de missa.
E se alguém entrasse lá, diziam que ela soprava um prenúncio de morte. Diziam muito sobre o fantasma de Sara. No tempo que ainda tinha gente o suficiente para espalhar boato em candeia. Francisco não tinha medo. Era filho do Chico Coveiro e a coisa que mais viu na vida foi defunto desde pequeno. Nutria a preço suficiente pela morte para não temê-la. Cada vida a Menos, eram moedas a mais para o pai, que além do salário da prefeitura, ainda ganhava o afeto e a gratidão dos familiares pelo cuidado dispensado às covas dos entes queridos. Chico Coveiro varria
as sepulturas, lavava as flores de plástico e limpava o vidro que protegia as fotografias dos mais abastados. O cemitério era o seu jardim de pedra, plantação de benevolência. Francisco era ajudante habitual. Cresceu sabendo que até a Morte faz falta quando demora a vir. Conversavam muito, Francisco e Samuel. Contavam suas vidas do alto do orto ao fundo das covas. Aos poucos confiavam um no outro. tentavam entender como a reza das mulheres ficava presa no concreto do santo degolado. Impossível. Estudavam os planos, faziam projetos de ganhar dinheiro, explorando o descanso do santo, que deixou o rádio do
seu pensamento ligado para Samuel escutar. Iam fazer estrago em candeia. Riam das Desgraças suas e dos outros. Desgraça é tudo coisa de se rir. Consulta. 5 da manhã em ponto. Samuel acordou de um pulo na sua casa de cabeça e colocou o ouvido no círculo onde estava marcado o nome de Minousa. Era do lado direito, logo acima da orelha. Francisco também tentou, pois isso do santo preferir Samuel o deixava muito aborrecido. Foi em vão. Minoa pedia ao santo força e coragem para ir e Ver Dr. Adriano. Pedi a Santo Antônio, casamenteiro, que desse um jeito
de sua mãe não desconfiar de nada. Disse: "Amém". E acabou-se. O plano era dizer que ia à casa da amiga cobrar um dinheiro fiado, pois soube que a menina ganhou no jogo do bicho em Fortaleza. Helenice era cega por dinheiro e por isso o plano era perfeito. Samuel e Francisco saíram correndo sem precisar dizer palavra. O plano deles também já estava armado. Francisco iria para o Posto e Samuel iria falar com uma deusa. Assim foi. Surpreendeu a moça no meio da rua, correndo, foi junto do lado no mesmo passo. Ela com medo. Olhe, Madeinusa, você
sabe que eu moro na cabeça do Santo Antônio e ele lhe mandou um recado. Faltava essa. Ele disse que não aguenta mais viver amarrado embaixo da sua cama. Madeinusa ficou pálida. Aquilo era absurdo. Como ele poderia saber? Santo Antônio disse que quer ver seu Casamento com Dr. Adriano e mandou um recado. Que brincadeira é essa? Escuta, é só entrar no consultório e dizer que está tendo passamento no coração. É só dizer isso e leve a meia. O quê? A meia do doutor. Leve a meia para a consulta. Ninguém sabia sobre o santo debaixo da cama,
a paixão pelo doutor, a consulta e a meia. Meu Deus, ninguém viu, ninguém soube. Se o mendigo doido a mencionava, era porque merecia ao menos sua atenção. Ela rezara ao santo em segredo, roubara Meia em segredo. E agora, se este homem destampava tudo assim, haveria de ser por algum motivo importante. Passamento no coração. Como é esse negócio de passamento no coração? Sei, não é? do santo. Madeinus acreditou mesmo no recado, porque segundos antes daquele doido aparecer, ela estava justamente procurando o que iria dizer quando entrasse no consultório, já que não tinha dor nenhuma além da
paixão Consumindo sua vida. Isso tudo foi tão rápido, tão agoniado, tudo falado assim às pressas enquanto os dois andavam, que não deu tempo de pensar. Francisco chegou cedo ao posto de saúde e pegou o primeiro lugar na fila. Madeinusa demorou. Logo, umas oito pessoas já estavam no posto e ela ficou no final da fila coberta de visível angústia. Era bonita, madeinosa, sempre foi. Seu pai falava que coisa linda como ela haveria de ser importada, como o rádio que ele Comprou. Na caixa estava escrito made em USA. O nome da minha filha veio do estrangeiro. Eu
só fiz ajuntar as letras. Usava cabelos longos, sempre presos. sai abaixo do joelho, roupas fechadas até o pescoço. E ninguém sabe quem ensinou a menina que soltar os cabelos, enrolar um pouco o cos da saia e abrir um mísero botão da blusa faria dela ainda mais bonita, talvez mais jovem, um bocadinho mais disposta a viver. Samuel assumiu o Primeiro lugar ao lado de Francisco. O médico era pontual. Chegou logo em seguida, deu bom dia de cabeça baixa e entrou no consultório. Nem viu uma deusa e seu quase desmaio. Amava aquele homem pelo que via e
por tudo que imaginava existir nele. A fila era organizada por uma enfermeira ou algo semelhante, já que não se sabe nada dela, que tinha função de prestar atenção em quem chegou depois de quem e abrir a porta do consultório. Seu porte avantajado e a Cara dejo permanente inibiam qualquer possibilidade de confusão pela ordem de chegada. Nem havia motivo. Era sempre pouca gente, 8, 10, 15 viventes. Vinham de fora de candeia porque sabiam que ali não tinha quase ninguém vivo precisando de médico. Além do mais, as consultas eram rápidas e se alguém furasse a fila, era
melhor dar a vez do que reclamar e ser expulso pelas mãos da dinossaura de branco. Ela abriu a porta e fez um gesto brusco de quem diz: "Passe logo de uma Vez, seu idiota". Francisco entrou com Samuel. Era o trato. Se ele o levasse ao doutor para curar a ferida da perna e ajudar Madeinusa, teria a privacidade da cabeça oca de volta. Anotando qualquer coisa, o médico perguntou qual era o problema. Dr. Adriana olhou a ferida de longe, sem disfarçar o susto. Era uma ferida grave. O que foi isso? mordida de cachorro na cabeça do
santo. O doutor levantou à vista e olhou a cara do paciente. Enfim, era um fulminante Olhar de reprovação que ele recebia por mencionar a cabeça do santo que condenou Candeia à miséria. Era proibido falar de Santo Antônio. Rezar para ele era um crime de traição ao povo sofrido da cidade, aos que morreram ou fugiram por causa da desgraça. Eu moro na cabeça e escuto os pensamentos do santo doutor. Ele tá tentando ajudar a cidade. Francisco interveio. Você escuta vozes desde quando? Desde Que cheguei aqui. Tem doente mental na sua família? O senhor tá achando que
eu tô doido? Eu sou normal, doutor. O Dr. Adriano riu de canto de boca porque aprendeu com ser professor de psiquiatria que todo doido diz que é são. A receita que o doutor escreveu era um rabisco pior que o normal praticado pelos médicos. O assunto não era dos melhores, só um doido para morar na cabeça do santo. Entregou a receita, disse que o Tratamento duraria 10 dias. Entregou umas caixas de amostras grátis do remédio e olhou para a porta, desejando que os dois já estivessem diante dela, mas eles não moveram um músculo. Santo Antônio mandou
um recado pro Dr. Adriano. Se estivesse de mau humor, teria batido em Samuel. Ele disse que hoje ia entrar aqui uma moça dizendo que estava com passamento no coração e pediu para avisar que essa é a mulher da sua vida. Essa tem graça, pois o senhor preste atenção. Ela vem trazendo sua meia. Meia? A palavra teve efeito de um relâmpago no meio do nariz do doutor. Ele chegou quando aqui? O médico perguntou a Francisco. Tem poucos dias. Antes de sexta. Depois. Como é que sabe da meia?", perguntou a Samuel. O santo me disse. Ninguém sabia
da meia. Sumiu do carro do doutor. Na sexta-feira anterior, ele deixara uma Das portas abertas e um pé de meia sumiu. Só um pé? Coisa mais estranha. Se fosse ladrão, haveria de roubar o envelope com dinheiro no porta-luvas, um casaco, som do carro, relógio, bolsa. Candeia nunca foi de ter bandido. Roubar um pé de meia era a coisa de nunca se esquecer. O doutor ficou abalado. Expulsos da sala, os dois saíram apressados. Ainda deu tempo de Samuel encorajar uma deusa com uma piscada. Cada minuto fazia o recado do Santo Perturbar mais e mais o doutorzinho.
Isso não cabia na sua vida previsível. Todos os dias ele acordava e dirigia o carro até as cidades onde trabalhava, sabendo exatamente o cardápio de aberrações que iria encontrar. Recado de santo. Isso não fazia parte. foi perturbador. Teria sido mais prático pôr a cabeça do lado de fora da porta e olhar a fila, mas ele teve medo. A cada mulher que entrava, o pânico aumentava, Especialmente se fosse uma senhora de poucos dentes ou uma outra perto dos 150 kg com problemas digestivos. Os demais pacientes todos eram homens e crianças. O doutorzinho acelerava as consultas ao
máximo, suava, perguntava a seu auxiliar para assuntos de porta quantas pessoas ainda estavam na fila. Só três, graças a Deus. Vou sair antes das 11. Suando bicas, os dois. Enfim, entrou uma deinosa. A expectativa daquela fila serviu para que os olhos de Ambos já estivessem transtornados pela angústia de saber que alguma força superior estava envolvida no encontro. Eram olhos de curiosidade e coragem os dela, de pavor e avidez os dele. Adriano era tímido, muito tímido, principiante em assuntos de mulher. Ela, coitada, nunca esteve tão perto de um homem na vida, quanto mais sozinha numa sala,
sem mais ninguém. nem sentou, tirou a meia de dentro da roupa pelo decote da blusa e apertou na mão enquanto ele apontava Para a mesa de exames de ferro, pintada de bege, descascada e velha, como tudo naquela cidade. Madeinusa subiu os degraus de ferro e sentou-se na mesa, porque algo lhe dizia que fizesse isso enquanto o doutor pegava o estetoscópio nervoso, já sabia que a enfermidade era no coração. Mal ajustado o estetoscópio nos ouvidos, Dr. Adriano, médico tímido, levava a outra ponta do aparelho ao encontro da pele nova da moça. Recém acordada, escutou quando ela
disse. O Que eu tenho é um passamento no coração. Falando ao mesmo tempo em que mostrava a meia. A senha funcionou para os dois e não foi preciso palavra nenhuma para que ali já começasse um romance abençoado por Santo Antônio. Os tímidos, na hora em que atacam, são das feras piores e Dr. Adriano beijou uma deusa sem pedir licença. Não precisava. Alguém lá fora ouviu a zoada da cama de ferro batendo na parede e não demorou para que a enfermeira troglodita abrisse a porta e O resto do povo que estava no posto de saúde já
estivesse quase dentro da sala, vendo o doutor examinar Madeusa com as mãos e a boca, sem óculos para ver melhor, quase sem perceber a plateia. Não demorou para que a conversa chegasse aos ouvidos de Helenice. A ex-beata agora evangélica, malhumorada, crônica, intolerante, preconceituosa, avarenta, histérica e mãe na bolsa abolida. E graças ao falso recado do Santo Antônio, não demorou para que Madeinos e Adriano Marcassem o casamento, pois Elenice não queria filha mal falada. Ou o doutor casava e assumia deshonra, ou era melhor ver madeirinos a morta, em nome de Jesus. Aleluia. Casamento. A amiga de
Madeinusa, que lhe devia dinheiro, mas nunca ganhou no jogo do bicho, era namorada de Aécio Dinis, o homem que sabe o que diz, como anunciava o seu slogan. Era locutor da rádio 89.1 Canindé AM e [roncando] ficou muito Interessada em saber mais sobre a história do recado de Santo Antônio. Marcaram a entrevista para o quadro A noiva da Semana. Sucesso de público na região e muitas vezes cancelado por falta de noivas. Eram tempos difíceis para os românticos. Canindé estava em plena romaria, cheia de devotos de São Francisco, como os que Samuel encontrara na estrada. Eram
muitos, milhares. Madeinuso usou o melhor vestido emprestado e se perfumou para falar no Microfone pela primeira vez. Contou tudo, que havia mais de um ano amarrar o Santo Antônio debaixo da cama, coberto com papelão, escondido da mãe, e rezava pedindo que ajeitasse o casamento com Adriano, o doutor que nem a conhecia. "Mas não era proibido guardar imagem de Santo Antônio em Candeia?", perguntou o repórter. Era, mas eu arranjei escondido com a mãe de uma amiga. Ela vai ser a madrinha do casamento e o padrinho é Samuel, que me Deu o recado que o santo mandou.
O programa era transmitido em Cané e mais algumas cidades vizinhas. Todo mundo parou para escutar quando Madeinusa disse que o forasteiro fazia contato com os pensamentos do Santo Antônio porque morava dentro da cabeça dele. A cena do estetoscópio também fez muito sucesso no seu relato. Ingênua, contou tudo, repetiu, deu detalhes. Nunca a noiva da semana da rádio 89.1 Canidé AM teve tanta audiência. Madeinusa conseguiu o patrocínio de um salão de beleza local para fazer sua maquiagem e cabelo. O vestido foi emprestado da festa de 15 anos da dona do salão. Ainda estava novo. Foi só
dar um banho de sol para tirar o mofo. Era branco, bufante, cheio de mini pérolas falsas costuradas. Era tudo tão lindo que nem coue nos seus pequenos sonhos. Ela precisou aprender a sonhar mais. O Dr. Adriano não estava menos feliz. raspou a poupança e pagou a festa com Gosto. O maior gasto foi para reformar a igrejinha de Santo Antônio de Candeia. Os dois faziam questão de que o casamento fosse lá, naquele resto de cidade que lhes valia tanto. A porta da igrejinha estava trancada com uma corrente enferrujada desde que o padre Zacarias foi expulso. Desde
que o mar de desgraça invadiu candeia. O velho pároco nem acreditou quando Adriano parou o carro em frente a sua casa em Tauá e pediu que ele celebrasse o seu Casamento. Ele batizara Adriano, Madeinusa e quase todo mundo que resistia a morando em Candeia. O médico contou o acontecido, falou do forasteiro Samuel. O padre olhou para o céu convicto. É milagre de Santo Antônio. Ele demora, mas não falha. Pintaram a igreja por dentro e por fora. Era pequena, não cabiam nem 30 pessoas lá dentro. Arrumaram mão de obra na cidades vizinhas. Foram mais de quatro
lavagens no piso, esfregando até Destruir as vassouras, uma demão de verniz nos bancos e muito veneno contra os cupins, que não poupam nem a casa de Deus. Mesmo com a evidência do suposto milagre, o povo de Candeia ainda achava que Santo Antônio só trazia desgraça e ninguém queria se envolver com aquela revira-volta. Os que sobraram não eram mais católicos e aprenderam que adorar imagens não é de Deus. Isso é a obra do inimigo! gritava Elenice, que não chamava o senhor diabo pelo nome. Adriano arrumou um terno para Samuel, o padrinho. Terno, gravata, sapatos, colônia, meias
e cueca. E ainda pagou para ele um corte de cabelo no mesmo barbeiro que faria o arranjo do noivo em Cané. chegaram à cerimônia juntos no mesmo carro, sob os olhos atentos dos curiosos que já estavam na porta da igreja horas antes. Madeinus estava linda. Adriano emocionado. Samuel Irreconhecível. Agora sim via-se como era bonito de rosto o forasteiro. Na igrejinha onde mal cabiam tinta, a mulherada se acotovelava para ver o mensageiro do santo. Além do padre, do noivo, do padrinho e de Francisco, não havia mais quase nenhum homem na cerimônia. Quem contou disse que eram
cerca de 74 mulheres. O povo que sobrou em Candeia ainda nutria ódio pelo santo traidor, que não teve força sequer de evitar que a própria cabeça permanecesse Caída no chão, longe do corpo, como um decaptado qualquer. Doía especialmente em quem estava lá no dia da chegada do engenheiro. Se Santo Antônio era tão poderoso, por que não tornara possível ou impossível? Porque permitira que as coisas avançassem até a conformação da desgraça. Adriano saiu da igreja carregando a noiva nos braços. Ali mesmo ela jogou o buquê de flores de plástico, que foi destruído e transformado em várias
Relíquias no primeiro novo milagre de Santo Antônio de Candeia, por intermédio de Samuel, um mensageiro de recados do céu. Fim da primeira parte do livro. Segunda parte. Se soubesses as coisas em que acredito, olharias para mim, como se eu fosse sozinha, um grande circo de monstros. José Eduardo Agualusa. Comércio. A notícia espalhou-se pouco a pouco. As mulheres que estavam no casamento Contaram às outras de Canindé que, de fato, houve um milagre. Madeinus e Adriano eram quase um casal de ex-votos vivos em estado de paixão. A confirmação foi divulgada com detalhes. A cabeça do santo, o
mensageiro, a consulta, o casamento, a lua de mel. As moças imaginavam os noivos num hotel na praia de Fortaleza, brincando de correr no mar que [roncando] Madeus havia pela primeira vez e fazendo juras eternas de amor. Apostavam umas com as Outras, que depois do almoço talvez estivessem concluído repetir das vezes o que começaram quando o Dr. Adriano encostou o estetoscópio gelado na pele em brasas de madeinza. exclama que nada foi forte o suficiente para impedir. Nem a ira da mãe da noiva, tão pouco a oposição da família do noivo, um médico formado casando com uma
moça quase sem instrução. Era a força do santo. Suspiravam, gritavam como estéricas, morriam de inveja, queriam amar também. E a cada vez que a história era contada, mais detalhes faziam daquele casamento um feito sobrenatural. Diziam que Santo Antônio aparecia de corpo inteiro para Samuel e soprava os recados que o Espírito Santo entrava no seu corpo, agia através dele. Cada vez mais a história espalhava-se entre as mulheres num raio de ação inimaginável, em plena romaria de São Francisco em Cané. A cidade vizinha estava cheia de gente e o que deveria ser um período de Fé e
oração se transformou num carnaval de mulheres desembestadas, vendo surgir ali tão perto uma mensagem de esperança do santo casamenteiro. Seus planos de fé, contrição e sacrifício mudaram radicalmente de rumo. No dia seguinte ao casamento, Samuel acordou antes das 5 da manhã, atordoado com vozerio das mulheres, rezando. eram seis ou sete no primeiro dia, umas 12 no segundo dia, mais 20 no dia seguinte. Em um mês eram muitas, inúmeras. Não era Mais possível distinguir uma de outra, tampouco ouvir a doce cantora com a nitidez de antes. Elas contavam que tinham amarrado o santo debaixo da cama,
enterrado no quintal, enfiado num balde de água, e que só o libertariam do castigo depois que conseguissem o homem amado. O hábito de Samuel, ao despertar, era mover-se com preguiça até o topo da cabeça, onde a voz cantava. Ali ele ficava todo dia ouvindo os minutos daquela voz que nunca rezava, nunca Pedia nada, só cantava, às vezes em horários diferentes. Samuel não percebia ainda o quanto aquele canto se tornou um vício, um alento, a única alegria daquela vida de pouca esperança. Mas exatamente quando mais precisava, quando queria passar o dia ali dentro, pensando no que
acabara de acontecer, ouvindo a voz, decidindo a hora de partir, as coisas mudaram na cabeça do santo. Daquela vez foi diferente. As vozes não saíam somente do concreto. E Ele pôde constatar isso ao afastar a cortina improvisada, que fazia às vezes de porta da sua casa, de cabeça e olhar para fora. Não deu tempo de contar, mas já havia mais de 40 mulheres. Duas vinham de joelhos e algumas apressaram o passo ao ver que Samuel estava na parte que servia de porta, o pedaço de pescoço que restou do degolado. Em segundos, as solteironas invadiam a
cabeça do santo, beijavam as mãos de Samuel, mostravam fotos do homem amado, Perguntavam simultaneamente o que deveriam fazer. Umas ajoelhavam, talvez duas tenham chorado de emoção. Mais mulheres entravam e invadiam a casa do mensageiro de Antônio. E quando já eram mais de 12 desesperadas, pisoteando Samuel, apalpando o concreto e o corpo do profeta, falando, gritando e chorando, uma vibração estranha fez tremer a cabeça do santo. A princípio, elas não sentiram nada, continuavam entrando. Olhavam os riscos, os nomes, As indicações, não entendiam nada. Falavam, falavam e a cabeça seguia vibrando. Samuel sentia como se fosse nele
próprio. Aos poucos, aquela cabeça já se tornava um apêndice anômalo do seu corpo, um útero, um gigantesco saco gestacional ligado a ele por aquela absurda capacidade de ouvir orações e música. Na igrejinha de Santo Antônio, o padre Zacarias reinaugurava o sino da paróquia, que silencioso havia tantos anos, agora voltava a despertar a Cidade. Planejara seis badaladas, mas mal ressou a segunda, viu a multidão que corria em direção à cabeça do santo. Samuel já estava desesperado, espremido pelas mulheres que pisavam o seu colchão, derrubavam seus objetos, quebravam pedaços da cabeça para levar as relíquias de concreto,
que mais tarde foram até vendidas. Beijavam as mãos do mensageiro do santo, cada vez mais assustado, com o tremor nunca Dante sentido na sua casa. O padre Zacarias chegou na hora certa e, percebendo o susto do pobre homem, expulsou as mulheres daquele lugar onde ele ainda não tinha entrado. Obedeceram ao padre, eram todas católicas e temiam as autoridades religiosas. Mandou que ficassem do lado de fora rezando um terço para Santo Antônio, aguardando um pouco. Padre Zacarias entrou na cabeça, que ainda vibrava. Um leve tremor era sentido um pouco mais do lado direito da cabeça. Um
zumbido. Tentou conversar com Samuel, mas a cada pergunta a intensidade do sacolejo aumentava. Diminui um pouco com o silêncio. Logo tornava a aumentar até que era possível sentir a terra tremendo perto da cabeça. Quando todas as mulheres já estavam devidamente concentradas e ajoelhadas rezando seus rosários, eis que mais um bando chegueia de Canindé. falando alto, gritando, correndo em direção à cabeça. Samuel não parava de pensar na canção que não Escutou, mesmo no meio disso tudo, enquanto tinha medo de outra invasão. Nessa segunda invasão, mais de 15 mulheres entraram na cabeça, correndo como se entra na
porta do céu. A vibração aumentou consideravelmente, o que fez o padre enfim entender o que estava acontecendo. "Que sacrilégio! Santo Antônio está com enxaqueca. Foi uma comoção. A cabeça do santo estava latejando mais forte do lado Esquerdo. Era isso mesmo. Fazia todo sentido aquele tremilique. Francisco chegou na mesma hora e não acreditou no que viu. Um mar de mulheres ao redor da cabeça do santo. Samuel desnorteado, o padre tentando acalmar a todas, algumas desmaiando. Era o sol quente, era emoção. E não adiantou pedir que fossem embora, porque dali não arredaram o pé. Ao contrário, chegavam
mais e mais, sem esboçar a menor intenção de sair de perto do Milagreiro até que algo acontecesse. Francisco ficou estupefato. Aquilo era absurdo demais para ser verdade. Candeia cheia de gente de novo chamou seu pai, que não tinha muito o que fazer havia tempos, já que ali o povo morria devagar. Esse povo tem que ter onde dormir", disse Chico Coveiro, o caridoso. Improvisaram algumas barracas com troncos retorcidos e com lençóis velhos das casas abandonadas. Foi o jeito Também procurar moringas, chras, panelas e encher de água para aquela gente. A cabeça do santo não parava de
tremer. Uma das mulheres era curandeira, fazia o lambedor mais eficaz dos inhammons. Dizem que já curou até câncer de um ministro de Brasília. pediram a ela que ajudasse o santo a melhorar. Se tivesse um foguinho para fazer um chá para ele, coitado. Samuel tinha lá o seu fogareiro improvisado e fizeram mesmo tal chá. Só Deus sabe de onde saiu a canela e as Outras coisas que fumegavam na panela. A curandeira subiu no queixo do santo e jogou a beberagem pela bocarra gigantesca. "Não tenho pano grande para tapar os olhos dele? Enchaqueca nesse sol quente só
vai piorar." Gritou lá de cima. Agora montada no nariz e fazendo uma massagem com banho de porco entre os olhos esbugalhados. Cobriram a vista do santo com arranjo de quatro lençóis e cobertores, também Vindos das casas abandonadas. Deram mais uma dose de chá e aos poucos a vibração foi diminuindo. A cabeça parou de sacudir lentamente. Já era quase meio-dia e as mulheres perguntavam onde tinha um lugar ali que servisse comida. Só o bar de Lenice, responderam. foram até lá em vão. Não vou servir comida paraa gente que vem aqui e perturbar candeia. Isso aí é
obra do inimigo e Deus que me afaste de contribuir. Mas a gente não tem o que comer. Por mim pode morrer de fome, mas daqui não sai um grão de arroz. Só depois, Francisco entendeu a risadinha que Samuel não conseguiu segurar quando contou sobre essa rebeldia de Helenice. Pode deixar, que eu sei como convencer a cobra venenosa. A notícia de que as mulheres estavam cercando a cabeça do santo em busca de milagre de amor atraiu mais uma vez o radialista de Canindé, que foi até lá Gravar umas entrevistas para o seu programa. Ao ver o
carro grande de Aécio Diniz com a corroceria descoberta, Francisco teve uma ideia. Conversaram com o motorista e foram, ele e seu pai, comprar comida em Cané para que sua mãe cozinhasse para aquele povo todo. Era arroz, feijão verde, cebola, coentro, queijo, coalho, carne seca. Um baião de dois bem feito serviria bem para placar a fome da mulherada. Voltaram rápido com os ingredientes e Convocou a mãe para chefear o serviço. Invadiram a cozinha da velha escola de Candeia, desativada havia tantos anos. O padre Zacarias tinha chave, sempre teve. Foi a porta que ele mais lamentou fechar.
As poucas crianças que restaram foram estudar em Cané. Os homens se revezaram nos reparos e na limpeza para retirar os bichos e plantas que invadiam o lugar abandonado até então. Buscaram lenha, arrumaram o que foi possível, o mínimo para preparar uma refeição. Ressurreição, dizia o padre. Por volta das 4 da tarde, dois panelões fumegantes de baião de dois foram levados para a frente da escola e servidos nos poucos pratos de plástico que encontraram ali. É R$ 1 pelo prato do baião disse Francisco decidido. Você vai cobrar para dar comida a essa gente? Foi o padre
reclamando. Se eu não cobrar, como é que eu vou pagar o que eu comprei em Canidé, seu padre? O homem Vendeu fiado, mas eu fiquei de levar o dinheiro amanhã. O que Francisco conseguiu com as mulheres que comeram o baião de Santo Antônio, como elas chamaram, deu para pagar o fiado e ainda comprar mais comida pro dia seguinte. Compraram também dois tanques para armazenar água e vender a 10 centavos do copo. Pratos, copos e talheres foram providenciados na cidades vizinhas. Francisco e radialista acertaram sociedade. Aos poucos, o entorno da Cabeça de Santo Antônio virou uma
pequena vila de peregrinação. Samuel não saía da cabeça, confuso, perturbado, procurando a voz que sumo. Perdeu sua música, a Doce Cantoria. Dividido entre a supervisão da reabertura da cozinha da escola e o apoio espiritual aos fiéis, padre Zacarias intuiu que Samuel precisava muito da sua orientação. Enquanto a mulherada respeitava a ordem de não invadir a cabeça do santo em Chaquecoso, O páco conversava com os forasteiros sobre os milagres. Tentava entender o que estava acontecendo. Queria saber mais sobre a sua vida, compreender de onde vinha o dom. Mas quando começava a ouvir, Francisco chegou, contando sobre
os resultados de seus negócios com a Diniz. "Você é um gênio, Francisco disse para Samuel. Eu não sabia que ia ser assim tão rápido, mas foi e eu já ganhei um bom dinheiro hoje. Epa, vai ter que dividir Isso aí. Vocês vão ganhar dinheiro às custas do Milagre do Santo?", perguntou o padre Zacarias. "A paróquia também vai ganhar, padre. respondeu Samuel, que crescer aprendendo a lidar com os padres do orto. Foi o pai de Francisco quem teve a ideia de pedir a um dos santeiros de Canindé que voltasse a fazer estátuas de Santo Antônio para
vender lá mesmo. Estavam proibidas, mas isso foi antes. Agora todo mundo queria. O santeiro Espedito Foi conhecer a cabeça de perto para desenhar os detalhes e fazer igual. Foi quando reparou num canto escondido uma letra M com um círculo ao redor. Isso aqui é o quê? Não sei. Não deve ser nada de importante, respondeu Samuel. Mesmo assim, o santeiro anotou a letra e o círculo no seu desenho. Voltou para Canindé ligeiro. Com sorte já teria uma leva de santos para vender no dia seguinte. Só quem entrou na cabeça foi Francisco, O padre e o espedito
santeiro. As mulheres esperavam, aflitas por uma palavra de Samuel, perturbado, dividido entre os negócios que prosperavam e os pensamentos sobre o que fazer com aquela mulherada toda, e sentindo muito por não conseguir ouvir a voz no meio daquele barulho. A sorte foi que Francisco tinha senso de oportunidade e captou todo o potencial da frase de uma solteirona desesperada. Eu pago qualquer dinheiro para falar com o mensageiro do santo. Suou como palavra mágica. Na hora ele não sabia exatamente o que fazer, mas Samuel, nascida e criada em Juazeiro do Norte, certamente teria um plano. Cobiça. Candeia
renasceu. Voltou à vida pelas mãos das mulheres com sua fé, fazendo novena ao redor da cabeça do santo, acendendo velas, rezando dia e noite, esperando uma oportunidade de falar com o mensageiro. Queriam casar. Quase todas guardavam no peito um amor escondido, Secreto, por vezes até proibido, mas sempre amor. Outras, nem isso, nem sequer tinha um destinatário para as orações. Uma dica para Sãoo, mas queriam casar, porque no sertão mulher que não casa é mandar a cor sem flor. Depois vieram os homens atraídos pela curiosidade. Aéo Dinis conseguiu mais horários na rádio de Canindé e por
lá não se falava de outra coisa. Quanto mais gente a Candeia, mais lucro para Samuel, Aécio e Francisco, sócios de Improviso naquela empreitada. Não havia quem não se espantasse com o estado de abandono em quem se encontrava a candeia. Muitos achavam que não havia mais ninguém lá. Antes da chegada de Samuel, acredita-se que só seis casas eram habitadas. As outras foram abandonadas com tudo dentro por seus donos que fugiram às pressas antes que a maldição contagiasse a pele dos habitantes como uma peste. A falta de luz ajudou e dois ou três homens Decidiram invadir as
casas abandonadas, derrubar o mato que crescia em volta por dentro, pendurar os lampiões, levar as redes para lavar na lagoa de trás do morro. Muitos foram buscar a família em Cané e na cidades aos redores. Algumas casas que pareciam vazias ainda guardavam os seus donos mortos. Chico Covero conhecia cada defunto pela casa, às vezes pelas botas ou por um colar com medalhão de porta-retratos. Fosse pela fisionomia, seria impossível, Pois já não havia mais rosto em nenhum deles. O coveiro fez questão de dar um enterro minimamente digno para cada morto encontrado nas casas invadidas. solicitou aos
invasores o respeito de retirar as imagens de santos dos oratórios de cada residência para enterrar junto com os esquecidos. Com a bênção do padre Zacarias, foram sepultados, chamados pelo nome, e uma missa foi celebrada em memória de todos sete dias depois do enterro. Além do padre de Chico Covero, ninguém mais estava interessado nesses cadáveres descobertos. queriam invadir as casas, refazer a cidade. Os que não tinham família aproveitaram as casas maiores e venderam a noite de sono por R$ 5. As redes foram arranjadas nas cidades vizinhas, a preços mais altos. É verdade, pois a essa altura
todos já sabiam que Candei estava viva novamente. Não havia ordem alguma nessa invasão. A cidade tinha prefeito e delegado. Eram pai e filho, inclusive, mas só apareciam de vez em quando para fazer o pagamento do zelador da prefeitura, do servente da delegacia e da auxiliar do posto médico. O Dr. Adriano era pago pelo governo do estado. davam uma olhada na cidade, com a cara de desdémpida que podiam e partiam sem deixar rastro. Às vezes o prefeito vinha só de tardezinha, parava o carro em frente a sua casa, que só não se achava em estado de
calamidade, porque ele pagava o Zelador da prefeitura para conservar, e passava a noite lá cuidando dos documentos do município. Trabalhava esse um pouco e ia embora. não tinha o menor interesse em saber nada sobre os problemas da gente que vivia ali. Na última vez que tentaram falar algo, ele passou quatro meses sem aparecer e, portanto, sem liberar o pagamento miserável dos três aposentados da cidade. Ficou por isso mesmo. Ninguém falava, ele não se aborrecia e Candeia Perecia. E a ocupação seguia de vento em popa. O comércio de comida e imagens era o mais promissor. O
padre, que optou por ficar perto da cabeça o máximo de tempo possível para tentar compreender, benzia ali mesmo as estátuas compradas, o que estimulava as vendas. Francisco e seus pais nunca viram tanto dinheiro. O radialista não parava de anunciar os milagres da cabeça do santo na rádio de Canindé. Parecia hipnose. Vinham todos pouco a pouco. Algumas casas de candeia Já ganharam pintura na fachada. Os letreiros voltaram a surgir. Pousada Santo Antônio, Lanches, Santo Antônio, Barbearia Santo Antônio. Samuel teve vontade de fugir e disse isso a Francisco, que ficou desesperado. Mas logo quando a gente começa
a ganhar dinheiro disso ele estava cansado. Sua vida até ali fora ganhar dinheiro às custas da fé dos romiros do Juazeiro. ganhar dinheiro cantando benditos, guiando no caminho do Santo Sepulcro, vendendo chapéus, pulseiras dos pedidos, tirando fotos de turistas. Até pouco antes, muito perto dali, o seu maior sonho era viver o máximo de tempo ao lado de Mari, rir com os amigos do Juazeiro, namorar as mocinhas do orto, vender chapéus, cantar benditos. Esse sonho morreu com sua mãe. Depois só queria chegar a Candeia, ver a avó, conhecer o pai e depois matá-lo se tivesse coragem.
Agora nem isso parecia Provável. A velha Niceia era tão valente que ninguém conseguiu invadir a sua casa. Samuel tinha a esperança de que invadissem encontrasse seu pai, Manuel, lá por dentro, morto ou vivo. Francisco foi conversar com Samuel em particular. Você ainda escuta vozes? Tá mais difícil. Antes era silencioso e ouvia bem alto. Agora nem a moça que canta eu escuto direito. É muito barulho, muita mulher falando. Só que teve um dia em que eu ouvi Elenice 4 Horas da manhã. Dizendo o quê? Pedindo perdão, pedindo a Deus que isso tudo não fosse um castigo.
Minha culpa, minha máxima culpa. pedindo que cuidassem da alma de Fernando. Fernando era o marido dela mesmo. Morreu de coração. Pois eu acho que não. Ela diz que está arrependida, que se voltasse o tempo, não faria o que fez, que sua vida seria melhor com Fernando, que deveria ter ido com ele. Vou perguntar ao meu pai se ele Sabe de alguma coisa. Será que ela botou veneno no suco do português? Era português? Era sim. E dizem que Madeus é bonito daquele jeito porque é a cara do pai. Mas depois a gente descobre isso. Agora eu
quero saber se você não tem um plano para milagrar com essas mulheres. Eu não vou conseguir fazer com todas elas o que fiz com o Dr. Adriano. Naqueles dias eu só ouvia poucas vozes. No caso deles, foi fácil. Agora com Essas daí é dureza. Tenho uma apaixonada por um galego de Caxias do Sul. Eu nem sei onde fica. Como é que eu arrumo isso? É só explicar que o santo ajuda, mas não garante. Inventa aí uma reza para elas, um sinal da cruz na testa, qualquer coisa. Acho que a saída é dar um prazo, dizer
que só funciona depois de 40 dias. Daqui para lá, eu já vou ter saído daqui. Francisco, que estava contente com o Rumo da reunião, mudou a expressão do rosto para um olhar de espanto e tristeza. Embora. E não foi o combinado. Eu ficava bond e embora. Já fiquei. Eu vim procurar meu pai e já vi que nunca vou encontrar. Mas a gente é amigo. Você pode arrumar uma casa para morar longe da cabeça. Vem aqui só trabalhar igual o escritório. Teu pai deve estar morto. Deixa isso para lá. Só não fui embora ainda por conta
da voz que canta. Eu queria saber Quem é. E se ela for uma dessas mulheres aí de fora? Ela nunca reza, só canta. Ela é doce, é calma. Não tem outra assim no mundo, muito menos essas doidas para casar. Só dá para saber procurando. Posso anunciar que amanhã começam as consultas? Pode. Mas diz também que só duram 2 minutos porque o santo tem enxaqueaca se trabalhar demais. Vou cobrar R$ 2 por consulta. Será que é pecado, Samuel? Será que é bom perguntar pro padre Zacarias? Nem Deus deve saber mais o que é pecado, homem. Quem
dirá o padre? Caxias do Sul. O plano de Samuel era simples. Receberia as mulheres dentro da cabeça, mandaria que dissessem o nome do pretendente. Se fosse o caso, que escrevessem o nome num pedaço de papel e ele esfregaria no lado direito da cabeça do santo. Se não Tivesse pretendente, bastaria o nome da moça, mas a esfregada estaria no lado esquerdo. Essa escolha dos lados era para que a prática denotasse algum tipo de método, mas não passava de enrolação. Depois de esfregar o papel, anunciaria que o resultado poderia demorar até 40 dias para fazer efeito. Em
menos de 2 minutos estaria encerrada a consulta. Ganhavam de R$ 30 a R$ 40 por hora. E isso não era nada, nada mau. Samuel estava animado. Melhor que o salário de Muito doutor por aí. Decidiram que não explicariam procedimento ao padre Zacarias. Ele poderia fazer perguntas e isso complicaria tudo. A única coisa que avisaram foi que o santo pediu que todos os casamentos fossem realizados na igrejinha de Candeia. As moças também eram avisadas. Assim, o padre ficou feliz e fez de conta que não estava vendo nada do que acontecia, um mensageiro que se entendesse com
santo. Os três primeiros dias de consulta foram enfadonhos para Samuel, que repetia a mesma coisa muitas e muitas vezes, respondia as perguntas ansiosas das moças, explicava que a coisa poderia demorar para acontecer. Para algumas, a conversa era um pouco diferente. Chegou lá uma moça de hálito tão pestilento que foi preciso pedir um incenso da igreja para que fosse possível voltar a respirar na casa de Samuel. Para essa, além de fazer o Ritual de esfregar o papel na cabeça, ele [roncando] disse que ela procurasse uma farmácia urgente para comprar pasta e duas escovas, pros dentes e
para esfregar a língua. Outra enorme de gorda apoiou as costas na lateral da cabeça do santo e fez com que o pobre degolado girasse até quase enfiar o nariz na terra. Ela teve que se apoiar do outro lado para desvirá-lo. Samuel inventou que o santo mandava dizer que ela só poderia comer abacaxi por 15 dias para a Limpeza dos pecados e que precisava andar diariamente de Candeia a Canindé para acender uma vela para cada santo. Antônio e Francisco, que em vida foram amigos. Aos poucos, Samuel foi incrementando os conselhos. Francisco cuidava de organizar a fila
e recolher o dinheiro. Aécio Dinis coordenava as vendas de santos, medalhas, camisetas e outros apetrechos, além de dedicar quase toda a programação da rádio aos novos Acontecimentos em Candeia. O lucro era dividido pelos sócios sob a supervisão de Chico Coveiro, que não sabia somar dois mais do, mas era homem de muita honestidade. Francisco procurava preencher os horários de consulta ao longo do dia para que ganhassem mais e mais dinheiro. Ao completar 40 dias, o golpe seria descoberto, Samuel iria embora. A cidade desmascaria o impostor e ele pousaria de vítima do engano. Não conseguia pensar Num
novo plano para depois. O melhor era aproveitar o momento. Todos os dias antes de dormir, Francisco pensava no quanto sentiria falta de Samuel quando ele partisse no 11º dia, após o início das consultas, a fila de mulheres ansiosas por uma palavrinha do mensageiro de Antônio foi surpreendida pela notícia de que haveria um casamento na manhã do dia seguinte. Samuel recebeu um convite por um portador. Seria padrinho. A noiva pedia As desculpas por não convidá-lo pessoalmente, mas estava cuidando das provas do vestido. Fazia questão da presença de Samuel no altar. O nome do casal Madalena e
Egídio. Não lhe dizia nada. Nunca vi mais gorda. Não mesmo. Madalena era moçesa, feia, de pele oleosa e cabelo lambido, mas que chegou a candeia a 15 kg mais magra, vestida de noiva, e casou numa cerimônia concorrida com o amor da sua vida, um ex-colega de trabalho. Tiveram um namoro interrompido Quando o rapaz foi transferido de volta para Caxias do Sul, onde nasceu. A moça tinha certeza de que nunca mais encontraria alguém como ele, que nem sequer respondia suas correspondências até o dia em que tudo mudou. Aéo o Dinis convidou um noivo para uma entrevista
na rádio, que agora tinha uma filial em Candeia. Teve um dia que eu estava trabalhando e pensei na Madalena. Era uma voz me dizendo para largar minha vida em Caxias do Sul e vir ficar com Ela. Vendi tudo que eu tinha, um fusca verde, duas caixas de som e um aparelho de karaok. Eu só pensava em ficar perto dela. "Então você veio cheio da grana para a candeia?", perguntou o locutor. "Nada, gastei tudo nas passagens." A noiva tomou o microfone. Veio rico de amor e de beleza. Isso que é importante na vida. Os dois não
paravam de se beijar apaixonadamente. Até o Dinis chorou com o depoimento do gaúcho, enlouquecido por Madalena, e seus cento e tantos quilos de amor. Nessa entrevista, a moça revelou que a data em que Egídio dizia ter vivido aquela paixão repentina e avaçaladora, coincidia com a data da consulta com Samuel, o milagreiro. O padre Zacarias mandou chamar Samuel para que explicasse esse milagre. Eu menti para essas mulheres. Enganei essa pobre Madalena, mandando ela comer fruta 10 dias, andar Para lá e para cá, e agora me aparece essa notícia de milagre. Eu não faço milagre nenhum, padre.
Só vim pra candeia para matar meu pai, que já tá morto há muito tempo. O que você sentiu quando conversou com a Madalena? Alguma tontura, alguma luz, intuição? Sentiu alguma coisa estranha? Senti sim. Nesse dia eu tava era com dor de barriga, parecendo um balão cheio de gás. O que é que tá acontecendo, padre? Não sei, meu filho. Nenhum livro que já Li fala sobre nada parecido. Mas eu vou rezar para Deus te perdoar, seja do que for. Acho que é melhor ir embora. Eu já queria ter ido mesmo. Você tem vontade de partir? Tenho.
Só vim procurar meu pai e isso eu já sei que não vou achar. E por que você não foi embora antes? Tem alguma coisa que te prenda em candeia? Tem a voz. É uma moça que canta na cabeça. Eu queria descobrir quem é. Mas de qualquer forma, depois dos 40 dias, você tem que ir. Pode ser que comecem a Reclamar do serviço, pedir o dinheiro de volta. É melhor você ir. Isso não vai acabar bem. E a voz, padre? A voz que canta. O que é que tem? É a única coisa que me faz feliz.
Pode ser só uma ilusão. O demônio é cheio de artemanha. Aquela altura já tinham arrumado energia elétrica para candeia, puxando dos postes da estrada. O prefeito não colaborou em nada com isso. Estava para chegar a qualquer momento, assustado com As notícias sobre o que acontecer em sua ausência em tão pouco tempo. O segundo casamento chegou e o terceiro, o quarto, o quinto mulheres que se consultaram com o mensageiro do santo e inexplicavelmente encontraram o amor das suas vidas. Samuel era convidado para ser padrinho de todos. Até que Francisco explicou às noivas que isso não seria
possível. Aconteciam três, quatro casamentos por dia. Os convidados dos noivos ajudavam a lutar a cidade. Os Donos dos estabelecimentos comerciais, recém-crivic aos negócios, enchendo os bolsos de dinheiro, fazendo melhorias. A cidade agora tinha casas coloridas, iluminação pelas ruas, uma igrejinha pintada de azul, uma praça em recuperação. Pousadas, barbearias, restaurantes, lanchonetes e até um bordel foram inaugurados em Candeia, ocupando as antigas casas abandonadas. Um dos casais que realizaram a cerimônia Na igrejinha de Candeia veio de Baturité. ficaram lá mesmo para a lua de mel, junto com os pais da noiva, que disseram nunca ter visto o
lugar mais lindo que aquele. Ninguém entendia porque aquela família passava o dia tirando medidas, arrumando e varrindo uma casa pequena, escura e com todas as janelas fechadas com tijolos. O mais estranho foi quando chegou lá um carro de loja de material de construção que descarregou mais de 10 galões de tinta Preta. Todos. Preta. Só tinta preta? Deve ser coisa de macumba", disse alguém em voz alta. O casal foi embora por dois dias. Deu tempo para que os curiosos entrassem na casa e vissem do que se tratava. Derrubaram todas as paredes internas e pintaram tudo de
preto por dentro. Tudo é coisa do Satanás", disse Jerusa, a mulher de Chico Covero. "Não vamos deixar que nada de mal aconteça", disse o padre Zacarias, temeroso. O casal voltou de madrugada. Chegaram com um caminhão cheio de cadeiras, um aparelho grande e um letreiro largo preto que foi pregado no alto da porta da casa. Com ajuda de uma escada, o pai da noiva subiu até lá, enquanto sua mulher permanecia no chão e lhe passava enormes letras brancas, uma por uma. A casa ficava relativamente perto da cabeça e quando de amanheceu, muita gente veio de lá
para tentar ler o que seria escrito ali. Como eram só duas Palavras bem curtas, o mistério da casa preta foi descoberto antes que o casal de Baturité fosse linchado. No letreiro estava escrito CX, Casa Blanca, um cinema em candeia. Nada de macumba rituais macabros. A sala estava pintada de preto para garantir a boa visibilidade da tela. Marcaram inauguração para dali a uma semana. Ainda precisavam arrumar as cadeiras, testar o projetor e esperar que os Filmes chegassem. No dia da inauguração, as sessões seriam gratuitas para atrair a clientela. Muita gente ali nem sabia direito o que
era um cinema. A ess Diniz não perdeu tempo, conversou com um casal de proprietários e fechou uma parceria de divulgação do Chex nos seus programas de rádio em troca de ingressos de graça em todas as sessões para sortear entre os ouvintes. A ideia era que ao longo do dia três Filmes diferentes fossem exibidos para o público infantil, jovem e adulto. Apesar dos pedidos atrevidos e dos bilhetes anônimos, o casal de proprietários avisou logo que o cinex era um estabelecimento familiar e não exibiria filmes pornográficos. No dia anunciado para a inauguração, a fila era imensa. A
sala de espetáculos estava pronta, mas havia um problema grave. Os filmes não tinham chegado. Os donos do cinema, Ari E Telma, tentaram explicar a população que teriam que adiar a inauguração do Cine Hax com programação variada. Se inaugurassem naquele dia, precisariam passar o mesmo filme três vezes ao dia. O único que trouxeram para testar os equipamentos. "Pois que seja assim", disse Madein Nusa que veio para a inauguração. "Qual o nome do filme?" "Casa Blanca", respondeu Telma, concordando com a ideia. era o seu filme preferido. Das 9 da manhã às 8 da noite, a população de
Candeia foi transportada para o Marrocos. Homens e mulheres de todas as idades saíam da sala de cinema chorando de amor com a história de Rick e Ilson. Candeia tornou-se a capital mundial do amor romântico, dos casamentos apaixonados, dos casais enlouquecidos de paixão. A agenda de casamentos do padre Zacarias não deixava tempo para respirar. ricos e pobres, gente de Outros estados e até do estrangeiro vinham casar em Candeia. Enfim, chegaram os filmes novos e o Cine Hax ficou pequeno para tanta gente. Mesmo com a nova oferta de estreias, o público pediu que fosse mantida ao menos
uma sessão de Casa Blanca. dia sim, dia não. O Senr. Ari cuidava da programação, passara a vida inteira esperando o dia de se aposentar da repartição para dedicar-se somente ao cinema, a segunda grande paixão da sua vida. A primeira era Telma, sua esposa e única namorada. Os dois dividiram bem os trabalhos com o cinema. Ari cuidava da programação e da bilheteria. Telma ajudava na escolha de alguns filmes e cuidava da lanchonete Telmas. Suas comidas eram um espetáculo à parte e por sua causa, Candeia conheceu um prato italiano que virou febre na cidade, a lasanha da
Telminha. O único problema com o casal de administradores era que às vezes o senhor Ari era tomado de empolgação nas Conversas na porta do cinema e esquecia de comprar os ingressos. Já era tão apaixonada por cinema que ia assistir aos filmes escondida, deixando a lasanha queimar no forno. Mesmo assim, as coisas davam certo. Um cinema na região era a segunda notícia mais bombástica dos últimos tempos, espalhada aos quatro ventos pela voz de veludo de Aso Diniz. O radialista ganhou tanto dinheiro com seus empreendimentos que comprou parte da rádio de Canindé e agora transmitia Todas as
novidades com um alcance ainda maior. Foi assim que um jornalista da capital ficou sabendo sobre a cabeça do santo, o rapaz milagreiro, os casamentos, o cinema, a ressurreição de Candeia. Túlio era seu nome, famoso pelo faro de detetive e pelas reportagens que não deixavam nenhuma pergunta sem resposta. Ao saber do caso da cabeça de Santo Antônio, ficou intrigado com a dúvida de que todos já esqueceram. Por que nunca Consertaram aquele erro? Por que a administração daquela cidade não procurou alternativas para não cair na miséria e no abandono? Nos primeiros dias em Candeia, Túrio circulou anônimo,
como se fosse mais um curioso. Hospedou-se na casa de dona Rosa. Apesar dos barulhos nervosos de seu marido morimbundo, percebeu que a memória privilegiada da mulher era o arquivo da cidade. Foi por ela que soube muito do que queria saber como ponto de Partida da investigação. O fário de Túlio nunca falhava. Havia algo de muito podre no passado de Candeia e o povo precisava saber disso. Cordel. Quando o padre Zacarias recebeu o folheto de cordel com a história de Candeia, era tarde demais para impedir que aquilo se espalhasse. Nem eram 9 horas da manhã e
todos os habitantes da cidade já andavam com um folheto na mão. O título era A cabeça do Santo. E o folheto contava toda a história do lugar. Desde que era vila, depois, quando virou cidade, até o dia em que fora condenada à morte, mais tarde voltar à vida com a chegada de Samuel, o profeta enviado por Santo Antônio para morar dentro da sua cabeça. Uma chilogravura na capa mostrava a cabeça do santo no chão, com uma lágrima que virava rio e um homem fugindo com sacos de dinheiro ao fundo em perspectiva. Não era um folheto
Inocente. Quem o fez ou encomendou tinha a intenção de revelar verdades do passado que até então ninguém conhecia. Naqueles versos e rimas havia a grave denúncia de que Osório, o eterno prefeito, havia roubado muito, mas muito dinheiro dos cofres do município. Descrevia sua casa na capital, o luxo dos seus carros, as joias da esposa, que, segundo o cordel, era muito bem tratada para que nunca desconfiasse de Seu caso de amor secreto em Candeia. Um artigo com o mesmo teor denúncias foi publicado num jornal de Fortaleza. Jornalistas da capital e de outros estados foram a pequena
cidade, equipados até os dentes com suas câmeras para gravar as provas daquele festival de absurdos. Tentaram entrevistar Samuel, que se recusou. trancou-se na cabeça como pôde, precisando inclusive contratar reforço na segurança. O povo estava revoltado com o que leu no Folheto. Exigiam a presença do prefeito para que explicasse cada uma das acusações. Padre Zacarias mandou um recado para Osório, pedindo-lhe que fosse à cidade e se reunisse com ele. Como orientador espiritual daquela população que crescia a cada dia, tinha a obrigação de averiguar os fatos para verificar se aquilo tudo não passava de calúnia. Mas o
velho padre era experiente e intuitivo, o suficiente para saber que o Cordel não contava nenhuma mentira. Osório, o prefeito, sugou o sangue de Candeia até a última gota. Os carros da imprensa não paravam de chegar. Várias cidades mandaram correspondentes, porque tudo naquele texto e naquele município era prato cheio para jornalistas. Aécio Diniz contratou um substituto para sua rádio e passou a trabalhar somente como assessor de imprensa na cidade. [roncando] Quanto mais promoção, melhor Para os seus negócios. Ele agora era sócio nas consultas na cabeça, na venda de santos e velas, no Cirx e até na
venda de lasanha do Telmas. Nunca os noticiários da região foram tão animados. As câmeras não deixavam que nada escapasse. Entravam nas casas, contavam sem parar as histórias assombrosas dos cadáveres encontrados quando o povo começou a invadir a cidade. As equipes só não conseguiam entrar em dois lugares, na cabeça do Santo e na casa de Niceia. A Dise estava esperando a oferta de uma grande emissora internacional para vender a exclusividade de mostrar o interior da cabeça. Providenciou um cerco ao local, protegido com postes de madeira, correntes e seguranças, impedindo qualquer tentativa de aproximação. Sua ideia era
construir uma espécie de cortina de vidro blindado. Estava só aguardando o orçamento. Já na casa de Niceia, o problema era outro. Não havia ninguém que impedisse a invasão, mas todos os repórteres e cinegrafistas que tentaram entrar ali foram acometidos de súbitas e misteriosas moléstias, vômitos, dores de estômago, de cabeça, tonturas, desmaios. A certa altura, ninguém sabia mais se a doença vinha de alguma maldição ou do medo de chegar perto. Até que apareceu um cinegrafista corajoso de uma emistora de São Paulo. Trabalha no Oriente Médio e na fronteira Da Bolívia. Nada o assustava. Ele disse. Escolheu
uma câmera leve, ajustou no ombro, muniu-se de máscara no rosto, lanterna na testa e revólver na cintura. Chegou até o portão e enxugou o suor, mas olhou para trás e fez sinal de que estava tudo bem. Muita gente observava a cena, esperando para ver o que aconteceria lá dentro. O homem pulou o portão de ferro sem dificuldades. Caminhou pelo jardim filmando tudo, falando coisas que ninguém conseguia Escutar. mas que em breve o mundo saberia pela televisão. Não demorou muito para que o jornalista arrancasse uma das janelas e entrasse na casa sob aplausos do povo que
esperava do lado de fora. "Vou ver como estão as condições e aviso daqui a pouco para todo mundo entrar." Os outros jornalistas arrumaram suas câmeras e microfones e se aproximaram do portão de ferro atentos à janela. Uns esperavam a ordem do paulista, mas outros já estavam No jardim quando ouviram um grito, um berro. O homem pulou a janela e saiu correndo da casa, seguido de uma amilha de mais de 20 cachorros enlouquecidos, latindo, rosnando, prontos para arrancar um pedaço de quem estivesse por perto. Os curiosos que cercaram a casa correram apavorados. Subiam no telhado das
casas, alguns atiravam, jogavam pedras, mas nada fazia com que os cães parassem de latir. Era Um circo de monstros. Desde esse dia, o paulista corajoso nunca mais pronunciou nenhuma palavra. Foi levado às pressas para um hospital de fortaleza, onde ficou internado até melhorar da crise nervosa que angustiava a equipe médica, incapaz de sequer sugerir um diagnóstico. Dizem que os cães só ficaram calmos depois que todo mundo saiu de perto da casa. A consequência do episódio traumático foi que ninguém mais tentou Invadir a residência de Niceia. Samuel soube da história, não se falava em outra coisa,
mas quase ninguém sabia do seu parentesco com a velha louca. Sua postura reservada o protegeu de expor a própria vida e os motivos que o levaram à candeia. Lembrava da chegada da ferida, da conversa com Niceia. Com ele não aconteceu nada do que ocorreu com os jornalistas. Ao ouvir falar do mistério do último casarão abandonado de Candeia, onde ninguém conseguia entrar, decidiu Ir até lá de novo para tentar conversar com a sua avó. Além de descobrir um pouco mais do que existia no casarão, ele queria avisar que em breve deixaria a cidade. Cuidado. A vida
mudou muito para Samuel desde que chegou à Candeia como um morto vivo. Ele agora não tinha mais a liberdade de sair para onde quisesse, quando quisesse, sem ser seguido por um monte de mulheres desesperadas. Para ir à casa da sua avó, precisou de um plano. Decretou que naquele dia o santo pedira que ele não falasse com ninguém, não consultasse, não conversasse e que ninguém ficasse por perto da cabeça. Aproveitou e inventou também que Santo Antônio pediria que ninguém rezasse para ele até às 6 da tarde do dia seguinte. Samuel queria silêncio para ouvir a voz
que canta. Havia tempos não conseguia escutá-la como gostava, com calma, com nitidez. Segundo o recado inventado do santo, seria um dia de limpeza de energias negativas da área. Quem ficasse por lá poderia ser prejudicado. Foi Francisco quem deu o recado ao povo que estava perto da cabeça enquanto a divulgava na programação da rádio. Deu certo. Samuel não contou aos amigos o que faria. Só disse que precisava de um descanso e de silêncio. Eram 4 da manhã quando ele foi até a casa da avó. Exatamente como na primeira Vez. Assim que bateu palmas com a barriga
no portão, Nissai abriu a porta de dentro e apareceu. Samuel reparou na janela quebrada, tentou ver alguma coisa do interior da casa, mas era impossível. A câmera ainda estava lá no chão. Ninguém teve coragem de ir buscá-la. Vai embora. Niceia foi firme. Eu só vim falar com a senhora. É rápido. Pode falar. Se for coisa pouca. Mas a senhora não me mandou embora. Mandei. Então eu vou. Samuel achou melhor tentar outro dia. Volta, menino. Não é embora do portão, não. Eu quero falar contigo. Ele voltou. Vai embora de Candeia. Vem perigo por aí. Que perigo?
Tá vendo essa cidade? Tá vendo esse mundarel de gente? Essa confusão, esse povo da televisão? É tudo por sua causa. A culpa é toda sua. Minha não. Eu não mandei o santo deixar o rádio ligado. Eu não queria ir para Lá. Foi a senhora que mandou. A culpa é sua. Não era para ter feito isso tudo. E tem gente com ódio. A velha se interrompeu. Depois falou mais alto. Tem gente que se pudesse te matava hoje. Vai embora. Que dia é hoje da semana? Domingo. Então você vai embora na quinta. Dá tempo de resolver o
que falta. Eu não sei o que fazer. Mas escute bem uma coisa. Na quinta-feira, antes de ir embora, você tem que passar aqui. Por quê? Para se despedir. Eu sou Sua avó, rapaz. É minha avó, mas nunca me deu nenhum copo d'água. Você é quem devia me dar agora que ficou rico enganando o povo. A senhora precisa de alguma coisa? Preciso de nada. A conversa era sempre difícil. Até quinta-feira. Você tenha muito cuidado, Samuel. Muito cuidado, porque essa semana vai ser difícil. Olha, presta atenção, porque eu a velha parou de falar, depois completou. Vem gente
ali. Quinta-feira, eu te espero. Fechou a porta de uma vez. Samuel apressou o passo para ir embora e viu gente chegando de fato. Andou de cabeça baixa para que ninguém o reconhecesse. Correu para a cabeça. Queria aproveitar o silêncio e despedir-se. Queria ouvir a voz que canta, talvez pela última vez. Canção. Nada o impediria de ir embora de Candeia naquele mesmo dia se desejasse. Tinha Dinheiro suficiente para ir a qualquer lugar até de avião. Não era mais o pobre estropeado que chegou ali sujo, descalço e mendingando água suja e pão seco. Agora tinha prestígio, dinheiro,
usava roupas boas e ao cinema. comia lasanha todos os dias e dormia num colchão de molas dentro da cabeça de Santo Antônio. Ele também poderia ter saído de lá, construído uma casa ao lado. Dinheiro não era problema. Se não o fez, foi por causa da voz que canta. Se não saiu de Candeia desde que começou a ficar aborrecido com aquela rotina de consultas, mentiras e barulho, foi por causa da voz que canta. Mesmo com tudo que aconteceu, os milagres, os casamentos, a voz nunca parou de cantar no mínimo duas vezes por dia, às 5 da
manhã e 5 da tarde. Das vezes em que conseguiu ouvir, dava para ver que ela não falava muito bem o português do Brasil. Era uma língua misturada e Samuel não tinha muito Estudo para saber dizer exatamente se a mistura era um sotaque, era um jeito diferente de cantar. Eram quatro músicas diferentes. Ela variava. Às vezes cantava a mesma canção de manhã e de tarde, às vezes mudava. Samuel seria capaz de cantar o lar cada uma, mas não entendia direito o que queriam dizer. Ele captava algumas palavras: saudade, coração, despedida, mar, voltar, longe. As outras palavras
Pareciam pertencer a uma língua estranha. Seu plano deu certo e no dia seguinte, às 5 da manhã, ele colou o ouvido no topo da cabeça de Santo Antônio e conseguiu escutar a voz que canta mais forte que nunca. A música conseguia destrancar algum lugar no peito de Samuel, uma gaveta de sonhos antigos. Houve um tempo em que ele sonhava com o mar, por exemplo. Sonhava com o dia em que levaria a Mariinha para conhecer o Mar e ver se era verdade mesmo essa história de que a água do mar é salgada. Ele gostava quando a
voz falava do Mar azul. Vida de mar, ela dizia isso. Ele entendia bem. Pensava no oceano, nos desejos de antes, nos tempos de criança em que as esperanças eram vivas. A voz falava de saudade e ele pensava em Mariinha, mas sem tristeza, porque nem toda a saudade é triste. Consegui imaginar sua mãe junto com a família de mulheres que adivinhavam a morte como Quem fala de uma viagem qualquer. Ao som da voz, ele conseguia ser feliz e, por mais que já tivesse tentado, nunca descobrira de onde vinha. A mulher não rezava, portanto não seria nenhuma
das que tinham ido às suas consultas. Se fosse, ele reconheceria a voz. Sem dúvida. Era uma voz grave, rouca, de palavras bem pronunciadas. Pensar na voz sem um rosto era insuportável. Mas agora Samuel tinha data marcada para ir embora. Quinta-feira. Sentia a necessidade de obedecer a ordem de Niceia, sua estranísssima avó. Talvez por saudades de ter a quem obedecer. Talvez por intuir que Mariinha, se fosse viva, daria a mesma ordem: ir embora, sair dali, largar aquele engano. A voz cantou lindamente às 5 da manhã e às 5 da tarde, como sempre foi. Depois das 6,
a mulherada voltou a rezar e já não era possível ouvir com clareza. Restavam poucos dias em candeia e naquelas horas de repouso e solidão, Samuel teve a certeza de que estava apaixonado, completamente apaixonado por uma mulher de quem ele só conhecia a voz e poucas palavras que moravam no seu coração. Decidiu pedir a ajuda de Diniz. Seria arriscado revelar a todos o segredo da voz, mas era sua única chance. Aécio divulgou no seu programa de rádio que Samuel, mensageiro de Santo Antônio, Precisava falar com a mulher que cantava todos os dias às 5 da manhã
e 5 da tarde. A princípio, pensou em inventar que tinha um recado do santo para ela, mas Samuel o impediu. Com ela eu não quero mentiras. E esperou, ansioso que ela aparecesse a qualquer momento em sua casa. Capuz. Quando sentiu que alguém mexia no pano da cortina, Samuel achou que fosse a dona da voz, mas era um ataque violento De um sujeito encapuzado que lhe trazia um recado. O homem estava infiltrado entre os sommeiros fazia vários dias. Não haveria outra forma de ter acesso à cabeça se não fosse disfarçado de devoto à espera de bênção
pro amor. Usava a túnca de São Francisco com um surrão de corda bem grossa. Isso não chamava a atenção de ninguém. Cada um usava o que podia. Era mais um desconhecido. O povo ali fazia o mapa do Ceará completo. Vem a gente de todo o lugar. Ninguém Descobriria nunca que seu objetivo era atacar Samuel. Não é para matar nem machucar, mas o susto tem que ser bem dado. A ordem do patrão era clara como lei. Logo no segundo dia de acampamento, ele percebeu que a melhor hora para o ataque era por volta das 3 da
manhã, quando Francisco não estava lá e a maioria dos romeos dormia nas barracas. Vestiu o capuz preso na parte de trás da roupa, tirou a corda da cintura, enrolou na mão Direita e invadiu a cabeça de Santo Antônio, afastando a cortina improvisada. Pulou nas costas de Samuel como um sapo, um bicho cheio de tentáculos. Enrolou rapidamente a corda no pescoço de Samuel e foi feliz nesse golpe, porque o seu ponto fraco era exatamente o sufocamento, o desespero de não conseguir respirar. Eu não vou te matar não, santinho. Eu até queria, mas a ordem é só
te dar um recado. Você tem Que sair de candeia amanhã até amanhã à noite. Entendeu bem? Quem mandou um recado? É melhor nem tentar adivinhar para não te complicar mais. Eu não tenho medo do Osório. Pode dizer a ele. Samuel ganhou forças, tentou reagir, mas levou dois murros certeiros no rosto. Eu cobro caro para dar recado, Santinho. Esse seu aqui valeu muito. Apertou a corda mais um pouco até Samuel gemer. Já falei o que tinha para falar. Fique quietinho até eu Ir embora. Não acorde ninguém. Se gritar vai ser pior, porque eu não tô sozinho.
Covarde, desgraçado. Samuel tentava falar com ódio, mas estava sufocado, arrocheado, e não acreditava muito que vivesse além dali. Se você desobedecer, eu até que não vou achar ruim, porque aí meu patrão vai me mandar a voltar e dessa vez é para matar. E eu vou gostar de dar fim ao amigo dessa desgraça de Santo Antônio. O último aperto demorou alguns segundos E deixou Samuel desacordado. Despertou sem forças e talvez só tivesse conseguido acordar porque às 5 da manhã a voz surgiu na cabeça, ainda mais forte, cantando no seu idioma incompreensível. Só algumas palavras escapavam, atravessavam
a cortina daquela língua estranha e apresentavam-se a Samuel. Naquele dia era coragem, coragem. Ela falava em coragem. Cantou duas músicas lindas, aquele ritmo a princípio tão Estranho, mas agora absolutamente familiar ao coração de Samuel. No final, a voz rezou. Pela primeira vez, a voz rezou. Foi breve. Me dê coragem, Santo Antônio. Preciso de coragem e força. Samuel queria encontrá-la imediatamente, pedir a ela que rezasse por ele, que lhe desse colo. Lembrou de Mari, lembrou como se fosse ela a cantar naquela língua estranha. Chorou. Desde o enterro de Mari, ele não derramava uma lágrima, mas agora
chorou. A previsão de Niceia se cumprira. As coisas começavam a ficar perigosas em candeia. Francisco chegou logo depois das 5 e o estado de Samuel o assustou. Um homem entrou aqui, não vi direito, não sei quem era. Amarrou uma corda no meu pescoço e disse que eu tinha que ir embora de Candeia. Nessa hora, dois homens já entravam na cabeça, chamados por Francisco, e levavam Samuel nos braços. Precisava de Descanso, remédio, curativos para o pescoço e era preciso também cuidar de sua segurança até tentar entender o que acontecera. Não havia outro lugar para levar um
amigo senão à casa de seu pai, o Chico Coveiro. Fim da segunda parte. Início da terceira parte. História de antigamente. É assim que já foram há muito tempo. Sim, filho. Então, antigamente é um tempo, avô. Antigamente é um lugar. Um lugar assim longe, um lugar assim dentro. Onde aqui? Cachaça. Antes da grande desgraça acontecer, Candei era viva. A igrejinha lotada de fiéis rezava o padroeiro no seu dia. Pediam a Santo Antônio as bênçãos para a cidade. No muro do cemitério, branco e limpo, praticavam-se as simpatias para arrumar marido e descobrir a cara do candidato. As
moças jogavam ovos com fúria contra a parede e corriam para observar o possível desenho que a gema formava ao escorrer. Via-se de tudo, porque esperança e desejo obram o impossível. A fama daquele muro corria pelas cidades vizinhas e atraía o desespero das mocinhas, loucas para casar. O discurso do prefeito era tradição na festa do padroeiro, mas aquele ano surgiu um boato de que a cidade Receberia uma notícia bombástica durante a fala oficial das autoridades. Não havia muito o que esperar. Candei era uma terra pacata, pacatíssima, com quase mil habitantes espalhados nas ruas simétricas, minuciosamente planejadas
pelos fundadores do lugar e nos sítios dos arredores, sem crimes, sem grandes sobressaltos, sem filhos ilustres, sem problemas graves. O prefeito administrava a cidade com poço firme e a ajuda de uma esposa que Era uma santa, como costumavam dizer as mulheres de Candeia. Diante dessa quase monótona paz, não havia bomba nenhuma a esperar, o que fazia da perspectiva de uma notícia em anúncio oficial algo ainda mais curioso. O prefeito subiu ao palanque com a esposa. Alguém arrumou o microfone no pedestal, mas o chefe da cidade coxixou algo com um dos assessores e ainda não começou.
Lá vinha o jovem distraído padre Zacarias, correndo ágil, subindo a escada do palanque de dois em dois degraus e sorridente como nunca se viu. Era recém chegado à cidade e, pelo visto, veio cheio de ideias. Minha gente de Condeia, boa noite. Estamos todos reunidos nesta festa para louvar nosso padroeiro Santo Antônio de Pádua, nobre português que deixou como exemplo maior em sua passagem na Terra. fez uma longa pausa, tremeu o lábio inferior. O prefeito aprendeu isso num Filme americano e achou bonito, o amor cristão e cristalino. Mas acredito que Santo Antônio não está feliz conosco.
Na verdade, tenho certeza de que o pobre santo deve até estar aborrecido com cada um de vocês, povo de Candeia. Entre olhares apavorados na plateia, o prefeito continuou impávido. Como é que uma cidade que tem Santo Antônio como padroeiro prossegue com a vergonha de não possuir nenhuma grande Estátua em homenagem a ele? Pois hoje eu venho, povo de Candeia, anunciar que assinei um contrato com a empresa MJ Engenharia, responsável pela construção de belíssimas estátuas sagradas pelo Brasil, para construir no morro uma estátua de Santo Antônio com 20 m de altura. O povo vibrou. Vamos fazer
de Candeia a terceira terra de Santo Antônio. Primeiro vem Lisboa, onde ele nasceu. Depois vem Po, onde morreu, e agora Candeia, onde ele voltou A viver para sempre. Nenhum acontecimento anterior despertara tamanho alvorosso na população de Candeia. Quem não estava por perto desde o começo do discurso foi atraído pela pequena multidão curiosa e incontenses e visitantes vibrando com a notícia. Eu consegui junto ao governo federal uma autorização de linha de crédito para todos os microempresários que quiserem começar um pequeno negócio. Vocês vejam, Canindé, o tanto de gente Para dormir, comer, tomar banho. Montem suas pousadas,
restaurantes, lojinhas. Vamos fazer Candeia prosperar. O alvorosso foi incontrolável. Construir uma estátua gigante de Santo Antônio era tão impossível que ninguém mais ousava sequer sonhar. A mudança foi rápida e drástica. A inauguração da estátua estava prevista para dali um ano. Tempo suficiente para que a cidade se organizasse e divulgasse o feito. Os novos estabelecimentos comerciais Surgiam com seus nomes pintados nas fachadas das casas. Barbearia Santo Antônio, Lanches, Santo Antônio, Pousada, Santo Antônio, Restaurante Santo Antônio. A promessa de uma cidade nova atraiu forasteiros. Vinha gente de todo lugar interessada na nova candeia. Fizeram sociedades e confusões.
Alguns ficaram, outros foram expulsos. Mas de todos nenhum fez tanto sucesso quanto Fernando, um comerciante português que andava de passagem pelo sertão e sentiu Cheiro de prosperidade por ali. Fernando vendia tecidos e andava pelo mundo todo. Lidava com pequenas peças de pano e grandes vendas. Intermediava negócios entre São Paulo e o Senegal. Trocava rendas cearenses por seda chinesa. Consignava importação de sares indianos para lojas do Rio de Janeiro. Falava várias línguas, o Fernando. Conversava embriagando. Era o que diziam. Não havia como entrar numa negociação Sem que o resultado fosse favorável para ele. Sempre sorridente, sempre
com par de olhos amendoados envolvidos na transação. Para uma cidade cheia de mocinhas loucas para casar, a chegada de Fernando teve efeitos mais bombásticos do que o anúncio da construção da Estátua do Santo. Porque além de bom falador, ele era muito bonito. tinha cabelos lisos e negros, sempre bem penteados para trás, um par de belos olhos mouriscos numa pele morena de Tantos sóis. Ninguém sabe contar os detalhes, mas o certo é que em pouco tempo soube-se que o estrangeiro estava de casamento marcado com Helenice, filha do homem mais rico de Candeia, alertando para o fato
de que isso não denota tanta riqueza assim. Ninguém imaginaria. Pelo que se conhecia da moça, estava inclinada à vida no claustro e em breve iria para o convento de Baturité. Usava saias longas e cabelos presos até então, até que Fernando andasse com ela Pela praça de Candeia, soltasse seus cabelos em público, usasse gestos respeitosos e olhares apaixonados. Sim, ele parecia muito apaixonado. O casamento estava marcado para o ano seguinte, um dia depois da inauguração da estátua. Fernando viajou alegando que iria comprar seda branca para o vestido da noiva. Seda pura, chiqueza. Os parentes dele já
arrumavam as malas e viriam de Braga para a Candeia. seria o casamento do século. Enquanto as pequenas histórias aconteciam ao redor da matriz de Candeia, no alto do morro, o corpo do santo já estava colocado por inteiro, dos pés ao pescoço. Quem passasse na estrada poderia ver. A cabeça, por sua vez, estava desmontada e suas peças espalhadas pelo chão. Foi nesse ponto do trabalho que o engenheiro chefe da MJ Engenharia foi chamado às preces para um trabalho na capital e precisou se ausentar por uma semana. Antes de partir, marcou uma reunião com o padre, o
prefeito, e anunciou que na sua ausência a responsabilidade da obra seria do meticuloso, um operário local que se destacou por sua inteligência no desenvolvimento do trabalho. A alcunha de meticuloso lhe fora dada pelo engenheiro, embasbacado com sua natural inclinação para a perfeição, concentração e cuidado com os detalhes. ficaram amigos e o engenheiro admitiu que aprendeu com ele muitas coisas que Ninguém sabia na faculdade de engenharia. O pobre homem chorou diante do prefeito. Quanta honra. O engenheiro viajou e meticuloso não pôde evitar uma breve comemoração com os amigos. Tinha cachaça e churrasquinho. Muita cachaça. No dia
seguinte, os oito homens encarregados de montar a cabeça do santo foram à casa de um meticuloso às 7 horas da manhã e ele ainda estava bêbado. Perguntaram então o que fazer para começar a montagem da cabeça, se Aguardavam ordens ou se montavam logo aqui. Quem dá ordem sou eu. Não ouviram o Dr. engenheiro dizer? pode montar a cabeça no chão para quando ele chegar encontrar o santo feito. Durante uma semana, os pedreiros ocuparam-se de montar o crânio, o queixo, o pescoço, os globos oculares, a boca, o nariz do santo. Ficou milimetricamente perfeito, sempre sob a
supervisão do meticuloso. A população acompanhou o rosto tomando Forma e uma pequena aglomeração observava a cabeça sagrada quando o engenheiro chegou. Meticuloso, então, estava tão orgulhoso de seu feito que tomou a liberdade de marcar a cabeça do santo com sua assinatura, a letra M. Dentro de um círculo. A multidão abriu o caminho para o engenheiro passar aos gritos, aos berros. Seu imbecil, Cristo Redentor. Demorou para que ele conseguisse conter a fúria e fosse controlado pelo povo. O polido, educadíssimo engenheiro, descabelou-se todo e queria bater no meticuloso. Queria matar o homem e só depois ele conseguiu
explicar porquê. A cabeça teria que ser montada no alto, já sob o pescoço da estátua, com ajuda de uma estrutura de andames que estava a caminho. Ele tinha quase certeza de que aquela cabeça montada no chão jamais poderia ser levada para o corpo do Santo. Sua suspeita foi confirmada por um técnico trazido do Rio de Janeiro para avaliar o caso. A prefeitura não tinha sequer o dinheiro para a passagem, mas o engenheiro pagou do próprio bolso. Era o preço de salvar a obra que o levaria à prosperidade ou ao fracasso. Chamava-se Rubens e todos o
tinham em alta conta por fazer parte da empresa responsável pela manutenção do Cristo Redentor no Rio de Janeiro. Sua opinião seria definitiva. Depois de alguns dias de estudos, análises, cálculos e telefonemas, Dr. Rubens deu o diagnóstico. Seria impossível levar a cabeça até o corpo. Nenhum no mundo teria capacidade para tanto peso. A única solução seria fazer uma cabeça nova. Dr. Rubens foi embora e não conseguiu conter o riso ao ver de longe o corpo sem cabeça no alto do morro. Quanta burrice! O prefeito não tinha mais dinheiro para a confecção de outra cabeça. A dívida
do município era absurda. As parcelas estavam atrasadas e não havia mais credores dispostos a emprestar um centavo que fosse a qualquer pessoa da cidade. A festa de inauguração foi cancelada. A notícia correu de boca em boca porque o prefeito viajou para a capital e não teve coragem de encarar a população de Candeia. Desesperança, desfelicidade, desgraça. Meticuloso responsável sumiu. Restou sua assinatura. O hem circulado registrando para sempre culpado pela ruína de Candeia. Chico Coveiro. Foi difícil conter o povo que acompanhava Francisco, levando Samuel para a casa dos seus pais, Chico e Jerusa. A casinha ficava nos
fundos do cemitério e era preciso atravessá-lo para chegar Até lá. Foi o jeito fechar o portão principal com cadeado. Só destrancaria quando o povo se acalmasse, o que estava demorando a acontecer. A descrição do pescoço ferido, do olho fechado e do sangue saindo pelo nariz de Samuel espalhou-se muito rapidamente entre os romeiros da cidade e entre todos que chegavam ali. Já estava perto da romaria para São Francisco de Cané e muita gente aproveitou para passar em candeia e pedir um casamento ao Mensageiro de Santo Antônio. A eficiência na difusão da notícia fez com que o
Dr. Adriano chegasse lá rapidamente, mesmo não sendo seu dia de consulta. levou material para curativo, remédios, especialmente à sua amizade. "Eu ainda não consigo entender isso", disse o médico. "É coisa do Osório, Dr. Adriano, foi por causa do cordel", respondeu o ódio de Samuel. "Eu ouvi os boatos, só se fala nesse Cordel em toda parte. Pro Osório, o Samuel é quem está atrapalhando os planos dele", disse Chico Coveiro. Acham que ele escreveu o cordão? Samuel, você precisa ter muito cuidado. É melhor não voltar para a cabeça. E para onde eu vou, Dr. Adriano? Pode vir
comigo e Madeinosa. A gente dá um jeito. Pode ficar aqui em casa escondido no cemitério. É mais seguro. Disse Jerusa, trazendo um prato de canja para Samuel. Enquanto tomava sopa com dificuldade, Deitado no sofá da sala, todos sentavam à mesa para almoçar. Francisco, pai, a mãe e a irmã pequena Diana. Dr. Adriano precisou ir embora, prometeu voltar no dia seguinte. Mudaram de assunto na presença da pequena. Agiram então, como todos os dias, ouvindo as conversinhas da menina, rindo de bobagens, tentando fazer do momento mais leve possível. Tratavam-se com um carinho natural, amor de gente simples,
no olhar, no gesto, sem Disfarces. Era uma família. Samuel observa do sofá e tinha o coração dividido entre a gratidão pela acolhida e a profunda tristeza de não fazer parte daquela vida por não ter família. nem mãe, nem pai, nem irmãos, ninguém que soubesse de seu passado, que o amassem incondicionalmente, a quem ele pudesse confiar seu amor. Lá fora, centenas de romiros rezavam por ele. O boato cresceu e adquiriu uma sofisticação inacreditável. Diziam que ele sofria de estigmas, as mesmas feridas de Jesus crucificado, que aparecem nos escolhidos por merecimento e santidade. Isso fez com que
o número de romeiros e curiosos aumentasse de forma assustadora. Estavam lá fora rezando o que poderia consolar Samuel, mas não. A sua solidão era para sempre. Não fazia parte. Não tinha uma, duas, três pessoas para quem pudesse apontar e dizer: "Eles sabem de Toda a minha vida. Eles estão comigo, eles me aceitam, são minha família". Mariou tanto com ela. A sua ausência era dolorosa demais, mas só agora, quase um ano depois, sentado no sofá rasgado na casinha do cemitério, Samuel percebeu que aquela ferida era incurável. Da avó, Niceia não havia nada a esperar. Era uma
velha louca, cega para o mundo, trancada na ruína mais suntuosa de Candeia. Samuel não tinha valor nenhum para ela e quanto ao seu pai, era quase Certo que estivesse morto. Sempre esteve. Foi o dia mais difícil naquele quase um ano de jornada, desde que Samuel desceu, correndo à ladeira do orto do Juazeiro. A consciência da solidão doía mais que qualquer outra dor. Samuel conseguiu dormir durante a tarde e acordou com Chico Coveira ao seu lado. Francisco saíra para dar notícia ao povo aglomerado no portão do cemitério. Jerusa foi com ele e Diana dormia no Quarto.
Chico tinha um ar muito grave. Quero falar com você enquanto temos um tempo. O que foi? Saia daqui, Samuel. Vai embora. Esse Osório não está paraa brincadeira. Vá para algum lugar muito longe, onde ele nunca te ache. Será que ele é tão perigoso assim? Não duvide. Você mudou tudo por aqui. Chico Covero via a tristeza nos olhos do rapaz e pousou a mão no seu ombro. Acho que ele foi o único que não gostou Da sua chegada. Você trouxe muita alegria pra gente. Ele e a bruxa de Lenice. Os dois riram. Eu nunca entendi direito
como você chegou em Candeia. Quando eu soube de você, foi por causa do casamento do doutor e Francisco nunca me falou nada. O que veio fazer aqui? O assunto, o jeito, a voz doce de Chico. Samuel quis chorar. Eu vivia com a minha mãe no Juazeiro, só nós dois. Quando ela morreu, pediu que eu viesse a Candeia Buscar o meu pai e minha avó para não ficar só no mundo. Mas aí eu cheguei, achei a cabeça e começou a confusão. O papel nunca saiu do seu bolso, mas agora era bem guardado numa carteira de couro.
Ele mostrou a Chico. Quando minha mãe morreu, eu só tinha isso. Esse endereço em candeia. Chico pediu para ler que lhe dissesse o nome do seu pai e da avó. Não sabia ler. Samuel leu pausadamente. Niceia Rocha Vale. Manuel Vale. A cada Letra pronunciada, os olhos calmos de Chico Covero transtornavam-se na expressão mais apavorada e estupefata que Samuel já vira em alguém. levantou-se sem dizer palavra, foi beber água, tonto, passou as duas mãos no rosto. Francisco e Jerusa chegaram na mesma hora e, assustados com a palidez de Chico, perguntaram o que tinha acontecido. Samuel respondeu
que não sabia. Estavam conversando quando o pai do amigo reagiu Daquela forma. Que foi, pai? Chico Cover olhou para Jerusa com os olhos de tragédia. Samuel é filho de Manuel Vale. E quem é ele? perguntou Francisco. Foi a mulher quem teve coragem de revelar o meticuloso. Cabo Verde. Antes de completar se meses de casado, Fernanda anunciou a Helense que precisava fazer uma viagem de negócios e Que talvez fosse longa. Mas por que logo pra África? Isso é uma desgraça. Chorava como se fosse sufocar. Mas eu volto, meu bem, e se tudo der certo, vou voltar
rico. Rico? Por quê? Desacelerou o choro. Porque eu vou comprar tecido em Cabo Verde. Lá eles vendem os panos do Senegal, de Moçambique. Depois eu volto pelo Rio de Janeiro. Tem uma escola de samba que prometeu comprar tudo que eu trouxer. Samba? Você ainda vai pro carnaval? O Choro voltou. Claro que não, mulher. Vou muito antes disso. Eles precisam dos tecidos para fazer as fantasias. Confia em mim. Vou voltar rico. Foi o jeito de confiar, acreditar e segurar o choro na despedida. Ela sabia o que o povo falava dos maridos que trabalham viajando. Fez cara
de séria, muito séria, desde que ele viajou para evitar qualquer conversa besta pro seu lado. Aprendeu que a simpatia é porta aberta para todo tipo de gente. Era antipática e não convidava Ninguém a fazer parte de sua vida. dentro de casa chorava rios de saudade. Antes de dormir era só choro, só lamento. Preocupava-se com a alimentação do marido, com sua saúde, suas roupas. Sentia saudades da sua pele morena, do sotaque, dos cabelos, dos olhos, enquanto ele do outro lado do mar não sofria de falta alguma. Fernando se casou com Helenice porque ela era bonita, porque
Candeia cheirava prosperidade, porque no fundo sempre Quis ter um lar para onde voltar. E acima de tudo, porque sonhava em ter filhos e os quadris largos de Elenice prometiam uma boa prolle. Mas era difícil para ele suportar que na cabeça de sua esposa só coubesse aquele pequeno mundo de candeia. Quem casou? Quem morreu? Quem pecou a vida dos outros? Essa forma de viver sem sonhos, sem caminhos novos, como se aquela cidade fosse o mundo todo. E não era. O mundo é grande, cheio de coisas, tudo longe Dele. E o pior, em Candeia não tinha vento.
Ele precisava ventilar o corpo, as ideias, dependia de vento batendo no rosto. Por tudo isso, não pensou duas vezes. Fernando foi sentir o vento na África. Não era mentira. Ele ia mesmo comprar os panos para o carnaval do Rio de Janeiro. Logo que chegou a Cabo Verde, sua primeira providência foi tirar aliança, esconder muito bem. O plano inicial era ficar mais ou menos um mês na ilha de Santiago, aguardando a chegada de uma remessa de tecidos do Senegal e depois voltar para casa. Nos primeiros dias, fez amizade com o dono de uma lojinha no Sucupira,
o gigantesco mercado a seu aberto, onde se vende tudo. Fernando passava o dia no sucupira, olhando os tecidos dos concorrentes, fazendo trocas com as sedas indianas que levara, aprendendo sobre a padronagem dos panos africanos e espiando o corpo cheio de carnes das caboverdianas, Especialmente de Maria, a lindíssima dona da banca de colares e brincos feitos de pedras filhas de vulcões. Maria chamou a sua atenção, dentre as outras, desde o primeiro dia. Primeiro por sua mercadoria, aquelas contas negras e brilhantes que ela manuseava para fazer colares e brincos e depois porque sempre cantava enquanto organizava o
seu ponto de trabalho. Chegava cedo, às 5 da manhã, tirava a lona que protegia os pertences das Interpéres da noite, arrumava a cadeira ou suporte de madeira no tabuleiro forrado de pano vermelho, esticava os colares, os brincos, pulseiras. pendurava alguns colares em dois troncos de madeira para atrair o interesse dos visitantes. Inventava modelos novos de pulseiras e brincos da tal pedra, mais brilhante que pérola negra. Às 5 da tarde, quando desarrumava tudo de novo para ir embora, cantava outra Vez e enfeitiçou o coração de Fernando com a voz grave, forte, doce, pronunciando com tanto gosto
cada palavra do caboverdiano. Havia dias, ele observava, passava por lá, sorria para ela. Tentava lembrar de Lenice, mas aquela altura ela era só fumaça. Um dia não resistiu e foi conversar com a moça. Como é o nome dessa pedra? Sbit afasta o mal olhado e atrai sorte. Ela respondeu em português com a frase Que sempre dizia para os clientes. Homem pode usar? Pode. Ela sorriu marfim. Então eu quero um colar bem grande. Preciso mesmo de sorte. Maria tinha um colar comprido por lá. Como de costume, ofereceu-se para botoar o colar atrás do seu pescoço. Quando
as mãos dela tocaram a pele do português, ele sentiu que seria capaz de tudo, de qualquer coisa na vida, para que aquela mulher fosse sua e cantasse só para ele. Ela sentia o mesmo desde que o viu. Não Demorou para que Fernando alugasse uma casa ali perto do sucupira e fosse morar com Maria. Ampliaram um pouco a lojinha e vendiam-se bit e tecidos, os do Senegal e as sedas indianas que lhe restavam. Maria gostava de conversar, dizia história, história e começava a contar as lendas que sabia desde menina, coisas da África, dos bichos e gentes.
Fernando gostava tanto de suas conversas quanto das canções. Às vezes ele dizia História, história e contava para Maria os contos de amor que lera nos livros. Fernando, que nunca fora muito de acordar cedo, adquiriu o hábito de levantar às 4:30 da manhã para acompanhar a mulher e escutá-la cantar, sem dizer uma palavra, comovido. Às vezes até chorava. Não sei porque você chora. Essas músicas são de doer. O nome desse jeito de canção é Morna. Aqui a gente nasce ouvindo Morna e Morre também. Eu quero morrer ouvindo você cantar. Houve um dia em que Maria acordou
mais cedo que o normal, mas não conseguiu cantar. Tinha vontade de vomitar. Pediu a Fernando que arrumasse as coisas da lojinha e a levasse a uma resadeira do sucupira para tomar algum remédio. A velha foi precisa no diagnóstico. Ela está grávida. E estava de fato. Melhorou dos enjoos e voltou a trabalhar cantando, como sempre, acarinhando a barriga. Pariu uma linda menina a quem chamou de rosário. Era a cara do pai, os mesmos olhos, o mesmo sorriso. Naquela vida de trabalho no Sucopira, cuidar da menina, ouvir as mornas, o tempo passava sem que Fernando notasse. Estava
bem em Cabo Verde. Já usava as roupas de lá, nunca mais tirou o colar de CIT do pescoço. Aprender um pouco de e estava feliz, embalado pelas mornas de Maria. De vez em quando ela cantava coladeiras, Canções alegres de dançar. Ele amava cada nota e vivia por aquela voz. Vez por outra, escrevi uma carta para Elenice, inventando desculpas para demora. Já estava havia quase dois anos longe de Candeia e pensava em não voltar nunca mais. Só mandava as cartas a pedido de Maria. Você casou com ela no padre? Isso é coisa séria. Mande uma carta
de vez em quando. Mas eu não quero voltar nunca mais para Lá. Encandeia não tem vento. E eu gosto é de você, da minha Rosário, do meu Cabo Verde. Você pode precisar voltar um dia. Não deixei nada lá, meu amor. Por mim, eu não volto nunca. Nunca é como a lua, não pertence a ninguém. Não feche a porta de Alenice na sua vida. As palavras de Maria ganharam forte significado quando os dois decidiram ir a São Tomé mais uma vez para um passeio, Exatamente como fizeram logo no começo do romance. Foram de barco, como de
costume. Fernando gostava muito do mar e Rosário nunca tinha navegado antes. A viagem era bonita todo o tempo, especialmente quando Maria cantava mornas para o barco inteiro escutar. Já muito perto de São Tomé, a embarcação bateu numa pedra da costa, furou o casco e virou. Rosário estava dormindo ao lado do pai, que conseguiu salvá-la enquanto Gritava pelo nome de Maria. Era noite, não se enxergava nada. No dia seguinte, encontraram o corpo de sua mulher perto da praia. Foi a única que morreu no acidente. Ele não tinha a quem recorrer em Cabo Verde, tão pouco em
São Tomé. Maria não tinha nenhum parente, era sozinha no mundo. Fernando nem cogitava a possibilidade de voltar a Portugal com a criança. Sua família nunca aceitaria. Só restava contar com o apoio e a Compreensão de Helenice para colher aquela órfão, já que sua legítima esposa tinha tanta vontade de ser mãe. Por sorte, Fernando conseguiu achar sua aliança. Lembrou das palavras de Maria, um sábio pressentimento. No Brasil, ele tinha uma casa, uma mulher devotada que poderia perdoá-lo. Encheu-se de coragem e voltou para a esposa, envelhecido, abatido, derrotado. Sua única alegria era Rosário, a guardiã de todas
as belezas de Maria. Fernando estava pronto para contar toda a verdade, mas não esperava que, ao chegar em casa, encontraria Leníice com uma filha nos braços, fruto que ele deixara em seu ventre antes de partir. A menina ainda nem tinha nome. Não fora batizada nem registrada à espera do pai. Fernanda apresentou Rosário como uma criança perdida que encontrou na África e resolveu adotar. Helenice acreditou, louvou a bondade do marido e aceitou a curina como sua filha. As duas crianças ficaram muito amigas, tinham quase a mesma idade e gostavam de brincar juntas, apesar de alguma diferença
de língua e de hábitos. Fernando providenciou de imediato o registre batizado da filha legítima. batizou a Dimade Inusa. Uma semana depois do retorno, a vida parecia ter voltado ao normal na casa de Elenice. Fernando fez um juramento de que não viajaria mais se não fosse acompanhado da família. pediu desculpas Pela escassez de notícias, pela falta de dinheiro e ficou aliviada ao saber que o sogro morrera e deixara para filha única o seu restaurante que garantiu o sustento. As duas crianças estavam cada vez mais próximas, brincavam juntas, dormiam juntas e Fernando tomava conta delas o dia
todo. Madeus achava graça quando a irmã falava em com o pai. Não entendia nada, mas via naquela língua o encanto secreto como um tesouro que sua Irmã trazia do mar. Rosério gostava de cantar às 5 da manhã e 5 da tarde, igual a sua mãe. Lembrava da letra das músicas com a ajuda do pai, que decorou as cinco canções preferidas de Maria, e cuidou para que a filha também aprendesse. Rosário perguntava muito pela mãe, mas por sorte o fazia e ninguém entendia. Ela o chamava de pai, mas isso não soava tão estranho, porque a proposta
foi mesmo adotá-la como filha do casal. Elenice mal via as duas, Passava o dia no trabalho. Durante a noite dedicava-se totalmente a ser a esposa de Fernando, de todas as maneiras que foi capaz de ser para matar as saudades. As coisas começaram a mundar no dia de sábado, quando decidiram dar um passeio para tomar sorvete em Cané. Era a comemoração de um mês da volta de Fernando. O declínio de candeia já se iniciara. Os passeios eram a única opção de lazer. A cidade aos poucos ia virando O cemitério a céu aberto. Além disso, Lenice não
gostava de passear com Rosário em Candeia. Ela vivia quase reclusa, imaginando as maledicências que poderia ouvir. Quase ninguém sabia que a menina existia. Melhor aguardar um pouco até esvaziar mais a cidade. O padre da Paralcal, que havia muito não via Elenice, elogiou a beleza e semelhança das duas meninas. O mesmo sorriso, o mesmo olhar do pai, Os mesmos olhos, ele disse, só muda a cor da pele, no resto igualzinhos. Deus abençoe essas irmãs em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Desde que começou a notar a semelhanças entre Rosário e Madeinusa, Helenice tentou
afastar esse pensamento. Não poderia ser. Uma mãe não entregaria a filha assim, a não ser que Ali se tratasse de um sequestro. Por mais que ela tenha tentado não dar ouvidos à suas desconfianças, o clima entre os dois Ficou tenso demais para que ela pudesse dormir mais uma noite sem ter certeza da verdade. Quando as duas adormeceram, Helenice perguntou a Fernando se o Rosário era sua filha e ele não teve coragem de negar. contou a história toda, a morte trágica da mãe da criança, os pedidos que Maria fez para que ele nunca deixasse de escrever
pelaniste. Quanto mais Fernando tentava explicar, mais a mulher tinha raiva. Não era o que Ele dizia, mas a maneira de falar daquela outra, os olhos marejados ao dizer Maria, nunca vir o marido falando assim dela própria, de nada na vida, com aquela paixão sofrida no peito. Nem ela sabia a potência do seu ódio adormecido, a vergonha, o rancor diante daquela imperdoável traição. Não pelas noites de carnes juntas que viveram, não por ele ter dormido com aquela africana, mas por amá-la até aquele dia, a cada segundo. Pediu ao marido que continuassem a conversa no dia seguinte.
Ela não aguentava mais. Fernando estranhou a reação. Elení sempre chorava, se desmanchava, mas agora tinha um semblante duro e assustador. Mais que isso, ela tinha um revólver. Comprara para defender-se dos bêbados e ladrões que aparecessem no seu restaurante e ninguém sabia da existência da arma. Nessa época, muita gente já havia deixado candeia e, como Sua casa ficava mais perto da estrada, ela estava certa de que ninguém ouviria nada. E de fato, ninguém ouviu o estampido do tiro certeiro no peito que matou o marido enquanto ele dormia. Madeinusa tinha um sono pesado, mas Rosário acordou assustada.
Helenice pegou a menina nos braços e saiu de casa com ela, tomando cuidado para que ninguém a visse. Tinha ódio da criança, queria matá-la também. levou a menina Para a estrada e disse a ela que andasse, pois sua mãe a estava esperando logo adiante, lá naquela luz, apontou para muito longe. Rosário só tinha 5 anos. Não sabia ainda que morrer era o mesmo que nunca mais, que sua mãe não estava naquela luz, que Lenice pretendia matá-la e só não fez por falta de coragem. Sorriu com os olhos de sono, surpresa e a inocente alegria da
expectativa do reencontro. Corre, Rosarinho, corre para ver tua Mamãe. Enquanto a menina corria descalça, Elenice apontou o revólver para ela, mas baixou os braços diante daquele passinho tão parecido com o da sua filha. Eram iguais, mesmo corpo, mesma altura, mesma idade, filhas do mesmo pai, o desgraçado defunto que destruiu sua vida. Teve vontade de pegar Rosário nos braços e levar para casa de volta. lembrou do marido e tudo ficou tão confuso que ela não sabia mais o tiro Foi mesmo real. Rosarinho corria, corria na estrada e chamava por sua mãe. Helenice, enquanto isso, corria de
volta para casa. Pediu a Deus que tomasse conta da menina. Não queria vê-la. Não queria lembrar de toda a desilusão que sua existência representava. Tome conta dessa infeliz sem sorte na vida, senhor. Rezou até chegar em casa. Fernanda estava mesmo morto em cima da cama, de olhos abertos, um tiro no peito e a Aliança apertada no dedo. Não foi um delírio. Ela precisava de ir rápido. O que restava da cidade de Candei acordou com o choro de Helenice, que se dirigia à igreja, chamando pelo padre Zacarias. Fernando morreu de coração. Foi essa a notícia oficial
sobre a morte. Quando as primeiras pessoas chegaram à sua casa, o morto já estava bem arrumado no caixão de paletó, penteado e cheirando a colônia. Helenice pediu muita pressa para o enterro que Aconteceu às 2as da tarde do mesmo dia. Diziam que a mulher enlouquecera com a morte súbita do marido. Qualquer atitude estranha era tratada como loucura. Dois dias depois do enterro, Elenice abriu o restaurante muito cedo e foi surpreendida pela figura de Rosário, sentadinha num batente. A menina sorriu e a abraçou, babuceando alguma coisa em Cabo Verdiano. Elenice nunca entendeu como a menina conseguiu
acertar a volta para casa, Como estava viva, como não for atropelada, sequestrada ou comida pelos cachorros. Talvez fosse feitiçaria africana. Quem pode mais do que Deus? Quem pode mais do que Deus?", gritava transtornada, pegando a pequena Rosário pelo braço, determinada a livrar-se novamente da criança antes de Madeinosa acordar. Cativeiro. Francisco contou para É o que contou Para a namorada, que contou para Madeinusa, que pediu a Adriano que a levasse urgente até a casa dos pais de Francisco. Precisava falar com Samuel. entrou sem pedir licença na casa de Chico Coveiro, interrompendo a conversa de Supetão. É
verdade que você escuta uma voz cantar às 5 da manhã todo dia? Samuel estava atordoado. Desde o dia em que cheguei 5 da manhã e 5 da tarde. Você conhece a moça? Era uma Esperança, finalmente. O que ela canta? Madeinos estava ansiosa. São músicas diferentes a cada vez. Eu contei cinco. Cinco? ficou ainda mais nervosa. E qual a letra das músicas? O que ela diz? Eu não entendo direito. Parece outra língua, mas tem horas que dá para entender umas palavras. Que palavras? Despedida, coração, mar, saudade. São as mornas. Madeinosa chorava. Meu Deus. Quê? São as
mornas de Rosário, tenho Certeza. "Quem é Rosário?", perguntou Samuel. Minha irmã por parte de pai. Ela é africana. A mãe dela cantava mornas. É uma música de lá de Cabo Verde. Rosário fazia a mesma coisa. Todos os dias, 5 da manhã e 5 da tarde, desde pequenininha. E como é que essa música vai parar na cabeça do santo? Quis saber Francisco. As molhas são como uma oração pra mãe dela disse Madine. E você sabe onde ela vive? perguntou Francisco. Não, ela Sumiu quando meu pai morreu. Tudo que eu quero na minha vida é achar rosário.
Minha mãe disse que uns parentes vieram buscá-la no dia da morte do meu pai, mas eu não acredito. Eu sonho com ela e com meu pai esses anos todos. E foi assim que eu soube que ela era minha irmã. Soube como que saber, Samuel. Meu pai falou no sonho. Só mais velho. Eu entendi que mamãe odiava Rosário porque ela era filha de uma traição do meu pai com uma africana. Eu tento há anos, já Fiz de tudo, mas não consigo sequer uma pista. Minha mãe não pode saber de nada disso, viu? Ela já sabe, disse
Francisco. Ouviu no rádio quando a anunciou à procura da voz e veio me perguntar o que Samuel sabia dessa moça que canta. E você disse o quê? Que não sabia de nada, mas se era uma coisa que deixava elenice com tanta raiva, a gente ia descobrir. "Você nem me contou nada dessa conversa", reclamou Samuel. Só lembrei agora. Achei que não tinha importância. A velha tem ódio de música. Pensei que fosse por isso. Não é. Ela tem ódio de rosário. Até cuidava bem dela, mas mudou no dia da morte do meu pai. Eu desconfiei de coisas
horríveis. Achei que ela estava morta. O nome de Rosário era proibido na nossa casa. Madinusa se calou por um instante, depois perguntou: "E lá da cabeça você não consegue falar com ela, Samuel? Eu só escuto. Talvez se continuar com os recados pela rádio, ela apareça. Disse Francisco. É a única chance. A gente nem sabe onde ela vive, mas se dá para escutar na cabeça, deve estar perto daqui. Eu vou fazer de tudo para encontrar, disse Madeinusa. Cadeia. Quando Madeinosa saiu, Samuel, Chico, Francisco e Jerusa, retomaram a conversa do ponto onde tinham parado. Voltaram a puxar
o fio da desgraça. Só quem viveu o Ano da desgraça em Candeia sabia o nome verdadeiro do Meticuloso, o homem que arruinou a vida daquela gente. Chico Cover o conhecia muito bem. Brincavam juntos na praça. Perderam o contato desde que Manuel começou a trabalhar viajando para outras cidades. Quando voltou a Candeia para trabalhar na obra do Santo Antônio, Manuel procurou o amigo de infância para tomar cachaça com limão e falar da vida. Sua vida era Mariinha. Falou de suas mãos Doces, de sua inocência, do filho que esperava. disse o quanto estava feliz por seu sucesso
na obra do santo. O dinheiro que estava ganhando era mais que suficiente para ir buscar Marinha e o filho, morar com a mãe por uns tempos, construir uma casa para eles. Isso foi dias antes da viagem, do engenheiro e do erro que acabou com a sua vida. "Ele está enterrado aqui?", perguntou Samuel. "Não." Dizem que ele se matou enforcado e foi enterrado lá dentro mesmo, na casa Da sua avó Niceia. Nunca mais ninguém entrou ali. Quase todo mundo da família fugiu. Quem ficou enlouqueceu. Meu filho, vai embora daqui. Interrompeu Jerusa. Súplice. Se você veio buscar
seu pai, já sabe que ele não está mais entre nós. Meu amigo Manuel era um bom homem. Pode acreditar. Essa cabeça fez a desgraça dele e está fazendo a sua também. Agora eu vejo. Vai embora antes que você acabe morto como seu pai. Mas a gente tá ganhando dinheiro. O povo tá Feliz. É casamento todo dia. Que mal tem isso? Reclamou Francisco. Esse dinheiro é maldito. Se depender dele, prefiro passar fome. A sentença de Jerusa sepultou de vez qualquer tentativa de insistência por parte de Francisco. Samuel não conseguia pensar. Já era tarde e a única
coisa que ele queria naquele momento era passar a última noite na cabeça do santo, ouvir a voz como despedida e ir embora para sempre. É arriscado, mas eu tenho um plano", disse Francisco. O rapaz foi na frente, destrancou o portão do cemitério. Muita gente ainda estava lá. As pessoas choravam e, a princípio, Francisco não entendeu a comoção. "Disseram que tem um caminhão de explosivos vindo paraa candeia", disse um dos homens. Helenice foi à fortaleza a conversar com Osório e ele encomendou a explosão da cabeça do santo. Não haveria melhor escolta do que a companhia comovida
Daquela gente. Eram cerca de 400 pessoas, cada vez chegando mais, atraídas pelos boatos de explosão da cabeça de Santo Antônio. Samuel sentia que morreram pouco naquela conversa dentro da casa do cemitério. Morreu. Nasceu dele, um homem novo, definitivamente solitário, marcado por uma tragédia do passado da qual ele não tinha a menor culpa. Era hora de ir embora. A cabeça era sua desgraça, mas mesmo assim quis passar a última noite Lá. A última chance de ouvir a voz que canta mornas, de pescar qualquer pista de onde ela pudesse estar. Mas não houve tempo. Antes das 5
horas da manhã, os caminhões de explosivos chegaram à candeia. Equipes de TV vinham junto para filmar o espetáculo, O fim do sacrilégio contra Santo Antônio. Elení estava com Osório e tinha ar de vitória e pressa. A velha delegacia foi reaberta especialmente para receber Samuel, levada à força por dois capangas De Osório e jogado num canto de cela escura e imunda dos anos sem uso. A lei de Candei era Osório quem fazia com truculência. Samuel soube que os capangas receberam ordens expressa de não deixar ninguém entrar ali, nenhuma visita, nem sequer um copo de água. O
acusado ficaria na cela até que fossem montados os explosivos. Depois teria algumas horas para deixar a cidade, sob a ameaça de ser morto caso retornasse. Osório voltar a morar em Candeia para que tudo fosse resolvido, até que todas as pessoas que invadiram as casas fossem expulsas. Depois da cabeça, as casas velhas também seriam demolidas. Osório esperava havia anos pelo fim do último morador de Candeia. Faltavam poucos, muito poucos. Elenice já concordar em vender sua casa. A pacata família de Chico Covero poderia ser transferida para outro lugar, certamente sem resistência. Os poucos Velhos que sobravam estavam
para morrer. Era questão de pouco tempo. A ideia era vender o terreno de candeia para uma empresa que construiria uma fábrica ali. Mas Osório só poderia fazer isso quando todas as casas estivessem ilegalmente em seu nome. O dom de Samuel fez renascer a cidade que quando morta faria a fortuna do ex-prefeito. Helenice sempre soube do plano, sempre apoiou. A oferta por sua casa seria o suficiente para ir embora de lá. tudo que sempre quis. Seu passado Ficara enterrado sob o chão de uma fábrica para sempre. Desde que fora jogado na cadeia, Samuel ficava mais aflito
a cada minuto por não saber o que acontecia. Ouvia gritos na rua, muita gente chamando seu nome. Francisco era o mais desesperado. Madeinusa e Adriano estavam todos do lado de fora. Osórios engenheiros encarregados da explosão conversavam na casa de Elenice. O padre Zacarias tentou interferir, mas foi em vão. Nem ele conseguiu entrar na cadeia Para conversar com Samuel, que depois de tantas horas de fome e solidão, quase não acreditou quando viu sua avó Niceia do outro lado das grades, olhando para o neto com terna piedade. Fim da terceira parte. Início da quarta parte. Havia necessitado
muitos anos de sofrimento e miséria para conquistar los privilégios de la solidá. Gabriel Garcia Marques. Conselho. Você é tão forte quanto eu. Não nega que é meu neto. Samuel estava com fome, com sede, perturbado, e não conseguia ver nenhum sinal de força na sua condição. Seus sentimentos pela velha louca eram confusos. tinha medo, raiva, mas ainda pesava o fato de que ela restava com uma única ligação viva com seu passado e com a prova de que Mari existiu na face da Terra. Sorriu um pouco, tentando agradecer sua presença. Como a senhora entrou aqui? Você tem
que Cumprir o que prometeu a sua mãe. Ela o irritava quando ignorava suas perguntas. Já cumpri. Ainda falta. Falta o quê, Samuel? lembrava. Nunca esqueceria as últimas palavras da mãe. Perguntou para testar a velha. As velas. Você só acendeu a do padre Cícero. Falta uma para Santo Antônio e outra para São Francisco. O pedido principal eu já cumpri. Cumpriu? Você veio até a Candeia. Só vim para sofrer. Você é valente. Aguentou. Foi homem de verdade. Eu vou embora do jeito que cheguei, enchotado como se fosse um rato imundo. Não é verdade? A senhora não sabe
de nada. Eu passei fome 16 dias. Fiquei doente. Não tive quem me desse abrigo e me meti nessa confusão de santo que só me desgraçou. Você tem raiva do santo? Muita. Sempre tive raiva de santo e agora tenho mais ainda. Ele só serve para dar dinheiro a que engana os bestos. A sua mãe não pensava assim, porque era Boa demais. Minha mãe nasceu e morreu sem ver maldade no mundo. Pobre, miserável, enterrada numa rede. Samuel chorou. Detestava chorar, mas chorou na frente da avó, daquela velha decrépta, que mais uma vez era incapaz de ajudar. Ela
pediu uma vela para Santo Antônio. Você tem que acender antes de ir embora. Não quero saber de santo nenhum. Mariinha pediu que as velas fossem acesas aos pés dos santos. Você vai ter que subir o morro para acender a do Santo Antônio. Eu estou preso. Não posso sair daqui? Ironizou Samuel. Você vai ser solto em algumas horas. Se eu subir esse morro, vou ser mordido de novo, preso de novo. Os cachorros são meus. Eles não vão te morder. E você não vai mais ser preso se disser que vai embora. Suba lá, acenda sua vela e
reze pro santo. Samuel riu de ódio. Rezar. Eu? A senhora é doida mesmo. Rezar é falar o que sente. Eu sinto o ódio. Pois fale isso. Grite bem alto. Não deixe de dizer nada pro santo. Eu tenho seu sangue, mas ainda não sou louco como a senhora. Não vou fazer isso. Niceia ficou transtornada e chegou mais perto da grade. Você não pode sair daqui sem acender a vela que sua mãe pediu. O tom da última frase era muito grave. Ela olhava nos olhos de Samuel. Era uma ordem. E os pedidos de Mariha eram as únicas
leis que regiam a vida de Samuel. Além disso, não sobrava nada. Eles vão te soltar amanhã de manhã. Querem saber sua rota e você avisa que vai embora por lá. Vai atravessar o morro e seguir pelos Inhamms. Certamente vai ter gente te seguindo. Todo mundo já sabe que vão te expulsar. Só se fala nisso nas rádios daqui. E o povo está apoiando quem? No mensageiro de Santo Antônio. Quando você sair, vai ser uma multidão na porta da delegacia. Seu amigo Francisco não parou de lutar por você, mas não tem quem possa nessa terra Sem lei.
Vão explodir a cabeça. Já está tudo pronto. Vão só esperar sua saída. Eu não quero ver isso. Também acho que não deve. Samuel olhou para Nisseia com um torpor de última vez. Ela se afastava para ir embora. Obrigado. Eu vou acender a vela da minha mãe porque ela pediu e depois eu não sei o que vai ser da minha vida quando atravessar aquele morro. Portanto, adeus. Não esqueça de rezar. Eu te peço, Mari Pediria se estivesse aqui. Adeus, Samuel. Seja bem feliz. Corpo. Foi a primeira vez que Samuel viu Osório. Até então só conheci capangas
e sua fama de desonesto. O antigo prefeito entrou na delegacia acompanhado de Helenista e do padre Zacarias. Um dos capangas abriu a cela de Samuel e ordenou que ele permanecesse sentado. Nem precisava, mal tinha forças para Abrir os olhos. Helenice disparou imediatamente os seus insultos. Eu não sei de que inferno você saiu, mas é para lá que vai voltar. Gente ruim não pode gerar coisa que preste. Quando a gente pensava que estava livre da desgraça, aparece o filho do meticuloso para desgraçar tudo de novo. Samuel não dizia nada. Teve vontade, mas o padre Zacarias fez
um sinal com o indicador sobre os lábios, pedindo que ele guardasse para si tudo que pensava Em dizer. Meu filho, eu conversei com Elenís e Osorio e pedi que te dessem uma chance. A cabeça vai ser explodida amanhã às 5 da tarde e eles querem que você saia daqui antes disso. Para nunca mais voltar, disse a mulher com ódio. O sangue da família Vale tem tinta do demônio. Osório fulminava Samuel também com ódio nos olhos. O padre pediu algo em voz baixa e o prefeito disse que sim, com má Vontade. Zacarias foi até a porta
e voltou com o Dr. Adriano para examinar Samuel e Madeusa, que trazia leite, água de coco e uma canja de galinha. Enquanto o Dr. Adriano verificava a pressão e os batimentos cardíacos do preso, Madeinos alimentava Samuel, aproximando o carnudo do copo de leite de sua boca. Ele olhou para a própria barriga, não estava colada nas costelas. Essa é outra que herdou o sangue ruim do pai", disse Elenice, coberta pelo olhar De desprezo da única filha que agora nem sequera chamava de mãe. Dessa vez foi Adriano que impediu que os ânimos fossem controlados. Samuel recuperou-se rápido
e levantou para ir embora e cumprir o prazo. Deveria partir antes das 5 da tarde do dia seguinte. De fato, havia muita gente na porta da velha delegacia. Fiéis amigos, emissoras de televisão, jornalistas, um mar de gente vestida de roupa marrom. Francisco correu para abraçar o amigo comovido. Lembrou-se do dia em que o viu pela primeira vez. A cidade inteira já sabia da ordem de Osório. Os explosivos estavam instalados. Ninguém poderia mais chegar perto da cabeça do santo. Samuel estava mais forte a cada passo. Andavam todos em direção à casa de Chico Coveiro. Ali seria
o ponto de partida para sair de vez da cidade. Antes eu preciso ir nos pés do santo acender uma vela. Francisco achou graça. Pro Santo Antônio? Foi um pedido que me fizeram. Tem certeza que aguenta subir? perguntou Eden Nun. Eu tenho que ir. Não posso sair de candeia sem fazer isso. Eu tenho velo e fósforos disse Chico Coveiro. A gente vai com você, disse Adriano. Ficaram na casa de Chico Coveiro para comer, tomar banho, descansar. De lá, a saída para o alto do morro era mais discreta. Depois de acordar e almoçar um Bom prato de
bai de dois com queijo coalho e suco de caju, Samuel sentiu-se disposto para subir. Era uma caminhada de pouco mais de meia hora. Adriano Madeinos e Chico Covero foram com ele por trás do morro para não chamar a atenção do povo da cidade, que por sorte estava concentrado na frente da cabeça do santo. Quanto mais chegavam perto do corpo do degolado, mais bizarro aquilo tudo parecia. Candei estava lá embaixo. As pessoas Pareciam formigas em volta da cabeça de Santo Antônio. A Matilha que escoltava o corpo do santo apareceu. Eram mais de 10 e estavam bem
calmos. Olhavam para Samuel como para um velho dono, sem latir, sem ameaçar. O cachorro que o mordera se aproximou, abanando o rabo. Ele o reconhecia por um sinal na testa, uma mancha de pelo que parecia um estrelo desforme. Chico Cover entregou as caixas de fósforo e a vela para Samuel. Os cães ficaram inquietos nesse momento, latindo, como se quisessem falar, andando em direção aos pés do santo. Samuel lembrou-se de que a Vela precisava ser acesa nos pés. Lembrou-se de Niceia, pedindo que ele contasse ao santo sob sua raiva por tudo aquilo e pediu aos amigos
que descessem um pouco para que ele pudesse rezar pela primeira e última vez na vida. Eu não sei rezar, seu santo. Só sei que minha vida hoje é uma desgraça e a culpa É sua. Tá vendo aquilo lá embaixo? Tá vendo essas marcas no meu braço de arranhão, de murro? Tudo culpa sua. A vela não ficava acesa por causa do vento. Enquanto ele tentava encontrar uma forma de deixar que ela queimasse para poder ir embora, continuava falando: "Nem a vela quer ficar acesa. Eu não tenho fé nenhuma, degolado. Nem a vela que eu acendo tem
força para ser fogo. Isso de ter fé é o que desgraça gente pobre como eu. No começo eu até Acreditei. Quando eu vi o povo casando, até acreditei em milagre. Diabo de milagre. Samuel se pôs a gritar. Os cachorros se assustaram. Diabo de milagre. Não tem santo. Não existe milagre. Adriano quis ir até ele, mas Madinos impediu. Deixe esse pobre desabafar. A raiva estava na voz, no corpo, nos gestos, nos pés de Samuel, que chutavam a estátua gigantesca na acabada de Santo Antônio. E essa merda de vela que nem Fica acesa. Diaboa, diabo de santo,
desgraçou a minha vida e da minha mãe. Coitada, morreu acreditando. Desgraçou o povo de Candeia. Olha essa cidade. A culpa é sua. Eu odeio essa mentira de Santo Antônio. Eu odeio. Nunca mais quero ver santo na minha vida. O que aparecer na minha frente, eu quebro. Eu destruo. Samuel ficava mais transtornado a cada minuto. Os cachorros que até então estavam deitados ao seu redor levantaram De repente. Alguns latiram para Adriano, Madeinusa e Chico Covero, que agora estavam mais distantes, quase na metade do morro. "Eu nunca quis te fazer mal." A voz vinha dos pés do
santo. "Quem disse isso?" Samuel ficou assustado, gritou novamente. "Quem disse isso? Nunca quis fazer mal, nem a você, nem a sua mãe, nem a ninguém de candeia. Respondeu a voz que saía dos pés do santo. Eu endoidei, ô minha mãe, eu endoidei. Não quero mais ouvir voz Nenhuma. Samuel ajoelhou-se no chão com as mãos nos ouvidos. Pelo amor de Deus, me perdoe. Eu precisava tanto pedir perdão, Samuel. Como é que você sabe meu nome, santo de uma figa? Porque eu te tenho amor. Samuel nunca imaginou que algo tão assustador pudesse acontecer com ele. Depois de
ter acesso às orações que as mulheres faziam, agora poderia [limpando a garganta] ouvir a voz do santo, saindo dos dedos dos pés do Degolado. Ele tinha a certeza de que enlouquecera. O medo passou de repente. Sim, ele teve medo no começo, não sabia de onde vinha aquela voz, mas agora já acreditava que poderia ser do santo. Só os loucos conversam com os santos. Sendo assim, ele pensou: "Vamos conversar. Faltava essa." Então, o famoso Santo Antônio fala pelos pés. Eu preciso ouvir o seu perdão. Pensei que era o contrário, que os pecadores pediam perdão para os
santos. Pobre da Minha mãe, morreu achando isso. Mari santa mulher e morreu como um bicho magra no fundo da rede, achando que você ou outro santo qualquer iria aparecer lá para salvar da miséria. Samuel quase chorou. Lembrou-se de que só foi feliz enquanto viveu com a mãe ao lado. Viu a estrada por onde veio e por onde iria embora. Do alto do morro, consegui enxergar a estátua de São Francisco de Canindé. Bem feito que vão explodir essa cabeça. Tomara que explodam esse corpo também. Um santo que fala pelos pés não merece uma estátua. Vão explodir
o corpo? O senhor não sabe de tudo? Falaram que vão explodir o corpo. O que será de mim? Os cachorros ficaram muito agitados. Foram até o pé esquerdo do santo latindo muito. Samuel os acompanhou. Havia mato ao redor e eles latiam. Latiam. Sua voz continuava falando cada vez mais alto, Cada vez mais perto. Por causa do latido dos cachorros, era impossível entender o que ela dizia. Madeinusa, Adriano e Chico Coveron subiram para saber o que estava acontecendo. Os cães latiam de costas, não viram que eles chegavam. Samuel estava suando frio, pálido. Dr. Adriano ficou preocupado.
Sua pressão está muito baixa. Vamos descer. Vocês também estão escutando uma voz? Perguntou Samuel. Vamos embora daqui. Madeinusa teve medo. O mato ao lado do pé do santo moveu-se de repente, afastado por um pé humano de unhas crescidas que surgiu de um buraco no corpo da estátua. O diâmetro era a medida certa para a passagem de um homem muito magro, com uma calça velha amarrada na cintura por um fio elétrico que fazia às vezes de cinto. Confuso. Ele tapava os olhos com as mãos para proteger-se da claridade. Os cachorros o cercavam agora sem latir. era
o seu dono. Samuel, Adriane e Madeinusa Tiveram medo e recuaram. Chico Covero fez o contrário, aproximou-se pouco a pouco, até que o homem tirou as mãos do rosto e ele pode ter certeza daquilo que suspeitava. É o teu pai, Samuel. É teu pai, Manuel meticuloso. Contas. Chico Cover abraçou Manuel, mas Samuel não chegou perto dele. Não o reconhecia como pai. Não era um reencontro. Não poderiam falar de amor ou de saudades. Seus 16 dias de caminhada tinham o objetivo de matar o homem que estava na sua frente, que deu a sua mãe um filho e
uma doença. Manuel, o metocoloso, responsável pela maldição de Candeia. O ciclo estava completo. Samuel encontrar o seu pai. O plano inicial estava cancelado. Não se mata alguém já tão abandonado pela vida. Talvez Manuel só tivesse persistido como quase vivo por obra do santo. Não que Samuel agora fosse um homem de Fé, mas não poderia mais negar que Santo Antônio tem suas artes. Enquanto Adriano, muito assustado, sentava o homem no chão para examiná-lo, Samuel foi até o buraco de onde o pai sair a poucos segundos antes. Eram da mesma altura e tinham quase o mesmo peso
e por isso conseguiu passar e entrar na parte interna da estátua. O corpo do santo era havia muitos anos a casa de Manuel. Sua habilidade para projetar e construir fez com que aquele corpo occo aberto no Pescoço se tornasse um lar amplo e com condições minimamente confortáveis. Num canto era possível ver um depósito com pedaços de madeira, garrafas de água, panos, roupas velhas, matériapra dos móveis daquele lar. Manuel tinha uma cama feita com um colchão velho, forrada com colxa, arrumada. Um fogareiro ainda fumaçando, tinha em cima panela velha com sopa rala, feita sabe se lá
de quê. Apesar do cenário grotesco, a casa era bem arranjada, tudo organizado, cada Coisa no seu canto. Foram anos saindo do esconderijo em busca de lixo. Via-se o resultado nos móveis, nos cobertores feitos de retalhos. Talvez o vento frio da noite levasse Manuel para debaixo daquelas cobertas improvisadas. Talvez dali, junto aos pés do santo, ele visse a lua, anos de lua e solidão. Aquele corpo oco era ao mesmo tempo arejado e sufocante, mais belo e assustador, muito mais que a cabeça do santo. É a casa do meu pai, Samuel pensava. Era aqui que ele estava.
Era bonito olhar para cima e ver as nuvens passando com calma. pelo buraco da degola. Samuel sentiu paz ao ver as nuvens, distraíu-se, tentando adivinhar suas formas. Será que fora de seu pai que lhe dar aquele gosto por ver as horas passando no céu? Elas continuavam andando em marcha lenta, na mesma brancura de sua infância, sem alterar o seu curso, sem Dar a menor importância ao que acontecia lá embaixo. Adriano chamou por Samuel, que se apressou em sair do corpo. Era possível ver lá de cima que Osório pediu reforço da polícia, das cidades vizinhas e
pelo movimento de homem subindo e entrando de casa em casa, talvez estivessem procurando por ele. Není e Osório conseguiram convencer as autoridades dos arredores de que a presença de Samuel, um impostor, perturbava a ordem pública. Agora a Polícia queria prendê-lo. Samuel compreendeu que não poderia lutar contra as armas levianas de Osório. Ele não escaparia de uma prisão torturante. Acharam o pai agora precisava fugir. Desceram o mais rápido que podiam, carregando Manuel, o Meticuloso, que não deixava de olhar para o filho. A figura daquele homem era uma visão assustadora. Barba de muitos anos, amarelada, rosto encovado,
magro, decrépto, pouquíssima semelhança com o ser humano, quase tão Bicho quanto seus cachorros. "Vamos direto lá para casa", disse Chico. Manuel discordou. "Quero ir para a casa de minha mãe." "Talvez L seja mais seguro mesmo,", disse Samuel. Lá ninguém tem coragem de entrar. Nem eu, disse Madinusa. Eu não entro ali não. Eu fico com ela. Adriana covardou-se também. Vamos nós três, Samuel. Chico Covero não tinha medo de quase nada. Durante a descida, eles viram que quase Todo mundo da cidade estava ao redor da cabeça, aguardando a explosão. E só por isso foi possível chegar à
casa de Niceia sem que ninguém os notasse. O portão estava aberto, sem corrente, assim como todos os outros portões e portas da casa abandonada. Enfim, Samuel entraria a namorada da avó, dessa vez sem lacre, como se esperasse por eles. Talvez todos imaginassem uma casa imunda, escura habitada por ratos, tomada pelo mato, Mas surpreenderam-se, encontrando uma sala arrumada e limpa, como se ali o fluxo da vida nunca tivesse parado. A avó não estava em casa, chamou por ela sem sucesso. No primeiro quarto que encontraram, uma colxa vermelha de crochê cobria a cama de solteiro, onde Manuel
foi colocado. Chico pediu a Samuel que ficasse com o pai enquanto ele buscava a água em algum lugar. O velho apontou um banco ao lado da cama para que o filho sentasse. Minha vontade era voltar para sua mãe. O seu Chico me contou. Já sei de tudo. Sua mãe me perdoou. Antes de morrer, ela pediu que eu viesse lhe procurar. Minha Mariinha, eu amava muito sua mãe, ainda amo. E ela morreu de doença que pegou do seu amor. Que doença, sífiles, doença de homem. Ela já tinha isso desde pequena. Agora é fácil inventar. Ela pegou
de um homem que buliu ela Quando era pequena. Coitada. Tinha medo que você nascesse doente. Mas Santo Antônio te salvou. Eu pedi a ele, pedi muito, mas nunca fui lá nem visitar. Eu não podia. Eu destruí a vida desse povo todo. Chico Cover me contou: "Não precisa se cansar. Você veio para salvar a cidade. Salvar como? Eu só fiz enganar esse povo. Eu sei que você escutava de verdade. Sabe como? O que você dizia na cabeça? Eu Ouvia no corpo. No começo, eu não sabia quem era, mas minha mãe foi me contar. Chico Covero voltou
com a mulher e interrompeu a conversa, trazendo água e comida para Manuel e Samuel. Francisco ficou do lado de fora, não teve coragem de entrar e pediu que o amigo fosse falar com ele no portão. A explosão ficou para amanhã. Por quê? Parece que vem televisão do Rio de Janeiro. Resolveram esperar. Eu não quero ver isso, disse Samuel. Nem pode. A justiça está te procurando. Você tem que fugir. Inventaram muita coisa. Disseram que a gente roubou dinheiro dos ignorantes. Eu tentei dizer que foi tudo culpa minha, mas ninguém acredita explicou Francisco. Tu mente tanto que
nem adianta mais querer ser honesto. Os dois riram. Tem outra coisa. A cidade toda já sabe que Meticuloso morava no corpo do santo. Daqui a pouco vão procurar por ele também. Samuel olhou para o lado e só conseguiu Ver os fortes refletores iluminando a cabeça, preparando a explosão. Parece filme de terror. E como é a casa da velha aí dentro? Normal, tudo arrumado. Os dois ouviram barulho de gente chegando perto. Francisco apressou-se. Aé mandou dizer que vai passar aqui às 4 da manhã para te levar embora. Ele arranjou o chapéu, óculos e até peruca. Vou
passar a noite aqui, é mais seguro. Bota seguro nisso. Nem eu entro aí. Um Infinito silencioso de centésimos de segundo fez com que percebessem que viviam uma despedida. Samuel estava cansado e confuso demais. e agora se dava conta de que em algumas horas estaria sem a companhia de seu amigo, o mais leal e fiel que pode conhecer. O carro da polícia passou em frente à casa de Niceia. Samuel abaixou-se para não ser visto. Francisco caminhou pela calçada e atravessou a rua. Dentro da casa, Manuel e Chico conversavam e Choravam o tempo todo enquanto anoitecia. Samuel
precisava dormir, mas mesmo sabendo disso, mesmo quase sem suportar o cansaço daquele dia difícil, não resistiu a curiosidade e percorreu a casa de Niceia com uma vela na mão. Nada de diferente ou anormal, nada que justificasse o desespero do cinegrafista, que nunca contou a ninguém o que vira lá dentro. Percorreu o corredor, a cozinha, o quintal, os Quartos, a sala, o banheiro. Tudo bem arrumado, uma casa viva, com água nas torneiras, sem pó nos móveis. Samuel entrou no quarto do pai para desperdí-se dele e de Chico Coviro, cuja esposa voltara para casa. Manuel estava dormindo.
A despedida de Samuel foi um olhar apenas. Observou o corpo fraco, o homem que viveu dentro de um corpo occo enquanto ele crescia. Enquanto Mariinha morria, Chico Covero levantou-se para dar o Abraço de que o Samuel precisava. Agradeceram por tudo um ao outro. Chico disse que Dr. Adriano prometera cuidar do seu pai até que ele recobrasse a vitalidade normal. Aliás, Dr. Adriano não sabia como ele sobrevivera. Seu corpo guardava sinais de picadas de cobra, desnutrição, doenças de pele e um possível comprometimento do pulmão. Madeinusa sabia de sua partida e também deixou um abraço e um
recado. Não tinha nenhum sinal de rosário. Não desistiria Da busca e esperava que um dia pudesse encontrá-la. Agora sem o acesso à cabeça, perder a última pista da irmã. Talvez fosse impossível. Existiu o risco de Elení ter acabado com a vida da moça. Algo que poderia ter acontecido muitos anos antes. Chico Covero tentou convencê-lo a pensar em outra saída. Se você ficar aqui nessa casa, talvez ninguém entre. Todo mundo tem medo. A gente até ajuda a espalhar mais boato de fantasma só até sossegar o Prefeito. Não é fácil assim, Chico. Ele não vai sossegar é
nunca. O negócio dele é expulsar todo mundo e vender o terreno de candeia. E Rosário? O que é que tem? Não quer encontrar Rosário? A cabeça tá cheia de bomba. Como é que eu posso entrar lá para escutar a notícia dela? Acabou, Chico Coveiro. Não nasci para final feliz. Final? Final mesmo, Samuel. É só quando Eu baixar teu cachorro na cova. Ainda dá tempo. Tu sonha muito, Chico. Foi a morte que me ensinou. O tempo de sonhar é em cima da terra. Manuel acordou babuceando, chorando sua dor. Torc o nome de Mariinha. Chico levou um
copo de água à boca do homem que se engasgou até rochear, até acalmar e dormir de novo. Depois disso, Chico Covero foi embora. Samuel armou uma rede verde ao lado da cama do pai. conversou, contou uma coisa e outra da vida, Duvidando que Manuel entendesse algo. Dormiram fácil, derrotados pelo cansaço. No meio da madrugada, Samuel levantou-se várias vezes, com a certeza de ouvir a voz da avó, que ainda não aparecera depois do retorno de Manuel. Não havia ninguém na casa. Procurou na sala, na cozinha, por todos os cômodos, quase todos. Samuel notou à esquerda uma
porta trancada. Deinício pensou que fosse um armário de parede onde se guarda qualquer coisa, mas depois teve vontade De abrir. Precisou forçar a porta e encontrou um quarto, uma cama grande de casal coberta com uma colxa de crochê preta e um mosqueteiro de filó por cima. No mais perto que conseguiu chegar, viu o corpo mumificado de uma mulher idosa com o vestido que Nisteia usava todas as vezes que encontrou com ele. Era uma morte de muitos anos. Os raros cabelos brancos espalhavam-se sobre o crânio coberto com pele seca como carne de shark. As mãos entrelaçadas
seguravam o Rosário da mãe de Deus que hipnotizou Samuel. No meio das contas azuis, viu a conta verde do rosário de Mariha. Diante da múmia da avó, chorou a desgraça de um destino torto. É certo que a vida não lhe deu tantas chances de sonhar, mas ele teimava. Queria deixar Joazeiro e seguir em direção ao mar. Queria ver aquela água absurda e tomar banho contra as ondas. Candeia seria apenas uma parada rápida antes do destino final. Em poucas horas ele iria embora e talvez Conseguisse chegar até a praia no mesmo dia. Tinha dinheiro. Cumprir as
promessas que fez a mãe estava livre. Francisco poderia visitá-lo em Fortaleza, levar notícias do pai ou poderia ir morar com ele se Candeia fosse mesmo destruída para a venda do terreno inteiro da minúscula cidade. Eu conhecia a moça. Era a voz de Niceia. A cara do pai desde pequena. Não sei como conseguiu ficar viva. Onde ela está? Isso eu não sei. Nunca mais vi. A Senhora mente. Sabia do meu pai. Niceia levantou-se, andou em direção ao quarto de Manuel e disse de costas: "Vá logo, vai chover. O céu tá limpo. O rapaz já chegou. Deus
te leve." A velha estava certa. Eram quase 4 horas da manhã e Aécio estava a postos com seu Fusca ligado, esperando para levá-lo embora de candeia. Só deu tempo de Samuel pegar as velas e a caixa de fósforos antes de sair Daquela casa, entrar no carro e partir. Canind. Eu preciso passar em Cané antes de fugir. Por quê? Prometi a minha mãe acender uma vela no pé de São Francisco. Não pode ser depois. A alma dela tá sem sossego. Eu prometi. Eu só vou porque tenho medo de alma, com todo o respeito afinado a sua
mãe. Mas isso é um perigo. Eu sei. Então coloca o disfarce. No banco de trás tem um casaco, peruca, chapéu e bigode. E Dentro do bolso do casaco, Madeusa deixou uma cdeneta com o telefone de todo mundo. Meu, dela, do doutor da rádio. Ela pediu para você ligar de dois em dois dias para saber notícia de Rosário. A gente vai achar a moça, coitada. Eu tenho fé. Adriana está batendo de casa em casa para encontrar o cativeiro. Você nunca mais ouviu nada. Nunca. Meu medo é que Elení tenha feito uma besteira. O meu também. Bastava
a travessia de duas ruas para pegar o asfalto e sair de candeia. E isso não deixou tempo para pensamentos nostálgicos, para despedir-se de todos, ir à cabeça pela última vez. Aquilo era uma fuga, não uma viagem. O carro passou em frente à casa de dona Rosa. As duas cadeiras estavam lá, no mesmo lugar do primeiro dia, vazias. Talvez tivessem cumprido a tradição de morrer dormindo dentro de casa. O gato estava vivo em cima do muro. Levantou a cabeça com o Barulho do carro, mas voltou a dormir. Como foi encontrar o seu pai? Aéo quebrou o
silêncio. Estranho. Pensei que era o santo falando. 25 anos trancado naquele corpo sem ninguém saber. Que desgraça! Tinha os esconderijos lá dentro, por debaixo da terra. Ele tinha os cachorros, tinha a mãe dele. Estava protegido esperando a morte. Você não quer ficar com ele? Não, ele tem companhia. Eu fiz o que tinha que fazer. Samuel parece incomodado com a conversa e a resolveu ligar o som do carro na sua própria rádio. Começava o especial Roberto Carlos de todos os dias. Era uma fita gravada, a mesma sequência de músicas, mas a rádio nunca recebeu uma reclamação
sequer. Gosta do rei? Gosto. Minha mãe adorava. Escutaram a música em silêncio até o refrão, que a cantou a plenos pulmões, fazendo Samuel rir. Que foi? Essa é a melhor música de Roberto Carlos, rapaz. Eu tô rindo é de ti, diz infeliz. E essa música nem é de Roberto Carlos, ele só canta. Claro que é. Não é. Quem escreveu as palavras foi Caetano Veloso. Minha mãe ganhou o disco que levava para tocar na radiola da vizinha quando eu era pequeno. Eu li a capa. tinha lá Caetano Veloso. Ele é totalmente diferente de Roberto Carlos. Já
vi na televisão. Mas quem canta é o rei, isso que interessa. Seja quem for, eu nunca entendi direito. O quê? Esse negócio da força estranha, você sabe o que é? O que é o quê? A força estranha? Sim. Saber? Eu sei, só não dá para explicar. Adiantou nada assim. Eu acho que é um negócio que a gente sabe quando vem. A força estranha chega e pá, a gente sente. Quando ela toma conta, a gente faz o que quer fazer por cima de pau e pedra. Não tem cão que segure. Acho que vem de Deus. Minha
mãe achava isso também. Eu perguntei para Ela: "E você já sentiu a força estranha assim por alguma coisa?" "Já." Senti muito. E acha que é o quê? Antes vinha da minha mãe. Desde que ela morreu acabou-se, mas dentro da cabeça, às vezes eu sentia. Por causa do santo, não por causa da voz de Rosário. Coragem. Algumas músicas de Roberto Carlos depois eles chegaram a Canindé. O plano de Aécio era entregar-lhe o dinheiro que Francisco mandara e em seguida levá-lo para algum lugar. Mas Samuel disse que ficaria ali mesmo. Homem, tenha cuidado. Osório tá dizendo que
você anda com dinheiro roubado dos pobres. Eles podem te pegar. Pois é só eu não levar o dinheiro. Pode levar de volta. E você vai viver como? Como sempre vivi. Pobre, liso, lascado. Pega uma carona hoje ainda. Eu sei me virar. Eu quero vir à praia. Tenha cuidado. Então ligue para mim se precisar de qualquer coisa. Se Ficar em Carindé, me avise. Posso ligar a cobrar? Samuel abraçou o amigo, apressando a despedida. virou as costas e subiu as escadas que levavam ao São Francisco. Não havia ninguém por perto, nenhum perigo. O problema era que Mariinha
queria vela acesa aos pés do santo e havia um espelho d'água ao redor de São Francisco. Era preciso atravessar sem olhar os fósforos, as velas e a cdeneta de telefones para chegar exatamente aos Pés do santo. É raso. Dá para ir a pé. Só é fedido. Um menino de uns 10 anos observava Samuel sentado no chão. Se molhar, eu tenho outra vela para vender. Tenho dinheiro. Não, menino. Pode chispar. Xispo se eu quiser. Samuel ignorou. Tirou o casaco, a camisa e os sapatos. Arrumou tudo no chão, colocou as velas e fósforos dentro do chapéu e
entrou na água com as mãos para cima. atravessou a água sem dificuldades E logo estava aos pés do santo. Pronto, minha mãe. Acendi sua terceira vela. Cumpri minha promessa. Fui à candeia, achei minha avó morta, achei meu pai e estou indo embora. A bênção, minha mãe, agora é por minha conta. Lá do alto, Samuel avistava a CE020, para onde ele pretendia descer e pedir carona para a fortaleza. Voltar pelo espelho d'água com o chapéu na cabeça foi um pouco mais fácil. O problema era que o menino roubara suas Roupas. Estava parado, longe, com tudo nas
mãos e rindo de Samuel. O problema maior era a caderneta de telefones, seu único vínculo com os amigos de Candeia, a única possibilidade de saber notícias de Rosário caso ainda estivesse viva. O menino correu por um barranco do lado esquerdo do santo e Samuel foi atrás descalço e todo molhado. O bigode, o chapéu e a peruca ficaram pelo caminho. O moleque era rápido e logo entrou numa rua de casas, mais outra e mais outra, Até parar e olhar para trás, esperando Samuel. Não tem dinheiro aí não, menina. É só pano velho e papel, disse Samuel
ofegante. Eu sei, quero dinheiro, não. Então leva o que quiser, mas deixa a caderneta no chão. Vou embora. Não conto para ninguém. Quero nada não. Meu avô aqui quer falar com o senhor. Quem é teu avô? É o pai da minha mãe. Cadê ele? Na rua das graças. Pode vir mais ligeiro. Tô com dor de barriga. >> [roncando] >> Os dois andaram um pouco até uma casa de porta e janela na rua que o menino indicou. Samuel entrou e viu uma mulher que ele conhecia de algum lugar, mas não fazia ideia de onde. Trouxe o
homem? Perguntou uma voz masculina. Tá na sala todo enlameado. O homem veio até a porta a falar com Samuel. Também parecia familiar. Lembra de mim? Lembro, mas não sei de onde. Deve ser por causa da minha roupa. Ele sorria para Samuel. Foi só aos poucos que ele reconheceu naquele homem de olhar bondoso, o Romero, que o ajudou na estrada antes de chegar à candeia. Quero uma muda de roupa? Essa tá imunda. Precisa não, Chica. Traga uma muda de roupa pro rapaz. A casa era pequena e muito modesta. A parede de frente para a porta era
coberta de quadros de santos. Lado a Lado estavam o padre Cícero, Santo Antônio e São Francisco, a Santíssima Trindade dos seus últimos dias. A mulher trouxe as roupas. Era a mesma que estava na estrada no mesmo dia em que conheceu aquele homem. Agora ela estava simpática. O senhor ajudou minha irmã a casar. Muito obrigada. De nada. Como é que a senhora sabe? Ela pediu licença e, antes de sair da sala olhou para o marido como se aquilo Fosse código para alguma ação a seguir. Voltou apressada com um prato de cuscuz com leite numa das mãos
e uma xícara de café na outra. Afastou um banco alto com os pés na direção de Samuel, deixou a comida e foi rapidamente para o quintal. Olhe, seu Francisco José. Pois, seu Francisco José, eu agradeço a sua gentileza, mas eu não estou entendendo nada. O que que o senhor quer de mim? Eu sou um amigo e tenho uma coisa para te contar. Você precisa saber Antes de ir embora. É sobre Rosário. Como o senhor sabe disso? Sou tio de Madeirinosa, irmão de Helenice, mas ela não me considera irmã porque sou filho do pai dela com
a empregada da casa. Ela não lembra que eu existo e se é o que salva toda a história. Como assim? Quando Fernando voltou da África com Rosário, ele me contou a verdade, escondido de Elenice. Eu sabia que ela poderia fazer alguma coisa com a menina. E fez? Fez. E fui eu que a levei de Volta para casa quando foi abandonada na rua. Todo mundo ficou pensando que era milagre de São Francisco. Samuel sentiu medo do tom de voz daquele homem, cada vez mais comovido. Depois, Elení trancou a menina numa casa, mas eu não parava de
sonhar com Fernando pedindo que eu fosse salvá-la. Eu fui, encontrei Rosário e tirei-a daquele lugar horrível. Elenice não sabe, nunca soube, nem uma Deinusa. Rosário tem muito medo de ser morta como Pai. Nós todos temos medo. Rosário tem medo. Ela está viva. O senhor sabe onde ela mora? Na casinha dos fundos. Samuel estava completamente assustado, querendo saber mais, querendo correr para os fundos da casa. Esse tempo todo, nunca saiu pra rua, só pra escola. Mas foi uma única vez a candeia disfarçada. Quando? No casamento de Madeirosa. Ela viu você lá, mas saímos muito rápido. E
ela está Mesmo aqui lá atrás. Está. Ela sabe que você procura por ela. Ouviu no rádio. A me disse que você estaria no pé do santo, por isso mandei te buscar. Desculpe o moleque pelo roubo das roupas. Isso não foi planejado. Eu posso ir falar com ela? Mandei te buscar para isso. Entre a casa de Francisco José e a casinha dos fundos havia um pequeno quintal. Samuel escutou a morna, a mesma música que ele ouvia dentro da cabeça. Rosário adivinhou sua presença e saiu da casa tímida. Sentou-se num banco torto de madeira do lado de
fora do quartinho. Samuel sentou-se ao lado dela e esperou que terminasse de cantar para dizer a primeira palavra. Obrigado. Pelo quê? Por sua música. Eu ouvia todos os dias. Eu só soube disspois, mas eu sonhava com você. Comigo? Sonhava sim. Desde pequeno eu sonho Coisas que vão acontecer. A morte da minha mãe, do meu pai, o homem vestido de São Francisco vindo me salvar. Tudo eu vi primeiro no sonho. Tem certeza que era eu? Tenho. E como era o sonho? Estranho e curto. Você de joelhos acendendo três velas e uma voz que eu demorei a
entender. Voz de homem ou de mulher? De homem. Dizendo o quê? Coragem. Perdão, amor. Uma palavra para cada vela. Coragem. Perdão, amor. Você entende o que é isso? Ele tomou as mãos da moça e sentiu a tal força estranha, as velas de Mariinha, a rota para Rosário. Queria levá-la para ver o mar, ouvir suas mornas para sempre. E as coisas fizeram algum sentido pela primeira vez. Pensou na cabeça do santo, na desgraça de Manuel. Acho que entendo. Então me diz o que significa esse sonho? Significa, Rosário, que você é o meu milagre. Fim do livro.
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